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domingo, 10 de outubro de 2021

NOBEL DE LITERATURA

 




Um Nobel para entender que o Ocidente não é o centro do mundo



Abdulrazak Gurnah, Nobel de Literatura, 2021. HENRY NICHOLLS (REUTERS)




Repassamos alguns dos temas que irrigam a obra do novo Nobel de Literatura, o escritor de origem tanzaniana Abdulrazak Gurnah


"[...]o universal não seja o ocidental".

A prosa de Abdulrazak Gurnah é polida e limpa, de fácil leitura. Também tem um retrogosto às narrações e conversas que se escutam em solo africano, o que faz apreciar cada uma das palavras. Mas sob ela fluem muitas outras coisas, horrores e atrocidades cristalizados em uma constelação de temas escassamente tratados nas literaturas africanas. Um deles é a presença das comunidades asiáticas assentadas na África oriental já no século XIX. Homens e mulheres que fugiram da pobreza na Índia e na Península Arábica e encontraram um meio de vida nessa região. Muitos foram comerciantes à procura de marfim e controlaram o tráfico de escravos do interior às regiões costeiras. Mercadorias que trocavam por quinquilharias, fuzis e pólvora, como reflete o autor em sua obra.

Mais tarde, os britânicos impulsionariam a chegada dessas pessoas como mão-de-obra qualificada à construção das ferrovias, por exemplo, em suas colônias da África oriental, e para preencher os postos de trabalho para os que não consideravam os nativos aptos. Mas os indianos e os omanis já estavam lá antes da chegada dos colonos. Também na atual Tanzânia, país onde Gurnah nasceu. E, entretanto, pouco se falou deles. Nos últimos anos, alguns autores lançaram um pouco de luz sobre essas comunidades, como é o caso do queniano Peter Kimani com Dance of the Jakaranda (2017) e a britânica Hafsa Zayyan em We Are All Birds of Uganda (2020). Muito antes deles, Gurnah sempre colocou o centro de sua narrativa nessas pessoas e descreve com detalhes e ternura seus costumes e formas de vida. Talvez tenha sido o pioneiro nesse campo.

Quando os alemães chegaram à África ocidental já encontraram os asiáticos lá. E essa é outra originalidade da literatura do tanzaniano. Muitos de seus romances se situam no período colonial alemão, no que foi a África oriental alemã (a Deutsch-Ostafrika), um território que compreendia a atual parte continental da Tanzânia, além de Ruanda e Burundi. A colônia se instaurou na década de 1880 quando as tropas alemãs intervieram para deter uma revolta contra a Companhia Alemã da África Oriental que operava na região e se manteve até o final da Primeira Guerra Mundial, quando após a derrota alemã a Sociedade das Nações entregou Ruanda e Burundi à Bélgica e Tanganica, como era conhecida a parte continental da atual Tanzânia, ao Reino Unido. Em seu último livro, Afterlives (2020), Gurnah mostra a resistência alemã à invasão britânica durante a guerra e o papel desempenhado pelos askaris, as tropas nativas que lutavam (forçadamente na maioria dos casos) ao lado dos alemães.


Foram escritos muitos romances que denunciam os efeitos causados pela colonização britânica e francesa nas sociedades africanas. Vale citar como exemplo o clássico por excelência das literaturas africanas: O Mundo se Despedaça (1958) do nigeriano Chinua Achebe. Mas poucas vezes se falou da colonização alemã nas literaturas africanas.


Esta, da mesma forma que as outras, rompeu a harmonia existente nas diversas sociedades presentes no continente africano anterior à sua chegada impondo suas normas e arrogando-se a faculdade de arrecadar impostos. Além disso, tratou com mão de ferro qualquer tentativa de dissidência e rebeldia. Essa intervenção convulsionou todo um sistema social e de relações que até aquele momento funcionava e gerou uma violência nunca antes vivenciada na área. No que talvez seja o melhor romance do tanzaniano – Paradise (1994) –, essas questões estão muito presentes e de maneira muito sutil se mostra como tudo se despedaça com a chegada dos alemães.


Mas Gurnah não é ingênuo e não tenta mostrar uma África pré-colonial idílica como talvez o façam Achebe e outros contemporâneos seus. A África que existia antes da chegada dos colonos era uma África cheia de contradições com suas diferenças, desigualdades, superstições e muita crueldade. Mas, por mais brutal que ela fosse, nunca seria como a dos alemães, homens frios, rígidos e muito seguros de si mesmos, tanto que os mitos populares diziam que “comem ferro” como aponta o autor em algumas de suas obras.


Todas as colonizações se caracterizam por seus massacres, e a alemã não é diferente. Basta lembrar o genocídio dos povos herero e namaqua na atual Namíbia. Em Tanganica isso também ocorreu. Lá foram massacrados, pelo menos, 75.000 tanzanianos para reprimir a rebelião Maji Maji (1905-1907) em que diversos povos se sublevaram contra a administração alemã pelas carências e pobreza geradas pelas políticas coloniais alemãs que exigiam aos camponeses prestar trabalhos forçados nas plantações de algodão, principalmente, para ser seu produto exportado à metrópole. Isso fazia com que precisassem abandonar seus próprios campos que eram os que os alimentavam. Essa brutalidade da colônia alemã fica muito bem evidenciada na narrativa de Gurnah.


Um terceiro tema, talvez menor e mais transversal, muito presente na obra do tanzaniano, é o do racismo. Os asiáticos consideram os africanos inferiores e os tratam como tal, impondo normas discriminatórias nos espaços que controlam. Essa realidade ainda pode ser percebida hoje nos países da África oriental. O próprio Gandhi foi acusado há alguns anos desse racismo durante sua estadia na África do Sul, o que causou manifestações e protestos em várias partes do continente africano que culminaram com a retirada de suas estátuas em algumas universidades como aconteceu na de Gana em 2018. Os alemães pensam o mesmo dos nativos, mas também dos asiáticos e tratam os dois grupos com igual desprezo.


É possível que seja a presença dessas temáticas e outras na obra de Gurnah ou qualquer outro motivo o que tenha levado um comitê de suecos a conceder a ele neste ano o Nobel da literatura. Talvez também tenha influenciado o fato desse comitê parecer gostar de rotacionar de continente e de gênero a cada ano, em uma tentativa de ser paritário ou algo do tipo. Por isso, era de se supor que neste ano o prêmio iria a um homem africano. Todas as apostas indicavam o queniano Ngugi wa Thiong’o, eterno candidato à premiação e, entretanto, não foi assim.

Por mais que possamos gostar da obra de Gurnah, se nos fosse dada a oportunidade de escolher teríamos preferido que o prêmio fosse para Thiong’o. Na literatura deste estão presentes muitas das questões tratadas por Gurnah, mas talvez apresentadas com mais crueza. Além disso, a perspectiva tomada pelo queniano é diferente, mais a partir dos últimos da terra, os mais estropiados e pisoteados. Ele relata as lutas de independência, o sacrifício do povo, a esperança quando se consegue a liberdade e o desencanto da realidade quando os que lideraram aquele sonho se assentam no poder e o utilizam em benefício próprio. E essas críticas custaram a ela a prisão, a tortura e o exílio. Mas talvez Thiong’o seja revolucionário e radical demais para os membros do comitê.


Thiong’o é uma referência das literaturas africanas, bem conhecido e acompanhado em seu país, onde suas obras são publicados em kikuyu e inglês, e em todo seu continente. Gurnah é praticamente um desconhecido em seu país de origem. Mora no Reino Unido e lá desenvolveu sua carreira. É muito difícil encontrar seus livros na Tanzânia, que precisam ser importados do Reino Unido. São encontrados somente na livraria de um centro comercial frequentado principalmente por expatriados a preços que somente esses expatriados podem pagar.


Humbert, de Arusha, no norte do país, confirma isso: “Pouca gente o conhece aqui, de modo que o prêmio passou praticamente despercebido. Somente o Governo postou algumas mensagens nas redes sociais parabenizando-o”. Mussa, em Zanzibar, diz: “Parece que há um escritor famoso que nasceu nessa ilha e não sabíamos”. Por fim, Abdurahman em Dar es Salaam enfatiza o dito pelos anteriores ao afirmar que “dizer que ninguém conhece Gurnah neste país talvez seja um pouco exagerado, mas devem ser bem poucos os que ouviram falar dele antes da notícia da premiação. Aqui, somos mais de literatura escrita em suaíli”.

Mas não vamos cair na armadilha de elucidar se existem as literaturas africanas e, em caso afirmativo, o que são. O escritor sudanês Abdelaziz Baraka Sakin, autor de The Messiah of Darfur, já se meteu nessa enrascada nessas mesmas páginas.


O fato de ser capricho de suecos e não satisfazer nossos desejos não impede que o Nobel outorgue um reconhecimento merecido a um autor que conseguiu com que o horror da colonização não seja esquecido, entre tantas outras coisas. Além disso, servirá para que seus livros sejam divulgados e os leitores tenham a oportunidade de ler narrativas onde “o universal não seja o ocidental”, como diz a especialista em literaturas africanas Sonia Fernández Quincoces.


Fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-09/um-nobel-para-entender-que-o-ocidente-nao-e-o-centro-do-mundo.html?ssm=FB_BR_CM&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR1nqM-xHpBWX7iIXguXGNp0MgUa-kDi9MwNiLV_hq6_ggh2r0xkdCAvQWo#Echobox=1633803736 - Acesso em 10/10/2021



segunda-feira, 11 de abril de 2016

LITERATURA NEGRA



O lado negro da história: A trajetória dos personagens negros na literatura infantil e juvenil brasileira



quarta-feira, 23 de março de 2016

CULTURA


Berimbau, a arma da feminilidade das mulheres Bantu




“Após uma terrível batalha, a deusa protetora transformou o arco do guerreiro no primeiro instrumento musical da tribo, para que a música e a paz substituíssem as armas e  guerras para sempre.”
(Mitologia Bantu-Nguni, Zulu – Africa do Sul)
Existe um fato que goza de certa autoridade, sendo que, quando se pesquisa sobre o berimbau africano, seja ele de que nome, origem, ou tamanho for, é impossível ignorar que o gênero feminino desempenha um papel extremamente considerável em relação aos arcos musicais.
A popularidade do berimbau cresceu transversalmente da arte afro-brasileira mais conhecida por Capoeira. A Capoeira, até certo ponto, era de acesso restrito a um ambiente masculino.  Significantemente, as portas foram abertas para o sexo oposto e já se conquistou bastante espaço por meios de dedicação e empenho.
Porém, as mulheres na esfera capoerística ainda se encontram vítimas de regras discriminatórias, consideradas pela comunidade como tradição. Regras essas que não as permite tocar o berimbau e, em certos momentos, não poder participar durante a roda.
A mulher africana, apesar de viver em constantes normas estritas e rigorosas entre elas, sendo as responsabilidades matriarcas, no último centenário foi a que mais fortificou a presença, e a popularização do berimbau africano na plateia continental e internacional.
Através do som melódico e hipnotizante do instrumento de uma corda só, orgulhosamente canta-se cantigas de centenas de anos atrás, transmitidas pelos seus antepassados.
Canções que contam estórias das glórias dos seus povos, sobre a felicidade, a tristeza, o amor, o ódio, a paixão, a traição, as desventuras de casamentos e cantigas infantis.
Não somente a mulher é tradicionalmente considerada a base da família, mas também compõe, canta e constrói os próprios instrumentos que toca.
Cito duas personalidades da música tradicional Bantu-Nguni e herdeiras da tradição de tocadoras de arcos musicais, como a  Princesa Zulu Constance Magogo e a Dona Madosini Mpahleni, que hoje em dia goza de noventa anos de idade.
Com esta chamada, conto com mais reconhecimento e consideração para com as mulheres, não somente na capoeira mas também no berimbau e outros instrumentos musicais.
Escrito por Aristóteles Kandimba, angolano, pesquisador, cronista, cineasta e professor de capoeira Angola.
kandimbafilms.blogspot.com

Fonte: https://belezasdekianda.wordpress.com/2011/11/18/berimbau-a-arma-da-feminilidade-das-mulheres-bantu/

terça-feira, 21 de julho de 2015

ÁFRICA I



100 Cidades Africanas Destruídas Pelos Europeus

 Parte II




“Kumasi era a capital do Reino Axânti, séculos 10 a 20. Desenhos do cotidiano em Kumasi mostram casas, muitas de dois pisos, edifícios quadrangulares com telhados de palha e habitações familiares organizadas à volta de um pátio central. O complexo Palácio Manhyia em outro desenho era semelhante a um castelo normando, mas mais elegante em termos da sua arquitetura.
“Estas casas de 2 pisos com telhados de palha encontradas no Reino Axânti tinham estrutura de madeira e paredes construídas com ripas e rebocos. Havia sempre uma árvore nos pátios que era o centro do recinto familiar. A Árvore da Vida era o altar onde as famílias faziam oferendas ao Deus, Nyame. Uma panela de latão onde se guardavam as oferendas era colocada em um de seus ramos. Era assim em todos os pátios de todas as casas, templos e no palácio. Os oficiais, representantes do Rei, trabalhavam em edifícios abertos. O objetivo era que todos vissem o que estavam fazendo.
“As casas de Kumasi tinham banheiros no piso superior em 1817. A cidade oitocentista está documentada em desenhos e fotografias. Passeios e praças públicas, vidas cosmopolitas, arquitetura requintada, imaculada e organizada, uma abundância arquitetônica, histórica, prosperidade e uma forma de viver extremamente moderna”[i].
Winwood Reade descreveu a sua visita ao Palácio Real Axânti em Kumasi no ano de 1874: “Fomos ao palácio do rei, que consiste de muito pátios, todos cercados de quartos de dormir e varandas, e com dois portões ou portas, para que todos servissem de passagem . . . Mas a parte do palácio diante da rua era uma casa de pedra em estilo mourisco . . . com um teto raso e um parapeito e quartos suíte no primeiro piso. Foi construído muitos anos atrás por pedreiros Fanti. Os quartos de cima me lembram a rua Wardour. Cada um é uma perfeita loja de curiosidades antigas. Livros em várias línguas, vidros da Boêmia, relógios, pratos de prata, mobiliário antigo, tapetes persas, carpetes Kidderminster, quadros e gravuras, inúmeros baús e cofres. Uma espada com a inscrição ‘Da Raínha Vitória para o Rei de Axânti’. Uma cópia do The Times de 17 de Outubro de 1843. E junto com tudo isto muitos exemplares de trabalho manual mouro e axânti”[ii].
A bela cidade de Kumasi  foi destruída, consumida pelo fogo, e pilhada pelos britânicos no final do século 19.
Em baixo algumas imagens da cidade.
7-KumasiVista do Aban e do complexo do Palácio Manhya antes da pilhagem e destruição pelo exército britânico.
8-Manhyia PalaceEm 1331, Ibn Battouta, descreveu a cidade tanzaniana de Kilwa, dos Zanj, um povo de expressão Swahili, da seguinte forma: ”uma das mais belas e bem construídas cidades do mundo, um conjunto construído com elegância”. As ruínas completas com arcos ‘góticos’ e delicado trabalho em pedra, exemplos de uma arquitetura primorosa. Kilwa data do século 9 e atingiu seu auge nos séculos 13 e 14. Este porto africano internacional imprimiu sua própria moeda durante os séculos 11 a 14. Artefatos arqueológicos ligam a cidade a Espanha, China, Arábia e Índia. Os habitantes, arquitetos e fundadores da cidade não eram árabes e a única influência que os europeus ali tiveram, através dos portugueses, foi o inicio do declínio pela varíola e pela gripe.”[iii]
Em 1505 forças portuguesas destruíram e queimaram as cidades Swahili de Kilwa e Mombasa.
A imagem em baixo mostra a reconstrução feita por um artista, do palácio do sultão em Kilwa no século 15, seguida de fotografias das ruínas.

9-Kilwa

10-Kilwa11-KilwaSongo Mnara“Um mouro que morava em Espanha, chamado Al-Bakri questionou os mercadores que tinham visitado o império do Gana no século 11 e escreveu sobre o seu rei: “Senta-se para dar audiências ou para ouvir queixas contra oficiais, num pavilhão com cúpula, à volta do qual se veem dez cavalos cobertos de ouro. Atrás do rei, dez pajens com escudos e espadas decorados de ouro, e à sua direita, os filhos dos reis da sua nação vestidos esplendidamente com o cabelo revestido de ouro. O governador da cidade senta-se no chão diante do rei, e os ministros em seu torno. Na porta do pavilhão, cães de excelente pedigree que mal deixam o lugar onde está o rei, para guardá-lo. Nos seus pescoços, coleiras de ouro e prata com pregos dos mesmos metais”[iv].
Em baixo imagens do Império do Gana.
14-mauritania-ancient-cities15-Mauritania16-Mauritania17-tichittNo século 15, quando os portugueses, os primeiro europeus que navegaram a costa atlântica de África: “chegaram na costa da Guiné e acostaram em Vaida, África Ocidental, os capitães ficaram surpreendidos ao ver ruas bem planejadas, ladeadas de árvores ao longo de muitos quilômetros, viajando durante dias através de campos magníficos, habitados por homens em ricas e coloridas vestimentas tecidas por eles próprios! Mais a sul, no reino do Congo(sic), uma vasta multidão vestida de finas sedas e veludos; grandes estados bem organizados, ao mínimo detalhe; governantes poderosos, indústrias florescendo – completamente civilizados. E a condição dos países da costa leste de Moçambique, por exemplo – era a mesma.”
O reino do Congo no século 15 era o epítome da organização política. Era “um estado em ascensão no século 15. Estava situado na região norte de Angola e do Congo ocidental. Pensa-se que a sua população fosse de cerca de 2 a 3 milhões de pessoas, uma estimativa conservadora. O país estava dividido em 6 províncias administrativas e um número de dependências. As províncias eram Mbamba, Mbata, Mpangu, Mpemba, Nsundi, e Soyo. As dependências incluíam Matari, Wamdo, Wembo e a província de Mbundu. Todas estavam sujeitas à autoridade do Mani Kongo (Rei). A capital do país (Mbanza Kongo), estava situada na província Mpemba. O baluarte militar ficava na província de Mbamba. Era possível alocar 400,000 a uma batalha.”[v]
Em baixo uma representação por Olfert Dapper, médico e escritor holandês, da cidade de Loango no século 17 (atual Congo/Angola) baseada em descrições do lugar por quem a tinha visto.
18-loango-africa-kongo-kingdomRepresentação da Cidade de Mbanza no Reino do Congo
19-AngolaCityofMbanzaKongo1O rei do Congo recebendo embaixadores holandeses, 1642, O. Dapper, “Description de l’Afrique  Traduite du Flamand” (1686)
20-King-of-Kongo-Receiving-Dutch-Ambassadors-1642-DO-Dapper-Description-de-lAfrique-Traduite-du-Flamand-1686Emissários portugueses recebidos pelo rei do Congo, final do século 16, Duarte Lopes, “Regnum Congo hoc est warhaffte und eigentliche, Congo in Africa” (Franckfort am Mayn, 1609)
22-Portuguese-Emissaries-Received-by-the-King-of-Kongo-late-16th-cent-Duarte-Lopes-Regnum-Congo-hoc-est-warhaffte-und-eigentliche-Congo-in-Africa-Franckfort-am-Mayn-1609Até ao final do século 16, a África era mais avançada que a Europa em termos de organização política, ciência, tecnologia, cultura. Essa prosperidade continuou, apesar da devassidão do tráfico europeu, até aos séculos 17 e 18.
O continente estava repleto de dezenas de cidades grandes e prósperas, impérios e reinos como os do rei Askia Toure de Songhay, rei Behanzin Hossu Bowelle do Benin, Imperador Menelik da Etiópia, rei Shaka ka Sezangakhona da África do Sul, rainha Nzinga de Angola, rainha Yaa Asantewaa do Gana, e rainha Amina da Nigéria.
Falamos aqui de impérios, reinos, reis, raínhas e imperadores, os homens mais ricos da história da humanidade.
E estes reis e rainhas dormiam em bananeiras no mato? Vestiam folhas de parra e andavam descalços?
Se não dormiam em árvores, não se cobriam de folhas, onde estão os vestígios de seus palácios, sua arte?
A cidade medieval de Benim, na atual Nigéria, foi construída a “uma escala comparável à Grande Muralha da China”. Tinha um vasto sistema de defesa com um total de 16 quilômetros. Mesmo antes da extensão da muralha se ter tornado evidente, o Guinness Book of Records publicou uma entrada na sua edição de 1974 que descrevia a cidade como: “A maior construção do mundo anterior à era mecânica.”[vi]
“A arte de Benim da Idade Média era da mais alta qualidade. Um oficial do museu berlinense Für Völkerkunde disse uma vez: “estes trabalhos de Benim igualam os melhores exemplos das técnicas de fundição europeias. Benvenuto Cellini não podia ter feito melhor, nem ninguém antes ou depois dele . . . Tecnicamente, estes bronzes representam o melhor avanço possível em fundição.”
No meio do século 19, William Clarke, um visitante inglês na Nigéria, afirmou que: “A melhor vestimenta entre todos os povos é fabricada pelos tecelões Yoruba . . . em termos de durabilidade, seus tecidos superam os fabricados e os manufaturados em Manchester.”
A recente descoberta da cidade nigeriana de Eredo, datada do século 9, provou que ela era cercada de uma muralha de mais de um quilometro e meio e com mais de 20 metros de altura em alguns pontos. A área interior tinha cerca de 640 quilômetros quadrados.”[vii]
A cidade de Loango na área de Congo/Angola é mostrada em outro desenho datado de meados de século 17. Novamente vemos uma cidade vasta e planejada, em linha retas, estendendo-se por vários quilômetros e completamente cercada de muralhas, repleta de movimento comercial. Só o complexo onde o rei habitava era um edifício de quase 2 quilômetros e meio, com pátios e jardins. O povo de Loango usava a matemática não apenas por razões aritméticas mas também para cálculos astrológicos. Usavam matemática avançada, álgebra linear. O Osso Ishango do Congo é uma calculadora com 25 000 anos de idade. “As chamadas inscrições do Osso Ishango consistem de duas colunas de números ímpares que somam 60, com a coluna esquerda contendo números primos entre 10 e 20 e a coluna direita contendo números de soma e diminuição.”[viii]
A bela cidade de Loango foi destruída por caçadores de fortuna europeus, pseudo missionários e outros tipos de saqueadores.

______
Notas:
[i] PD Lawton, AfricanAgenda.net
[iii] Fonte: Centro de Patrimônio Mundial da UNESCO, excerto de “African Agenda” por PD Lawton
[iv] http://en.wikipedia.org/wiki/Ghana_Empire#Government – a fonte da citação é fornecida pela Wikipédia como p.80 de Corpus of Early Arabic Sources for West Africa por Nehemia Levtzion e John F.P. Hopkins.
[v] Excerto de “African Agenda” por PD Lawton
[vi] Excerto de “The Invisible Empire”, PD Lawton, Source-YouTube, uploader-dogons2k12 `African Historical Ruins’
[vii] Robin Walter.
[viii] Fonte: Ta Neter Foundation. Em exposição na Bélgica. – Excerto de “African Agenda” de PD Lawton

Fonte: http://www.contramare.net/site/pt/100-african-cities-destroyed-by-europeans-part-ii/

ÁFRICA



100 Cidades Africanas Destruídas Pelos Europeus

Parte I



PORQUE existem poucos edifícios históricos e monumentos na África subsaariana!

O motivo é simples. Os europeus destruíram a maior parte. Só nos restam os desenhos e descrições de viajantes que visitaram os lugares antes das destruições. Em alguns lugares, ainda se podem ver ruínas. Muitas cidades foram abandonadas e viraram ruína quando os europeus trouxeram doenças exóticas (varíola e gripe) que começaram a se espalhar e matar gente. As ruínas dessas cidades ainda se encontram escondidas. De fato, a maior parte da história de África está ainda soterrada.
Neste artigo, vou compartilhar fragmentos de informação sobre África antes da chegada dos Europeus, as cidades destruídas e as lições que podemos aprender, enquanto africanos, para o futuro.
A coleta de fatos que dizem respeito ao estado das cidades africanas antes da sua destruição é feito por Robin Walker, um distinto pan-africanista e historiador, autor do livro ‘When We Ruled’ (Quando Governamos), e por PD Lawton, uma grande pan-africanista, que se prepara para lançar o livro “African Agenda” (A Agenda Africana).
Todas as citações e excertos neste artigo são dos livros de Robin Walker e PD Lawton. Recomendo comprar o livro de Walker ‘When We Ruled’ para uma história completa da beleza do continente antes da sua destruição. Pode obter mais informação sobre o trabalho de PD Lawton visitando o blog da autora: AfricanAgenda.net
Robin Walter e PD Lawton citam bastante outro grande pan-africanista, Walter Rodney que escreveu o livro ‘How Europe Underdeveloped Africa‘ (Como a Europa subdesenvolveu a África). Mais informações no canal YouTube ‘dogons2k12 : African Historical Ruins’, e no trabalho da Fundação Ta Neter Foundation.
Muitos desenhos são do livro African Cities and Towns Before the European Conquest (Cidades Africanas Antes da Conquista Europeia) de Richard W. Hull, publicado em 1976. Só esse livro destrói a visão estereotípica dos africanos vivendo em aglomerações simples, primitivas e dispersas sem qualquer apreciação por planejamento e design.
De fato, no final do século 13 quando um viajante europeu encontrou a grande Cidade de Benin na África Ocidental (atual Nigéria, Estado de Edo), ele escreveu o seguinte:
“A cidade parece ser muito grande. Quando entramos, vimos uma larga avenida, não pavimentada, que parece ser sete ou oito vezes mais larga que a rua Warmoes em Amsterdã… O palácio real é um conjunto de edifícios que ocupam tanto espaço quanto a cidade de Harlem, e que está rodeado de muralhas. Existem numerosos aposentos para os ministros do Príncipe e belas galerias, a maioria delas tão grandes quanto as da bolsa de Amsterdã. São suportadas por pilares de madeira revestidos de cobre, onde as suas vitórias estão representadas, e que são cuidadosamente mantidos. A cidade é composta de trinta ruas principais, bem retas e com 36 metros de largura, além de uma infinidade de pequenas ruas transversais. As casas são próximas umas das outras, bem organizadas. Este povo não tem nada de inferior aos holandeses em termos de limpeza; lavam e esfregam suas casas tão bem que elas estão bem polidas e brilham como cristal.”[i]
Infelizmente, em 1897, a cidade de Benin foi destruída pelas forças britânicas sob as ordens doAlmirante Harry Rawson. A cidade foi saqueada, explodida e queimada. Uma coleção dos famososBronzes de Benin está agora no Museu Britânico de Londres. Parte dos 700 bronzes roubados pelas tropas britânicas foram vendidos à Nigeria em 1972.
Outra história da grande cidade de Benin que diz respeito às suas muralhas: “Elas se estendem por um total de 16 000 quilômetros, num mosaico de mais de 500 junções de assentamento. Cobrem 6500 quilômetros quadrados e foram todas construídas pelo povo Edo. No total, elas são quatro vezes mais longas que a Grande Muralha da China e consumiram cem vezes mais materiais que a Grande Pirâmide de Quéops. Levaram cerca de 150 milhões de horas de escavação para serem construídas, e são talvez o maior fenômeno arqueológico do planeta.”[ii]
Vista da cidade de Benin em 1891 antes da conquista britânica. H. Ling Roth, Grande Benin, reprodução Barnes and Noble. 1968.
1-Benin2-BeninSabia que no século 14, a cidade de Timbuktu na África ocidental era cinco vezes maior que a cidade de Londres, e a mais rica do mundo?
Hoje, Timbuktu é 236 vezes menor que Londres. Nada tem de cidade moderna. A sua população é metade que cinco séculos atrás, empobrecida com pedintes e vendedores de rua. A cidade é incapaz de conservar seus monumentos e arquivos do passado.
De volta ao século 14, os três lugares mais ricos da terra eram a China, o Irã/Iraque, e o império do Mali na África ocidental. Dos três, o único que ainda era independente e prospero era o império do Mali. A China e todo o Oriente Médio tinham sido conquistados pelas tropas mongóis de Genghis Kan que arrasou, pilhou e estuprou os lugares.
O homem mais rico na história da humanidade, Mansa Musa, foi o imperador do império de Mali do século 14 que cobria os atuais Mali, Senegal, Gâmbia, e Guiné.
Quando morreu em 1331, Mansa Musa valia o equivalente a 400 bilhões de dólares. Nessa época o império de Mali produzia mais de metade do abastecimento mundial de sal e de ouro.
Em baixo algumas imagens do imperador Mansa Musa, o homem mais rico da história.
3-Mansa MusaMansa MusaQuando Mansa Musa foi em peregrinação a Meca em 1324, levou e gastou tanto ouro, que o preço daquele metal caiu por 10 anos. 60 000 pessoas o acompanharam.
Foi fundador da biblioteca de Timbuktu, e os famosos manuscritos de Timbuktu que tratavam de todas as áreas de conhecimento foram escritos durante o seu reinado.
Testemunhas da grandeza do império do Mali vinham de todas as partes do globo. “Sergio Domian, um acadêmico de arte e arquitetura italiano, escreveu o seguinte sobre esse período: ‘Assim foi lançada a fundação da civilização urbana. Na época áurea do seu poder, Mali tinha pelo menos 400 cidades, e o interior do delta do rio Niger era densamente populoso.’
A cidade de Timbuktu no Mali tinha uma população de 115,000 no século 14 – 5 vezes mais que a Londres medieval.
O National Geographic descreveu recentemente Timbuktu como a Paris do mundo medieval, devido à sua cultura intelectual. De acordo com o Professor Henry Louis Gates, existiam na cidade 25,000 estudantes universitários.
“Muitas famílias antigas da África ocidental têm bibliotecas privadas com coleções de centenas de anos. As cidades mauritanas de Chinguetti e Oudane possuem um total de 3,450 livros medievais manuscritos. É possível que ainda existam cerca de 6,000 livros na cidade de Walata. Alguns datam do século oito. Existem 11,000 livros em coleções privadas no Niger.
Finalmente em Timbuktu, Mali, existem cerca de 700,000 livros que sobreviveram. Estão escritos em Mande, Suqi, Fulani, Timbuctu, e Sudani. Os conteúdos dos manuscritos incluem matemática, medicina, poesia, direito e astronomia. Este trabalho foi a primeira enciclopédia, no século 14, antes dos europeus terem a mesma ideia no século 18, 4 séculos depois.
Uma coleção de 1600 livros era considerada uma pequena biblioteca para um acadêmico da África ocidental no século 16. Existe registro do Professor Ahmed Baba de Timbuktu dizendo que possuía a menor biblioteca entre seus amigos – só tinha 1600 volumes.
Com respeito a estes velhos manuscritos, Michael Palin, na sua série de TV Sahara, disse que o Imam de Timbuktu “tem uma coleção de textos científicos que mostra claramente os planetas circulando em torno do Sol. Datam de centenas de anos . . . É prova convincente que os acadêmicos de Timbuktu sabiam mais que seus colegas europeus. No século 15 em Timbuktu os matemáticos conheciam a rotação dos planetas, detalhes do eclipse, coisas que tivemos de esperar 150 quase 200 anos para conhecer na Europa quando Galileu e Copérnico fizeram os mesmos cálculos e pagaram por isso.
A velha capital do Mali, capital de Niani possui um edifício do século 14 chamado Salão de Audiências. Sobreposto por uma cúpula e adornado de arabescos vivamente coloridos. As janelas do andar superior eram talhadas de madeira e emolduradas em prata; as do andar inferior eram talhadas de madeira e emolduradas em ouro.
Marinheiros do Mali chegaram às Américas em 1311, 181 anos antes de Colombo. O pesquisador egípcio Ibn Fadl Al-Umari, publicou o feito em cerca de 1342. No capitulo décimo do seu livro, existe um relato de duas grandes viagens marítimas ordenadas pelo predecessor de Mansa Musa, um rei que herdou o trono do Mali em 1312. Este rei marinheiro não é nomeado por Al-Umari, mas autores da atualidade identificam-no como Mansa Abubakari II.”[iii]
Esses acontecimentos aconteceram na mesma época que o continente europeu estava mergulhado nas trevas, destruído pela peste e pela fome, com seus povos se matando por motivos religiosos e étnicos.
Em baixo retratos da cidade de Timbuktu no século 19.
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Notas:
[ii] Wikipédia, Architecture of Africa.” Fred Pearce the New Scientist 11/09/99.
[iii] Excerto de ‘WHEN WE RULED’ de Robin Walker.

Fonte: http://www.contramare.net/site/pt/100-african-cities-destroyed-by-europeans-part-i/