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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MEDICINA SOCIAL*



Estudantes de Medicina da UNILA realizam atendimento ginecológico em detentas do Centro de Reintegração Social de Foz


O objetivo da atividade é atender todas as detentas
Um dos principais objetivos do curso de Medicina da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) é utilizar metodologias e estratégias educacionais que promovam os estudantes como sujeitos ativos de suas aprendizagens. Exemplo disso é a atividade que acontece nesta semana, quando um grupo de estudantes realiza atendimento ginecológico em detentas do Centro de Reintegração Social Feminino de Foz do Iguaçu (Cresf). A ação faz parte da disciplina de Ginecologia, ministrada pela professora Wilma Campos Arze.

Durante os dois dias de atividade, serão realizadas consultas ginecológicas, além de exames preventivos de câncer de colo de útero, testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites e encaminhamentos para mamografias, caso seja necessário.“Fizemos contato com a administração da cadeia pública e com a Secretaria Municipal de Saúde para que fosse viabilizado o desenvolvimento desse trabalho, que contará com a participação de cerca de 40 alunos atuando em forma de revezamento. Nosso objetivo é atender todas as 160 detentas”, explica a professora Wilma. “Colocar os estudantes em contato com os diferentes cenários é muito importante para que percebam a realidade dos mais diversos tipos de atendimentos, e não só os que acontecem dentro do consultório”, completa a docente.

De acordo com o coordenador do curso de Medicina da UNILA, professor Luis Fernando Zarpelon, a ideia é realizar atividades como esta de forma rotineira. “A população carcerária tem muita demanda e pouca estrutura assistencial pensada especificamente para ela. Trazer os alunos para realizar atendimento neste espaço, reconhecendo os pacientes como seres humanos, independente de sua condição, é uma tarefa importante”. Zarpelon salienta ainda que o curso de Medicina realiza ações em praticamente todas as unidades de saúde da cidade, desenvolve projetos em parceria com associações de moradores, entre outras atividades.

“É uma parceria muito importante principalmente porque o trabalho é focado na prevenção, e o que a gente mais precisa é saúde preventiva. Além disso, a realização do atendimento no local evita uma das principais dificuldades desse trabalho, que é o transporte das detentas para outra unidade. Projetos em conjunto entre UNILA e Prefeitura são fundamentais porque ampliam trabalhos que hoje ainda são limitados”, afirma a secretária de Saúde de Foz do Iguaçu, Inês Weizmann dos Santos.

Além da importância da atividade prática para sua formação, o estudante brasileiro Diego Campaneruti destaca o impacto social da ação realizada no Centro de Reintegração. “É uma população negligenciada que não tem acesso à saúde preventiva e que, muitas vezes, só descobre algum problema quando a situação já é muita aguda, resultando em casos de urgência ou emergência. Por isso é tão importante esse trabalho preventivo e de diagnóstico”. A acadêmica paraguaia Liz Galeano reforça que esse tipo de atividade prática é imprescindível para a atual fase do curso, conhecida como pré-internato. “Estamos tendo um contato direto com pacientes e não apenas com o objetivo de tratar doenças, mas visando à prevenção e à promoção em saúde”.

Alexandre Rodrigues, vice-diretor do Cresf, explica que esse trabalho realizado pelo curso de Medicina da UNILA supre uma carência da unidade. “Essas parcerias são de extrema importância porque atendem a algo que não temos hoje, que são profissionais voltados para a área de saúde dentro do Centro de Reintegração”.

Título e texto editado

Fonte: Assessoria de Imprensa UNILA

domingo, 18 de dezembro de 2016

FÁRMACOS PSIQUIÁTRICOS



“Fármacos psiquiátricos nos fazem mais mal do que bem”

Cientista defende redução drástica do uso de medicamentos contra as doenças psíquicas



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Em 1936, o neurologista português Egas Moniz apresentou uma operação cirúrgica que destruía conexões entre a região pré-frontal e outras partes do cérebro. Esta cirurgia, chamada lobotomia, popularizou-se como tratamento para a esquizofrenia e valeu o Nobel de Medicina a Moniz em 1949. A intervenção caiu em desuso após o surgimento de drogas como a clorpromazina, que se tornaram o tratamento habitual para esse tipo de doença mental.
Desde então, a lobotomia se tornou símbolo de uma psiquiatria que anulava os pacientes sob a justificativa de curá-los, e alguns grupos de familiares de lobotomizados pediram inclusive que o Nobel de Moniz seja cassado. Alguns especialistas, porém, entendem que naquela época, sem alternativas terapêuticas para essas psicoses, o tratamento do médico português melhorava a vida dos pacientes e de seus familiares.
O caso da lobotomia é uma amostra de como podem ser polêmicas as ferramentas terapêuticas de uma disciplina complexa como a psiquiatria. Os fármacos que serviram para tornar aquela cirurgia obsoleta, preservando, segundo muitos psiquiatras, a dignidade para pacientes com transtornos psicológicos graves, tampouco estão imunes às críticas. Peter Gøtzsche (Næstved, Dinamarca, 1949), professor de Concepção e Análise de Testes Clínicos da Universidade de Copenhague, há anos defende a redução drástica do uso de fármacos contra as doenças psiquiátricas. Em seu livro Medicamentos Mortais e Crime Organizado (editora Bookman), o pesquisador dinamarquês analisa as carências da ciência que justifica o uso desses fármacos e explica por que acredita que, apesar do consenso favorável a eles entre os psiquiatras, esses remédios “estão fazendo mais mal do que bem”.
Pergunta. Você defende uma redução paulatina [Gøtzsche adverte sobre o risco de deixar de tomar psicofármacos repentinamente], mas praticamente total, do consumo de medicamentos psiquiátricos. Entretanto, há muitos psiquiatras que defendem sua utilidade e afirmam que eles permitiram reduzir a quantidade de doentes encerrados em manicômios.
Por que passaram séculos fazendo sangrias, inclusive quando o paciente precisava de fluidos?
Resposta. Em primeiro lugar, não é correto dizer que os antipsicóticos tenham reduzido a presença de pessoas em manicômios. O esvaziamento deles têm a ver com considerações financeiras. Era muito caro manter tanta gente nessas instituições por muitos anos. Essa redução não coincide com a introdução de fármacos antipsicóticos.
Os antipsicóticos estão entre os medicamentos mais tóxicos que existem, depois da quimioterapia para o câncer. Produzem dano cerebral permanente, algumas vezes inclusive depois de um tempo de uso relativamente breve, e tornam mais difícil que a pessoa volte a viver uma vida plena. Cheguei à conclusão de que, muito provavelmente, seria muito melhor para nós se não utilizássemos absolutamente nenhum antipsicótico.
Não sou a única pessoa que acha isso. Há psiquiatras que estudaram a literatura de uma forma tão cuidadosa como eu e que chegaram à mesma conclusão: que na verdade não precisamos de fármacos antipsicóticos, porque, apesar do nome, antipsicótico, não curam as psicoses. Os antipsicóticos tranquilizam as pessoas, mas também lhes tiram parte das suas emoções, parte dos seus pensamentos normais. Você pode ver que alguns deles se tornam zumbis, incapazes de fazer qualquer coisa.
P. Se estes fármacos são tão nocivos, por que começaram a ser usados de forma habitual na psiquiatria?
R. Em 1954, quando a clorpromazina foi descoberta e chegou ao mercado, era considerada uma droga ruim, comparada a uma lobotomia química. Entretanto, um ano depois, de repente ficou boa. Isso é muito estranho. Houve um presidente da Sociedade Norte-Americana de Psiquiatria Biológica que afirmou que esse fármaco era como a insulina para o diabetes. É algo demencial, porque, se você tiver diabetes, lhe falta insulina, e quando lhe dão algo que lhe falta é um bom tratamento. Mas quando você tem uma psicose não lhe falta nada, então a comparação é errônea. Entretanto, desde que essa ideia foi lançada fala-se em um desequilíbrio químico. Não há desequilíbrio químico, nunca se pôde demonstrar que haja nada nos pacientes psicóticos ou depressivos que seja diferente das pessoas sãs. O desequilíbrio químico é uma mentira.
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA realizou um teste com clorpromazina, com fármacos similares e com um placebo e concluiu justamente o contrário do que ocorre quando se dá estas drogas às pessoas. Observaram que os pacientes ficavam menos apáticos, que se moviam mais e pareciam melhorar. Estas drogas fazem justamente o contrário. Isto acontece porque os testes não estão bem cegados [concebidos de modo a evitar distorções].
Com a psicoterapia, pode-se ensinar as pessoas a lidarem com sentimentos que acabam transformando-as em pacientes psiquiátricos
P. Se os dados dos estudos são acessíveis a todo mundo, por que tantos psiquiatras os interpretam mal? São todos burros ou malvados?
R. Esta pergunta é interessante e não diz respeito apenas à psiquiatria. Por que passaram tantos séculos fazendo sangrias? Mesmo quando o paciente tinha cólera e precisava de fluidos, tiravam o sangue das pessoas, e muitas vezes isso as matava. E acreditavam que faziam bem. Durante séculos. Como é possível que nós, os humanos, que temos cérebros maravilhosos, possamos ficar presos em equívocos coletivos como as sangrias ou a crença nos antipsicóticos. Assim são os humanos, mas temos que combater isso demonstrando às pessoas que suas crenças não coincidem com as evidências científicas.
P. Que alternativas existem aos fármacos contra as psicoses graves?
R. É muito simples: fármaco nenhum. A alternativa a dar muitas drogas às pessoas é lhes dar muito poucas. Se fizéssemos isso, teríamos uma população mais saudável, que viveria mais, porque as drogas psiquiátricas matam muita gente. E não aleijaríamos tanta gente, tanto física como cerebralmente. Outra opção é entender que muitas das ditas enfermidades psiquiátricas são tratadas melhor através da psicoterapia. Essas doenças muitas vezes têm a ver com fortes emoções com as quais as pessoas não podem lidar e que as deixam assustadas, ansiosas... Usando a psicoterapia, pode-se ensinar as pessoas a lidarem com esses sentimentos fortes que acabam transformando-as em pacientes psiquiátricos.
Os antipsicóticos tranquilizam as pessoas, mas também lhes tiram parte das suas emoções
P. Como os psiquiatras costumam reagir às suas críticas?
R. Rarissimamente debatem comigo o que a ciência diz. Acho que isso mostra que para eles é difícil debater sobre a ciência. O que fazem é tratar de me denegrir como pessoa. Dizendo que não sou um psiquiatra. É verdade, mas aprendi a ler, sou um pesquisador, sei ler artigos científicos. Não preciso ser um psiquiatra para saber sobre essa área.
Também, além desses psiquiatras que se sentem ameaçados, há outros que estão de acordo comigo. E há alguns que não utilizam drogas psiquiátricas. Há outros psiquiatras que estão mudando de opinião com base no meu trabalho, algo que me anima muito. Alguns não escutam, porque consideram aterrador demais. Se você acreditou em algo durante 30 anos, como vai alterar essa crença? Como vai dizer para si mesmo: “Eu estava enganado desde o começo, fiz muito mal aos meus pacientes”? Isso não é fácil, é mais fácil fechar os olhos e continuar como sempre.
P. Do jeito que você explica as coisas, dá a sensação de que as pessoas estão bem, começam a tomar remédios e pioram, e precisam parar de tomá-los para voltar a ficar bem. Mas as pessoas começam a tomar medicamentos porque estão mal, e quando deixarem de tomá-los é provável que a doença não tenha desaparecido.
R. É um pouco complicado. Quando as pessoas não se sentem bem e começam a tomar drogas, muitos sentem que elas ajudam. Mas o que não sabem é o que teria acontecido se não tivessem tomado nenhum fármaco. A maior parte das pessoas melhoraria em questão de semanas, sem necessidade de drogas. Quando você lhes dá um antidepressivo, muitos também melhoram em questão de semanas. Mas a diferença entre administrar a droga e um placebo é muito pequena, e esses testes clínicos não são confiáveis, porque não estão bem cegados. Tanto os médicos como os pacientes confundem o processo natural de cura que teria acontecido de qualquer forma, inclusive com uma psicose aguda, com o efeito do fármaco.
Por outro lado, os pacientes ficam nervosos quando deixam a medicação. Perguntam-se o que acontecerá, se voltarão a ficar deprimidos. E, sim, se deixarem um antidepressivo de um dia para o outro, muitas pessoas terão uma depressão em questão de dias, mas isto não é uma depressão real, é uma depressão fruto da abstinência. Agora seu cérebro mudou e, como um alcoólatra quando deixa o álcool, você vai se sentir mal.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/20/ciencia/1474391855_558264.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM

domingo, 24 de janeiro de 2016

PSILOCIBINA


Cogumelos alucinógenos podem mudar sua personalidade para sempre, afirma estudo

Universidade americana pesquisou os efeitos da psilocibina e descobriu que, na maioria dos casos, os indivíduos teriam tido uma "experiência mística completa" e abriram sua mente


Talvez para os usuários o fato não seja uma novidade, mas recentemente a Universidade Johns Hopkins conduziu estudos com a psilocibina que estão demonstrando os efeitos místicos e espirituais do composto químico, que está presente na maioria dos cogumelos alucinógenos usados mundo afora.
Estes cogumelos, usados desde tempos ancestrais em rituais xamânicos até tempos atuais em celebrações recreativas, alteram a percepção do mundo externo no usuário, causando euforia, propiciando o início de experiências místicas e deixando-os mais abertos a novidades e mudanças - mas não esquecendo o risco da bad trip. Os estudos da universidade tem aberto o caminho para a compreensão destes efeitos, conforme podemos ver na entrevista que a Revista Galileu fez com Katherine MacLean, pesquisadora envolvida.

- Como você se envolveu com esse estudo? 
Eu cheguei na Universidade Johns Hopkins para estudar psicofarmacologia há 3 anos, quando eles já vinham fazendo esse tipo de experiência. Só dois estudos haviam sido publicados. O primeiro é de 2006, mas eles eram muito similares. Um deles comparava os efeitos de uma alta dose de psilocibina com uma dose de ritalina. O segundo comparava diferentes doses de psilocibina e placebos. Eu quis estudar a mudança de personalidade nos voluntários desses dois estudos, onde tivemos 64 voluntários. 
- E o que você percebeu? 
Descobri que 30 dos indivíduos relataram ter tido uma experiência mística completa. As principais características dessa experiência são uma sensação de unidade e conexão, a ideia de que tudo é uma coisa só, que você está conectado a tudo no mundo, inclusive à sua ideia de deus. A sensação de unidade é o componente principal, onde as pessoas não sentem mais a separação entre elas e o resto do universo. Há o sentimento de sacralidade, uma experiência do divino, de fora desse mundo. Esses voluntários relataram sensações de felicidade, de paz.
- E essa experiência mudou suas vidas para sempre? 
Nessa parte tivemos que confiar na palavra dos voluntários: 30% relataram que foi a experiência mais significativa de suas vidas. Quase todo mundo que tomou a alta dose disse que estava entre suas 10 experiências mais importantes. E nós também vimos que as mudanças de personalidade foram maiores em quem teve as experiências mais pessoais. 
Segundo seu estudo, essa mudança de personalidade deixou as pessoas mais abertas. Como isso aconteceu? 
Existem 5 domínios de personalidade [abertura, neuroticismo, extroversão, amabilidade e meticulosidade]. A abertura é uma categoria relacionada à criatividade, imaginação, aos interesses em artes, em musica, na expressão. Mais recentemente a abertura foi caracterizada como a motivação de buscar novas idéias e experiências. Não há como dizer se o aumento na abertura é necessariamente bom, mas nós temos visto isto que ele trazbenefícios em domínios como criatividade e solução de problemas. 
- Esse tipo de mudança é comum? 
Não, ela é rara em adultos. Os mais velhos tendem a ter uma abertura menor do que os mais jovens. A mesma pessoa tende a dizer que é menos aberta conforme envelhece. É possível como adulto ter uma mudança de personalidade, mas o mais comum é ver isso em casos clínicos, como em pessoas que são viciadas em drogas ou se recuperam de doenças. 
- Porque essa mudança aconteceu? Foi por causa de uma reação química no cérebro ou por conta da experiência vivida? 
Eu sou muito interessada na parte bioquímica da equação. A psilocibina age diretamente na serotonina, possivelmente também no glutamato. Os dois podem estar relacionados à neuroplasticidade, o que pode significar que a estrutura e função do cérebro podem mudar em um adulto. Mas há pouca evidência para a gente falar que o cérebro muda permanentemente. De outro lado, o efeito pode ser psicológico. Ao ter uma experiência completamente diferente de qualquer coisa em sua rotina, isso pode abrir suas perspectivas para o que você pensa ser possível na vida comum. A mudança pode também ser relacionada às coisas que você vê durante a experiência, ou ao modo como você pensa, que é diferente do modo normal. Pode ser por causa das emoções diferentes, que você nunca sentiu – nós podemos levar pessoas que nunca riem ou choram a fazer essas coisas, a sentir essas emoções. Pode ser que, ao praticar um novo repertório de emoções e sentimentos, você mude sua personalidade. 
- Como vocês conseguem a droga para as experiências? 
Você tem que conseguir uma nova aprovação toda vez que vai fazer um estudo. Quando o professor Roland Griffiths começou a fazer esses estudos, ele tinha que conseguir várias aprovações e preencher vários formulários, para várias agências do governo. Agora, como ele já fez essas pesquisas, ele só precisa fazer uma emenda se formos fazer novos estudos. A psilocibina é sintetizada por David Nichols, [professor de farmacologia na Univesidade de Purdue]. Ele tem uma licença governamental para produzir a substância. 
- Como administrar essa droga de modo seguro? 
Nós desenvolvemos um jeito efetivo de aumentar as experiências positivas e reduzir experiências negativas na aplicação da droga. Muitos dos estudos com psilocibina foram feitos nos anos 50 e 60, e alguns cientistas davam as substâncias para as pessoas sem dizer do que se tratava. Mas logo ficou claro que isso não trazia bons resultados. Alguns pesquisadores viram que se você passasse mais tempo com as pessoas antes de sua experiência com a droga, se aprendesse mais sobre sua vida, se os pacientes dividissem com você seus medos, tudo seria mais tranquilo. Também temos que ter uma ou duas pessoas sóbrias presentes durante a seção. 
- Mas quais são os perigos? 
Há um cientista na Inglaterra [David Nutt] que categorizou todas as drogas quanto à sua segurança e toxicidade, e a psilocibina e o LSD foram consideradas entre as mais seguras. Mesmo assim, se houver algum risco vindo da experiência, ele é psicológico. O maior efeito negativo de seu uso pode ser a ansiedade, medo e clássica paranóia característica da “bad trip”. Em nossos testes, nós vimos esse medo e ansiedade, mas lidamos com isso sem remédios ou sedação, só oferecendo nossa mão para segurar e ajudando os voluntários a saírem disso. Em alguns casos vimos mudanças de temperamento ou demora em lidar com questões existenciais. Alguns estudos mostram que os efeitos podem durar mais tempo em alguns voluntários. Esses casos são aparecem em pesquisas antigas, então não vimos nada desse tipo. Seria maravilhoso fazer testes clínicos maiores para ver qual a freqüência desses casos. Só houve algumas centenas de sessões nos anos recentes.
É importante destacar que o modo como damos a psilocibina é muito diferente do uso recreativo. Nós a aplicamos num modo médico-terapêutico, controlamos todas as preocupações médicas e de segurança. É até possível que pessoas sozinhas tenham uma experiência boa com a psilocibina, mas nós desencorajamos as pessoas acharem que nossos resultados podem ser repetidos em casa. 
- Você pode falar sobre os outros estudos em execução? 
Eu estou envolvida em um estudo com voluntários saudáveis, que não tenham experiências com psicodélicos ou meditação. Eles aprendem a meditar e tem 2 ou 3 sessões de psilocibina. Queremos estudar o desenvolvimento da meditação ao mesmo tempo em que se consome a droga. Também temos um estudo com pacientes com câncer, para analisar seu efeito em pessoas que têm ansiedade e depressão relacionados ao seu diagnóstico. O terceiro é um estudo piloto menor, para ver se a psilocibina ajudaria as pessoas a pararem de fumar. 
- Há um aumento nesse tipo de estudo? 
Eu diria que há um aumento no interesse de pesquisadores jovens nesse tipo de estudo. O problema é o pouco numero de universidades e departamentos que queiram apoiar essas pesquisas, principalmente porque é uma área nova. Além disso, mesmo com as pequenas doações de pequenas instituições privadas, não há nenhum financiamento governamental desse tipo de estudo.

Fonte: http://psicodelia.org/noticias/cogumelos-alucinogenos-podem-mudar-sua-personalidade-para-sempre-afirma-estudo 
Publicado em: 30 de março de 2012 | Atualizado em: 04 de abril de 2012

quarta-feira, 15 de julho de 2015

CULTURA E SABEDORIA INDÍGENA*




Tribo amazônica cria enciclopédia de medicina tradicional com 500 páginas


Texto originalmente publicado por Jeremy Hance no Mongabay
Em uma das grandes tragédias da nossa era, tradições, histórias, culturas e conhecimentos indígenas estão desfalecendo em todo o mundo. Línguas inteiras e mitologias estão desaparecendo e, em alguns casos, até mesmo grupos indígenas inteiros estão em processo de extinção. Isto é o que chama a atenção para uma tribo na Amazônia – o povo Matsés do Brasil e do Peru –, que criou uma enciclopédia de 500 páginas para que sua medicina tradicional seja ainda mais notável. A enciclopédia, compilada por cinco xamãs com a ajuda do grupo de conservação Acaté, detalha cada planta utilizada pelos Matsés como remédio para curar uma enorme variedade de doenças.
O xamã Matsés chamado Cesar. Foto: cortesia da Acaté
O xamã Matsés chamado Cesar. Foto: cortesia da Acaté
“A [Enciclopédia de Medicina Tradicional Matsés] marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrito em sua própria língua e com suas palavras”, disse Christopher Herndon, presidente e co-fundador da Acaté, em uma entrevista para o Mongabay (na íntegra abaixo).
Os Matsés imprimiram sua enciclopédia só em sua língua nativa para garantir que o conhecimento medicinal não seja roubado por empresas ou pesquisadores, como já aconteceu no passado. Em vez disso, a enciclopédia pretende ser um guia para a formação de jovens xamãs, para que eles possam obter o conhecimento dos xamãs que viveram antes deles.
“Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de que seu conhecimento pudesse ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos e seus conhecimentos ancestrais”, disse Herndon.
A Acaté também iniciou um programa para conectar os demais xamãs Matsés com jovens estudantes. Através deste programa de orientação, os indígenas esperam preservar seu modo de vida como o fizeram durante séculos.
“Com o conhecimento de plantas medicinais desaparecendo rapidamente entre a maioria dos grupos indígenas e ninguém para escrevê-los, os verdadeiros perdedores no final são tragicamente os próprios atores indígenas”, disse Herndon. “A metodologia desenvolvida pelos Matsés e pela Acaté pode ser um modelo para outras culturas indígenas protegerem seus conhecimentos ancestrais”.
UMA ENTREVISTA COM O MÉDICO CHRISTOPHER HERNDON
 Chris Herndon (esquerda) e o xamã Arturo (direita), observam um rascunho da nova enciclopédia. Foto: Acaté
Chris Herndon (esquerda) e o xamã Arturo (direita), observam um rascunho da nova enciclopédia. Foto: Acaté
Mongabay: Por que a enciclopédia é importante?
Em um mundo que desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, o conhecimento tradicional está rapidamente desaparecendo
Christopher Herndon: A enciclopédia marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrita em sua própria língua e com suas palavras. Ao longo dos séculos, os povos da Amazônia têm repassado através da tradição oral uma riqueza acumulada de conhecimentos e técnicas de tratamento que são um produto de seus profundos laços espirituais e físicos com o mundo natural. Os Matsés vivem em um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta e têm dominado o conhecimento das propriedades curativas das suas plantas e animais. No entanto, em um mundo em que a mudança cultural desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, este conhecimento está rapidamente desaparecendo.
É difícil pensar o quão rapidamente este conhecimento pode ser perdido após uma tribo fazer contato com o mundo exterior. Uma vez extinto, este conhecimento, juntamente com a auto-suficiência da tribo, nunca pode ser totalmente recuperado. Historicamente, o que seguiu logo da perda dos sistemas de saúde endêmicos em muitos grupos indígenas é a quase total dependência dos rudimentares e extremamente limitados serviços de saúde que estão disponíveis nestes locais remotos e de difícil acesso. Não surpreendentemente, na maioria dos países, os grupos indígenas têm as maiores taxas de mortalidade e doença.
Pela perspectiva dos Matsés, a iniciativa é importante porque a perda da cultura e o atendimento precário à saúde estão entre suas maiores preocupações. A pioneira metodologia para proteger e salvaguardar o seu próprio conhecimento pode servir como um modelo replicável para outras comunidades indígenas que enfrentam uma erosão cultural semelhante. Em termos mais amplos de conservação, sabemos que existe uma forte correlação entre os ecossistemas intactos e regiões habitadas por índios, o que torna o fortalecimento da cultura indígena uma das maneiras mais eficazes para proteger grandes áreas de floresta tropical.
Mongabay: Por que é agora o momento de se registrar esta informação?
Christopher Herndon: O conhecimento dos Matsés e a sabedoria acumulada através de gerações estava perto de desaparecer. Felizmente, restavam alguns poucos Matsés mais velhos, que ainda detinham o conhecimento ancestral, já que o contato com o mundo exterior só ocorreu na última metade do século. Os curandeiros eram adultos na época do contato inicial e já haviam dominado suas habilidades antes de que missionários e funcionários do governo lhes dissessem que elas não eram úteis. No momento em que o projeto começou, nenhum dos xamãs mais velhos tinha jovens Matsés interessados em aprender com eles.
Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de seu conhecimento ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos, com seus conhecimentos ancestrais. O projeto não tratava de salvar uma dança tradicional ou vestuário, mas da saúde deles e a das futuras gerações de Matsés. A aposta não podia ser maior.
Mongabay: Como é a enciclopédia?
Christopher Herndon: Após dois anos de intenso trabalho por parte dos Matsés, a Enciclopédia agora inclui capítulos escritos por cinco mestres curandeiros Matsés e tem mais de 500 páginas! Cada entrada é classificada pelo nome da doença, com uma explicação sobre como reconhecê-la pelos sintomas, a sua causa, quais plantas usar, como preparar o medicamento e opções terapêuticas alternativas. Uma fotografia feita pelos Matsés de cada planta acompanha cada entrada na enciclopédia.
A Enciclopédia é escrita para e desde uma visão de mundo do xamã Matsés, descrevendo como os animais da floresta estão envolvidos na história natural das plantas e conectados com as doenças. É uma verdadeira enciclopédia xamânica, totalmente escrita e editada por xamãs indígenas – a primeira, que conhecemos, de seu tipo e alcance.
Um xamã e seu aprendiz. Foto: Acaté
Um xamã e seu aprendiz. Foto: Acaté
Mongabay: Como você espera que esta enciclopédia possa ajudar os esforços de conservação?
Empoderar os povos indígenas é a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical
Christopher Herndon: Acreditamos que empoderar os povos indígenas é a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical. Não é por acaso que as extensões restantes intactas da floresta tropical na região neotropical estão sobrepostas às áreas habitadas por indígenas. Os povos tribais compreendem e valorizam a floresta porque são dependentes dela. Esta relação vai além de uma dependência utilitária; há uma ligação espiritual com a floresta, um senso de interconectividade que é difícil de se compreender por meio da mentalidade ocidental compartimentalizada – por mais que seja, no entanto, real.
Muitas das graves ameaças ambientais em áreas indígenas remotas de que você ouve falar no noticiário – petróleo, madeira, mineração e afins – são indústrias externas que oportunisticamente se aproveitam da enfraquecida coesão social interna dos povos indígenas de contato recente, de seus recursos limitados e da crescente dependência do mundo exterior. O tema unificador das três áreas programáticas da Acaté – economia sustentável, medicina tradicional, e agroecologia – é a autossuficiência. A Acaté não predetermina estas três prioridades de conservação; elas foram definidas em discussão com os anciãos Matsés que sabem que a melhor maneira de proteger sua cultura e terras é através de uma posição de força e independência.
A enciclopédia foi revisada e editada ao longo de diversos dias em um encontro dos chefes Matsés e xamãs mais velhos. Foto: Acaté
A enciclopédia foi revisada e editada ao longo de diversos dias em um encontro dos chefes Matsés e xamãs mais velhos. Foto: Acaté
Do ponto de vista de conservação global, os Matsés protegem mais de 3 milhões de acres [1,2 milhões de hectares] de floresta tropical só no Peru. Esta área inclui algumas das florestas mais intactas, biodiversas e ricas em carbono no país. As comunidades Matsés no lado brasileiro dos rios Javari e Yaquerana marcam as fronteiras ocidentais da reserva indígena do Vale do Javari, uma região quase do tamanho da Áustria, que contém o maior número de tribos 'sem contato', em isolamento voluntário, no mundo. Ao sul das margens do território Matsés, nas cabeceiras do rio Yaquerana, encontra-se La Sierra del Divisor, uma região de beleza natural impressionante, biodiversidade, e também grupos tribais isolados. Por estas razões, embora os Matsés somente cheguem a somar pouco mais de 3 mil pessoas no total, eles estão estrategicamente posicionados para proteger uma vasta área de floresta tropical e uma série de tribos isoladas. Empoderá-los é uma preservação de alto rendimento.
Mongabay: Você mencionou que a enciclopédia é apenas a primeira fase de uma iniciativa mais ampla da Acaté. Quais são os outros componentes necessários para manter os sistemas tradicionais de saúde deles?
Christopher Herndon: Completar a enciclopédia é um primeiro passo histórico e crítico para mitigar as ameaças existenciais para a sabedoria de cura e autossuficiência dos Matsés. No entanto, a enciclopédia sozinha não é suficiente para manter a autossuficiência, já que seus sistemas de saúde baseiam-se na experiência que só pode ser transmitida através de longos aprendizados. Infelizmente, devido a influências externas, quando começamos nosso projeto, nenhum dos xamãs tinha aprendizes. Ao mesmo tempo, a maioria dos povos ainda usa e depende do conhecimento de plantas medicinais dos curandeiros, muitos dos quais têm mais de 60 anos.
Na Fase II, o Programa de Aprendizes, cada xamã – muitos dos quais são autores de capítulos da Enciclopédia – será acompanhado na selva por Matsés mais jovens para conhecer as plantas e ajudar no tratamento de pacientes. O programa de aprendizado foi iniciado em 2014 na aldeia de Estirón sob a supervisão do xamã Luis Dunu Chiaid. Devido ao sucesso do projeto piloto em Estirón, os Matsés concordaram em unanimidade, em sua última reunião, que este programa deveria ser expandido para o maior número possível de aldeias, dando prioridade às que não têm mais curandeiros tradicionais.
O objetivo final da iniciativa é a Fase III – a integração e melhoria dos serviços de saúde do 'ocidentais' feita com práticas tradicionais. Wilmer, um promotor de saúde em uma pequena clínica em Estirón e um dos aprendizes do programa-piloto, serve de exemplo para outros Matsés que trabalham com saúde. Ele entende que o futuro da saúde do seu povo depende da criação de sistemas de saúde duais e vibrantes que permitam à comunidade aproveitar o melhor de ambos os mundos da medicina.
Além disso, foi decidido que o nosso trabalho agro-florestal deve ser expandido para incluir a integração com plantas medicinais. Este trabalho será baseado no bosque de cura criado por um dos principais xamãs curandeiros Matsés em Nuevo San Juan, agora mantido por seu filho, Antonio Jimenez. Para um estrangeiro, este bosque parece uma trecho comum de selva no caminho para as fazendas deles, a uns 10 ou 15 minutos de caminhada fora da comunidade. Na presença de um xamã conhecedor que indique quais são as plantas medicinais, você percebe na mesma hora que está cercado por uma constelação de plantas medicinais cultivadas pelos curandeiros Matsés para o tratamento de uma variada gama de doenças. Muitas vinhas e fungos da floresta não crescem em jardins expostos ao sol e requerem o ecossistema da floresta para a sua propagação. Colocar o bosque de plantas medicinais a 10 ou 15 minutos de distância da comunidade é um exemplo característico da eficiência do Matsés. Se você tem uma criança doente, não quer ter que viajar quatro horas para encontrar o remédio.
Aplicação de medicina tradicional dos Matsés. Foto: Acaté
Aplicação de medicina tradicional dos Matsés. Foto: Acaté
Mongabay: A enciclopédia foi escrita apenas na língua dos Matsés como proteção contra a bioprospecção e o roubo do conhecimento indígena. O medo da biopirataria é uma preocupação real para os Matsés?
Christopher Herndon: Infelizmente, a história está cheia de exemplos de roubo dos povos indígenas. Para os Matsés em particular a preocupação é muito real. As secreções da pele da rã Kambo (Phyllomedusa bicolor) são utilizadas pelos Matsés em seus rituais de caça. As secreções, ricas em uma variedade de peptídeos [pequenas proteínas] bioativos, são administradas diretamente no organismo em cortes frescos ou queimaduras. Quase imediatamente, as toxinas induzem intensas e autonômicas respostas cardiovasculares que levam a um estado alterado de consciência e acuidade sensorial muito maior.
A rã Kambo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay
A rã Kambo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay
Embora a rã Kambo esteja presente ao longo do norte da Amazônia, apenas os Matsés e um número reduzido de tribos vizinhas Panoan são conhecidos por usar suas secreções poderosas. Depois de se conhecer o uso das secreções pelo Matsés, pesquisas de laboratório sobre as secreções da rã Kambo revelaram um complexo coquetel de peptídeos com potentes propriedades vasoativas, narcóticas e antimicrobianas. Várias empresas farmacêuticas e universidades registraram patentes dos peptídeos sem reconhecimento ou benefício aos povos indígenas. Um destes peptídeos com atividade antifúngica foi até mesmo transgenicamente inserido em batatas.
A enciclopédia está escrita somente em Matsé e não haverá traduções para outras línguas
O medo da biopirataria é, infelizmente, uma porta que se abre para ambos os lados. Muitos grupos ambientalistas e cientistas têm realizado projetos na Amazônia documentando o conhecimento indígena da fauna local, como nome de aves, mas mantiveram-se à margem em relação às plantas medicinais, por medo de serem acusados de facilitar a biopirataria. No entanto, com o rápido desaparecimento dos conhecimentos sobre as plantas medicinais entre a maioria dos grupos indígenas e não sem ninguém para registrá-lo, tragicamente os verdadeiros perdedores ao final são os índios, os verdadeiros geradores desse conhecimento. A metodologia desenvolvida pelo Matsés e a Acaté deve ser um modelo para outras culturas indígenas conservarem seus conhecimentos ancestrais.
Mongabay: Qual é a metodologia da Acaté e como ela protege esse conhecimento?
Christopher Herndon: A Acaté e os Matsés desenvolveram uma metodologia inovadora para evitar a extinção de seu conhecimento ancestral sobre as plantas medicinais e ao mesmo tempo proteger as informações contra o roubo por grupos externos. A enciclopédia está escrita somente em Matsé. É por e para os Matsés e não haverá traduções para outras línguas. Não foram incluídos nomes científicos nem fotografias de flores ou alguma outra característica que possa facilitar a identificação das plantas por um estrangeiro.
Observando a nova enciclopédia. Foto: Acaté
Observando a nova enciclopédia. Foto: Acaté
Cada capítulo da Enciclopédia de Medicina Tradicional foi escrito por um veterano xamã renomado escolhido pela comunidade. Para cada xamã veterano foi designado um Matsés mais jovem, que durante meses registrou em forma escrita o conhecimento xamã e fotografou cada planta. Os textos e as imagens foram compilados e escritos no computador de Wilmer Rodríguez López, um Matsés que é especialista na transcrição escrita de sua língua.
Na reunião, a Enciclopédia compilada – um rascunho de mais de 500 páginas – foi revisada e editada coletivamente pelos xamãs das tribos por vários dias. Toda a enciclopédia está sendo formatada e impressa pelos Matsés sob a sua direção exclusiva, e nunca será publicada ou divulgada fora de suas comunidades.
Esperamos que o incontroverso sucesso desta metodologia iniciada pela Acaté e por nossos parceiros índios abra a porta para esforços semelhantes em toda a Amazônia e além. Já estamos vendo os esforços de outras organizações para replicar a metodologia.
Mongabay: Obviamente, o foco é preservar a cultura e o conhecimento Matsés, mas o seu conhecimento médico poderia teoricamente ajudar as futuras gerações ao redor do mundo. Existem condições específicas para que os xamãs Matsés e a população possam compartilhar seus conhecimentos sobre as plantas medicinais na Amazônia? Ou a confiança está destruída?
Christopher Herndon: A Acaté não pode falar pelos Matsés. Posso dizer que trabalhando com xamãs índios na Amazônia, eu tenho notado que eles são muito abertos a compartilhar o seu conhecimento, quando nos aproximamos com respeito. Eles também têm uma grande curiosidade intelectual sobre outros métodos de cura, incluindo o nosso.
Aldeia dos Matsés. Foto: Acaté
Aldeia dos Matsés. Foto: Acaté
Alguns dos medicamentos desenvolvidos pela humanidade, como a quinina e aspirina, foram desenvolvidos através do conhecimento de curandeiros tradicionais. Devido ao clima político e temores internacionais de biopirataria, mesmo para as empresas farmacêuticas que promovem a distribuição equitativa dos lucros, é um desafio participar de tais iniciativas. A complexidade do conhecimento indígena de plantas medicinais é tal que não é possível avaliar plenamente a fitoquímica dentro do prazo em que o conhecimento está prestes a ser perdido. A Enciclopédia, apesar de não ser desenhada para esse fim, mantém as opções abertas no futuro para os Matsés; um futuro que, em contraste com a maioria de seus precedentes históricos, será um de sua própria determinação.
Até a criação da enciclopédia o sistema tradicional de saúde Matsés estava prestes a desaparecer devido às influências do mundo exterior
Não devemos perder de vista que, até a criação da enciclopédia, o sistema tradicional de saúde Matsés estava prestes a desaparecer devido às influências do mundo exterior. Os Matsés vivem em áreas remotas onde a prestação de serviços de saúde é um desafio e limitada. As farmácias em muitas comunidades Matsés, particularmente as de mais longe, rio acima, são desprovidas dos medicamentos mais básicos, como remédios para tratar a malária, que veio de fora das comunidades. Os Matsés precisam pagar de seu bolso pelo medicamento que vem de fora, cujo preço é inalcançável para a maioria dos anciãos da comunidade que não têm nenhuma fonte de renda. O simples microscópio necessário para analisar o sangue e diagnosticar a malária estava quebrado em quase todas as comunidades que visitei. Em comparação, vivemos em um mundo que é abundante em cuidados de saúde. Se houver necessidade de dialogar, na minha opinião, isso deve começar com a resposta de como podemos apoiar os Matsés no presente, em vez de como eles podem nos ajudar no futuro.
Mongabay: Muita gente vê a medicina e a preservação da floresta como questões separadas. Como a saúde está ligada ao meio-ambiente?
Christopher Herndon: A saúde de um povo, sua cultura e meios-ambientes são indissociáveis. Não podemos pensar sobre as condições deprimentes de saúde e a situação socioeconômica no Haiti sem considerar o contexto de que 98% deste país que ocupa a metade de uma ilha foi devastado e, assim, o seu potencial futuro também foi destruído. A fronteira entre o Haiti e a República Dominicana pode ser claramente vista a partir de imagens de satélite como uma transição abrupta do marrom ao verde, como o resultado de diferentes formas de uso dos recursos naturais. Da mesma forma, as imagens da Etiópia que existem na consciência moderna baseiam se no fato de, que há apenas 100 anos, a Etiópia era um país com uma significativa cobertura florestal.
Clínica em aldeia Matsés. Os Matsés usam tanto a medicina tradicional como a ocidental, mas suprir e manter as clínicas remotas é difícil. Foto: Acaté
Clínica em aldeia Matsés. Os Matsés usam tanto a medicina tradicional como a ocidental, mas suprir e manter as clínicas remotas é difícil. Foto: Acaté
O futuro dos Matsés e a sua cultura estão eternamente ligados ao futuro de suas florestas. Ao proteger as florestas e reforçar sua cultura, a saúde deles é protegida contra um futuro carregado de diabetes, desnutrição, depressão e alcoolismo – a segunda onda de doenças 'importadas' que normalmente acontece em comunidades indígenas após algumas gerações depois do contato com o mundo exterior. Visto desta forma, iniciativas de conservação biocultural seriam extremamente rentáveis e podem ser abordagens preventivas de saúde.
Mongabay: Como a enciclopédia pode ajudar a preservar a cultura Matsés?
A iniciativa da enciclopédia restaura o respeito pela sabedoria dos mais velhos
Christopher Herndon: Uma mudança radical começa muitas vezes com algo tão simples e tão poderoso como uma ideia. A ideia de que a sua cultura, as suas tradições e seu estilo de vida não são inferiores ou algo para se envergonhar, como outros talvez já lhe tenham dito. A ideia de que a selva, que você chamar de lar, tem um valor infinitamente maior do que reservas de petróleo ou de mogno para produzir mobiliário de luxo. A ideia de que o seu conhecimento e familiaridade com a floresta não faz o torna primitivo ou atrasado, mas o coloca à frente do movimento global de conservação. A enciclopédia é o primeiro passo concreto para a formação de uma ponte para vencer a lacuna cada vez maior entre gerações, antes que seja tarde demais. A iniciativa da enciclopédia restaura o respeito pela sabedoria dos mais velhos e devolve a selva como um repositório de saúde e um lugar para aprender.
Um xamã mostra a Herndon as plantas medicinais. Foto: Acaté
Um xamã mostra a Herndon as plantas medicinais. Foto: Acaté
Mongabay: A enciclopédia foi completada e terminada em uma reunião de líderes Matsés vindos de todo seu território e antigos xamãs das tribos. Como foi o clima naquela reunião?
Christopher Herndon: Esta reunião sem precedentes foi realizada em uma das aldeias mais remotas do território Matsés. É extremamente difícil descrever em palavras a emoção sentida por todos os participantes quando os líderes Matsés mais antigos falaram de batalhas que eles lutaram – literalmente – para defender o território Matsés e seu modo de vida. Muitos deles tiveram de conter as lágrimas enquanto um ancião após o outro convidava os jovens a aproveitar esta oportunidade para preencher a lacuna que será deixada por eles quando morrerem, assim como eles fizeram quando seus avós estavam vivos. Eu trabalho na conservação biocultural na Amazônia há 15 anos, mas esta foi uma das mais inspiradoras experiências, para se ouvir o poder da oratória deles e determinação em suas vozes. É facilmente perceptível que os Matsés são guerreiros de coração, que lutaram por um longo tempo para proteger suas terras e que eles continuarão lutando.

– Esta entrevista foi traduzida do original em inglês por Giovanny Vera e Laura Kurtzberg e revisada por Stefano Wrobleski, do InfoAmazonia.
* Título editado
Fonte: http://infoamazonia.blogosfera.uol.com.br/2015/07/10/povo-amazonico-cria-enciclopedia-de-medicina-tradicional-com-500-paginas/