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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

QUESTÃO INDÍGENA NO BRASIL



Cartografia dos Ataques Contra Indígenas convida a reflexão sobre dor, tempo e indiferença





Mapa lançado em SP permite que internauta perceba a dimensão da violência contra etnias no Brasil; o que se vê entre 1985 e 2015 é um bombardeio, redimensionado com a soma das histórias esquecidas


Por Alceu Luís Castilho


Assassinado: Adenilson Barbosa. Idade: 15 anos. Ano: 2013. Local: Terra Indígena Caarapó. Município: Caarapó (MS). O internauta pode ver no mapa. Clicar, mecanicamente, e observar que, somente ali, mais 26 indígenas foram assassinados.
Adenilson e dois amigos saíram para pescar no Córrego Mbope’i, que cruza fazendas do entorno da Aldeia Tey Kuê. Foram abordados por pistoleiros ligados a Orlandino Gonçalves, criador de gado na Fazenda Sardinha. Os homens atiraram. Os três fugiram. Mas Adenilson ficou preso a uma cerca. Foi agredido a coronhadas e depois alvejado com um tiro na cabeça. O fazendeiro confessou o crime e responde em liberdade.
Essas duas formas de ver o mesmo fato convivem na Cartografia dos Ataques Contra Indigenas(Caci), lançada nesta terça-feira (11/10). O projeto desenvolvido pela Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com armazém Memória e InfoAmazonia, baseia-se nos registros de assassinatos de indígenas feitos entre 1985 e 2015 pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Isolados, não são inéditos.
O que muda é a percepção da dor. “Caci”, em Guarani, significa exatamente dor. A cartografia oferece uma concretude espacial e (diante do padrão observado nos assassinatos) uma amplitude. Um fato, uma sequência de fatos, e uma lógica. A história que se segue a cada assassinato é um zoom e um soco no estômago do homem branco. Pois alguém, ali, atirou, ou espancou – em nome de algo. De um modelo.
É como se fosse a cartografia de um bombardeio.
Observemos um caso de 1985. O Brasil vivia o período de redemocratização. Adolfo Macaxali morre em Bertópolis (MG), quase na Bahia. (O internauta deve clicar em 1985, na busca, e observar a lista – sim, ainda incompleta – de cinco casos reunidos pelo site.)
Motivo: “A vítima foi morta de fome por um empregado da cantina da Funai”.
Mais um caso de 1985. Waldemar Apinajé é assassinado em Tocantinópolis (GO). Descrição: “A vítima foi morta por um delegado policial”.
E vejamos outro caso daquele ano, quando o Brasil chorava a morte de Tancredo Neves. Oedson Eduardo da Silva, em Cantá (RR). “Encontrado morto na maloca do Moscou, em Serra da Lua”.
Notem que, nesta narrativa, passamos do tempo passado para o tempo presente. Pois é disso que se trata. De reavivar a memória de uma civilização que, há 500 anos, mata indígenas.
Essa história nos é lembrada a partir da cartografia. Clicamos em um caso e lá vai o cursor para o local exato. 1990. Oito casos registrados. Damião e Mário Macuxi são mortos em Normandia (RR), na Raposa Serra do Sol. 1995. 54 casos registrados. Ângelo Miguel é assassinado a tiros na Terra Indígena Inhacorá, em São Valério do Sul (RS). Conflito de terras. Os indígenas pediam que os acusados deixassem a área.

greenpeace
(Foto: Alan Azevedo/Greenpeace)

2000. Os casos não aparecem. (O site precisa de atualização. Mas não faltam horrores.)
2005. O cacique João Guajajara é executado com três tiros na Terra Indígena Bacurizinho, em Grajaú (MA). Milton Careca fazia ameaças, dizia que todos os Guajajara deviam deixar a aldeia. A Funai e a polícia sabiam das ameaças. A Cartografia dos Ataques Contra Indígenas nos conta que o conflito ocorreu pela “pressão dos exploradores irregulares da soja, carvão e eucalipto”. A filha de 16 anos do cacique foi estuprada.
2010. “Jovem não identificado”. “Adolescente não identificado”. “Homem não identificado”. Mas são 61 casos, ao todo. Muitos são de brigas familiares, ou entre os próprios indígenas – em boa parte potencializadas pelo álcool. Outros, não. Ou não se sabe o motivo. Quem matou a pauladas Raimundo Anilton Alves da Silva, em Paragominas (PA), na Terra Indígena Alto Rio Guamá?
2015. Semião Vilhalva é assassinado na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João (MS). Ele tinha 24 anos. Seu rosto foi perfurado por uma bala. “O ataque foi premeditado e perpetrado por fazendeiros”, diz o site. Lemos que a morte de Simeão é uma consequência da decisão do governo federal de paralisar os procedimentos de demarcação. A Terra Indígena foi homologada em 2005, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a decisão, “submetendo as famílias a uma crise humanitária já apontada por organismos internacionais como uma das mais graves do mundo”. Se o leitor der um zoom verá mais seis casos na mesma TI. Se diminuir o zoom, constará que houve 400 assassinatos de indígenas no Mato Grosso do Sul. E pode voltar ao texto sobre Semião: “Além da situação de vulnerabilidade, os Guarani são alvos, diariamente, de ações e discursos criminosos de incitação ao ódio e à violência proferidos por parlamentares ruralistas com o objetivo de colocar a sociedade sul-mato-grossense contra eles”.
2020. 2025. 2030…

Fonte: http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2016/10/11/cartografia-dos-ataques-contra-indigenas-convida-reflexao-sobre-dor-tempo-e-indiferenca/
Colaboração: João E. Fabrini

terça-feira, 14 de julho de 2015

OS AWÁ-GUAJÁ E OS GUARANI-KAIOWÁ



O que une os Awá-Guajá, grupo indígena do Maranhão, de pouco mais de 360 pessoas, com parte de sua população em situação de isolamento voluntário, nas matas da Amazônia Oriental, aos Guarani-Kaiowá, o segundo maior grupo indígena do país, com quase 50 mil pessoas vivendo uma situação desesperadora em seu cotidiano, marcado por dezenas de assassinatos e suicídios todo ano, além de confrontos diretos com fazendeiros do sul de Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai?
Os Awá-Guajá e os Guarani-Kaiowá representam realidades extremas vividas em duas regiões do país onde hoje é muito distinta a situação dos povos indígenas, no que tange à terra.
Na região da Amazônia Legal, o Maranhão é palco de um grave assédio contra as terras indígenas.[1] No Estado, que já teve mais de 70% de sua área de floresta desmatada, 52% de toda a mata que resta está em terras indígenas. Em busca desse tesouro, os madeireiros e carvoeiros subornam lideranças e funcionários públicos.
Além desse cerco, os Awá-Guajá, em suas três terras indígenas, que somam 820 mil hectares, ainda têm que lidar com um projeto como a duplicação da Ferrovia Carajás, da mega multinacional Vale. Como negociar e dimensionar “compensações” pelos danos causados por empreendimentos como este, quando nem mesmo se tem noção do que seja o dinheiro?









Os Guarani-Kaiowá, por sua vez, estão distribuídos por 30 terras indígenas e mais de 30 acampamentos, instalados na beira de estradas ou dentro de fazendas que esses grupos reivindicam como seus tekoha– “o lugar onde se pode viver do nosso jeito”, em uma tradução aproximada.
Ao todo, as terras ocupadas pelo grupo hoje não chegam a 50 mil hectares. Nas reservas demarcadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), entre 1915 e 1928, onde até hoje vive grande parte da população Guarani-Kaiowá, a superlotação gera um ambiente hiperviolento e depressivo: mais de mil suicídios foram registrados nos últimos 30 anos entre os Guarani-Kaiowá, atingindo principalmente os jovens. Foram 659 casos somente entre 2000 e 2013.
Segundo os dados compilados pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) nos últimos anos, morrem assassinados mais indígenas em MS do que em todo o resto do país – em alguns anos, mais de 90% dos mortos em MS são Guarani-Kaiowá. Entre 2003 e 2013, morreram 349 indígenas em MS, contra 267 indígenas no restante do país.[2] Boa parte desses números está relacionada a violências cometidas entre os próprios indígenas, principalmente jovens e, sobretudo, nas antigas reservas do SPI.
Abandonar as reservas, onde boa parte dos líderes de famílias extensas já não consegue perceber uma perspectiva de futuro, e buscar a retomada dos tekoha é a diretriz fundamental do movimento de luta pela terra que os Guarani-Kaiowá têm empreendido desde os anos 70.
Em guarani e em guajá, línguas da família tupi-guarani faladas por esses dois grupos, é awá (ou avá) o termo para “gente” ou “pessoa”. E seja na Amazônia ou no Mato Grosso do Sul, é por meio da terra que se pode alcançar uma condição de vida plenamente humana.
Referências
CARVALHO, Cleide. No Maranhão, áreas indígenas são dizimadas por desmatadores. O Globo, Rio de Janeiro, 6 abr. 2013. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/brasil/no-maranhao-areas-indigenas-sao-dizimadas-por-desmatadores-8047507>. Acesso em: 7 maio 2015.
RANGEL, Lúcia Helena (Org.). Relatório Violência contra os povos indígenas no Brasil (dados de 2013). Brasília: Conselho Indigenista Missionário, 2013. 126 p.

FONTE: http://www.genteawa.com.br/web-serie/

sábado, 30 de novembro de 2013

QUESTÃO INDÍGENA
















O Movimento em Defesa dos Povos Indígenas - Oeste PR realizou hoje (30/11) um importante ato em Marechal Cândido Rondon para exigir do governo federal que reinicie imediatamente o processo de demarcação das terras indígenas. “Aproveitando” a vinda da Ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann (PT) ao Oeste, indígenas, estudantes, trabalhadores, professores e militantes de diversas organizações realizaram uma “recepção” para a ministra diferente daquela que os empresários e governantes municipais deram a ela. Com faixas, cartazes e palavras de ordem buscamos evidenciar que a situação dos povos indígenas no Oeste do Paraná se encontram em uma triste realidade. O ato de hoje é uma demonstração que os indígenas não se calarão e não irão parar de lutar por seus direitos. Afinal, Bernardino vive nos corações de todos aqueles que acreditam que é possível e necessário uma sociedade na qual a terra não seja apenas mera mercadoria.  (Texto: Jaime Farherr)