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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CRÔNICA O ZIKA





Crônica de Quinta: Duas epidemias sobrepostas

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 18 de fevereiro de 2016


foto: Márcia Folleto  

Leio o título no jornal: "Zika agrava abandono de mulheres no Nordeste". Este "agrava", no início da frase, é tão dramático quanto o " Zika" que o antecede, pois nos diz de duas epidemias sobrepostas. A mais antiga, o abandono sistemático de mulheres e filhos, já é aceita naturalmente , como se fizesse parte da normalidade. Resta pedir aos céus que não nos acostumemos com a outra.

A mulher entrevistada na reportagem que justifica o título chama-se Josemary, nome que a mãe escolheu pretendendo alguma modernidade, e da Silva, sobrenome do anonimato brasileiro. Josemary mora em Algodão de Jandaíra, a uma hora de ônibus de Campina Grande, e pode considerar-se feliz com o endereço, porque muitos moram mais longe. Há quatro meses teve um filho microcéfalo. Já tinha quatro meninos. O marido, pai dos cinco, se mandou antes mesmo do bebê nascer.

Agora, em Algodão de Jandaíra, Josemary acorda às 3h da madrugada para dar conta da casa, da comida que deixará aos filhos, do banho do bebê, tudo a tempo de tomar o ônibus e levar o pequeno até Campina Grande, onde recebe os cuidados especiais de que necessita. Josemary tem, e terá, que cuidar sozinha dos filhos. Mas não foi sozinha que os fez.

Precisarei perguntar a minha amiga Mary del Priore, historiadora interessada nas questões de gênero, em que momento o Brasil decidiu que paternidade era um passeio eventual, não uma responsabilidade, não um dever sem volta. A história deve ter uma resposta para isso.

Não é só no Nordeste que os homens saem pela porta deixando os filhos para trás. No Nordeste, pelo menos, havia um motivo inicial, ir procurar no Sul sorte melhor, que beneficiaria toda a família. Que depois o pai não desse mais sinal de vida parecia quase justo. Absorvido pela imensidão do Sul, desaparecia como se tivesse despencado além das Colunas de Hércules.

Mas também no Sul os homens abandonam seus filhos, sem alegar precisão alguma no Nordeste. Nas classes mais abastadas a coisa é entregue a advogados, passa por papéis, divorcio, mesada. A lei obriga a manter o caráter. Mas basta descer alguns degraus da escada econômica, para que a lei deixe de funcionar. Ela está lá, faltam os lubrificantes que permitem seu funcionamento. Se o pai fujão ganha pouco, não há de onde tirar pensão. Se há, ele é capaz de deixar o emprego e tornar-se autônomo, fugindo da lei como fugiu da casa. E pode haver ameaças, medo. Até orgulho entra na composição, a mulher achando que pode dar conta sozinha e que não quer pedir nada a ninguém. Os valores se invertem, o que deveria ser um direito indiscutível, torna-se algo a ser pedido, quase suplicado.

Houve um tempo em que mocinha que aparecesse grávida era expulsa de casa. Hoje, se a adolescente aparecer grávida, a família acaba de criá-la e a seu filho. As duas atitudes desconsideram o homem que engravidou a mocinha. Ela que se cuidasse. Foi dar uma de gostosa, ele sucumbiu. O filho é dela, só dela, e a ela cabe criá-lo. Como se fosse apenas um acidente de percurso, o pai some a caminho do futuro, sem problemas de consciência.

Tudo isso já faz parte de infinitas rotinas domésticas brasileiras. O país aceita como normal este modelo em que as crianças são as mais prejudicadas, sem pai, sem família organizada, sem as oportunidades que presença e contribuições de um pai poderiam lhes dar. Mas o Zika impõe uma pergunta: acharemos normal que pais abandonem seus filhos malformados, ou buscaremos atitudes mais civilizadas?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

REVOLUÇÃO FEMINISTA NO SERTÃO



O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão

A antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo testemunhou, nos últimos cinco anos, a uma mudança de comportamento nas áreas mais pobres e, talvez, machistas do Brasil. O dinheiro do Bolsa Família trouxe poder de escolha às mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado até o pedido de divórcio

 

O dinheiro do Bolsa-Família trouxe poder de escolha às mulheres do sertão (Foto: Editora Globo)


Uma revolução está em curso. Silencioso e lento - 52 anos depois da criação da pílula anticoncepcional - o feminismo começa a tomar forma nos rincões mais pobres e, possivelmente, mais machistas do Brasil. O interior do Piauí, o litoral de Alagoas, o Vale do Jequitinhonha, em Minas, o interior do Maranhão e a periferia de São Luís são o cenário desse movimento. Quem o descreve é a antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos últimos cinco anos, Walquiria acompanhou, ano a ano, as mudanças na vida de mais de cem mulheres, todas beneficiárias do Bolsa Família. Foi às áreas mais isoladas, contando apenas com os próprios recursos, para fazer um exercício raro: ouvir da boca dessas mulheres como a vida delas havia (ou não) mudado depois da criação do programa. Adiantamos parte das conclusões de Walquiria. A pesquisa completa será contada em um livro, a ser lançado ainda este ano.

MULHERES SEM DIREITOS

As áreas visitadas por Walquiria são aquelas onde, às vezes, as famílias não conseguem obter renda alguma ao longo de um mês inteiro. Acabam por viver de trocas. O mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres. Há pouco acesso à educação e saúde. Filhos costumam ser muitos. A estrutura é patriarcal e religiosa. A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre/pastor. “Muitas dessas mulheres passaram pela experiência humilhante de ser obrigada a, literalmente, ‘caçar a comida’”, afirma Walquiria. “É gente que vive aos beliscões, sem direito a ter direitos”. Walquiria queria saber se, para essas pessoas, o Bolsa Família havia se transformado numa bengala assistencialista ou resgatara algum senso de cidadania.

BATOM E DANONE

“Há mais liberdade no dinheiro”, resume Edineide, uma das entrevistadas de Walquiria, residente em Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. As mulheres são mais de 90% das titulares do Bolsa Família: são elas que, mês a mês, sacam o dinheiro na boca do caixa. Edineide traduz o significado dessa opção do governo por dar o cartão do benefício para a mulher: “Quando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.” Elas passaram a comprar Danone para as crianças. E, a ter direito à vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas.

O DINHEIRO LEVA AO DIVÓRCIO E À DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE FILHOS?

“Boa parte delas têm uma renda fixa pela primeira vez. E várias passaram a ter mais dinheiro do que os maridos”, diz Walquiria. Mais do que escolher entre comprar macarrão ou arroz, o Bolsa-Família permitiu a elas decidir também se querem ou não continuar com o marido. Nessas regiões, ainda é raro que a mulher tome a iniciativa da separação. Mas isso começa a acontecer, como relata Walquiria: “Na primeira entrevista feita, em abril de 2006, com Quitéria Ferreira da Silva, de 34 anos, casada e mãe de três filhos pequenos,em Inhapi, perguntei-lhe sobre as questões dos maus tratos. Ela chorou e me disse que não queria falar sobre isso. No ano seguinte, quando retornei, encontrei-a separada do marido, ostentando uma aparência muito mais tranqüila.”
A despeito do assédio dos maridos, nenhuma das mulheres ouvidas por Walquiria admitiu ceder aos apelos deles e dar na mão dos homens o dinheiro do Bolsa. “Este dinheiro é meu, o Lula deu pra mim (sic) cuidar dos meus filhos e netos. Pra que eu vou dar pra marido agora? Dou não!”, disse Maria das Mercês Pinheiro Dias, de 60 anos, mãe de seis filhos, moradora de São Luís, em entrevista em 2009.
Walquiria relata ainda que aumentou o número de mulheres que procuram por métodos anticoncepcionais. Elas passaram a se sentir mais à vontade para tomar decisões sobre o próprio corpo, sobre a sua vida. É claro que as mudanças ainda são tênues. Ninguém que visite essas áreas vai encontrar mulheres queimando sutiãs e citando Betty Friedan. Mas elas estão começando a romper com uma dinâmica perversa, descrita pela primeira vez em 1911, pelo filósofo inglês John Stuart Mill. De acordo com Mill, as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los. Aparentemente, as mulheres mais pobres do Brasil estão descobrindo que podem desejar mais do que isso.


FONTE: http://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2012/11/o-bolsa-familia-e-revolucao-feminista-no-sertao.html