O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (São Paulo), que existe há 58 anos, recebe quase 250 imagens, enviadas todos os dias por 10 satélites estrangeiros, sob contrato com o governo brasileiro. Alguns desses satélites são geoestacionários, como o Goes-16, que orbita a 36 mil quilômetros da superfície da Terra. Os outros são os de órbita polar e estão a 850 quilômetros de altitude.
Os geoestacionários costumam produzir imagens com resolução mais baixa, por estarem mais distantes. Têm a vantagem, porém, de enviar imagens a cada 15 minutos. Podem detectar queimadas de grandes proporções, como incêndios florestais, em tempo real, e indicar alterações da cobertura vegetal.
Graças a essa combinação de fontes de informações da mais alta tecnologia criada pelo homem, o Inpe pode acompanhar o avanço da atividade econômica na maior fronteira de recursos naturais do planeta em cada momento da sua expansão.
Em 2017, registrou um número recorde de mais de 200 mil focos de fogo em todo o país, a maior parte deles concentrada na Amazônia. O número é elevado, mas se aproxima do que foi constatado em anos anteriores, como 2012 e 2015.
Essas informações podem ser desagradáveis, mas, se produzidas por rigorosa metodologia científica, como é o caso, são fundamentais para o planejamento da ocupação da área que representa dois terços do território brasileiro, abriga a maior floresta tropical do planeta e a maior bacia hidrográfica da Terra.
Uma pesquisa desenvolvida por cientistas do Inpe e dos Estados Unidos revelou que, entre 2003 e 2015, o Brasil reduziu em mais de 70% as emissões de gases estufa originadas de áreas agrícolas. No mesmo período, entretanto, houve um aumento de 30% na liberação de poluentes causados por incêndios que atingiram florestas próximas às áreas desmatadas. Uma das conclusões desse estudo foi de que as políticas públicas adotadas para mitigar o desmatamento não são eficientes para combater os efeitos do fogo.
Em meio a celeumas e questionamentos, o Inpe tem feito a divulgação sistemática desses dados há 30 anos. Governantes podem não gostar dos resultados, cientistas podem discordar das conclusões, críticos podem apontar erros. O debate é necessário para testar o produto do trabalho de tantos cientistas e dar utilidade a dezenas de milhões de reais gastos.
Deveria ter sido assim desde a semana passada, quando o Inpe apresentou os dados mais recentes (e ainda preliminares) do seu monitoramento por satélite: mais de 1.000 quilômetros quadrados de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena deste mês, um aumento de 68% em relação a julho de 2018.
Se a informação está correta, ela contém um alerta sobre a evolução das derrubadas e queimadas na floresta nos meses que vêm, no auge da seca na região. A reação do presidente Jair Bolsonaro, no entanto, foi inacreditável.
Ele questionou imediatamente a credibilidade, fidedignidade e veracidade dos dados com um argumento tosco, de arquibancada de campo de futebol: os dados divulgados “se pareceram muito com os do ano passado”.
A partir do ataque frontal do chefe, seus subordinados do setor foram se superando em absurdos e impressionismos, negando-se a encarar a atividade científica no seu ambiente específico, que exige a demonstração dos fatos alegados.
O ministro da ciência e tecnologia, Marcos Pontes, que é militar e astronauta, só encontrou uma maneira de dar aparência de coisa séria ao desiderato bolsonariano: disse ter solicitado ao Inpe relatório técnico com resultados da série histórica dos últimos 24 meses, acompanhados por dados brutos, metodologia aplicada e “quaisquer alterações significativas desses fatores” nos últimos dois anos.
Foi justamente a partir dessa base de dados que o instituto apresentou o resultado que tanto irritou o presidente e colocou em polvorosa a área científica, induzida a debater sobre o vácuo: o desagrado do dono da bola pelo resultado do jogo.
Depois de dizer que chamaria Galvão para dar explicações, Bolsonaro disse agora que o chefe do Inpe vai ser ouvido por seus ministros.
Menos categórico do que na primeira afirmativa, quando simplesmente disse que as informações do Inpe não eram verdadeiras, o presidente alegou, três dias depois, que estava apenas querendo o cumprimento da hierarquia e da voz de comando. “Eu não posso ser surpreendido por uma informação tão importante como essa. Eu não posso ser pego de calças curtas. As informações têm que chegar a nosso conhecimento de modo que nós possamos tomar decisões precisas em cima dessas informações”, explicou.
Para que isso aconteça, é muito simples: basta que ele oriente o Inpe, através do seu superior, o ministro-astronauta, a dar-lhe o privilégio da primeira leitura. Assim, Bolsonaro pode se preparar melhor para responder ao paradoxo de declarar, alto e bom som, que o Brasil é o país que mais protege a natureza no mundo, e ser desmentido pelos satélites.
Como não é característico dos poderosos admitir seu erro, o mais provável é que o presidente da república do Brasil censure o instituto científico ou, como é mais propriamente uma marca de Bolsonaro, corte-lhe os recursos financeiros, estrangulando-o. Assim, repetirá o procedimento dos potentados contra os mensageiros das más notícias, matando-os.
Os satélites, de qualquer maneira, continuarão a orbitar, diariamente, sobre o território do país que mais destruiu florestas na história da humanidade: o Brasil.
A foto que abre este artigo mostra queimadas na Amazônia e é de autoria de Daniel Beltrá/Greenpeace
*Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui
www.lucioflaviopinto.com .