
A mulher serena na frente do homem inquieto. A repórter experiente
perante a autoridade calejada. A entrevistadora firme ante o ministro
gelatinoso. A profissional de imprensa olho no olho com sua fonte. Uma
brasileira, presa e torturada na ditadura, frente a frente com o
ministro da Defesa que hoje comanda o Exército que ontem, na ditadura,
prendeu e torturou a mulher, a repórter, a jornalista, a brasileira que o
questionava (
leia abaixo o depoimento inédito de Míriam Leitão sobre as torturas que sofreu).
Esse dramático confronto de 22 minutos brilhou na tela da TV numa noite
de quinta-feira, no final de junho passado, quando a jornalista Míriam
Leitão, 61 anos, fez para a GloboNews uma notável entrevista com o
ministro da Defesa, Celso Amorim, 72 anos. Viu-se então uma aula prática
do melhor jornalismo, confrontando a convicção com a dúvida, a energia
com a tibieza, o categórico com o evasivo, a verdade com a mentira. A
repórter se agigantando num diálogo em que o ministro se apequenava,
acuado, hesitante, gaguejante.
Míriam fez o que o resto da grande imprensa, acomodada e preguiçosa,
não fez. Foi a Brasília ouvir o chefe civil dos militares, apenas nove
dias após a entrega à Comissão Nacional da Verdade (CNV) de uma insossa,
imprestável sindicância de quatro meses realizada pelos três
comandantes das Forças Armadas (FFAA). Diante de questões objetivas com
nomes, datas e locais de mortes e torturas apontadas pela CNV, os chefes
da tropa responderam, num catatau de 455 páginas, que não registravam
nenhum “desvio de finalidade” em sete centros militares do Exército,
Marinha e Aeronáutica onde foram meticulosamente documentados casos de
graves violações aos direitos humanos pelo regime militar de 1964-1985.
Os oficiais-generais das três Armas simplesmente negaram a ocorrência de
abusos até mesmo nos sangrentos DOI-CODI da Rua Tutoia, em São Paulo, e
da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde a CNV já constatou
pelo menos 81 mortes por tortura. Os comandantes esqueceram até dos 22
dias de suplício no DOI-CODI paulistano a que sobreviveu em 1970 uma
guerrilheira chamada Dilma Rousseff, hoje casualmente presidente da
República e, como tal, comandante-suprema dos generais que omitem a crua
verdade sobre a ditadura das FFAA (ver “
Quem mente? A presidente ou os generais?“).
Semblante sério, como recomendava o tema e exigia o embate, a jornalista entrou de sola na entrevista:
Míriam– Ministro, os militares disseram que não houve desvio de função, mas a resposta causou perplexidade...
Amorim – [...] A CNV não perguntou se as pessoas foram
torturadas. Ela focaliza muito na destinação dos imóveis. Com esta
pergunta, a resposta também sinaliza uma resposta formal. Não houve, não
há registro formal de desvio de funcionalidade...
Míriam– A CNV fez as perguntas erradas?
Amorim – Ela não fez as perguntas que ela não
precisava fazer [...] As FFAA não negam, nem comentam. Elas não
contestam. Elas simplesmente não entram [no assunto]. Se um
estabelecimento, militar ou outro qualquer, é usado para tortura, isso
não é um ilícito administrativo. Isso é um crime [...] Especificamente
sobre as torturas, ela [CNV] não faz nenhuma pergunta, ela afirma. E as afirmações [da CNV] não são contestadas.
Míriam– Uma coisa é o DOI-CODI prender. Outra coisa é matar o preso.
Amorim – Isso é horrível. Não é um desvio de
finalidade, é um crime. [...] Se você disser que as respostas são
formais, eu concordo. Até acho que elas são formais. Elas não são
mentirosas, nem descumprem formalmente o que foi perguntado. Elas
decepcionam quem...
Míriam– ... elas omitem a questão
principal, ministro. As pessoas foram mortas dentro de instalações
militares, foram torturadas, e não foi para isso que se criaram essas
instalações. Elas existem para defender o Brasil, não para torturar e
matar brasileiros.
Amorim – Não há a menor dúvida. Tortura e morte é errado em qualquer lugar. Eu acho isso e a sociedade brasileira acha isso...
Míriam– Mas os seus comandados não acham.
Como ministro da Defesa, o sr. é o comandante dos comandantes
militares. O sr. não deveria levá-los a tomar uma decisão sobre isso? O
que eles fizeram nessa sindicância foi tergiversar sobre a questão
fundamental que se pergunta...
Amorim – Nós estamos completando uma transição, a
última etapa da transição é o relatório da CNV. A CNV vai produzir um
relatório final e todos terão que se posicionar diante dele. Quanto às
respostas em si à CNV, elas atendem ao que foi perguntado formalmente.
Não houve nenhuma pergunta, tipo “o sr. confirma que houve tortura e
morte?”. Até porque eu sei que a resposta aí seria: “Todos os documentos
da época [da ditadura] foram destruídos”.
Míriam– É o que eles dizem, aliás.
Amorim – Não houve nenhum esforço, nenhuma pretensão de negar os fatos...
Míriam– O jornalista Zuenir Ventura escreveu que, se [tortura e morte]não era desvio de função, então era norma. O que o sr. diz dessa conclusão?
Amorim – Acho que tortura e assassinato de uma pessoa
indefesa é algo indefensável. Se isso era norma explícita, eu não... eu
creio que não. Mas, implícita, talvez fosse. Infelizmente, era um
governo ditatorial. Ninguém vai discutir isso. Você sabe muito bem: eu
deixei meu cargo na Embrafilme porque autorizei a elaboração de um filme
pago pela empresa em que a OBAN era o tema central.
Arte do convencimento
Amorim, sempre diplomata, não esclareceu bem aos telespectadores esse
episódio que o dignifica e está relacionado à OBAN, a Operação
Bandeirante, a repressão unificada em São Paulo que antecedeu em 1969 o
DOI-CODI criado no ano seguinte. Ele não “deixou” o cargo, ele foi
exonerado em abril de 1982 da presidência da Embrafilme, a estatal de
cinema da ditadura, por pressão dos generais do governo Figueiredo,
irritados com o temerário financiamento que a empresa concedeu ao
cineasta Roberto Farias para produzir
Pra Frente, Brasil. Era
um filme de 105 minutos, estrelado por Reginaldo Faria, Natália do Valle
e Antônio Fagundes retratando de forma contundente, pela primeira vez
no cinema, os horrores da repressão sem limites. Os personagens eram
calcados nos algozes da OBAN, no delegado do DOPS Sérgio Fleury e nos
empresários que financiavam a tortura do regime. O ator Carlos Zara
interpretou o sádico “Dr. Barreto”, o policial inspirado em Fleury, que
havia torturado seu irmão, Ricardo Zaratini, um dos presos políticos
trocados pelo embaixador americano Burke Elbrick em 1969. O ator Paulo
Porto encarnou o personagem inspirado no industrial Henning Boilesen que
– como caixa da OBAN no meio empresarial e amigo do poderoso ministro
Delfim Netto – foi executado por guerrilheiros em abril de 1971. Lançado
em 1982,
Pra Frente, Brasil ganhou cinco prêmios em festivais
internacionais e, após uma arrojada exibição em Gramado, RS, conquistou o
troféu de melhor filme do festival de cinema mais importante do país.
Em seguida, foi censurado e retirado das salas de exibição. Só voltou a
ser mostrado no início de 1983, liberado sem cortes.

Hoje comandante dos militares que no passado o expurgaram do serviço
público, Celso Amorim agora tem bons motivos para medir a diferença no
calendário.
Amorim – O Brasil precisa das FFAA. E os militares de
hoje não são os militares de ontem. Nós precisamos dialogar com estes
militares de hoje. Eles tem que saber separar o que foi o passado e o
que é hoje. O 31 de março já não é mais comemorado...
Míriam– Mas eles mesmos não fazem esta separação, quando não admitem os erros do passado. Até para preservar a instituição [das FFAA], eles não deveriam fazer esta separação?
Amorim – Você quer minha opinião pessoal? Acho que devem [fazer a separação].
Mas, isso não se faz com uma ordem. Isso é uma mudança cultural.
Porque, as ordens eles podem até obedecer. Isso é uma mudança cultural
que vem aos poucos. Essa ordem depende do diálogo. Há outras concepções
culturais das corporações. Como isso se concilia, é uma coisa
complicada. Não vou entrar aqui numa discussão filosófica sobre culpas
coletivas, ou culpas intergeracionais. O tempo vai fazer com que isso
ocorra. O primeiro passo é eliminar as coisas oficiais, como as
comemorações do 31 de março. Nunca ouvi de nenhum militar, pelo menos
comigo, nunca ouvi nenhum defender a tortura, sob nenhum aspecto. Nenhum
veio aqui e disse: “Ah, mas naquele caso tivemos que fazer isso...”.
Nenhum. Nunca ouvi. Nem direta, nem indiretamente.
Míriam– E nem condenaram, também...
Amorim fecha os olhos, suspira, e não diz nada. É salvo pelo intervalo
do programa de entrevista, aos 13’33’’. Na segunda parte, Amorim volta
falando das coisas positivas que vê hoje na área militar.
Amorim – [...] Como a criação do Estado Maior Conjunto
das FFAA, subordinado diretamente ao Ministério da Defesa. Ou seja, o
Ministro está na cadeia de comando, inclusive das operações militares. E
temos um secretário-geral civil, no mesmo nível dos comandantes.
Incluímos disciplinas de direitos humanos em todas as escolas militares.
Os livros [das escolas militares] devem ser aprovados pelo MEC
e fazem parte do currículo. Os colégios militares são excelentes. Você
poderia me perguntar: “Mas, o sr. não pode dar uma ordem?” Posso, mas eu
prefiro convencer. O convencimento tem mais durabilidade. Aprendi isso
com a diplomacia. Acho que o convencimento é melhor do que uma ordem
estrita.
Míriam – Em algum momento as FFAA vão se
deixar convencer a pedir desculpas ao País pelos crimes cometidos na
ditadura, para que eles não se repitam?
Amorim – Esta é uma questão complicada. Eu não sei... Acho que... talvez, talvez. Eu esperaria... Acho que o grande input
para isso seria o próprio relatório da CNV, o tratamento que ele vai
ter e como será recebido pela sociedade. Agora, você tem um conflito
entre duas concepções. Uma, as FFAA de hoje pedindo desculpas pelo que
não foi feito por elas? Não sei... Eu, como ministro das Relações
Exteriores, se formos pedir desculpas por tudo que tenha sido feito pelo
Itamaraty, inclusive no tempo da ditadura, talvez fosse complicado para
mim... Acho melhor ir mudando, mudando a prática, e deixando aquilo que
se deve ver e analisar para o Judiciário, o Congresso, a sociedade...
Mas, não sei... Talvez fosse bom para eles [os militares]. Eu acho...
Gaguejando, vacilando, traindo suas dúvidas internas, Amorim revelou na
GloboNews as incertezas existenciais que são antigas e comuns entre os
sete homens que ocuparam o Ministério da Defesa desde sua criação, em
junho de 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Nascida 14
anos após a queda da ditadura, a pasta reproduzia a experiência de
nações mais avançadas nos padrões democráticos. É a realização
administrativa da constatação feita por um médico francês do século
passado, Georges Clemenceau (1841-1929), o primeiro-ministro da França
nos anos turbulentos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que
diagnosticou: “A guerra é uma coisa demasiadamente grave para ser
confiada aos militares”. Para expurgar a arrogância natural de 21 anos
de regime de exceção no Brasil, onde a voz da caserna com frequência se
confundia com os rugidos mais assustadores da caverna autoritária, um
Ministério da Defesa ocupado por um civil tinha, como primeira vantagem,
tirar o intocado
status ministerial das Forças Armadas habituadas ao cachimbo torto da hegemonia sobre a República e do arbítrio sobre todos.
Gritos e sussurros
Rebaixando os ministros militares ao nível de comandantes, sob o tacão
de um civil na Defesa, o país imaginava se vacinar contra recidivas no
delicado processo da regeneração democrática. O problema é que, em vez
de Ministro da Defesa do Estado, cada um dos ocupantes do posto assumiu o
equivocado papel de ministro da defesa dos comandantes militares. Desde
o primeiro e mais fugaz, Élcio Alvarez, que durou meros sete meses no
cargo, até o mais longevo, Nelson Jobim, que Lula legou a Dilma e
sobreviveu no posto por longos 50 meses. Mais do que encarnar o papel de
comandante civil do governo sobre os escalões militares, os ministros
acabaram vestindo a farda de porta-vozes dos quartéis e seus chefes,
tornando mais difícil o pleno reconhecimento das diferenças cruciais que
existem entre os Exércitos da ditadura e da democracia – e que nem os
comandantes sabem separar, como reconheceu Amorim para Míriam.
O atual ministro da Defesa, profissional do Itamaraty desde 1989,
quando o país teve sua primeira eleição direta para presidente em três
décadas, levou para o cargo as manhas da diplomacia, esquecido de que o
tom acatado nos quartéis é a ordem gritada e peremptória, não o sussurro
do lerdo convencimento ciciado nas missões diplomáticas. O que Amorim
aprendeu com as luvas de pelica nos salões atapetados do Itamaraty não
combina com os coturnos empoeirados dos campos de manobra dos generais.
São áreas diferentes, são mundos separados. O ministro da Defesa, com
ingenuidade, confessou na GloboNews que é um chefe que abdica de suas
atribuições: em vez de mandar, como se faz e se espera na caserna,
prefere convencer, como nem os diplomatas às vezes conseguem.
Militar, desde a academia, sabe que o ofício do soldado é obedecer,
assim como a missão do comandante é comandar. O diplomata Amorim, com a
muleta da “durabilidade”, prefere convencer. Nas praias da Normandia,
nas areias de El Alamein, nas colinas de Waterloo, nas alturas de Monte
Castelo, no estreito das Termópilas, no mar revolto de Midway, onde
ecoaram algumas das batalhas épicas que todo oficial de Estado-Maior
estuda nas aulas de tática e estratégia em combate na academia, os
militares não esperavam ser convencidos para cumprir sua missão, para
comandar e obedecer, para matar ou morrer. Se fossem esperar pelo moroso
convencimento proposto por Amorim, os generais teriam perdido a
batalha, a guerra, a vida e talvez a honra.

O general francês Charles De Gaulle (1890-1970), que não convencia mas
sabia mandar, tinha esta áspera opinião sobre os colegas de carreira de
Amorim: “Diplomatas são úteis apenas sob bom tempo. Assim que chove eles
se afogam em cada gota”. O parlamentar inglês Henry Wotton (1568-1639),
embora embaixador, era ainda mais cínico: “O diplomata é um cavalheiro
honesto enviado ao exterior para mentir pelo bem de seu país”.
Agente da borrasca
Como o cavalheiro honesto que é, Amorim poderia dizer a verdade pelo
bem do país começando por um único pedido de desculpas, na condição de
ex-ministro das Relações Exteriores, por uma grave truculência cometida
por seus polidos pares de diplomacia exatamente no tempo da ditadura: o
Centro de Informações do Exterior (CIEx), o serviço secreto criado
dentro do Itamaraty, no primeiro governo da ditadura, o do general
Castelo Branco. Foi obra e engenho de um diplomata sempre útil e que
sorvia cada gota da borrasca, Manoel Pio Correa Júnior (1918-2013), um
anticomunista ferrenho que se notabilizou pela caça aos comunistas na
carreira diplomática e pelo combate aos “vagabundos, bêbados e
pederastas” que encontrou pelo caminho. Uma de suas vítimas mais
notáveis foi o diplomata e compositor Vinícius de Moraes, cassado pelo
AI-5. O poetinha brincava com os amigos: “Ei, eu sou o bêbado, viu?”.
Capitão R/2 da Cavalaria, o sóbrio Pio Correa vestia sobre o terno de
diplomata a capa de agente da CIA, servindo na estação do Rio de Janeiro
da agência de inteligência norte-americana, conforme revelou o
ex-agente Phillip Agee na página 384 de seu livro de memórias,
Por Dentro da Companhia
(Edição Círculo do Livro, 1976). Ali, para constrangimento de Amorim e
qualquer cavalheiro honesto, o homem da CIA no Uruguai relatou, no
diário de Montevidéu datado de 17 de junho de 1964, menos de três meses
após o golpe no Brasil:
[...] a base do Rio [da CIA] decidiu enviar mais dois de seus
elementos para a embaixada do Brasil aqui – além do adido militar,
coronel Câmara Sena. Um deles é um funcionário de carreira de alto nível
do ministério das Relações Exteriores do Brasil, Manoel Pio Correa, que
virá como embaixador; o outro é Lyle Fontoura, protegido de Pio Correa,
que será o novo primeiro-secretário. Até o mês passado, Pio era
embaixador do Brasil no México, onde, de acordo com o currículo enviado
pela base [da CIA] do Rio, demonstrou muita eficiência nas tarefas operacionais para a base [da CIA]
da Cidade do México. Contudo, como o México não reconheceu o novo
governo militar do Brasil, Pio foi chamado de volta ao seu país e a base
[da CIA] do Rio de Janeiro providenciou para que fosse nomeado
para Montevidéu, que no momento é o ponto em ebulição da diplomacia
brasileira. Assim que chegarem os novos elementos do corpo diplomático,
Holman [Ned. P., chefe da CIA em Montevidéu] entrará em contato com Pio, enquanto O’Grady [Gerald, subchefe da CIA] se encarregará de entrevistar-se com Fontoura. De uma forma ou de outra, a base [da CIA]
do Rio está decidida a elaborar operações contra os exilados, e – ao
que parece – Pio é o homem indicado, pois tem perserverança suficiente
para manter as pressões sobre o governo uruguaio.
Com a mão pesada da CIA, Pio Correa foi premiado pelo governo Castelo
Branco justamente com a embaixada em Montevidéu, onde se concentravam os
inimigos que acompanharam João Goulart e Leonel Brizola ao exílio. Lá, o
agente duplo da CIA Pio Correa, com o braço forte do adido militar, o
coronel Câmara Senna, outro serviçal da agência americana, começou a
montar o seu CIEx, formado inicialmente por uma rede de contatos que
incluía políticos, militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros e
comerciantes que fechavam o cerco sobre as atividades de Jango e
Brizola no Uruguai.

A bem sucedida experiência uruguaia o levou, como secretário executivo
do chanceler Juracy Magalhães, a redigir e assinar a portaria
ultrassecreta que criou o CIEx no governo Castelo Branco. Tão secreta
que nem constava da estrutura formal do pudico Itamaraty. A existência
do CIEx só seria confirmada em 2007, exatamente quando Amorim era o
chanceler do segundo governo Lula. A constrangedora revelação coube à
monumental série de reportagens produzida pelo repórter Cláudio Dantas
Sequeira, do
Correio Braziliense, revelando a ação repressiva
da primeira agência criada sob o amparo do Serviço Nacional de
Informações (SNI) e de seu criador, o general Golbery do Couto e Silva.
O repórter descobriu que, no início, o secreto CIEx foi camuflado como
Assessoria de Documentação de Política Exterior, ou simplesmente ADOC,
com verba secreta e subordinado à Secretaria Geral de Relações
Exteriores. Dos primeiros anos da ditadura até 1975, funcionou
dissimulado como seu criador na sala 410 do quarto andar do “Bolo de
Noiva”, o Anexo I do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Desmontado com a
ditadura em 1985, o lugar hoje abriga a inofensiva Divisão de Promoção
do Audiovisual. Vasculhando 20 mil páginas de documentos com 8 mil
informes escondidos nos arquivos do CIEx, o repórter Sequeira apurou
que, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, os
nomes de 64 das vítimas estavam lá, nas pastas secretas de Pio Correa.
Atuando em linha com os adidos militares das embaixadas, a tropa civil
dos adidos do CIEx de Pio Correa foi decisiva na atuação do Brasil na
Operação Condor, o Mercosul da repressão que caçava e matava sob o mando
e desmando dos generais do Cone Sul do continente.
Proposta indecente
Como chefe dos diplomatas, Amorim não lembrou de pedir desculpas pelo
CIEx. Como chefe dos militares, Amorim chegou a pensar em um pedido de
desculpas dos generais pelos 21 anos de ditadura. Foi o que ele fez em
18 de fevereiro passado, em seu gabinete no Ministério da Defesa, em
Brasília, na audiência que concedeu aos seis comissários da Comissão
Nacional da Verdade. O ministro se remexeu na cadeira, surpreso e
incomodado com a entrega inesperada do requerimento da CNV, listando
sete locais de tortura e morte administrados pelo Exército, Marinha e
Aeronáutica. Ele reagiu com uma proposta inusitada, que desconcertou os
comissários: ofereceu, em nome dos comandantes das FFAA, um pedido
público de desculpas ao país pelos excessos cometidos em duas décadas de
arbítrio. Em troca, Amorim pediu à CNV garantias de que não haveria a
temida revisão da Lei de Anistia que a ditadura se autoconcedeu em 1979
no governo Figueiredo, para salvar a pele e a biografia dos torturadores
até hoje impunes.
Os comissários reagiram na hora, com a altivez devida, rejeitando a
proposta indecente de Amorim. Ela apenas retrata a preocupação crescente
dos quartéis com uma provável recomendação de impacto no relatório
final da CNV, a ser apresentado ao país em dezembro próximo. É cada vez
mais forte a tendência na CNV para recomendar a revisão da anistia da
ditadura, diante das pesadas evidências e contundentes provas
documentais que se acumulam sobre abusos e violências cometidos pelo
regime arbitrário de 1964. Aceitar os termos do Ministro da Defesa para o
pedido de desculpas dos generais seria uma indesculpável barganha
política que fere o bom-senso e a ética.
Seria coisa ainda pior, a transgressão de um mandamento pétreo
proclamado pelo mestre maior de Amorim e seus colegas de carreira: “Um
diplomata não serve a um regime e sim ao seu país”, ensinou o diplomata
José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845-1912), o
chanceler que atravessou quatro governos da nascente República, no
início do Século 20, e ampliou o Brasil redesenhando suas fronteiras. Os
generais de hoje devem pedir desculpas à Nação pelos erros cometidos
pelos generais de ontem como um imperativo ético que demarca fronteiras
morais e faz uma justa e sanitária separação entre o Exército da
democracia, a que eles servem, e o Exército da ditadura, que eles
deveriam repudiar para preservar a honra e a imagem histórica da
corporação.

Amorim esqueceu de se desculpar na GloboNews pelo desonroso CIEx. Não
recordou da ideia de um pedido de desculpas dos generais ao país. E,
distraído, não lembrou da ficha da repórter que o entrevistava no seu
gabinete. O ministro da Defesa, até pela autoridade do cargo, conhece os
detalhes da biografia de Míriam Leitão que o Brasil desconhece. Amorim
esqueceu que era entrevistado por uma sobrevivente da ditadura e das
torturas que os generais sob seu comando agora negam, como negaram as
torturas no DOI-CODI onde padeceu a guerrilheira da VAR-Palmares Dilma
Rousseff.
O “doutor” e a jibóia
Míriam não integrava a luta armada, como Dilma. Nos idos de 1972, aos
19 anos, Míriam era uma militante da base estudantil do então
clandestino PCdoB, que tentava derrubar em Vitória (ES) a mesma ditadura
que mantinha Dilma no cárcere, em São Paulo (SP). “A gente apenas
pichava muros, espalhava cartazes nos pontos de ônibus e nas cabines de
orelhões. Lembro que um dia pichei ‘Viva a guerrilha do sul do Pará!
Abaixo a ditadura!’ Um idealismo de jovens que acreditavam naquilo, que
sabiam que era preciso resistir a tudo aquilo, até mesmo com um simples
panfleto”, lembrou Míriam.
Mineira de Caratinga, filha de um pastor presbiteriano e de uma
professora primária, sexto filho do casal (depois de três mulheres e
dois homens) numa família de 12 irmãos, ela cursava o primeiro ano de
História quando conseguiu um emprego na redação de uma rádio de Vitória,
o que mudaria sua carreira para sempre. Estreava na profissão como
repórter quando sentiu na carne o peso da repressão, sequestrada e presa
durante três meses, entre dezembro de 1972 e fevereiro de 1973, no
quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército em Vila Velha, onde
foram encarceradas e torturadas cerca de 40 pessoas – a maioria
estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo e um dos
professores, o médico Vítor Buaiz, que fundou o PT, elegeu-se prefeito
de Vitória em 1989 e sagrou-se governador do Estado em 1994.
Na primeira parte do livro
Brasil: Nunca Mais, dedicado a
“Castigo Cruel, Desumano e Degradante”, o Capítulo 2 fala sobre “Modos e
instrumentos de tortura”. Na página 39 do trabalho, um resumo do
projeto original em 12 volumes escrito por Ricardo Kotscho e Frei Betto,
existem oito depoimentos de presos políticos torturados sob a rubrica
“Insetos e Animais”.
O quarto depoimento, registrado no livro nº 674, volume 3, páginas 782v-783 do projeto
Brasil: Nunca Mais,
é a transcrição parcial do auto de qualificação e interrogatório de uma
jornalista, então com 20 anos, chamada Míriam de Almeida Leitão Netto.
Suas palavras:
[...] que, apesar de estar grávida na ocasião e disto ter ciência os
seus torturadores [...] ficou vários dias sem qualquer alimentação;
[...] que as pessoas que procediam o interrogatórios, soltavam cães e cobras para cima da interrogada; [...]
No livro de Kotscho e Betto havia outro depoimento, de um auxiliar de
escritório de 31 anos, Dalton Godinho Pires, que em 1973, no volume 5 do
livro n° 75, página 1224, revelou no seu interrogatório:
[...] havia também, em seu cubículo, a lhe fazer companhia, uma jiboia de nome Míriam [...]
Não era uma piada. Era uma jiboia mesmo, um exemplar da
boa constrictor,a
segunda maior cobra do Brasil (só menor que a sucuri), que mede em
média três metros de comprimento. O autor deste artigo lembrou desses
dados e entrou em contato com Míriam Leitão para esclarecer melhor sua
dramática passagem pelo quartel do Exército na praia de Piratininga, no
bairro Prainha de Vila Velha, 12 quilômetros ao sul da capital capixaba.
Míriam me contou:
“Fiquei presa ali, no 38º Batalhão. Os torturadores vieram de fora e,
depois, sumiram. Eles trouxeram a cobra. Eu lembro que chamavam o pior
dos torturadores, o dono da cobra, de Dr. Pablo.”
Dr. Pablo era o codinome de um dos mais truculentos oficiais
do DOCI-CODI do II Exército, na Rua Barão de Mesquita, no bairro carioca
da Tijuca: Paulo Malhães, coronel do Centro de Informações do Exército
(CIE). Em março passado Malhães deu um aterrador depoimento à Comissão
Nacional da Verdade, numa sessão no Rio com a presença da imprensa. Ali
confessou ter arrancado as arcadas dentárias e cortado os dedos de
presos mortos sob tortura para não permitir a identificação dos corpos
desaparecidos. Um mês depois da confissão, Malhães foi encontrado morto
em seu sítio, na Baixada Fluminense, aparentemente vítima de infarto
após ter a casa invadida por três bandidos, que fugiram dali levando,
entre outros artigos bizarros para um ladrão, três pastas de documentos e
o disco rígido de um dos dois computadores do coronel.
Dois anos antes, em junho de 2012, Malhães confirmou ser o dono da
Míriam,
a cobra que deslizou pela cela da aterrorizada Míriam no batalhão do
Exército em Vila Velha. O coronel do CIE contou aos repórteres de
O Globo
Chico Otávio, Juliana del Piva e Marcelo Remígio que, na primeira
metade da década de 1970, levou cinco filhotes de jacaré e uma jiboia
para torturar os presos na carceragem do Pelotão de Investigações
Criminais (PIC) do I Exército, na Barão de Mesquita, sede do DOI-CODI
carioca, onde podem ter morrido 30 presos, segundo estimativas da CNV.
Malhães tinha atuado na “Casa Azul”, o QG da repressão à guerrilha do
Araguaia, instalado na antiga sede do DNER em Marabá, no sul do Pará.
Ali, segundo levantamento da CNV, morreram 24 presos, 22 dos quais
militantes do PCdoB, o mesmo partido pelo qual Míriam pichava muros e
espalhava panfletos em Vitória antes do encontro dramático com a
Míriam do
Dr. Pablo. O coronel contou aos repórteres de
O Globo:
“Eu estava um dia à beira de um rio, na região do Araguaia, quando
senti a terra tremer. Descobri que estava sentado em cima de um ninho
com filhotes de jacaré. Consegui pegar cinco, que batizei de Pata,Peta,Pita,Pota eJoãozinho. E ainda peguei uma jiboia de seis metros, que chamei de Míriam. Trouxe todos para o DOI-CODI, no Rio. Os filhotes de jacaré não mordiam. Só faziam tec-tec com a boca...”
O jornalista mineiro Dalton Godinho Pires, citado
pelo Brasil: Nunca Mais, ficou quatro anos preso, mas gravou na pele e na memória os 90 dias de terror no PIC da Barão de Mesquita, graças à
Míriam. Localizado em 2012 pelo repórter Chico Otávio, Pires lhe contou:
“Eles chegaram com um isopor enorme, apagaram a luz e ligaram um som
altíssimo. Percebi na hora que era uma cobra imensa, que eles chamavam
de Míriam. Felizmente, ela não quis nada comigo. Mas, irritada
com a música, a cobra não parava de se mexer. O corpo dela, ao se
deslocar, arranhou o meu. Cheguei a sangrar. Mas o maior trauma foi o
cheiro que ela exalava, um fedor que custei a esquecer.”
Verso e reverso
Quando leu esta reportagem dois anos atrás, no jornal em que trabalha,
Míriam teve uma longa e privada crise de choro, ao cruzar na memória de
dor o relato de cobras e jacarés da repartição de terror do coronel
Malhães. “Era muita coincidência. A ninguém eu disse isso, nem aos meus
filhos”, confessou-me ela, sempre refratária a discutir publicamente o
seu drama pessoal. “Guardo aqui a sensação de que a minha dor eu mesmo
curo. Não é dela que se trata. O que é importante é a dor do país e ela
faz certas exigências às instituições. Uma delas é esse reconhecimento
das Forças Armadas de que erraram”.
Com a elegância exigida, Míriam preservou os limites institucionais de
sua entrevista com o Ministro da Defesa, sem jamais confundir sua
história de vida com a vida do país, embora elas se cruzem e se
confundam. A consciência de que tinha diante de si uma sobrevivente da
ditadura deve explicar o desempenho nervoso de Amorim na entrevista, ao
tentar defender o que ele sabia, de corpo presente, não ser verdade. Aos
61 anos, mãe de dois filhos, ambos jornalistas (Vladimir, repórter da
Rede Globo em Brasília, e Matheus, repórter da
Folha de S.Paulo
na sede do jornal), e avó de quatro netos, Míriam é hoje uma das mais
importantes profissionais da imprensa brasileira. Acumula 24 prêmios de
jornalismo, a terceira maior coleção de troféus no
ranking nacional do site
Jornalistas & Cia, logo atrás dos campeoníssimos José Hamilton Ribeiro, o mais premiado repórter brasileiro de todos os tempos, e Eliane Brum.
Em 2005, Míriam tornou-se a primeira jornalista brasileira a receber o
Prêmio Maria Moors Cabot, patrocinado pela prestigiosa Escola de
Jornalismo da Universidade de Columbia (EUA), uma das mais importantes
do mundo. Em 2012, Míriam produziu para a GloboNews um programa especial
de 50 minutos,
A história inacabada, com um devastador relato
sobre o sequestro, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva. O
trabalho lhe deu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos,
concedido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
Existe uma maneira simples para definir a qualidade do jornalismo e a
essência da conduta profissional de Míriam Leitão. Veja e reveja os dois
programas que ela conduziu com brilho e coragem para a GloboNews.
Aquele sobre a história inacabada do desaparecido Rubens Paiva, este
sobre o desempenho do irresoluto Celso Amorim. O ex-deputado e o atual
ministro são, por razões opostas, o verso e o reverso de um mesmo país,
ainda atolado no medo endêmico e no cinismo contagioso que rebaixa o
debate sobre nosso passado recente.
As perguntas de Míriam e as respostas de Amorim provam, na telinha da
GloboNews, que ainda existem jibóias que se enroscam na mentira e
jacarés que tentam atemorizar a verdade. O didático enfrentamento na TV
entre a repórter e o ministro deixou claro, para os que querem ver, quem
enfrenta a jiboia e quem instiga os jacarés.
O inferno das duas Míriam: a jornalista e a jibóia
Três anos atrás, sem contar nada ao marido e aos filhos, Míriam Leitão
fez uma furtiva viagem de volta ao passado e ao inferno de sua
juventude.
Saiu do Rio de Janeiro e uma hora depois desembarcou em Vitória. Pegou
um carro, atravessou a Terceira Ponte, que liga a capital à cidade de
Vila Velha, do outro lado da baía, e seguiu em direção a um dos
principais pontos turísticos do Estado: o morro da Penha, uma elevação
de 150 metros de onde se admira uma bela paisagem. No alto está o velho
Convento da Penha, com uma história de 454 anos. Ao pé do morro está
outro monumento: o Forte de Piratininga, ali plantado em meados do
século 16.

Míriam não fazia um repentino programa de turista. Era uma dorida
viagem interior ao cenário dos piores momentos que a jornalista passou
em sua vida. “Quando o país começou a discutir a criação da Comissão da
Verdade, por volta de 2011, decidi voltar lá. Eu quis fazer minha viagem
pessoal, um retorno particular à minha história”, explica Míriam, no
emocionado desabafo que faz pela primeira vez, quatro décadas após o
inferno que amargou naquele cenário hoje encantador. Desde o final da
Primeira Guerra Mundial, o forte lá embaixo abriga um batalhão de
infantaria subordinado ao Comando Militar do Leste (antigo I Exército),
no Rio de Janeiro. A construção mais antiga, redonda [
na foto, no alto à esquerda],
é o prédio histórico da Fortaleza São Francisco Xavier de Piratininga,
reformado no século 17. Foi ali que a Míriam quase adolescente de 1972,
uma menina grávida de 19 anos, desceu ao submundo da repressão
desatinada que marcava o auge da violência do governo mais truculento da
ditadura, o do general Emílio Garrastazú Médici.
No início do século 20, a unidade ainda se chamava 3º Batalhão de
Caçadores. Em setembro de 1972, três meses antes da prisão ali de Míriam
Leitão, o lugar mudou de nome, passando a chamar-se 38º Batalhão de
Infantaria. Entre os 707 processos políticos vasculhados no Superior
Tribunal Militar pelo projeto Brasil: Nunca Mais, seis deles procedem do
único quartel do Exército baseado em solo capixaba, oriundos do belo
forte de Vila Velha. Neles, constam 46 denúncias de torturas consumadas
no antigo 3º Batalhão de Caçadores. Outros 13 casos de torturas envolvem
o atual 38º Batalhão de Infantaria. Todos se referem ao ano de 1972. Um
deles é o de Míriam.
Foi lá que Míriam enfrentou a danação de um nome que resumia como
ninguém a truculência do regime: o coronel Paulo Malhães, o temido “Dr.
Pablo” do DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita. Ao ver na TV o velho
torturador de 76 anos depondo para a Comissão da Verdade, cinco meses
atrás, Míriam chegou a duvidar que fosse o mesmo e fogoso oficial de 34
anos e cabeleira negra e farta que comandou seu interrogatório. Mas ela
recorda bem que os outros militares o chamavam de “Dr. Pablo”, o
codinome que Malhães usava no DOI-CODI. Existe outra forte coincidência a
confirmar a identidade do doutor com o coronel. Malhães veio do Rio
trazendo um acessório de tortura que o tornou inconfundível na mitologia
da repressão, pelo inusitado da escolha: uma cobra.
Na verdade, uma jiboia que Malhães trouxe do Araguaia e casualmente apelidou de
Míriam.
Talvez para assustar ainda mais suas vítimas, o coronel dizia que a
cobra media seis metros de comprimento. Um evidente exagero do “Dr.
Pablo”, pois nem Míriam lembra de uma cobra tão grande. Jiboia dessa
dimensão, com 6 metros e 120 kg de peso, só foi vista anos atrás no
Camboja. Uma jiboia amazônica como
Míriam é mais modesta, varia entre 2 e 3 metros e tem 50 kg de peso, ainda assim com tamanho suficiente para intimidar qualquer um.
Durante horas de um dia assustador a jiboia do “Dr. Pablo” foi a
solitária companhia na sala onde Míriam Leitão esteve trancafiada no
quartel. Quando voltou à vida, libertada três meses depois, a jovem
franzina que só pesava 50 kg tinha perdido 11 kg no cativeiro, onde
chegou com um mês de gravidez.

Para a visita agora a esse passado de terror, Míriam contou com a ajuda
do ex-governador Paulo Hartung, que conhecia o comandante de 2011 da
guarnição e facilitou o acesso da ex-presa. “Fui sozinha, não queria
ninguém junto comigo. Era uma jornada só minha. Entrei e não precisei
que ninguém me mostrasse o caminho. Era esquisito, não tenho bom senso
de orientação, mas eu conhecia aquele quartel como a palma da minha mão.
Percebi algumas reformas, paredes que não existem mais, escadas que
mudaram de lugar, salas que foram modificadas. Não me permitiram ir a
alguns lugares, mas o essencial estava na minha memória”, conta Míriam,
hoje, com o tremor na voz que trai os demônios que assombraram aquele
lugar. Ela posou para fotos junto à porta da cela onde ficou um tempo,
tiradas pelo motorista que a acompanhava. E conseguiu voltar à sala
grande onde passou a madrugada de horror com sua homônima jiboia. “O
lugar agora é um anfiteatro, mas eu fui direto ao ponto onde me
mantiveram de pé, nua, durante horas, antes e durante o tempo em que
fiquei com a cobra. É uma imagem que não sai da minha cabeça. Ali eu fiz
essa foto”, explica, abrindo pela primeira vez seu arquivo pessoal.
Míriam, em meio a tanto sofrimento, lembra de um paradoxo que vivia na
época: “Minha cela ficava na fortaleza. Quando eu saía de lá à noite e
era levada para outro local de tortura, eu a contornava e passava pela
escadaria. Saía desse belo prédio circular, às margens da baía – e que
hoje, por ironia, o Exército aluga para festas –, e era levada para a
parte nova do quartel onde funcionavam algumas seções administrativas do
quartel. Olhava aquele lugar lindo, lindo até hoje, o convento lá em
cima, e pensava o quanto nada daquilo fazia sentido. Era uma beleza que
contrastava com a violência daquele lugar. Eu não conseguia entender
isso. Não entendia naquela época, não entendo até hoje”, diz Míriam, a
voz embargada pela emoção da memória. Pela primeira vez, Míriam Leitão
conta aqui como viveu, e sobreviveu, naquele lugar:
DEPOIMENTO DE MÍRIAM LEITÃO
“Eu sozinha e nua. Eu e a cobra. Eu e o medo”

Eu morava numa favela de Vitória, o Morro da Fonte Grande. Num domingo,
3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na época, Marcelo Netto,
estudante de Medicina, acordamos cedo para ir à praia do Canto, próxima
ao centro da capital. Acordei para ir à praia e acabei presa na Prainha.
É o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa construção bonita do
século 17. Ali está instalado o quartel do 38º Batalhão de Infantaria
do Exército, do outro lado da baía.
Eu tinha dado quatro plantões seguidos na redação da rádio Espírito
Santo e já tinha quase um ano de profissão. Eu vestia uma camisa branca
larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em
direção à praia, alguém gritou de repente:
– Ei, Marcelo?
Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa direção com armas. Eu
reconheci um rosto que vira em frente à Polícia Federal. Meu ônibus
sempre passava em frente à sede da PF e eu tentava guardar os rostos.
– É a Polícia Federal – avisei ao Marcelo
Em instantes estávamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:
– O que está acontecendo?
Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o camburão. Era uma
camionete Veraneio, sem identificação. Eu tive uma reação curiosa: antes
que me empurrassem sentei no chão da calçada e comecei a gritar, a
berrar como louca, queria chamar a atenção das pessoas na rua. Mas ainda
era cedo, manhã de domingo, havia pouca gente circulando. Achava que
quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva.
Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar
no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justiça na cabeça, reclamei:
– Moço, cadê a ordem de prisão?
O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:
– Esta serve?
As algemas eram diferentes, eram de plástico, e estavam muito
apertadas, doíam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em direção a
Vila Velha, onde fica o quartel do Exército. Eu ainda achava que não
era nada comigo, que o alvo era o Marcelo. Ele estava no quarto ano de
Medicina e tinha acabado de liderar a única greve de estudantes do país
daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de
Vitória e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Achei que
estava presa só porque estava indo à praia com o Marcelo.
A Veraneio entrou no pátio do quartel, o batalhão de infantaria. Nos
levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno,
que durou 13 meses, e eu o meu. Sobre mim jogaram cães pastores babando
de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados
gritavam: “Terrorista, terrorista!”. Pareciam treinados para ficar mais
bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os
soldados que me cercavam começaram a cantar aquela música do Ataulfo
Alves: “Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de
verdade”. Só então percebi que minha prisão não era um engano. “Amélia”
era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim:
“Você, a partir de agora, vai se chamar Amélia”. Quis reagir na hora,
afinal não tenho nada de Amélia, mas não quis discordar logo na primeira
reunião com o dirigente.
O comandante do batalhão era o coronel Sequeira [
tenente-coronel Geraldo Cândido Sequeira, que exerceu o comando do 38º BI entre 10 de março de 1971 a 13 de março de 1973],
que fingia que mandava, mas não via nada do que acontecia por lá. O
homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capitão
Guilherme, o único nome que se conhecia dele. Ele era o chefe do S-2, o
setor de inteligência do batalhão. Todos os interrogatórios e torturas
estavam sob a coordenação dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele
tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofetão só porque eu o
encarei.
– Nunca mais me olhe assim! – avisou.

Fui levada para uma grande sala vazia, sem móveis, com as janelas
cobertas por um plástico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno
palco elevado, onde me colocaram de pé e me mandaram não recostar na
parede. Chegaram três homens à paisana, um com muito cabelo, preto e
liso, um outro ruivo e um descendente de japonês. Mandaram eu tirar a
roupa. Uma peça a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto
me bateu:
– A roupa! Tire toda a roupa.
Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram
entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as
mãos. O homem de cabelo preto falou:
– Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim.
Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam,
ameaçando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas é
relativo, não sei quanto tempo durou essa primeira ameaça. Viriam
outras.
Eles saíram e o homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo,
voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da
sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me
deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu não conseguia ver nada, estava
tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei
naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento. Então,
fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um
verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um
tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor
volta. Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única
companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera,
ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo
doía.
Não sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu não tinha noção
de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali,
sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior
porque não via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto. Não
sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu não ouvia nada, não via
nada. Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o
resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro.
Lembro que quando aqueles três homens voltaram, davam gargalhadas, riam
da situação. Eu pensava que era só sadismo. Não sabia que na tortura
brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que além
de tudo tinha o apelido de
Míriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso.
Míriam e Míriam, juntas na mesma sala. Essa era a graça, imagino.

Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas.
As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes,
puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na
nuca, o sangue molhou meu cabelo. Ninguém tratou de minha ferida , não
me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja
que, com a forte bofetada do capitão Guilherme, eu deixei cair no chão.
Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o
que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do
meu desaparecimento. Só três dias após minha prisão é que meu pai
recebeu, em Caratinga, um telefonema anônimo de uma mulher dizendo que
eu tinha sido presa. Ele procurou muito e só conseguiu me localizar no
fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas só ao final de
três semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora,
Beth, Magdalena, estudantes, como eu.
Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, saí
três meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei lá com um mês de gravidez, e
tinha enormes chances de perder meu bebê. Foi o que médico me disse,
quando saí de lá, com quatro meses de gestação. Eu estava deprimida, mal
alimentada, tensa, assustada, anêmica, com carência aguda de vitamina D
por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu bebê
na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o
médico.
– A má notícia eu já sei, doutor, vou procurar logo um médico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.
Mas isso foi ao sair. Lá dentro achei que não havia chance alguma para
nós. Eu era levada de uma sala para outra, numa área administrativa do
quartel, onde passava por outras sessões de perguntas, sempre as mesmas,
tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimidação. Na
noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sessão de interrogatório
pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me ameaçando de estupro,
dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer. Entraram no meio
da noite na cela do forte para onde eu fui levada após esses dois dias.
Falaram que seria o último passeio e me levaram para um lugar escuro,
no pátio do quartel, para simular um fuzilamento. Vi minha sombra
refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma
menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e
fuzis, e pensei: “Eu sou muito nova para morrer. Quero viver”.
Um dia, um outro militar, que não era nenhum daqueles três, botou um
revólver na minha cabeça e falou: “Eu posso te matar”. E forçou aquele
cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solidão, de
abandono. Eu me senti absolutamente só no mundo. Pela falta de notícias,
imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer também e
que ninguém saberia da minha morte, pensei. Mas não quis demonstrar
medo. Lembro que o homem do revólver tinha olhos azuis. Olhei nos seus
olhos e respondi: “Sim, você pode pode me matar”. E repeti, falando
ainda mais alto, com ar de desafio: “Sim, você pode!”
Um dos interrogatórios foi feito na sala do capitão Guilherme, o S-2
que mandava em todos ali. Era noite, ele não estava, e me interrogaram
na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem
do Duque de Caxias. Estava ainda com o biquíni e a camisa, era a única
roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui
desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando,
me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no
sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro,
divertindo-se com tudo aquilo.
Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou.
Ignoraram a revelação e minha condição de grávida não aliviou minha
condição lá dentro. Minha cabeça doía, com a pancada na parede, e o
sangue coagulado na nuca incomodava. Eu não podia me lavar, não tinha
nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, à
noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um
bando de pastores alemães latindo na minha cara. Não mordiam, mas
pareciam que iam me estraçalhar, se escapassem da coleira. E, para
enfurecer ainda mais os cães, os soldados gritavam a palavra que
enlouquecia a cachorrada: “Terrorista, terrorista!...”
As primeiras três semanas que passei lá foram terríveis. Só melhorou
quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi então
que eles não pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, é
o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: “E aí, quando
voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer lá...” Isso fazia sentido,
porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Exército, hoje
Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.
Quando o trio voltou para o Rio, a situação ficou menos ruim. Eles já
não tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e
me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte não havia
janelas, a porta era inteiriça e minhas companhias eram apenas as
baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.

Até que chegou o dia de assinar a confissão, para dar início ao IPM, o
inquérito policial-militar que acontecia lá mesmo, dentro do quartel. Me
levaram para a sala do capitão Guilherme, o S-2, e levei um susto. Lá
estava o Marcelo, que eu pensava estar morto. Os militares saíram da
sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o
Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi até a
parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e
microfones lá atrás. Era tudo grampo.
Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila
Militar, no Rio de Janeiro, e lá ficou nove meses numa solitária. Sem
banho de sol, sem nada para ler, sem ninguém para conversar. Foi
colocado lá para enlouquecer. Nove longos e solitários meses... Nós,
todos os presos, e os que já estavam soltos nos encontramos mais ou
menos em junho na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que eles chamam de
sumário de culpa, o único momento em que o réu fala. Eu com uma barriga
de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a
maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o
PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e
pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi
condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo.
Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança
de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o
erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que
fizeram.
Nunca mais vi o capitão Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma
vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um
ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, após a prisão, e
virou jornalista. Fomos para Brasília em 1977. Por ironia do destino,
Marcelo só conseguiu vaga de repórter para cobrir os tribunais. E lá no
STM, um dia, ele reviu o capitão Guilherme. Depois disso, não soubemos
mais dele. Nem sei se o S-2 ainda está vivo.
O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que
vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu
sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram
coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu
inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.
Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem
qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1).
Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e
Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.
Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda
aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum
ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro
democrático do país. [
Depoimento a Luiz Cláudio Cunha]
***
Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor – O Sequestro dos Uruguaios: uma reportagem dos tempos da ditadura