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sábado, 13 de outubro de 2012

MENSALÃO (BEM x MAL)

 

 barbara gancia

 

12/10/2012 - 03h00

Bem x Mal

Está tudo muito bom, está tudo muito bem. E o "The New York Times", o "Financial Times" e o "Times" de Londres po­dem estar certos de que o julga­mento do mensalão representa um avanço brutal para a democracia tapuia, como bem notou o nosso monumental Clóvis Rossi em sua coluna de ontem, mas esta "bastian contraria" (a expressão é piemon­tesa) que vos fala veio posar na sua sopa para discordar.
É claro que quem tem culpa que pague o que deve. E eu também, co­mo todo o resto do Ocidente (excluindo talvez o Suriname, Cuba e a Cristina Kirchner --que deve sentir coisas por ele), não vou com os cornos do Zé Dirceu. O homem escondeu a pró­pria identidade da mulher, vive de amassos com os Castro, não é exatamente exemplo de democrata e blá-blá-blá-blá-blá.
Acontece que não consigo disso­ciar a imagem de Joaquim Barbosa de Torquemada e o julgamento do mensalão da Inquisição. Estamos assistindo a um massacre e há mui­to ainda a considerar.
Diziam que o julgamento seria parcial porque Lula havia escolhi­do os juízes. Não aconteceu. Aliás, essa desconfiança preconceituosa me faz lembrar o terceiro mandato de Lula, que não houve.
Enunciavam também que o men­salão ia dar a vitória a Russomanno em primeiro turno. Não aconteceu. Por sinal, a economia nem vai tão bem e Haddad lidera as pesquisas.
E Lula, ora, Lula foi o grande ven­cedor do primeiro turno (tadinha da Martoca) e vai levar São Paulo de enxurrada, né não?
Fica claro tam­bém que a classe média alta que se diz informada, mas que raramente acaba obtendo colocação profissio­nal fora do âmbito familiar, quer ver o PT ser varrido do mapa. Essa é a turma que torce como nunca no Fla-Flu do julgamento do STF.
Nos últimos tempos, até a Dilma eles têm tratado com um desdém que antes não havia ali. Já para o zé povinho, tanto faz. Para a perifa, obviamente não só despida de pre­conceito contra o Lula como iden­tificada com ele até a alma e beneficiada pelas mudanças sociais, escândalo de compra de votos da reeleição, anões do Con­gresso, Sivam, Zé Dirceu, Collor... é tudo a mesma lasanha.
Eu até concordo que a gente quei­ra ver canalhas ricos o bastante pa­ra contratar advogados top na ca­deia. Mas, vem cá: o Genoino, gen­te? Todo mundo conhece o Genoi­no, sabe que ele não vive no luxo. E não merece o que está acontecen­do.
Nesta semana vi gente com san­gue nos olhos dizendo que queria vê-lo atrás das grades. Isso não po­de ser sede de justiça. É outra coisa. É preconceito puro. E olha que o Muro de Berlim já caiu há mais de 20 anos!
É uma deturpação das mais dano­sas ao país colocar na capa da maior revista semanal tapuia uma crian­ça negra e pobre que subiu na vida pelo próprio esforço como se ela fosse o novo Pelé.
É como se a classe dominante dissesse: "Os nossos pretos pobres são melhores do que os deles". Os negros pobres do Lula precisam do Bolsa Família e de cotas para chegar lá. Joaquim Barbosa (que, note, se declara eleitor do PT) venceu sozinho, não precisou de "política assistencialista", não é mesmo? Pessoal ainda não enten­deu que não é muleta, mas repara­ção por séculos de apartheid social.
Seria lição de democracia se do julgamento do STF constassem não só PT, mas PSDB, DEM etc. Julgar ignorando garantias, sem direito a recurso e partindo da cer­teza de que quanto menos provas, maior o poder do réu e, portanto, hipoteticamente, maior sua culpa, é inver­ter a lógica. Isso não pode ser coisa boa, viu, "Times" de Londres?




Barbara Gancia Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista da versão impressa de "Cotidiano" e das revistas "sãopaulo".



FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/barbaragancia/1168202-bem-x-mal.shtml

sábado, 11 de agosto de 2012

CIDADES

A pobreza jogada para debaixo do tapete

10 ago -
 
O leitor do Jo- rnalismo B Impresso recebe, nas páginas centrais desta edição, uma entrevista com o presidente da Associação de Moradores da Nova Chocolatão. A vila Chocolatão foi removida da região central de Porto Alegre em maio de 2011 e, se as condições em que viviam mais de duzentas famílias eram péssimas, os problemas apenas foram trocados por outros, como a falta de um endereço fixo ou a dificuldade para trabalhar e para pagar as contas.
O que acontece com a população da Chocolatão não é exceção em Porto Alegre, nem é exceção no Brasil. A expulsão de comunidades inteiras das regiões centrais das grandes cidades tem sido prática comum em diversas capitais brasileiras. Em alguns casos, a limpeza social acontece diretamente relacionada às obras para a Copa do Mundo de 2014. Em outros, é pura higienização das regiões centrais sob os olhares ansiosos das empreiteiras e sob o silêncio patrocinado da mídia oligárquica.
No Rio de Janeiro, chegou-se ao cúmulo de se colocar tapumes para que as favelas localizadas no caminho entre o aeroporto e a Zona Sul não sejam visíveis aos sensíveis olhos dos turistas. O caso da remoção da comunidade de Pinheirinho, em São Paulo, é o mais famoso, como também ficou conhecida a situação da Ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte, ambas tratadas à violência policial.
É necessária uma reflexão – e uma ação – geral, unindo essas pautas em torno de uma luta comum por cidadania, contra a pobreza e a expulsão da pobreza para a perifeira, e contra a transformação das regiões centrais das grandes cidades em espaços insossos, sem povo e sem voz. A cidade precisa ser das pessoas. De todas elas.

O texto acima é o editorial da 42ª edição do Jornalismo B Impresso. A edição será distribuída em Porto Alegre na próxima semana, e o jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

Fonte: http://jornalismob.com/