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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

ERATÓSTENES

 


O gênio africano que, há mais de 2 mil anos, com um graveto, provou que Terra é redonda


  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Eratóstenes ensinando em Alexandria, em pintura feita por Bernardo Strozzi, no século 17

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

SUSTENTABILIDADE






'O pessoal está notando que a gente existe': o aplicativo que coloca catadores de recicláveis no mapa


Dona Rosa com sua KombiDireito de imagemFERNANDO CAVALCANTI
Image captionDona Rosa agora se conecta, via aplicativo, com as pessoas e locais que têm material reciclável de que querem se desfazer
Nos mais de 20 anos de carreira como catadora de materiais recicláveis, Rosineide Moreira Dias das Neves, a dona Rosa, se habituou à penosa rotina de percorrer as ruas do Recife na missão de filtrar o que é reciclável do que é lixo nas calçadas, tendo que enfrentar preconceito pelo caminho.
"Tem muita gente que discrimina o que a gente faz. Acha que a gente é catador de lixo. Não entende que não é lixo, é reciclagem", diz a pernambucana de 55 anos. "A gente está tentando limpar o ambiente, mas a sociedade não vê."
Os périplos incertos em busca de papelão, garrafas PET, latinhas de alumínio e outros materiais estão dando lugar a viagens mais garantidas, na medida em que aumentam os chamados de endereços certos para coletar materiais recicláveis - em residências, escolas, lojas ou edifícios.
Dona Rosa é uma entre 71 catadores e catadoras de Pernambuco cadastrados no Cataki, um aplicativo lançado em julho do ano passado para conectar catadores independentes a cidadãos ou empresas que queiram dispor materiais recicláveis corretamente - e se descreve como um "Tinder da reciclagem", em referência ao aplicativo de relacionamentos.
Desenvolvido pela ONG Pimp My Carroça, do grafiteiro e ativista Mundano, de São Paulo, o Cataki ganhou, em fevereiro, em Paris, o grande prêmio de inovação do Netexplo, observatório que estuda o impacto social e econômico de tecnologias digitais e premia as iniciativas consideradas mais inovadoras, em um fórum realizado em parceria com a Unesco. 
O aplicativo indica os catadores de uma região em um mapa com ícones de carroças, o veículo com que a maioria transporta os resíduos que coleta.
'Para eles é lixo, mas para a gente é sobrevivência'
De acordo com a ONG, os catadores são responsáveis pela coleta de 9 em cada 10 quilos de material reciclado no país - mas não têm reconhecimento pelo papel que desempenham. O Censo de 2010 identificou no Brasil, na época, cerca de 400 mil catadores de materiais recicláveis.
O país gera mais de 200 mil toneladas de lixo por dia, mas uma parcela pequena vai para reciclagem - cerca de 13%, de acordo com o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
"Nosso foco é que os catadores sejam reconhecidos como prestadores de um serviço público, e que o aplicativo ajude a gerar mais renda para eles", diz Carol Pires, coordenadora do Pimp My Carroça.
O aplicativo é uma plataforma colaborativa sem fins lucrativos, e os valores para uma coleta ficam a cargo da negociação entre as partes. Não há taxas para usar o app, mas a recomendação é que o catador seja pago pelo serviço, diz Pires - de acordo com a quantidade de material a ser coletado a distância a ser percorrida.

'Invisibilidade social'

No aplicativo, os ícones de carroças levam a um curto porém simpático perfil apresentando cada catador, com foto, apelido, telefone, as áreas onde atua, os tipos de resíduos que coleta e uma breve história de vida.
O perfil de Dona Rosa traz sua foto sorridente na Linha do Tiro, bairro onde mora no Recife, na zona norte da capital pernambucana.
Inclui seu lema de vida - "a reciclagem trouxe meu sustento" - e um resumo dos veículos dos quais dispôs ao longo de 20 anos na coleta: "começou com triciclo, carroça, cavalo e agora tem uma Kombi velha".
Catadores cadastrados no Cataki em RecifeDireito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionEllen Fernanda (à esquerda), coordenadora da ONG Pimp My Carroça no Recife, em selfie com os catadores cadastrados no Cataki, em uma das reuniões mensais para entrosá-los com o aplicativo
A Kombi foi comprada com o dinheiro da rescisão recebida pelo marido há cerca de três anos, quando foi demitido de uma empresa de reciclagem. No ano passado, o veículo passou por uma "pimpada", recauchutagem que está na origem do trabalho do Pimp My Carroça. Em tradução livre, o nome da ONG significa "turbine minha carroça" e foi inspirado no programa americano de TV Pimp My Ride, que transformava latas-velhas em carros turbinados.
O projeto foi iniciado por Mundano em 2012, criando mutirões para grafitar carroças de catadores e catadoras e fazer uma série de reparos nos veículos - para aumentar sua visibilidade e autoestima.
Diante de públicos internacionais no TED e na Unesco, o grafiteiro vem comparando esses profissionais a super-heróis - que teriam o "poder" da invisibilidade na sociedade, fazendo um trabalho essencial para o meio ambiente e para a sustentabilidade das cidades, mas sem receber reconhecimento.
"No mundo todo, as empresas estão gastando bilhões falando em sustentabilidade. Mas essas são as pessoas que estão agindo na prática. Ao conectá-las, podemos aumentar sua renda e ajudá-los em sua missão", afirmou Mundano ao apresentar o app no fórum da Netexplo.
O Cataki estava entre as dez inovações premiadas neste ano. Após a apresentação de cada uma, foi eleito pelo público como o grande vencedor deste ano.

Kombi 'Joinha'

No fim do ano passado, a Kombi de dona Rosa foi pintada pelo grafiteiro pernambucano Johny Cavalcanti como parte do Pimp My Carroça, com apoio da escola Saber Viver, do Recife. Ganhou cores vibrantes e uma "cara" feminina, com cílios prolongados nos faróis e um sorriso largo sobre o parachoque. Dona Rosa apelidou o veículo de Joinha e diz que passou a ser reconhecida na rua, atraindo atenção por onde passa.
"Ela me trouxe muita alegria. Mas muita gente não sabe o que é arte, né? Tem gente que diz: 'Tira esse circo daqui!' e eu: 'É circo, mas está me sustentando!' Ou então: 'Tira essa palhaçada daqui!' e eu: 'Não é palhaçada não, bem, é meu ganha pão!'", conta.
Ela enumera assim as principais dificuldades na vida do catador: gente que joga vidro quebrado no lixo sem separar, gente que joga cocô de cachorro no lixo sem separar, e o preconceito.
Kombi da dona RosaDireito de imagemFERNANDO CAVALCANTI
Image captionA Kombi da dona Rosa foi pintada pelo grafiteiro pernambucano Johny Cavalcanti por meio do Pimp my Carroça
Desde que se cadastrou na Cataki, dona Rosa conta com novos clientes fixos, como uma filial um hospital, alguns prédios no bairro de Casa Amarela e uma residência no Caxangá.
"O aplicativo é muito bom porque está dando valor à gente. Está trazendo reconhecimento. Através dele, o pessoal está notando que a gente existe."
Ela diz que "quem a vê hoje assim", rodando pela cidade com uma Kombi tão bonita e levando sustento para casa, não imagina o que ela já passou na vida.
Rosa nasceu em Aliança, cerca de 100 km à noroeste do Recife. Órfã de pai e mãe, aos 8 anos foi levada para a capital para viver e trabalhar na casa de uma família. O casal faleceu poucos meses depois. Ainda criança, Rosa seguiu morando com outros membros da família, num "pinga-pinga" de casa em casa. "Teve tempo de eu dormir até no chão em cima da minha roupa", lembra.
"Graças a Deus, encontrei um meio para poder vencer na vida e nunca mexi no que é dos outros", afirma.
Começou a trabalhar com reciclagem com o marido, e hoje conta com a ajuda do filho, de 24 anos. Engravidar não estava nos planos, mas virou uma bênção. "Ele foi um projeto de Deus. Eu mesma não queria ter filho. Passei por muita dificuldade na vida, não queria botar um filho no mundo para passar pelo que eu passei", diz, com lágrimas nos olhos apesar de o sorriso continuar no rosto. "Eu passei por muita coisa, minha filha."
Catador com sua carroça 'pimpada'Direito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionUm catador com sua carroça 'pimpada', ou seja, turbinada com reparos técnicos e a arte de grafiteiros por meio da ONG Pimp My Carroça, com recursos de empresas, pessoas que decidem 'patrocinar' um catador ou de campanhas de crowdfunding

'Cadastre um catador'

Segundo a coordenadora Carol Pires, a ideia do Cataki surgiu a partir da visibilidade gerada pelas mais de 300 carroças que já foram turbinadas Brasil afora pelo Pimp My Carroça - e as perguntas que se seguiram.
"A gente começou a receber pedidos de pessoas próximas falando que tinham material em casa e precisavam do contato de um catador", conta Pires. "Faltava uma maneira de as pessoas encontrarem os catadores na região onde moram."
Hoje, o aplicativo tem mais de 500 catadores cadastrados em cerca de cem cidades no país.
Mas é em São Paulo e no Recife que está mais consolidado. Isso porque ele depende de um trabalho gerencial e social que vai muito além da interface tecnológica, e nas duas cidades há representantes em contato permanente com os catadores.
Perfil de Rosa no CatakiDireito de imagemREPRODUÇÃO
Image captionPerfil de Rosa no Cataki; aplicativo recebeu prêmio de inovação na França
Ellen Fernanda, coordenadora no Recife, diz que a capital tem servido como uma espécie de cidade-modelo para o aplicativo, buscando desenvolver ações para aprimorar seu funcionamento. Ela tem feito encontros mensais com os cadastrados para orientá-los no uso do aplicativo. São dicas básicas, para uma população em geral muito carente.
"Oriento eles sobre como atender o telefone, combinar a coleta, que devem pedir para alguém anotar o endereço se não souberem escrever... São muitas dificuldades", explica. "Eu busco elevar a autoestima deles, falo sobre a importância de seu trabalho", conta.
Ellen diz que a simples tarefa de manter o cadastro atualizado envolve um trabalho braçal enorme, já que os catadores muitas vezes perdem os celulares, mudam de chip e de número. Conseguir a doação de aparelhos também tem sido parte do trabalho, e campanhas nesse sentido também vêm sendo realizadas por voluntários do Cataki em outras cidades.
Se inclusão digital está longe de ser uma realidade para a maioria, a expectativa da ONG não é de que os próprios catadores se cadastrem nem dependam de smartphone ou acesso a internet. A ideia é incentivar que simpatizantes lhes apresentem o aplicativo e façam o cadastro para eles. Aos catadores basta ter um número de telefone, que será informado em seu perfil no aplicativo.
"A ideia é que as pessoas se apropriem mesmo. Se baixam o aplicativo e não acharem catadores em sua região, que ajudem a cadastrá-los quando os encontrarem na rua", explica Carol Pires.

De Miguel Arraes a Eduardo Campos

A BBC News Brasil acompanhou o trabalho de coleta de Rosa numa manhã quente de sábado no Recife. Ela nos recebeu com um suco refrescante de cajá, feito da fruta e não da polpa, em sua casa, um apartamento pequeno no Conjunto Habitacional Eduardo Campos, batizado em homenagem ao falecido ex-governador de Pernambuco.
Antes disso, a família viveu durante 20 anos em uma favela que sempre alagava na época das chuvas. A "invasão" era conhecida como Vila Miguel Arraes - o avô de Eduardo Campos, que foi três vezes governador de Pernambuco.
O conjunto habitacional Eduardo Campos, onde Rosa mora no Recife, no bairro Linha do TiroDireito de imagemFERNANDO CAVALCANTI
Image captionO conjunto habitacional onde Rosa mora no Recife, no bairro Linha do Tiro; antes ela vivia com a família em favela que sofria com alagamentos constantes no período de chuvas
Dona Rosa partiu na Kombi com Renato, seu parceiro de trabalho, que dirigia o veículo e encostava sempre que apareciam pilhas de caixas ou outros materiais recicláveis na calçada. Ela saltava do carro, pegava o material correndo e jogava na caçamba, os carros atrás buzinando em protesto.
A parada principal foi na filial Cultura Inglesa do bairro Madalena, de onde a dupla saiu com sacolas e mais sacolas de papel, plástico, PET e outros materiais, enchendo a Kombi. O acordo é que Rosa e Renato recebem R$ 50 em cada coleta, de 15 em 15 dias. O contato foi feito por Raquel Laureano, diretora-executiva do curso de inglês. Ela conta que eles têm buscado envolver os alunos e seus pais, incentivando que tragam materiais de casa, se não tiverem onde reciclar.
"Essa preocupação deveria ser do poder público, mas é também dos indivíduos. Acho que essa consciência está começando a aumentar com iniciativas como essas. Não adianta esperar o poder público agir", considera.
Na primeira ida ao curso de inglês, dona Rosa foi apresentada aos professores e alunos e teve um dia de educadora: pediram-lhe que falasse sobre o que fazia e ensinasse a melhor forma de separar os materiais para a coleta.
"Minha filha, cheguei a ficar sem ter noção de como reagir. É uma coisa muito bonita, muito boa. Você já passou por muita dificuldade na vida e de repente aparece uma coisa boa assim", orgulha-se. "Estou feliz porque estão reconhecendo o nosso trabalho."

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44400380

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MILLENIALS



O país em que os millennials contrariam a tendência e estão ficando mais ricos que os pais


Esta geração de jovens deve se tornar a primeira a chegar à maturidade mais pobre do que seus pais.

As dívidas acadêmicas nos países em que o ensino superior de qualidade é caro e os custos crescentes de habitação nas grandes metrópoles são preocupações comuns entre as pessoas nascidas entre os anos de 1980 e 2000 nos EUA, no Reino Unido e em muitas outras nações. Diversos estudos indicam que essa geração será a primeira da história a acumular patrimônio menor que a anterior.
Mas os millennials da Noruega estão contrariando essa tendência.
O país é a única grande economia na Europa onde os mais jovens estão ficando cada vez mais ricos.
Lá, o rendimento disponível (medida que exclui da renda os impostos diretos e as contribuições sociais) por ano de quem tem em torno de 30 anos é, em média, de 460 mil coroas norueguesas (R$ 212 mil).
Os jovens noruegueses tiveram aumento de 13% no rendimento disponível em termos reais em comparação com a geração X (como são chamados os nascidos entre 1966 e 1980) quando tinha a mesma idade.
As estatísticas foram compiladas a partir de um dos maiores conjuntos de dados sobre riqueza do mundo, o Luxembourg Income Database, e incluídas em um relatório recente sobre renda geracional feita pelo think tank britânico The Resolution Foundation.
Para efeitos de comparação, houve uma queda de 5% nos Estados Unidos e de 9% na Alemanha. Para aqueles que vivem no sul da Europa - os que mais sofreram com o impacto da crise econômica global em 2008 -, a renda despencou até 30% em relação à da geração anterior.
A taxa de desemprego entre os jovens entre 15 e 29 anos de idade da Noruega também é relativamente baixa, de 9,4%, em comparação com uma média de 13,9% da OCDE.
Image captionAleksander Aarnes trabalha apenas um turno em supermercado em Korsvoll, subúrbio de Oslo, a capital da noruega

'Sei da sorte que tenho'

Em um raro dia de calor na capital norueguesa, Oslo, não foi difícil encontrar jovens que personificam os dados positivos.
"Realmente não penso em como gasto meu dinheiro", diz Aleksander Aarnes, de 25 anos.
"Vou ao teatro uma vez por mês, vou ao cinema uma vez por mês. Posso sair e comer e beber com os amigos...saio de férias", acrescenta.
Aarnes quer se tornar roteirista de musicais, mas, enquanto seu sonho não se materializa, financia seu estilo de vida trabalhando apenas um ou dois turnos por semana em um supermercado em Korsvoll, um subúrbio tranquilo repleto de casas de madeira em tom pastel. Ele divide um apartamento com um amigo em outro subúrbio a cerca de 20 minutos de ônibus do centro da cidade.
"Sei da sorte que tenho. Não tenho que me sacrificar muito para conseguir o que eu quero", diz.
Aarnes recebe por hora 164 coroas norueguesas (cerca de R$ 76), valor que aumenta quando ele trabalha à noite ou aos fins de semana. Seu salário mensal líquido (ou seja, depois de descontados os impostos, que são relativamente altos na Escandinávia) é de cerca de 14 mil coroas norueguesas (R$ 6,4 mil) por mês. Ele gasta metade com o aluguel, em viagens e para pagar as contas. O restante ele usa para lazer.
Mais adiante na estrada em Korsvoll, Øystein, um analista de negócios de 31 anos está carregando sua BMW com mercadorias para fazer um churrasco. Ele não quer dizer seu nome completo, sob a justificativa de que, "embora a Noruega seja rica, as pessoas não querem falar sobre o quão ricas elas são".
Øystein admite, no entanto, que ganhou o suficiente para comprar um apartamento de dois quartos à beira-mar quando tinha 27 anos e que vai regularmente de férias para os Estados Unidos e para Ásia.
Image captionHilde Bjørnland acredita em uma abordagem igualitária ─ distribuindo riqueza entre gerações

O que a Noruega está fazendo diferente?

Uma grande parte do estilo de vida dos jovens noruegueses se deve ao rápido crescimento econômico do país. Depois de registrar o maior aumento no rendimento médio entre todas as economias de alta renda entre 1980 e 2013, o país lidera vários rankings globais de riqueza e bem-estar. Além disso, resistiu à recessão global.
No ano passado, a Noruega chegou ao topo do Índice Legatum de Prosperidade, que analisa 110 países em todo o mundo.
O enorme setor de petróleo e gás da Noruega explica o boom econômico do país, após grandes descobertas no Mar do Norte (embora o país também tenha sofrido com a queda nos preços do barril nos últimos anos).
Mas, como explica Hilde Bjørnland, professora de economia da BI Norwegian Business School, em Oslo, não se trata de quanto dinheiro a Noruega tem, mas do que o país faz com ele.
"A Noruega administrou bem o dinheiro vindo do petróleo, economizando e usando uma parte desse montante em prol da sociedade", diz ela. "Então, várias pessoas têm acesso à essa riqueza", acrescenta.
A forma encontrada pelo país para gerir o dinheiro do petróleo foi a criação de um fundo soberano, atualmente o maior do mundo. O fundo ganha dinheiro investindo em mais de 9 mil empresas ao redor do mundo. Atualmente, vale cerca de US$ 1 trilhão (R$ 4 trilhões).
"Os jovens e as pessoas de setores com salários mais baixos têm visto a remuneração crescer a cada ano. E as diferenças entre aqueles que ganham pouco e aqueles que ganham muito não são tão grandes quanto em outros países", diz Bjørnland.
O relatório da Resolution Foundation sobre renda geracional concluiu que a crescente desigualdade vem tendo um papel central na redução dos rendimentos dos millennials em outras economias fortes, como EUA, Reino Unido e Alemanha. Nesses países, onde a diferença entre os salários mais altos e os mais baixos é bem maior, os jovens arcam com o peso do ritmo lento de crescimento das remunerações e da rígida mobilidade profissional.
Image captionGabriella Sanzana veio do Chile para fazer mestrado na Noruega
A Noruega oferece amplos benefícios sociais e uma saúde altamente subsidiada pelo Estado. Isso ajuda a entender porque as perspectivas dos millenials no país são melhores do que em outras economias desenvolvidas.
O seguro-desemprego é generoso: quem está sem trabalho pode ganhar do governo até 60% do último salário por dois anos enquanto busca recolocação.
Além disso, assim como ocorre no restante da Escandinávia, as mulheres têm uma elevada participação no mercado de trabalho.
A educação gratuita na maioria das escolas e universidades públicas e o fácil acesso a empréstimos (em que os tomadores não pagam juros enquanto estudam), juntamente com o nível elevado de empregabilidade de estudantes, ajudam a explicar o sucesso dos millennials noruegueses.
"É importante que, enquanto estejam estudando, os jovens também possam ter um trabalho", diz Bjørnland.
Segundo ela, o trabalho temporário pode elevar a renda dos jovens na Noruega, o que não necessariamente ocorre em outros países ocidentais.
A opinião dela é compartilhada por milhares de estudantes que se refrescam no rio Åkerselva, a poucos metros dos edifícios que dominam a escola de negócios do campus da capital, a maior da Noruega e a segunda maior da Europa.
"Não é tão difícil encontrar um emprego aqui e eles são sempre muito bem remunerados. Isso ajuda muito para pagar estudos e lazer", diz a chilena Gabriella Sanzana, de 27 anos, que faz mestrado em direitos humanos enquanto trabalha meio período como garçonete.
"Tenho que pagar muitos impostos, mas realmente não me importo, porque sei que (o Estado) te dá muitas coisas ao mesmo tempo", acrescenta.
Image captionApós registrar maior aumento no rendimento médio entre economias de alta renda entre 1980 e 2013, Noruega lidera vários rankings globais de riqueza

Novos desafios

Apesar de tudo, há preocupações sobre se a Noruega conseguirá sustentar seu sucesso - e por quanto tempo.
A alta taxa de jovens empregados está em declínio, segundo o relatório Investing in Youth: Norway (Investindo na Juventude: Noruega), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
O estudo indica que o número de vagas para jovens de 15 a 29 anos não corresponde ao necessário para uma população em franca ascensão, que subiu 18% entre 2007 e 2016.
A imigração foi responsável por mais de quatro quintos desse aumento e o desemprego entre a população nascida no exterior da Noruega está atualmente em torno de 10%.
Kristian Heggebø, pesquisador-sênior do Centro de Pesquisa do Trabalho e Bem-Estar da Universidade Metropolitana de Oslo, assinala que enquanto estudantes estrangeiros e imigrantes de outras regiões da Europa "tendem a se sair bem no mercado de trabalho", há níveis persistentemente altos "de discriminação contra minorias étnicas".
"Até certo ponto, isso pode ser devido à falta de qualificações, mas não há dúvida de que a questão é do lado da demanda e não do lado da oferta", diz ele.
Heggebø alega que há "evidências empíricas firmes" que demonstram que, apesar da crescente imigração nas últimas duas décadas, muitos empregadores noruegueses ainda são "céticos em contratar alguém com origem não norueguesa". Mesmo imigrantes de segunda geração nascidos e educados em países nórdicos podem acabar tendo dificuldade para entrar no mercado de trabalho, diz ele.
Ele propõe como solução que as primeiras etapas de recrutamento sejam feitas baseadas em currículos anônimos.

Networking

Pronto para pegar o trem de volta para casa depois de um dia de calor centro da cidade, Ove George, que é da Nigéria e atualmente está desempregado, diz acreditar que o networking é a chave para conseguir trabalho na Noruega, algo que, segundo ele, pode ser complicado para estrangeiros.
"O último trabalho que consegui foi por meio de um amigo norueguês, e depois disso não consegui um bom emprego", conta.
Na mesma estação, está Kayad Mahammed, de 19 anos, nascido no Djibuti, que atualmente trabalha para uma empresa de mídia. Ele diz que "não está passando dificuldade" e que pessoalmente achou "fácil" conseguir um emprego. Mas acrescenta que "ficar rico" é muito mais difícil para imigrantes, já que muitos deles podem acabar permanecendo em empregos de nível básico porque têm medo de acabar desempregados de novo.
Image captionDados da OCDE indicam que parcela de noruegueses que ganha menos da metade da renda média nacional foi de 8,1% em 2015, em comparação a 6,9% em 2004
Há sinais de que a desigualdade também está aumentando na população em geral.
Os dados da OCDE indicam que a parcela de noruegueses que ganha menos da metade da renda média nacional foi de 8,1% em 2015, em comparação a 6,9% em 2004. Os jovens são a população de maior risco. Ainda assim, essa proporção é baixa para os padrões globais - nos EUA, ela é de 16,8% e, no Reino Unido, de 10,9%.
Aqueles que terminam sem emprego, sem treinamento ou sem educação, muitas vezes podem se sentir mais vulneráveis na Noruega do que em outros países, argumenta Sebastian Königs, um dos autores do relatório da OCDE.
"Para os jovens noruegueses que estão em desvantagem e têm problemas sociais, encontrar o seu lugar na sociedade pode ser muito mais difícil", diz ele. "Porque, de um modo geral, todos estão indo tão bem na sociedade, então, isso se torna um estigma."
Esse grupo tem seis vezes mais chances de sofrer depressão do que os outros jovens noruegueses e nove vezes mais chances de apresentar problemas de saúde, além de maior risco de permanecer fora do mercado de trabalho por longos períodos, segundo dados da OCDE.

Modelo para outros países

Apesar dos atuais desafios, muitos especialistas dizem acreditar que outros países do mundo podem aprender muito com a Noruega.
Na OCDE, Sebastian Königs cita ligações muito mais estreitas entre educação, emprego e serviços sociais do que na maioria dos outros países, como uma forma eficaz de apoiar os jovens nos estágios iniciais de suas carreiras.
Todos os estudantes que abandonam a escola na Noruega recebem um telefonema pessoal de assistentes sociais para discutir alternativas para o seu futuro, caso não entrem no mercado de trabalho ou queiram deixar de estudar, por exemplo.
Ele assinala que, apesar de a população do país ser de apenas 5,1 milhões de habitantes, outras nações maiores poderiam replicar tais políticas se quisesseem.
"Não se trata do tamanho do país, mas quanto de recursos os governos estão dispostos a investir nele... a Noruega percebe que isso é uma prioridade central, e deveria ser para todos."
Enquanto isso, Kristian Heggebø diz acreditar que, mesmo se o petróleo acabar e a Noruega for forçada a reformar sua economia no futuro, o país continuará a prosperar por causa de seu igualitarismo e da rede de proteção social para jovens.
"Se mantivermos isso, aposto todo o meu dinheiro que ainda estaremos à frente do restante da Europa, porque sabemos como lidar com essas dificuldades. Trata-se de uma abordagem mais humana", conclui.