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sábado, 25 de março de 2017

POLÍTICA - ENTREVISTA: PABLO ORTELLADO*




"O Processo de renovação da esquerda é atravancado pela renovada hegemonia do PT"


Por: Patricia Fachin | 23 Março 2017

Apesar de vozes à esquerda defenderem a necessidade de “enterrar” e fazer “o luto do PT” para que algo novo possa surgir no campo progressista, essa proposta foi praticamente soterrada depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, avalia Pablo Ortellado na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line. As razões disso, explica, se devem ao fato de a esquerda ter se aglomerado novamente em torno do PT por conta de dois motivos: “a polarização nas eleições de 2014” e “o impeachment da ex-presidente Dilma”.
Portanto, assinala, “o fenômeno novo” na conjuntura política é que “várias dessas correntes terminaram confluindo, novamente, para o PT”. Ele exemplifica: “Toda essa disputa crítica que aconteceu durante o governo Lula sobre a transposição do rio São Francisco foi completamente esquecida, e essa transposição, que pode e deve ser criticada sob inúmeros pontos de vista, foi absolutamente celebrada como uma grande conquista, um grande legado do governo do ex-presidente Lula”.

Para ele, o discurso de parte da esquerda em defesa das “empresas nacionais” e a crítica à Lava Jato e à Operação Carne Fraca fazem parte da “estratégia discursiva do Partido dos Trabalhadores, que está tentando desacreditar a Operação Lava Jato, apresentando-a como uma grande conspiração contra a indústria nacional, que tinha se projetado por meio das políticas desenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma. Ao apresentar a Lava Jato junto com a recente operação da Polícia Federal [Carne Fraca] como uma iniciativa contrária à indústria nacional, eles tentam deslegitimar as denúncias de corrupção que vieram da Lava Jato e que atingem praticamente toda a cúpula do PT”. Mas salienta: “Como o resto da sociedade está fora da zona de influência da esquerda, e a vê como um agente corrompido, a esquerda fala de maneira desesperada e cada vez para menos pessoas, na medida em que ela só fala para seus próprios militantes”.

Na avaliação de Ortellado, a reinvenção da política no Brasil depende de se dar um “passo seguinte”, que consiste em “um processo de renovação da esquerda em busca de alternativas que pudessem nos levar um pouco mais adiante”. Contudo, adverte, “esse processo de polarização e de renovação da hegemonia do PT no campo da esquerda está atravancando o processo de renovação, que não parece que vai acontecer tão cedo”.

Ortellado | Foto: IEA USP
Pablo Ortellado é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas, orientador no programa de pós-graduação em Estudos Culturais e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação - Gpopai, todos na USP.
Pablo Ortellado esteve no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, nesta quinta-feira, 23-03-2017, ministrando a palestra “A reinvenção da esquerda brasileira no pós-lulismo. Continuidades e rupturas”. O evento integra o Ciclo A reinvenção da política no Brasil contemporâneo. Limites e perspectivas. Confira a programação aqui.
Confira a entrevista:
IHU On-Line - Quais são as principais correntes de esquerda existentes no país e em que aspectos elas se aproximam e se diferenciam?
Pablo Ortellado – Existem muitas esquerdas, correntes e abordagens, e é muito difícil listar todas. Para falar algo além disso, o fenômeno mais novo é que várias dessas correntes terminaram confluindo novamente para o PT em função do processo de impeachment. Logo depois do impeachment da presidente Dilma, o discurso do golpe e a urgência que trazia a palavra golpe, de uma interrupção democrática, de uma suspensão das liberdades, fez com que um pouco dessa pluralidade que existia, que estava à esquerda do PT e que tinha certa independência, se reagrupasse na defesa desse mandato que foi interrompido.
Existem muitas esquerdas, mas essa diversidade das esquerdas diminuiu recentemente, desde o processo de impeachment, quando o discurso do golpe terminou por confluir uma série dessas correntes e grupos, que acabaram se aglomerando e se coordenando em defesa daquele mandato que foi interrompido.
IHU On-Line – Então você diria que há uma união da esquerda hoje, ou apesar dessa confluência em torno do PT, há uma crise ou uma disputa interna na esquerda?
Pablo Ortellado – Existe uma enorme disputa. Se olharmos a história da esquerda no Brasil, trata-se de uma história que gira em torno do PT desde os anos 1970, porque o PT é a confluência dos movimentos sociais em um projeto de institucionalização política. Uma vez que ele se estabeleceu, terminou ultrapassando o paradigma anterior da esquerda, que era o Partidão, estabelecendo-se assim como a nova referência da esquerda: tudo se estabelece em referência ao PT, inclusive as forças políticas da esquerda. Todos os partidos que costumamos chamar de extrema-esquerda já estiveram alguma vez no PT. Inclusive aqueles partidos que buscam estar fora do campo da esquerda ou com certa autonomia em relação à esquerda – é o caso da REDE –, encontramos as raízes deles no Partido dos Trabalhadores. Isso engloba o PSTU, o PSOL, a REDE; todos eles foram desdobramentos do PT.
Além disso, vários outros grupos que não estavam vinculados aos partidos políticos acabaram confluindo no processo do impeachment. Fora disso, existe a nova esquerda autônoma e alguns partidos trotskistas, que estão tentando sair dessa zona de influência do Partido dos Trabalhadores, mas isso muda conjunturalmente.
IHU On-Line - Quais as consequências dessa confluência da esquerda em torno do PT?
Pablo Ortellado – Isso é positivo para o PT, porque ele restabeleceu sua liderança e sua hegemonia no campo da esquerda; esse é o principal resultado desse processo. A partir do momento em que as forças políticas se uniram com urgência em defesa de um mandato que foi interrompido por um processo de impeachment, o PT reapareceu como grande líder no campo da esquerda. Esse era um papel que estava muito desgastado em um passado recente e que ele recuperou totalmente. Hoje, sem dúvida, a principal força de esquerda é o PT.
IHU On-Line - Como a esquerda tem reagido diante de questões polêmicas, como a inauguração de parte da obra da transposição do rio São Francisco, a Operação Carne Fraca e a Operação Lava Jato? Parte da esquerda tanto defende a transposição, quanto faz uma crítica à Operação Carne Fraca e à Operação Lava Jato, argumentando que essas operações prejudicam as empresas nacionais. Como avalia esses discursos?
Pablo Ortellado – Existem posições minoritárias que são divergentes desses grupos que mencionei, os grupos que estão tentando escapar da polarização, sejam eles ligados aos movimentos autônomos, à REDE ou a nenhuma força política, mas são forças minoritárias.
Entretanto, esse cenário que você descreve é totalmente decorrente da “renovada” hegemonia do PT no campo da esquerda. Essas são estratégias discursivas e políticas do Partido dos Trabalhadores, que fez a transposição do rio São Francisco mesmo com denúncias de grupos ambientalistas, com denúncias de grupos que representavam as comunidades que seriam afetadas pela transposição do rio. Toda essa disputa crítica que aconteceu durante o governo Lula sobre a transposição do rio São Francisco foi completamente esquecida, e essa transposição, que pode e deve ser criticada sob inúmeros pontos de vista, foi absolutamente celebrada como uma grande conquista, um grande legado do governo do ex-presidente Lula.
Essa leitura das delações da Odebrecht e da defesa das empresas brasileiras é uma estratégia que, a meu ver, faz parte da estratégia discursiva do Partido dos Trabalhadores, que está tentando desacreditar a Operação Lava Jato, apresentando-a como uma grande conspiração contra a indústria nacional, que tinha se projetado por meio das políticas desenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma. Ao apresentar a Lava Jato junto com a recente operação da Polícia Federal [Carne Fraca] como uma iniciativa contrária à indústria nacional, eles tentam deslegitimar as denúncias de corrupção que vieram da Lava Jato e que atingem praticamente toda a cúpula do PT. Acredito que seja uma estratégia discursiva do Partido dos Trabalhadores, e como ele retomou a hegemonia no campo da esquerda, esse discurso está sendo adotado por amplos setores; e a maioria da esquerda está, mais ou menos, encampando esse discurso, contra alguns setores que hoje são minoritários.
IHU On-Line - Mas por que a esquerda se volta para o PT como a sua tábua de salvação?

Pablo Ortellado – Na minha opinião isso tem a ver com dois elementos: a polarização nas eleições de 2014 e depois, logo em seguida, com o impeachment da ex-presidente Dilma. Essas dinâmicas de polarização terminam juntando os campos e, ao fazer isso, as forças mais organizadas tendem a estabelecer uma hegemonia. Na eleição da ex-presidente Dilma houve um processo de enorme polarização, foi uma campanha em que se afirmaram certos valores de esquerda e certo projeto de esquerda. No entanto, logo depois que a ex-presidente iniciou o mandato, o que foi dito durante a campanha foi completamente desmentido pelos fatos, mas no processo eleitoral as forças de esquerda se aglomeraram na defesa daquele projeto - esse foi o primeiro momento em que houve uma espécie de confluência.
Depois, durante o processo de impeachment, o discurso do golpe, o uso e a difusão da palavra “golpe” - que até pode ser acertada, porque descrever o impeachment como uma espécie de golpe parlamentar não é de todo errado - reavivou a memória da ditadura, a memória da violação dos direitos fundamentais, da interrupção do regime democrático, e isso gerou uma urgência e uma paixão que foram mobilizadas em torno da defesa daquele mandato. Consequentemente, isso restabeleceu a hegemonia do PT sobre um campo da esquerda que ele havia perdido. Por exemplo, amplos setores do PSOL hoje têm abordagens muito parecidas com o PT, sendo que o PSOL nasceu e sempre se marcou como uma dissidência do PT e sempre fez muita questão de marcar sua diferenciação com o petismo, mas agora eles estão muito unidos.
IHU On-Line – Quais as consequências dessa confluência para a esquerda? Será positiva?
Pablo Ortellado – Creio que não. Acredito que a experiência do governo do Partido dos Trabalhadores já mostrou seus limites: trouxe alguns avanços sociais, políticas sociais e alguma melhoria econômica para os mais pobres, mas mostrou limites muito claros. O passo seguinte deveria ser um processo de renovação da esquerda em busca de alternativas que pudessem nos levar um pouco mais adiante. Agora, esse processo de polarização e de renovação da hegemonia do PT no campo da esquerda está atravancando o processo de renovação, que parece que não vai acontecer tão cedo.
IHU On-Line - Como a esquerda lidou com os casos de corrupção? Como ela poderia ter lidado com isso?
Pablo Ortellado – Em primeiro lugar quero chamar a atenção de que essa esquerda mesmo, o Partido dos Trabalhadores, não só pode falar de corrupção, como já falou muito de corrupção. Basta lembrarmos o papel do PT nos anos 1990, que se apresentava como o “partido da ética” – esse era, inclusive, um apelido do PT. Isso aconteceu há 25 anos, quando o PT se colocava como o partido da ética, denunciando os esquemas de corrupção do governo Fernando Henrique Cardoso, a compra de votos para a reeleição, os escândalos dos anões do orçamento. Então, não apenas é possível conciliar uma posição de esquerda com a crítica de corrupção, como isso aconteceu recentemente com os próprios setores que estão denunciando isso hoje.
A defesa do patrimônio público me parece muito obviamente uma posição de esquerda, e a esquerda tem desenvolvido alternativas e propostas de políticas públicas no combate à corrupção que são próprias da esquerda, como a transparência e o controle social, assim como a independência das forças policiais e das instituições de investigação. Todas essas são iniciativas que foram propostas por agentes de esquerda.
O que é novo é que a esquerda, uma vez que tenha se tornado alvo dessas investigações de corrupção, subitamente e de maneira oportunista, mudou de posição, dizendo que a corrupção é sistêmica e relacionando qualquer crítica de corrupção a uma crítica moralista. Isso parece uma defesa muito oportunista dos seus próprios quadros de dirigentes que estão sob investigação por terem saqueado, de maneira bilionária, a principal empresa pública brasileira.
IHU On-Line – Recentemente você disse que a esquerda entrou numa “hipertrofia discursiva isolacionista e vitimista”, ao adotar o discurso de que ela está sendo perseguida. O que levou a esquerda a essa hipertrofia? Isso tem alguma relação com o desempenho da esquerda nos governos Lula e Dilma?
Pablo Ortellado – Tem. Ela fica falando porque está desesperada, ela está sob ataque de investigação. Pouco importa, neste momento, se a esquerda é mais investigada e mais cobrada do que a direita. Essa é uma questão pertinente, mas não é suficiente para eximir a esquerda das críticas por estar envolvida nos escândalos de corrupção.
Portanto, frente a isso, esses setores da esquerda que estão sendo investigados entraram em uma espécie de hipertrofia discursiva no sentido de que estão falando muito rapidamente, de uma maneira muito desesperada, e falando apenas para si mesmos. Como o resto da sociedade está fora da zona de influência da esquerda, e a vê como um agente corrompido, a esquerda fala de maneira desesperada e cada vez para menos pessoas, na medida em que ela só fala para seus próprios militantes. E a população vai se afastando dessa força política que ela vê implicada nos escândalos de corrupção, a qual é universalmente rejeitada, para além dos círculos dos militantes de esquerda, e por bons motivos.
IHU On-Line - Alguns também têm avaliado que a esquerda ainda não fez sua autocrítica acerca dos erros que cometeu, os quais levaram o país à crise em que se encontra. Como está acontecendo esse processo de autocrítica da esquerda? Que questões deveriam ser consideradas nessa autocrítica?
Pablo Ortellado – Quem tem que fazer a autocrítica são os setores que estão implicados nessas denúncias de corrupção, que são setores do Partido dos Trabalhadores, e o PT reagiu muito mal a esses escândalos. Nesse sentido a resposta do Partido dos Trabalhadores é, basicamente, “os outros também fazem e as investigações são uma perseguição contra nós”. Eles nunca disseram que esses casos de corrupção não aconteceram, dizem apenas “os outros também fazem”, e não fizeram nenhuma autocrítica. Mas o fato é que um partido de esquerda, que deveria defender e inclusive ampliar o patrimônio público, se envolveu em um esquema de corrupção no qual o patrimônio público foi saqueado para fins privados. Portanto, a esquerda não fez nenhuma autocrítica, está tentando sobreviver com a crise econômica.
A esquerda está tentando sobreviver mudando de assunto, e ao que tudo indica ela conseguirá mudar de assunto. Isso porque a crise econômica gerou uma frustração tão grande nos brasileiros, que eles começam a olhar para a experiência do Partido dos Trabalhadores como um momento de bonança na economia, e, na busca de melhorias econômicas, corre-se o risco de se deixar para trás esses escândalos de corrupção. Acho que esse é o significado da folgada liderança que o ex-presidente Lula tem na corrida presidencial de 2018. Respondendo: o PT não fez a autocrítica que deveria ter feito e é possível que ele sobreviva sem fazê-la.
IHU On-Line - Alguns têm chamado atenção para o déficit de pensamento no Brasil. Há esse déficit de pensamento? Por quais razões?
Pablo Ortellado – Com certeza existe uma falta de pensamento crítico e isso tem a ver com a polarização política. A partir do momento em que temos uma polarização numa espécie de guerra na sociedade, quando as pessoas que se interessam por política estão divididas e debatem a partir de uma chave muito belicosa e intolerante umas com as outras, não existe espaço para posição independente, porque cada lado acha que a posição independente é uma traição da causa.
Se você tem um pensamento independente, te empurram para um lado ou para o outro, e você é mutuamente atacado pelos dois lados. É por esse motivo que reflexões em busca de posições independentes estão em falta, porque qualquer voz independente é atacada por um lado ou outro, ou por ambos. Mesmo que consiga sobreviver a esses ataques, ela não consegue encontrar seu público, porque os dois lados falam o mesmo, muito alto e de maneira coordenada. Isso faz parte da guerra, e aí eles abafam as vozes independentes.
IHU On-0Line - Diante desse déficit de pensamento, é possível vislumbrar quais são as propostas da esquerda para o campo econômico e social? Que respostas a esquerda tem tentado dar à crise que o país enfrenta hoje?
Pablo Ortellado – Até onde eu sei, isso não está formulado, porque não há espaço para isso. O jornal Valor Econômico fez uma matéria relatando os debates que estão acontecendo no Instituto Lula, que basicamente são uma retomada das políticas vigentes no período do segundo mandato. Do ponto de vista de formulação específica, o que temos é isso, porque formulações de propostas independentes não têm encontrado espaço nem para serem discutidas publicamente, nem para serem adotadas por forças políticas.
A retomada do governo Lula seria uma volta à política de consumo, melhoramento do crédito das famílias, fortalecimento do BNDES, ou seja, uma política de crescimento por meio do mercado interno. É basicamente essa a proposta econômica que o Lula vem discutindo e que provavelmente trará, caso seja eleito. Ou seja, é mais do mesmo, e essa proposta não toca numa série de questões das quais dependemos para poder avançar: precisamos avançar no sistema tributário, precisamos fazer com que os ricos paguem impostos, ou seja, a tributação deveria estar no coração de uma agenda de esquerda progressiva, precisamos fortalecer os sistemas públicos universais, como educação e saúde. Tem uma série de agendas que ficaram de fora do governo Lula, como a agenda ambiental, a reforma dos meios de comunicação, e que aparentemente vão continuar fora do horizonte.
IHU On-Line – E pautas como essas teriam espaço num possível governo Ciro Gomes?
Pablo Ortellado – Não sei se o Ciro Gomes chegou a esse grau de detalhamento do que seria o seu governo.
IHU On-Line – Os nomes que aparecem por enquanto numa possível candidatura de 2018 são os de Lula, Ciro Gomes, João Doria e Bolsonaro. Como vê essas possibilidades?
Pablo Ortellado – Esse cenário vai empurrar todas as pessoas de esquerda a apoiarem Lula, porque ele é o grande candidato, e quando se colocarem as alternativas a ele, todo o campo de esquerda vai se alinhar ao lulismo por falta de opção; isso se o Lula conseguir se candidatar e não for preso ou perder sua capacidade de concorrer por conta da Lava Jato. Se as coisas continuarem como estão, ele será a grande alternativa. Um nome que se coloca é o de Ciro Gomes, mas ainda é uma incógnita o que seria uma candidatura Ciro Gomes.
IHU On-Line – Como você entende este processo: que de um lado, são feitas muitas críticas ao PT e, de outro, Lula apareça como a única opção para a esquerda?
Pablo Ortellado – Pois é, mas as pesquisas mostram que ele está numa folgada primeira posição. Eu creio que isso tem a ver com a crise econômica, porque as pessoas se importam muito com corrupção, mas se importam muito mais com o seu bem-estar econômico, o que não é absurdo quando elas se encontram desempregadas. E as pessoas têm uma memória recente de que elas viviam bem durante o governo Lula, e é verdade. Isso a meu ver explica por que o Lula está em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais. Por outro lado, ele tem muita rejeição, cerca de 45%. Claro que as investigações de corrupção jogam contra a candidatura dele, mas se ele concorrer, certamente será o favorito, principalmente se não houver nenhuma alternativa a ele.
IHU On-Line - O cenário de mobilizações da sociedade civil mudou nos últimos meses? A esquerda tem conseguido mobilizar a população para determinadas pautas?
Pablo Ortellado – Teve a mobilização recente contra a Reforma da Previdência e essa foi uma mobilização grande, porque a reforma é muito impopular. Essa reforma tem mobilizado setores que inclusive dialogam com as forças de direita, pois ameaça diretamente os direitos das pessoas. Nesse sentido, essa reforma é diferente da PEC do teto, porque os efeitos dela não serão sentidos de maneira clara antes de dez anos. A Reforma da Previdência afeta a vida concreta das pessoas ao aumentar o limite de idade para a aposentadoria, aumentando a exigência de anos de contribuição para se aposentar. Isso tem gerado um enorme campo de mobilização contra essas reformas e explica o sucesso das mobilizações do dia 15 de março.
Essas mobilizações vão continuar durante toda a tramitação da Reforma da Previdência no Congresso; e a tramitação vai demorar, porque o Congresso sentiu que essa reforma é altamente impopular. Ao mesmo tempo, os congressistas estão sob um duplo ataque: o da Lava Jato e o da insatisfação popular. Estou esperando que tenhamos bastante mobilizações contra essa reforma.
IHU On-Line - Quais são os desafios da esquerda pós-lulismo? Que discussões a esquerda poderia pautar para pensar o desenvolvimento da sociedade brasileira?
Pablo Ortellado – O maior desafio do pós-lulismo é enterrar e fazer o luto do PT, porque o PT é uma espécie de força política com enorme capacidade de renascer e de se recolocar na sociedade civil. Isso tem a ver com o fato de ele ter no seu DNA a mobilização social. Ele não é um partido político institucional, mas um partido político que nasceu do movimento social e sempre teve esse vínculo entre a sociedade civil e o partido político. Por isso quando está muito ameaçado, ele volta às suas raízes, mobiliza a sociedade civil e a submete ao seu projeto político, e assim renasce com força. O principal desafio da esquerda pós-lulista é se livrar do PT para poder ir além do PT. O PT obteve conquistas que são meritórias e que trouxeram bem-estar para a população, mas também mostrou limites muito claros, aos quais ficaremos presos enquanto não conseguirmos nos organizar fora do Partido dos Trabalhadores.
IHU On-Line – Mas se as pesquisas estão corretas e o ex-presidente Lula for eleito em 2018, serão mais quatro anos...
Pablo Ortellado – Serão mais quatro anos de hegemonia petista, mais quatro anos com a direita enlouquecida, enfim, serão mais quatro anos.
IHU On-Line – Na prática, fazer o luto do PT implica em quê?
Pablo Ortellado – Em se organizar fora do PT, em enterrar o PT de vez, fazendo outra coisa, aprendendo obviamente com o que o PT fez de bom. Parecia que estávamos caminhando para esse cenário de enterrar o PT, mas hoje parece que ele mostrou uma enorme capacidade de renascer. A inauguração paralela que se organizou em torno da inauguração da transposição do rio São Francisco, ou a participação do Lula nas manifestações contra a Reforma da Previdência, mostram uma enorme capacidade do PT de renascer.

* Título e texto editado
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/566032-o-principal-desafio-da-esquerda-e-enterrar-o-pt-para-ir-alem-do-pt-entrevista-especial-com-pablo-ortellado
Colaboração: Luciano E. Palagano

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CAPITALISMO X SUSTENTABILIDADE



‘O capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos’ diz Eduardo Viveiros de Castro


Crítico feroz do neoliberalismo, de seus ícones e verdades, de suas políticas de “crescimento” que destroem a natureza, do consumo que empobrece as vidas, do Estado que as administra (não sem constrangimentos) e da esquerda (conservadora e antropocêntrica). “A felicidade, diz, tem muitos outros caminhos”.
Enquanto esperamos que a Tinta Limón Ediciones termine a edição (mais ou menos alterada) do livro de entrevistas com Eduardo Viveiros de Castro, o sítio Lobo Suelto! convida  à leitura da última – muito transcendental – conversa com o antropólogo brasileiro.
A entrevista é de Julia Magalhães, publicada por Lobo Suelto!, 04-12-2013. A tradução é doCepat.
Fonte: http://goo.gl/p4a01c
Eis a entrevista.
Qual é a sua percepção acerca da participação política da sociedade brasileira?
Prefiro começar com uma “des-generalização”: vejo a sociedade brasileira profundamente dividida em relação à visão sobre o país e seu futuro. A ideia de que existe “um” Brasil – no sentido de que as ideias de “unidade” e “brasilidade” não são triviais – parece uma ilusão politicamente conveniente (para os setores dominantes), mas antropologicamente equivocada. Há, pelo menos, dois ou muito mais “Brasis”.

"Repete-se o tempo todo, e para qualquer propósito, que o povo brasileiro é democrático, “cordial” e amante da liberdade e da fraternidade, o que é uma ilusão muito perigosa."

O conceito geopolítico de estado-nação unificado não é descritivo, mas normativo. Há rachaduras profundas na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora enorme, que não necessariamente compreendem uma classe específica, apesar de que as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estão bem representadas aqui. Grande parte da chamada “sociedade brasileira” – temo que seja a maioria – se sentiria muito satisfeita com um regime autoritário, especialmente se conduzido midiaticamente por uma autoridade paternal de personalidade forte. Mas, esta é uma das coisas que a minoria liberal que existe no país – e, inclusive, é uma certa minoria “progressista” – prefere manter-se envolta em um silêncio constrangedor. Repete-se o tempo todo, e para qualquer propósito, que o povo brasileiro é democrático, “cordial” e amante da liberdade e da fraternidade, o que é uma ilusão muito perigosa.
É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: como a de um povo fragmentado, dividido, polarizado. Uma polarização que não necessariamente condiz com as divisões políticas (partidos oficiais etc.). O Brasil segue como uma sociedade visceralmente escravocrata, obstinadamente racista e moralmente covarde. Enquanto não nos darmos conta deste inconsciente, não iremos “em frente”.
Em outras ocasiões, fui claro: insurreições esporádicas e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, é o que se evidência entre os mais pobres – ou os mais alheios ao drama montado pelos setores de cima, na escala social – que inspiram modestas utopias e moderado otimismo por parte daqueles que a história situou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.
O que é necessário para mudar isto?
Falar, resistir, insistir, olhar além do imediato. E, obviamente, educar. Mas, não “educar o povo” (como se a elite fosse muito educada e devesse – ou pudesse – conduzir o povo até um nível intelectual superior), mas criar as condições para que as pessoas se eduquem e acabem educando a elite – e, quem sabe, inclusive, se livrem dela.

"...domesticar a força de trabalho – se é isto que está se tentando (ou planejando) – não é, de nenhuma maneira, o mesmo que educar."

O panorama da educação do Brasil é, hoje, o de um deserto. Um deserto! E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar neste deserto. Pelo contrário, tenho pesadelos de conspirações, em que sonho que os projetos de poder não se interessam realmente em modificar o panorama da educação do Brasil: domesticar a força de trabalho – se é isto que está se tentando (ou planejando) – não é, de nenhuma maneira, o mesmo que educar.
Isto é apenas um pesadelo, obviamente: não é assim, não pode ser assim… Espero que não seja assim. Mas o fato é que não se vê uma iniciativa para mudar a situação. Considerando a espetacular abertura de dezenas de universidades sem a mínima infraestrutura física (para não falar de boas bibliotecas, um luxo quase impensável no Brasil), enquanto a escola secundária segue muito deficitária, com professores que ganham uma miséria, com as greves dos professores universitários reprimidas, como se fossem ladrões. A “falta” de educação – que é uma forma de instrução muito particular e perversa, imposta de cima para baixo – é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de grande parte da sociedade brasileira. Por fim, é urgente uma reforma radical da educação brasileira.
Em “A floresta e a escola”, Oswald de Andrade sonhava. Infelizmente, parece que já deixamos de ter uma e ainda não temos a outra. Pois sem escola, já não cresce a floresta.
Por onde se começa a reforma da educação?
Começa-se de baixo, é claro, a partir da escola primária. A educação pública deveria ter uma política unificada, orientada a partir de uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Ela não será alcançada através da redistribuição da renda (ou melhor, com o aumento da quantidade de migalhas que caem da mesa dos ricos) apenas para comprar um televisor e para assistir ao BBB, e ver a mesma merda. Não é assim que se redistribui a cultura, a educação, a ciência e a sabedoria. Deve-se oferecer ao povo as condições de fazer cultura ao invés de consumir aquela produzida “para” eles.
Está havendo uma melhora nos níveis de vida dos mais pobres, e talvez também nos da velha classe média. Uma melhora que vai durar todo o tempo em que a China continuar comprando do Brasil ao invés de comprar da África. Mas, apesar da melhora no chamado “nível de vida”, não vejo nenhuma melhora real na qualidade de vida, na vida cultural ou espiritual, se me permite usar essa palavra arcaica. Pelo contrário. Será que é necessário destruir as forças vivas, naturais e culturais das pessoas, do povo brasileiro de instrução, para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.
Neste cenário, atualmente, quais são os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira?
Vejo a “sociedade brasileira” magnetizada – ao menos em termos de sua autorrepresentação normativa, por parte dos meios de comunicação – por um patriotismo oco, uma espécie de besta orgulhosa, deslumbrados pela certeza de que, de uma vez por todas, o mundo se inclinou frente ao Brasil. Copa do Mundo, Jogos Olímpicos… Não vejo mobilização acerca de temas urgentíssimos, como poderiam ser o da educação e da redefinição da nossa relação com a terra, quer dizer, com o que há debaixo do território. Natureza e cultura, enfim, que agora se encontram, não apenas, mediadas, midiatizadas, pelo mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se uniu ao Mercado contra a natureza e a cultura.
E estas questões não mobilizam?
Existe certa preocupação da opinião pública por questões ambientais, um pouco mais do que em relação às questões da educação, o que não deixa de ser algo para se lamentar, pois as duas vão juntas. Contudo, tudo me parece “too little, too late”: muito pouco e muito tarde. Está se demorando tempo demais para difundir a consciência ambiental. Uma conscientização que o planeta requer, com absoluta urgência, de todos nós. E esta inércia se traduz na escassa pressão sobre os governos, corporações e empresas que apenas investem nesse conto chinês do “capitalismo verde”. Em particular, evidencia-se muito pouca pressão sobre as grandes empresas, sempre distraídas e incompetentes quando se trata do problema da mudança climática.
Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que conta com o apoio desinformado (é o que se deduz) de uma parte significativa da população do sul e do sudeste, para onde irá a maior parte da energia que não for vendida – a um preço extremamente barato – para multinacionais de alumínio fazerem latas de saquê – no baixo Amazonas – para o mercado asiático.
Necessitamos de um discurso político mais agressivo em relação às questões ambientais. É necessário, sobretudo, falar com as pessoas, chamar a atenção a respeito de que o saneamento básico é um problema ambiental, de que a dengue é um problema ambiental.  Não se pode separar a dengue do desmatamento e do saneamento. Temos que convencer aos mais pobres de que melhorar as condições ambientais é assegurar as condições de existência das pessoas.
"No entanto, a esquerda tradicional, como está sendo demonstrado, apresenta-se completamente inútil para articular um discurso sobre os temas ambientais. Quando suas cabeças mais pensantes falam, parece haver a sensação de estar “indo para trás”, tratando desastradamente de capturar e de reduzir um tema novo ao já conhecido, um problema muito real que não está em seu DNA ideológico e filosófico. Mesmo quando a esquerda não se alinha com o insustentável projeto “ecocida” do capitalismo, revela sua origem comum a este, com as névoas e obscuridades da metafísica antropocêntrica do cristianismo."
Enquanto continuarmos sustentando que melhorar a vida das pessoas é lhes dar mais dinheiro para comprar uma televisão, ao invés de melhorar o saneamento, abastecimento de água, saúde e educação primária, nada mudará. Escuta-se o governo dizer que a solução é consumir mais, mas não se percebe a menor ênfase para abordar estes aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições do presente século.
Isto não significa, obviamente, que os mais favorecidos pensem melhor e que possam ver além dos mais pobres. Não há nada mais estúpido que estas Land Rovers que vemos em São Paulo ou noRio de Janeiro, andando com adesivos do Greenpeace, de slogans ecológicos, coladas no para-brisa. As pessoas vão às ruas nestes 4×4 e bebem um diesel venenoso… Gente que pensa que o contato com a natureza é fazer um Rally no Pantanal…
É uma questão difícil: falta educação básica, falta o compromisso dos meios de comunicação, falta agressividade política no tratamento da questão do meio ambiente.
E sempre que se pensa que existe um problema ambiental, algo que está longe de ser o caso dos governantes atuais, estes mostram, ao contrário, e, por exemplo, a preocupação em formar jovens que possam manobrar com segurança e, ao mesmo tempo, mantém firme sua aposta no transporte individual, em carros, em uma cidade como São Paulo, em que já não cabe nem uma agulha. Um governo que não se cansa de se orgulhar pela quantidade de carros produzidos por ano. É absurdo utilizar os números da produção de veículos como um indicador de prosperidade econômica. Essa é uma proposta podre, uma visão estreita e uma proposta muito empobrecedora para o país.
Você está dizendo que os apelos ao consumo vêm do próprio governo, mas também há um apelo muito forte procedente do mercado. Como avalia isto?
O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é visto por quase todo o mundo como uma evidência palpável, o modo inevitável em que se vive no mundo atual. Diferentemente de alguns companheiros de caminhada, eu entendo que o capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos. E que nossa atual forma de vida econômica é realmente evitável. Então, simplesmente, nossa forma de vida biológica (quer dizer, a espécie humana) não será mais necessária e a Terra irá favorecer outras alternativas.
As ideias de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, ou a ética da suficiência são incompatíveis com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia de manter certo nível de equilíbrio em relação ao intercâmbio de energia com a natureza não se ajusta na matriz econômica do capitalismo.
Este impasse, gostemos ou não, será “resolvido” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que pensávamos. As pessoas fingem não saber o que está se passando, preferem não pensar nisso, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, pelo contrário, sempre se prepara para o melhor. Este otimismo nacional frente a uma situação planetária é extremamente preocupante, assim como perigoso… E a aposta de que vamos bem dentro do capitalismo é um tanto ingênua, se não desesperada…
O Brasil segue como um país periférico, uma plantação “high tech” que abastece com matérias-primas o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne bovina, para os países industrializados: são estes quem têm a última palavra, os que controlam o mercado. Estamos bem neste momento, mas de modo nenhum em condições de controlar a economia mundial. Se a coisa muda um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil simplesmente pode perder esse lugar no qual se encontra hoje. Para não mencionar, claro, o fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008, que está longe de terminar e que ninguém sabe aonde irá parar. O Brasil, neste momento de crise, é uma espécie de contracorrente do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Deve-se falar sobre estas coisas.
E como você avalia a macropolítica em relação a esta realidade, as políticas macroeconômicas, com as realidades rurais do Brasil, os indígenas ribeirinhos?
O projeto de Brasil, que tem a atual coalizão do governo sob o mando do Partido dos Trabalhadores (PT), considera os ribeirinhos, os indígenas, os campesinos, os quilombolas como pessoas com atraso, um atraso sociocultural, e que devem ser conduzida para outro estado. Esta é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, o projeto é uma “paulistização” do Brasil. Transformar o interior do país em um país de fantasia: muita festa de peão de vaqueiro, caminhonetes 4×4, muita música country, botas, chapéus, rodeios, touros, eucaliptos, gaúchos. E do outro lado, cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo.
O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar para civilizar, para domar, para obter benefícios econômicos, para capitalizar. Em uma lamentável continuidade entre a geopolítica da ditadura e a do governo atual, este é o velho “bandeirantismo” que hoje faz parte do projeto nacional. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é ou deveria ser a civilização brasileira, daquilo que é uma vida digna de ser vivida, do que é uma sociedade que está em sintonia consigo mesmo, é muito, muito similar.
Estamos vendo hoje uma ironia muito dialética: o governo, liderado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura, realizando um projeto de sociedade que foi adotado e implementado por esta mesma ditadura: a destruição da Amazônia, a mecanização, a “transgenização” e a “agrotoxicação” da agricultura, migração induzida pelas cidades.
E por detrás de tudo isso, certa ideia de Brasil que se vê, no início do século XXI, como se devesse ser, ou como se fosse, o que os Estados Unidos eram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, em vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywoodnos anos 50: muitos carros, muitas autopistas, muitas geladeiras, muitas televisões, todo mundo feliz. Quem pagou por tudo isso? Entre outros, nós. Quem irá nos pagar agora? A África, outra vez? Haiti? Bolívia? Para não falar da massa de infelicidade bruta gerada por esta forma de vida (e de quem se enriquece com isto).
Isto é o que vejo com tristeza: cinco séculos de maldade continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. Nosso governo “de esquerda” governa com a permissão da oligarquia e necessita destes capangas para governar. Pode-se fazer várias coisas, desde que a melhor parte fique com ela. Toda vez que o governo ensaia uma medida que a ameaça, o Congresso – que sabemos como é eleito –, a imprensa bombardeia, o PMDB sabota.
Há uma série de becos para os quais eu não vejo saída ou que não têm saída no jogo da política tradicional, com suas regras. Vejo um caminho possível pelo lado do movimento social – que hoje está desmobilizado. Mas, se não for pelo lado do movimento social, seguiremos vivendo neste paraíso subjetivo de que um dia tudo vai ficar bem. O Brasil é um país dominado politicamente pelos grandes proprietários de terra e grandes empreiteiros que jamais sofreram uma reforma agrária e ainda dizem que atualmente não é mais necessário fazê-la.
Acredita que as coisas começarão a mudar quando chegarmos a um limite?
É provável que a crise econômica mundial afete ao Brasil em algum momento próximo. Contudo, o que vai ocorrer, com certeza, é que o mundo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa durante os próximos 50 anos, com epidemias, fome, secas, catástrofes, guerras, invasões. Estamos vendo como as condições climáticas mudaram muito mais rápido do que pensávamos. E há grandes possibilidades de desastres, de perdas de colheitas, de crises alimentares. Neste meio tempo, hoje em dia, o Brasil até se beneficia, mas um dia a fatura irá chegar. Climatologistas, geofísicos, biólogos e ecologistas são profundamente pessimistas sobre o ritmo, as causas e consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve a vida atual da espécie. Por que deveríamos ser otimistas?
Acredito que se deve insistir que é possível ser feliz sem ficar hipnotizado por este frenesi de consumo que os meios de comunicação impõem. Não sou contrário ao crescimento econômico no Brasil, não sou tão estúpido para pensar que tudo se resolveria mediante a distribuição do dinheiro de Eike Batista entre os agricultores do nordeste semiárido ou cortando os subsídios à classe política-mafiosa que governa o país. Não que não seja uma boa ideia. Sou contrário, isto sim, ao crescimento da “economia” do mundo, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. E também sou, obviamente, a favor de que todos possam comprar uma geladeira e, por que não, uma televisão. Sou a favor de uma maior utilização das tecnologias solar e eólica. E estaria encantado em deixar de dirigir o carro, se pudéssemos trocar este meio de transporte absurdo por soluções mais inteligentes.
E como vê os jovens neste contexto?
É muito difícil falar de uma geração a qual não se pertence. Nos anos 1960, tínhamos ideias confusas, mas ideais claros: pensávamos que poderíamos mudar o mundo e imaginávamos que tipo de mundo queríamos. Acredito que, em geral, os horizontes utópicos têm retrocedido enormemente.
Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou a sua atenção?
"No Brasil, a aceleração difusa do que poderíamos chamar de uma cultura “agro-sulista”, tanto da direita quanto da esquerda, pelo interior do país. Vejo isto como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, deste modo muito peculiar da elite governante no poder acertar as contas com seu próprio passado (passado?) escravista."
Outra mudança importante é a consolidação de uma cultura popular vinculada ao movimento evangélico popular. O evangelismo da Igreja Universal do Reino de Deus associa, por certo, a religião ao consumo.
O como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?
Essa é uma das poucas coisas a respeito das quais sou muito otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total dos meios de comunicação de cinco ou seis conglomerados midiáticos. Esse enfraquecimento está muito vinculado à proliferação das redes sociais, que são grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para que circule um tipo de informação que não tinha lugar na imprensa oficial. E estão habilitando formas, antes impossíveis, de mobilização. Há movimentos inteiramente produzidos pelas redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada”, os diversos movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas.
As redes são nossa saída de emergência frente à aliança mortal entre o governo e os meios de comunicação. São um fator de desestabilização – no melhor sentido da palavra – do poder dominante. Se puder ocorrer alguma mudança importante na cena política, acredito que será através da mobilização pelas redes sociais.
E por isso se intensificam as tentativas de controlar estas redes, em todo o mundo, por parte do poder constituído. Contudo, controlar o acesso é um instrumento vergonhoso, como o caso do “projeto” da banda larga brasileira, que parte do reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnológica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação das produções culturais.
Parece, às vezes, que haveria uma conspiração para evitar que os brasileiros tenham uma boa educação e um acesso à Internet de qualidade. Essas duas coisas andam de mãos dadas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social que, diga-se de passagem, é necessário vigiar com muito cuidado.
Você imagina um novo modelo político?

"Só posso expressar minhas preocupações e indignações, apenas aí é que me sinto seguro."

Um amigo que trabalhava no Ministério do Meio Ambiente, na época de Marina Silva, criticava-me dizendo que meu discurso, feito à distância do Estado, era romântico e absurdo, que tínhamos que tomar o poder. Eu respondia que, se tomássemos o poder, tínhamos que, sobretudo, saber como mantê-lo depois, pois aí é que a coisa se complica. Não tenho um desenho, um projeto político para o Brasil, eu não pretendo saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral, e em seu conjunto. Só posso expressar minhas preocupações e indignações, apenas aí é que me sinto seguro.
Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou a esta altura tinha – as condições geográficas, ecológicas, culturais para desenvolver um novo estilo de civilização, que não seja uma cópia empobrecida do modelo da América do Norte e da Europa. Poderíamos começar a experimentar, timidamente, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna.
Todavia, imagino que se algum país do mundo irá fazer isso, esse país é a China. É certo que os chineses têm 5.000 anos de história cultural praticamente contínua e o que nós temos para oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste história de etnocídio, deliberado ou não. Ainda assim, é imperdoável a falta de inventividade da sociedade brasileira – ao menos de sua elite política e intelectual – que já perdeu várias ocasiões de gerar soluções socioculturais – tal como o povo brasileiro historicamente ofereceu – e articular, assim, uma civilização brasileira minimamente diferente da que propõem os comerciais de televisão.
Temos que mudar completamente e, primeiramente, a relação secularmente depredadora da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica de sua própria nacionalidade. Já é hora de começar uma nova relação com o consumo, menos ansioso e mais realista frente à situação de crise atual. A felicidade tem muitos outros caminhos.
(EcoDebate, 17/12/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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Fonte: http://www.ecodebate.com.br/2013/12/17/o-capitalismo-sustentavel-e-uma-contradicao-em-seus-termos-diz-eduardo-viveiros-de-castro/