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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

JORNALISMO - OS "FRILAS" FIXOS*



MERCADO EDITORIAL > ONDA DE DEMISSÕES

A precarização do trabalho e os “frilas fixos”

Por Phellipe Marcel da Silva Esteves em 11/08/2015 na edição 863**

Nas minhas pesquisas sobre a história das enciclopédias no Brasil – no que tange à sua edição, às escolhas e à escrita de verbetes, à circulação de saberes linguísticos e científicos –, frequentemente deparo com listas de colaboradores, redatores, editores que nunca ganharam visibilidade no mercado editorial, graças à prática de auto-apagamento do trabalho de edição de livros. Desde o começo do século 20, pelo menos, essa é uma constante que se repete modernamente.
A enciclopédia Thesouro da juventude foi publicada assim, pela iniciativa privada. Algumas obras governamentais do já extinto Instituto Nacional do Livro também. É da política editorial de muitas empresas não incluir, anular ou muitas vezes impedir a impressão dos nomes dos revisores, dos copidesques, dos cotejadores, dos diagramadores etc. nas páginas iniciais ou finais das publicações, destinadas justamente às informações técnicas sobre os livros. Já outras editoras permitem que os colaboradores tenham seu trabalho reconhecido – em vários sentidos – e divulgado nessas mesmas páginas.
O grupo editorial Record, que nos dias 6 e 7 de agosto de 2015 realizou uma rodada de cerca de cinquenta demissões, é uma dessas empresas que pouco divulgam os nomes de seus colaboradores, internos ou externos: reconhecimento zero nos livros. Até o momento, pouco foi publicado sobre esse enorme número de trabalhadores mandados embora num dos maiores grupos editoriais do país. À frente, tratarei dessas e de outras querelas.
Uma massa fria
Demissões simultâneas. Vários chefes combinam um horário e chamam subalternos ao mesmo tempo para dar a má notícia, diante de planilhas e mais planilhas abertas no computador. O baixo desempenho dos últimos anos, meses, é a desculpa para a demissão, bem como quanto cada setor deve custar para a empresa. O dia já estava marcado como aquele em que ocorreriam as demissões. Todos sabiam. O sentimento foi de terror: gente jovem, com conta e financiamento para pagar, custeando cursos e mais cursos para se capacitar ainda mais para o trabalho editorial. Gente mais madura, com vinte, trinta anos de casa, muita experiência, a memória da própria editora. De acordo com algumas fontes, esse foi o cenário dos dias 6 e 7 de agosto no grupo editorial Record.
Alguns setores foram praticamente extintos. O de literatura nacional, por exemplo, foi quase ceifado pela quantidade de funcionários demitidos: isso num dos grupos editoriais com um dos catálogos mais importantes de livros brasileiros. Num mercado em que já é dificílimo se lançar como autor, esse desgaste na “reorganização” – termo utilizado do lugar do patrão; o empregado chama por aquilo que isso é mesmo: corte e exploração – das grandes editoras piora ainda mais qualquer chance de publicar. O que sobra é escrever livros politicamente incorretos que vendem às dezenas de milhares, felizmente desmentidos depois por historiadores que de fato conhecem o assunto, profunda e criticamente. Nisso os grandes grupos editoriais apostam. E são esses os setores comumente poupados das demissões.
A desculpa da crise, da falta de vendas de livros para o governo pela escassez de editais, do recrudescimento do número de leitores – que se converteram em “preenchedores” de livros de colorir – não exime as grandes editoras de uma responsabilidade: não é incomum que os setores mantidos, os livros aceitos, as editorias privilegiadas não sejam as de literatura nacional, as de arte, as que aceitam novos autores de romance, poesia, contos, crônicas. Investe-se nos setores que consolidam o sucesso de pessoas já renomadas – apresentadores de TV, atores, ex-modelos, cantores decadentes, jornalistas de direita –, os que editam literatura de mercado de circulação internacional, os que lançam livros religiosos como nunca antes. Azar de quem se preocupa com o bom livro, com o livro qualidade, com todo juízo de valor aqui.
Num artigo jornalístico, dificilmente cabe a especulação do porvir. Mas, nesse caso, não creio ser de todo ruim nos perguntarmos sobre o futuro desses profissionais do livro, uma vez que é necessária sua absorção. Quais são as alternativas desses trabalhadores demitidos? O mercado editorial oferece uma solução: o trabalho como freelancer.
Irregularidade trabalhista
Normalmente, o sujeito entra – ou se mantém, no caso de uma demissão – no mercado editorial como estagiário ou fazendo “frilas”. São diversas as etapas de produção de um livro até seu lançamento, e as editoras não possuem em seus quadros internos empregados para todo o processo. Justificável em alguns casos, já que cada projeto é um projeto. Por outro lado, economicamente vantajoso para a editora, já que é muito mais barato pagar um revisor à distância que manter um interno. Não há de se preocupar com seu deslocamento, com alimentação, com o cumprimento de apenas oito horas diárias e um máximo de duas horas extras por dia. O freelancer faz seu horário e tem de se preocupar, ele mesmo, com sua previdência: tudo como se fosse autoconduzido à exploração de seu trabalho.
A presença de “frilas fixos” nas editoras não é nenhuma novidade: a capistas, designers, produtores editorais, revisores, tradutores etc. é prometido o pagamento de uma remuneração fixa pouco mais alta que o valor de mercado para que os colaboradores prestem seus serviços exclusivamente para a casa editorial pagante. Na prática, são profissionais sem direitos trabalhistas que a qualquer momento podem ser desligados de suas funções sem o pagamento de rescisão de contrato, sem FGTS, sem aviso-prévio. Sim, acontece. Sim, em mais de uma editora. Sim, em quase todas as grandes. E, não, não há escolha, hoje, se o profissional quiser se manter no mercado como autônomo, a não ser aceitar essas condições e agradecer a cada trabalho. Também não há escolha, a quem quer se manter dentro das grandes editoras com carteira assinada, a não ser se submeter ao papel de contratar esses autônomos, às vezes ciente de que o que se cobra é muito mais do que se pode humanamente cumprir, em termos de carga física e temporal de trabalho.
Os prestadores de serviço se mantêm calados, não raro com medo de retaliações das editoras, que podem simplesmente cessar a oferta de frilas, uma vez que, nas palavras de muitos, “o mercado é pequeno”, “todo mundo se conhece”, “não quero ser deixado na geladeira”. Esse temor de gente bem-formada e competente – com graduação, especializações, MBAs, mestrados, doutorados; conhecimento de duas, três, quatro línguas além da nativa; frequência em diversos cursos de atualização – se traduz numa expressão antiga, mas atualíssima: precarização das relações de trabalho. Precarização das relações do trabalho com livros: em geral, quando de não ficção, livros de direita; quando de ficção, livros de literatura traduzidos do inglês.
Literatura traduzida do inglês e livros de direita
As línguas são a base material dos processos que engendram a produção, a reprodução e a ruptura ideológica. Nas grandes editoras brasileiras, há um predomínio de livros traduzidos do inglês mesmo quando a língua original é outra, como japonês, árabe, hebraico; ou mesmo línguas que contam com cursos de graduação e aperfeiçoamento mais numerosos no Brasil, como francês, italiano, espanhol. O livro é vertido para o inglês de sua língua original e, só então, é traduzido para a língua do Brasil. Isso porque o principal critério para saber se um livro vai ou não ser vendido no Brasil é se o livro foi ou não bem-vendido nos Estados Unidos. Imagina-se um público leitor brasileiro muito parecido com um público leitor norte-americano, e isso vai se perpetuando, vai se reproduzindo como uma ideologia literária.
Quando só se publica literatura – muitas vezes textos que tendem a rompimentos com padrões estéticos conhecidos, reconhecidos, canonizados – traduzida do inglês, aprofundam-se imaginários circulantes na língua inglesa, e não em outras línguas. Todo processo tradutório necessariamente subtrai e soma algo à obra: a maior preocupação aqui é justamente com o que se mantém, esse mesmo que não muda mesmo com a tradução. Um conjunto dos mesmos princípios, conhecimentos e modos de vida, como se esses fossem os únicos possíveis de serem lidos em nossa língua, e substituindo outro conjunto de princípios, conhecimentos e modos de vida presentes no vernáculo brasileiro. Um risco tanto à autonomia nacional quanto à pluralidade de ideias. Tudo marcado na própria língua.
Rowland Lorimer, fundador do curso de produção editorial da Simon Fraser University – uma das principais universidades canadenses que oferecem disciplinas dessa área –, em entrevista a mim em 2013 lamentou que no Brasil se leia muito mais literatura dos Estados Unidos que brasileira, mas afirmou que essa não é exclusividade nossa: de acordo com Lorimer, o leitor canadense, mesmo num país plurilíngue e que tenha o inglês como língua dominante, também compra mais livros escritos por autores dos EUA que por escritores do Canadá. A conjuntura é internacional, e, mesmo entre nações ditas de primeiro mundo, há uma relação de dominância entre a língua inglesa estadunidense e outras línguas, mesmo outras variedades da língua inglesa, como a canadense. A relação é de subalternidade. Se um dos primados de uma literatura dita nacional é que haja a tal da “cor local”, a leitura fomentada por essa ideologia editorial é monocromática.
Algo ainda mais agravante é a proliferação de livros de chacota à ideologia de esquerda, de revisionismo e desconhecimento histórico, como os atribuídos a Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Flávio Morgenstern. Este último chamou Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Manuel Castells, Noam Chomsky, Slavoj Žižek, Jacques Lacan, István Mészáros, Bill Ayers e Marilena Chaui (todos intelectuais reconhecidíssimos em suas respectivas áreas, leituras obrigatórias em qualquer lugar do mundo em cursos de ciências humanas) de portadores de “opiniões maluco-beleza”. Seriam esses autores de direita leituras necessárias? Para quem? Talvez, até para se conhecer o que esses autores formulam ideologicamente, como se posicionam. Mas praticamente não há, nessas grandes editoras, espaço para o contraste.
Há publisher, há marketing, há e-books
Em comunicado no próprio site da Ediouro – que já está redirecionando seu conteúdo para o domínio da HarperCollins –, foi anunciada a joint venture entre HarperCollins e a editora brasileira. Brian Murray, presidente e CEO dessa que é a segunda maior publicadora de livros comerciais do mundo, afirma no documento que “Isso nos proporciona uma presença mais marcante num mercado estratégico e em expansão, e representa mais um passo em nossos planos de publicar globalmente nossa ampla lista de autores, ao mesmo tempo prestigiando os autores locais.” As editoras internacionais investem em ocupar espaço no mercado brasileiro, mas há um desinvestimento, do lado brasileiro, no capital humano já presente aqui. Que crise é essa que é vista como oportunidade pelas casas editoriais mundo afora? As demissões nesses grupos – que vão além da Record – seriam uma maneira de aumentar sua competitividade ou atender a algum padrão de custo internacional? Há, de fato, a necessidade de se cortar na folha de pagamento antes de se revisar a margem de lucro? O autor tem sido bem-remunerado pelas editoras?
Ênio Silveira, editor e fundador da Civilização Brasileira, editora incorporada à Record em 2000, foi um dos editores mais personalistas da história da edição de livros no Brasil. Militante do Partido Comunista Brasileiro, compôs uma linha editorial crítica que não era simplesmente fechada a livros de esquerda, mas a livros que podiam contribuir para a constituição de um pensamento reflexivo no Brasil. Ênio Silveira era editor, e se declarava frequentemente dividido entre o feijão e o sonho: entre as contas a pagar – as suas e as da editora – e o desejo de publicar títulos de qualidade. Conseguia chegar a um equilíbrio. Jorge Zahar, outro grande editor, em sua discrição afirmava que era o editor que Ênio da Silveira dizia ser: militava em suas edições, fazia campanha pelos direitos humanos, escolhia a dedo livros que poderiam provocar e impulsionar os leitores.
Ainda há editores como Silveira e Zahar hoje. Gente que, mesmo dentro dessas grandes editoras, se engaja na publicação de bons livros, títulos reflexivos e obras desafiadoras. Amigos meus. Heróis anônimos. E há também essa nossa figura, o publisher. Junto ao marketing, ele é responsável por guiar o livro a seu nicho de mercado. Um editor comercial que maximiza os lucros do grupo editorial, custe o que custar. Um grande incentivador de que o critério principal de escolha de um título a ser editado no Brasil seja somente seu potencial de venda, ignorando a exatidão, a qualidade, a capacidade transformadora do livro. Obviamente essas definições são ilustrativas e simplistas, mas é interessante pensar na oposição linguista “editor” e publisher.
A maximização dos lucros rende também uma economia com os recursos gastos nos livros. Já há editoras em que os livros digitais (e-books) não são revisados depois da conversão do arquivo para o suporte virtual. A qualidade de alguns produtos vem caindo gravemente, e tanto críticos quanto leitores têm notado.
O silenciamento do intelectual
Como já afirmei anteriormente, esses profissionais quase anônimos que trabalham nas editoras são bem-formados, intelectuais em potencial. Nas fichas do Instituto Nacional do Livro – abrigadas na Biblioteca Nacional – contendo os nomes dos interessados em participar da escrita da Enciclopédia brasileira, então em projeto, havia nomes do calibre de Darcy Ribeiro, Paulo Rónai, Sergio Mezzalira. Os editores de livros já possuem dados sobre o perfil de especialistas como os citados, na maioria dos casos formados em cursos de ciências humanas, conhecedores de várias línguas, interessados em culturas e leituras diversas. Mas futuramente conheceremos intelectuais saídos de projetos editoriais assim, ou suas vozes serão caladas?
O empenho desses possíveis intelectuais pela cultura, pela divulgação de ideias, é tal que, quando o principal prédio da Record, em São Cristóvão, sofreu com um incêndio em março de 2015, os empregados da empresa participaram ativamente da reconstrução simbólica da editora, com campanhas, mensagens positivas, pedido de colaboração de tantos outros apaixonados pelos livros. Na semana seguinte ao acidente, mesmo com janelas vedadas com madeira e sem ar-condicionado, todos voltaram a trabalhar em espaços inadequados e improvisados. Muitos deles foram demitidos alguns dias atrás, apesar do entusiasmo pela editora e por sua prática.
O mercado editorial, em vez de estimular que esses inteligentíssimos e brilhantes profissionais se tornem vozes exponenciais em suas áreas, como os mencionados acima, os silencia. E o faz da maneira mais violenta: com a ameaça velada de demissão em caso de uma produtividade mais crítica ou de uma discordância da linha editorial e/ou com um possível fim da oferta de frilas em caso de uma denúncia das condições de trabalho inadequadas como trabalhador autônomo. O que sobra? Sobra sonhar com o feijão, já que nem sonho nem feijão estão garantidos.
***
Phellipe Marcel da Silva Esteves é professor de Linguística da Uerj, jornalista, editor de livros e pesquisador na Fundação Biblioteca Nacional


* Título editado
**Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br/mercado-editorial/a-precarizacao-do-trabalho-e-os-frilas-fixos/ Acesso em 11082015. Colaboração Cristian Aguazo.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O JORNALISMO E A PAUTA*



Outras razões para a pauta negativa


Por Venício A. de Lima 

O sempre interessante Boletim UFMG que traz, a cada semana, notícias do dia a dia da Universidade Federal de Minas Gerais, informa, na edição de 4 de maio [Ano 41, nº 1.902], sobre trabalho desenvolvido por grupo de pesquisa do Departamento de Ciência da Computação (DCC) em torno da “análise de sentimento” que relaciona o sucesso das notícias com sua polaridade, negativa ou positiva.
Vale a pena conferir o artigo que originou a matéria (disponível aqui) e será apresentado, ainda este mês, em conferência internacional sobre weblogs e mídia social na Universidade de Oxford, Inglaterra.
Utilizando programas de computador desenvolvidos pelo DCC-UFMG, foram identificadas, coletadas e analisadas 69.907 manchetes veiculadas em quatro sites noticiosos internacionais ao longo de oito meses de 2014: The New York Times, BBC, Reuters e Daily Mail. E as notícias foram agrupadas em cinco grandes categorias: negócios e dinheiro, saúde, ciência e tecnologia, esportes e mundo.
As conclusões da pesquisa são preciosas.
Notícia negativa atrai mais leitores(as)
Cerca de 70% das notícias diárias estão relacionadas a fatos que geram “sentimentos negativos” – tais como catástrofes, acidentes, doenças, crimes e crises. Os textos das manchetes foram relacionados aos sentimentos que elas despertam, numa escala de menos 5 (muito negativo) a mais 5 (muito positivo). Descobriu-se que o sucesso de uma notícia [vale dizer, o número de vezes em que é “clicada” pelo eventual leitor(a)] está fortemente vinculado a esses “sentimentos” e que os dois extremos – negativo e positivo – são os mais “clicados”. As manchetes negativas, todavia, são aquelas que atraem maior interesse dos leitores(as).
Das cinco categorias de manchetes analisadas, a mais homogênea é a categoria “mundo”, onde só foram encontradas manchetes sobre catástrofes, sugerindo implicitamente que o país onde a notícia é produzida seria mais seguro do que os outros.
Descobriu-se também, ao contrário da expectativa dos pesquisadores, que os comentários postados por eventuais leitores(as) tendem a ser sempre negativos, independentemente do “sentimento” provocado pelo conteúdo da notícia.
Razões para a pauta negativa
Embora realizado com base em manchetes publicadas em sites internacionais – não brasileiros – os resultados do trabalho dos pesquisadores do DCC-UFMG nos ajudam a compreender a predominância do “jornalismo do vale de lágrimas” (ver, neste Observatório, “O vale de lágrimas é aqui”) na grande mídia brasileira.
Para além da partidarização seletiva das notícias, parece haver também uma importante estratégia de sobrevivência empresarial influindo na escolha da pauta negativa. Os principais telejornais exibidos na televisão brasileira, por exemplo, estão se transformando em incansáveis noticiários diários de crises, crimes, catástrofes, acidentes e doenças de todos os tipos. Carrega-se, sem dó nem piedade, nas notícias que geram sentimentos negativos. Mais do que isso: os(as) âncoras dos telejornais, além das notícias negativas, se encarregam de editorializar (fazer comentários) invariavelmente críticos e pessimistas reforçando, para além da notícia, exatamente os aspectos e consequências funestas de toda e qualquer notícia.
Existe, sim, o risco do esgotamento. Cansado de tanta notícia ruim e sentindo-se impotente para influir no curso dos eventos, pode ser que o leitor/telespectador(a) brasileiro afinal desista de se expor a esse tipo de jornalismo que o empurra cotidianamente rumo a um inexorável “vale de lágrimas” mediavalesco.
Triste mundo esse em que vivemos. Pautar preferencialmente o negativo se transformou, para além da política, em estratégia de sobrevivência empresarial.
Por enquanto, parece, está dando certo.
A ver.
***
Venício A. Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor com Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim de Em defesa de uma opinião pública democrática – conceitos, entraves e desafios (Paulus, 2014), entre outros livros

* título editado
publicado em 19/05/2015 na edição 851
Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/outras-razoes-para-a-pauta-negativa/

domingo, 28 de dezembro de 2014

JORNALISMO



VINGANÇA DOS REPÓRTERES

Decadência dos ‘social-media’ traz novo papel ao jornalista: vender


Por Mario Marques em 23/12/2014 na edição 830*

O poeta é um fingidor. O jornalista, um vendedor. Este vende tanto, tão completamente, que nem sente. Ou sente tarde. Jornalistas são, de fato, os melhores potenciais vendedores que você pode encontrar. Diariamente, ele vende sua pauta ao editor, diariamente tenta provar, no lead, por A+B, por que é importante aquela noticia existir, ou aquele perfil de um artista iniciante ou uma história curiosa que pode render um textaço – nas mãos certas. Ele vende tanto e tão naturalmente que não se vê um vendedor nato. E quando pula advertida ou inadvertidamente para o marketing aí, sim, sente-se em casa e não volta para a Terra do Fumódromo. Entramos numa era em que o jornalismo saltita, serelepe, rumo ao marketing. Pedindo licença a Fernando Pessoa para adaptar seu clássico, venho aqui fazer uma... venda.
O jornalismo tomou um pescotapa pesado quando, no fim dos anos 2000, virou qualquer coisa ao começar a ser redenominado de conteúdo. A partir dali, o marketing se apropriou do jornalismo, tornando o já desgastado ofício em algo totalmente ultrapassado. Num primeiro momento, os social-media eram os caras, aqueles que sabiam todos os processos e ferramentas das redes sociais, eram chamados de gênios da comunicação global, conteudistas, estrategistas, os players. Enquanto deslizavam como estrelas, os jornalistas assistiam a toda aquela transformação como estátuas apavoradas. Perderam espaço em agências, em assessorias de imprensa que queriam investir em mídias digitais, em agências de publicidade. Até em redações.
Isso acabou. É uma afirmação tão certa quanto a derrocada do Fluminense sem o patrocínio da Unimed. Dominados as ferramentas e os processos, jornalistas, velhos e novos, atropelaram os social-media. O texto é melhor, o português é melhor, a noção do que de fato é importante é absurdamente superior e a checagem é básica (em todos os meus seis anos na área de marketing não conheci nenhum social-media checador). Jornalistas, enfim, estão colocando os social-media de volta ao seu devido lugar. E, mais do que isso, os que enxergaram o cume da montanha mais perto já migram suas pós, mestrados, MBAs, doutorados etc. para o marketing. Entram no mar e não querem se secar.
Vida curta
O resultado desse fenômeno é descrito em dois movimentos opostos, mas complementares: o primeiro é a falência de milhares de “agências digitais” por absoluta incompetência conteudista dos social-media; o segundo, a abertura de novas e igualmente incompetentes agências por social-media expurgados das médias e grandes agências por jornalistas mais experientes. Vivemos, portanto, um momento em que o jornalista toma o lugar do social-media num círculo em que o protagonista da decadência é a ex-estrela social-media.
Não vamos generalizar, mas precisamos entender o básico. No curso de publicidade ensinam ao sujeito como vender um produto de todas as maneiras possíveis, sem dó nem piedade, seja como for; no de jornalismo aterrorizam você com a perfeição de um bom texto, do conteúdo, da forma e das consequências do que você escreve. São sentimentos distintos. Seja criativo versus seja responsável. E hoje, com agências representando empresas em redes sociais, é importante entender que uma vírgula errada é meia dúzia de clientes indo navegar na empresa concorrente.
Assim que a internet bateu no Brasil (1994-95), assistimos movimento semelhante na forma da “modinha”. Diretores de jornais, assustados com “a nova linguagem da internet”, pegaram um monte de moleques e blogueiros e tacaram-os nas redações para “rejuvenescer” o papel. O resultado foi catastrófico: a qualidade dos textos, as pautas absurdas, as idiotices que só cabiam em blogs indigentes foram parar em nobres páginas de jornalões – e logo rechaçados por assinantes tradicionais. Complementando a investida desastrosa, pegaram os mais experientes e os empurraram para os sites de notícias. Enfraqueceram o papel e fortaleceram a internet. Demorou muito para os executivos das redações entenderem que ambas as plataformas precisavam de gente experiente e talentos novos. Um mix do melhor dos dois mundos.
Outra ventania de desespero no começo da internet foi a abertura, pelas empresas jornalísticas, de centenas de vagas para blogueiros que não tinham condições técnicas de habitar uma redação de jornal na era pré-internet. Com Google, corretor etc, a partir do fim dos anos 90 o jornalismo viveu uma abilolada fase, perdido, sem saber como lidar com os novos tempos da comunicação. Toda aquela rigidez na seleção dos jornalistas, dos anos 90 para trás, acabaria ali.
No começo dos anos 2010, os blogueiros, então estrelas moderninhas, tiveram que dividir as luzes com os social-media. Aqueles caras que tinham muitos seguidores no Twitter, frases incríveis, grandes sacadas, imagens, até design bacana. Mas os social-media não duraram muito. Logo logo jornalistas e blogueiros descobriram como usar todo o Facebook, o que fazer e o que não fazer, como montar um anúncio, como engajar mais, como administrar uma crise de imagem na internet. E os social-media, apequenados, foram, e estão sendo, extirpados aos poucos do mercado.

Acima da média

O cenário é ruim para quem vive de comunicação digital. Agências on não fecham mais a conta porque os clientes já sacaram a fragilidade técnica dos garotos e agora estão em busca de porto-seguro. Aos poucos ,voltam às agências tradicionais, com seus departamentos digitais recheados de profissionais de conteúdo de altíssimo nível, alinhados ao marketing.
Estamos nesse momento numa fase ainda mais avançada da vingança do jornalista contra o marketing. Os que tiveram coragem de levantar seus assentos cansados da redação e respirar ares de marketing viraram baitas gerentes comerciais, gerentes de projetos, gerentes de conteúdo, gerentes de novos negócios, apresentando um background acima da média dos triviais.
Vendem que nem sentem. Mas as empresas de comunicação já sentem.
***

*Mario Marques é jornalista, CEO da LabPop Group, holding de 5 empresas nas áreas de marketing e vendas 
 
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed830_decadencia_dos_social_media_traz_novo_papel_ao_jornalista__vender

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

JORNALISMO NO BRASIL



Quando imprensa vira notícia, uma das duas está doente


Por Alberto Dines em 11/11/2014 na edição 824

Estarrecido como sói acontecer com almas sensíveis, este observador admite que já usou o axioma do título dúzias de vezes. Além de flagrante autoplágio, trata-se de descarada clonagem do dito caipira segundo o qual pobre só come galinha quando um deles está enfermo.
A imprensa detesta ver-se refletida nas manchetes; não é discrição ou timidez, é sabedoria: holofotes são incontroláveis, exibem muito mais do que deles se espera.
Em seguida ao estresse provocado pelo pedido de demissão do cronista esportivo Xico Sá, que se revoltou contra o embargo imposto ao artigo onde se proclamava eleitor de Dilma Rousseff, a Folha de S.Paulo resolveu voltar ao pódio para se autoproclamar campeã em matéria de isenção.
Na edição de sábado (8/11), com grande destaque e nenhum constrangimento, o jornal afirma na p. A-9: “Cobertura eleitoral da Folha é aprovada por 77% dos leitores” (ver aqui). A fonte é, naturalmente, o Datafolha. Uma pesquisa no Google revelará que a mesma pesquisa é repetida religiosamente depois de cada eleição com resultados sempre brilhantes. Se fosse pessoa, a Folha seria extremamente carente, sedenta de reconhecimento e aceitação.
No domingo (9/11), quando o México começava a pegar fogo com as declarações do procurador-geral sobre a chacina dos 43 estudantes em Iguala (ver aqui), a Folha teve novo surto de inovação e sapecou na manchete da primeira página a retumbante constatação: “Jornalismo profissional alimenta redes sociais” (aqui).
A Folha só descobriu isso agora? Se acompanhasse este Observatório com mais atenção teria publicado a mesma matéria há alguns anos. De qualquer forma, trata-se de uma edição histórica e não apenas pela insólita manchete.
“De folga”
Na página A-3, no “Painel do Leitor”, outras novidades: quatro leitores mencionam a saída dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, que se revezavam há pelo menos uma década na retranca do “Brasília” na nobilíssima Pagina Dois.
Como assim, onde é que os leitores descobriram esta informação? Logo se descobre, no pé do painel, uma Nota da Redação”: “Sobre o encerramento da colaboração na ‘Folha’ dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues leia reportagem à página A-10”.
Antes de chegar à página A-10, o observador dá uma paradinha na página A-6, onde aos domingos publica-se a coluna “Ombudsman”. Não há coluna com este nome. Com letra microscópica o jornal informa que neste domingo, excepcionalmente, não se publica a coluna da ombudsman – a mais importante contribuição ao processo de transparência jornalística.
Enfim, na página A-10: no alto destaca-se o título “Manifestantes buscam inspiração em direita americana”, e no corpo da xaropada com forte entonação conservadora o jornal informa que foi ouvir alguns dos 2.500 manifestantes que no dia 1/11 foram à Avenida Paulista protestar contra Dilma Rousseff e o PT. O redator tem o cuidado de informar que os manifestantes ouvidos não pediram a intervenção militar, a reivindicação “partiu de uma minoria”. Matéria estranhíssima.
Agora, sim: no pé da página A-10, com destaque “- D” (isto é, destaque nenhum): “Folha estreia novos nomes na coluna Brasília em dezembro”. Na parte final da matéria, depois de introduzidas as novas atrações, fica-se sabendo que substituirão Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, ela com 17 anos de casa e ele, 27 (ver aqui).
Só isso? Só isso. Desfecho insólito mesmo para os padrões da Folha.
No “Painel do Leitor” de segunda-feira (10/11), duas novas cartas sobre a saída de Cantanhêde e Rodrigues. E como um dos missivistas cobrou uma explicação sobre o súbito desaparecimento da ombudsman, Vera Guimarães Martins, em seguida veio a indefectível “Nota da Redação”: a coluna não foi publicada porque “a titular estava em semana de folga”.
Folga? Curioso.
Ato político
Desses fatos surgem três grandes evidências:
1. Como é que os leitores souberam da saída de Cantanhêde & Rodrigues se o jornal só publicou a informação um dia depois? Certamente pelas redes sociais, estúpido. Mas se as redes sociais só se inspiram no “jornalismo profissional” (segundo a manchete de domingo), alguma coisa escapou do controle, né?
2. Na sexta-feira (7/11) já corria a informação na blogosfera e alhures de que as demissões obedeciam a um drástico plano de contenção de gastos na redação do mais respeitado jornalão do país. Outros cortes viriam/virão. A crise econômica é visível a olho nu: pode ser detectada nas noites da Vila Madalena de quinta a sábado, na retração da publicidade em todas as mídias, nos pífios lançamentos da moda de verão. Pode ser notada, sobretudo, na própria Folha.
Na edição de sábado (8/11), com 92 páginas distribuídas em 9 cadernos, havia 38 anúncios de página inteira mais 12 inserções de grande porte (maior do que meia página), só no segmento de imóveis. No segmento automotor, três páginas inteiras; em outros segmentos (inclusive supermercados e eletroeletrônicos): 4 páginas.
E daí, perguntará o leitor. Eis o que informa a própria Folha na capa do caderno de classificados de imóveis, no domingo (9/11): “Preços em desaceleração e vendas em queda em São Paulo”. Construtoras, imobiliárias e incorporadoras gozam de tabelas especiais, os jornais oferecem generosos descontos ao setor, os anúncios de página dupla começam a substituir os de uma página. A Folha está oferecendo seu precioso espaço por preços insignificantes, quase de graça.
3. Outra evidência da crise e da absurda subserviência às chantagens dos anunciantes: o “informe publicitário” na capa e contracapa da edição da segunda-feira (11/11) nos exemplares destinados aos assinantes paulistanos. Com o patrocínio da operadora Vivo, da espanhola Telefônica, uma pseudocapa – verdadeiro trambique jornalístico – com a data e algumas notícias da terça-feira, 1 de fevereiro de 2000 (há 14 anos), quando o tenista Rafael Nadal, igualmente espanhol, iniciou a sua formidável coleção de prêmios. Mote das quatro páginas que envolvem a edição: “A vida passa em velocidade 4G”. Isso cheira a Navarra.
Quando grandes jornais abrem mão de seus traços e compostura vão se apequenando nos demais atributos. Demitir – ou o eufemismo de “interromper a colaboração” – acontece em qualquer empresa ou instituição. Afastar do quadro duas estrelas de primeira grandeza ao mesmo tempo e dessa forma descuidada, pusilânime, não é acidente, ou casualidade. É causal, tem um sentido, é ato político (não necessariamente partidário ou ideológico).
Quando a imprensa é notícia, um dos dois está doente. Ou os dois. A Folha adora surpreender: é o seu charme. E a sua perdição.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/quando_imprensa_vira_noticia_uma_das_duas_esta_doente