Mostrando postagens com marcador Imprensa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imprensa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

JORNALISMO NO BRASIL



Quando imprensa vira notícia, uma das duas está doente


Por Alberto Dines em 11/11/2014 na edição 824

Estarrecido como sói acontecer com almas sensíveis, este observador admite que já usou o axioma do título dúzias de vezes. Além de flagrante autoplágio, trata-se de descarada clonagem do dito caipira segundo o qual pobre só come galinha quando um deles está enfermo.
A imprensa detesta ver-se refletida nas manchetes; não é discrição ou timidez, é sabedoria: holofotes são incontroláveis, exibem muito mais do que deles se espera.
Em seguida ao estresse provocado pelo pedido de demissão do cronista esportivo Xico Sá, que se revoltou contra o embargo imposto ao artigo onde se proclamava eleitor de Dilma Rousseff, a Folha de S.Paulo resolveu voltar ao pódio para se autoproclamar campeã em matéria de isenção.
Na edição de sábado (8/11), com grande destaque e nenhum constrangimento, o jornal afirma na p. A-9: “Cobertura eleitoral da Folha é aprovada por 77% dos leitores” (ver aqui). A fonte é, naturalmente, o Datafolha. Uma pesquisa no Google revelará que a mesma pesquisa é repetida religiosamente depois de cada eleição com resultados sempre brilhantes. Se fosse pessoa, a Folha seria extremamente carente, sedenta de reconhecimento e aceitação.
No domingo (9/11), quando o México começava a pegar fogo com as declarações do procurador-geral sobre a chacina dos 43 estudantes em Iguala (ver aqui), a Folha teve novo surto de inovação e sapecou na manchete da primeira página a retumbante constatação: “Jornalismo profissional alimenta redes sociais” (aqui).
A Folha só descobriu isso agora? Se acompanhasse este Observatório com mais atenção teria publicado a mesma matéria há alguns anos. De qualquer forma, trata-se de uma edição histórica e não apenas pela insólita manchete.
“De folga”
Na página A-3, no “Painel do Leitor”, outras novidades: quatro leitores mencionam a saída dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, que se revezavam há pelo menos uma década na retranca do “Brasília” na nobilíssima Pagina Dois.
Como assim, onde é que os leitores descobriram esta informação? Logo se descobre, no pé do painel, uma Nota da Redação”: “Sobre o encerramento da colaboração na ‘Folha’ dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues leia reportagem à página A-10”.
Antes de chegar à página A-10, o observador dá uma paradinha na página A-6, onde aos domingos publica-se a coluna “Ombudsman”. Não há coluna com este nome. Com letra microscópica o jornal informa que neste domingo, excepcionalmente, não se publica a coluna da ombudsman – a mais importante contribuição ao processo de transparência jornalística.
Enfim, na página A-10: no alto destaca-se o título “Manifestantes buscam inspiração em direita americana”, e no corpo da xaropada com forte entonação conservadora o jornal informa que foi ouvir alguns dos 2.500 manifestantes que no dia 1/11 foram à Avenida Paulista protestar contra Dilma Rousseff e o PT. O redator tem o cuidado de informar que os manifestantes ouvidos não pediram a intervenção militar, a reivindicação “partiu de uma minoria”. Matéria estranhíssima.
Agora, sim: no pé da página A-10, com destaque “- D” (isto é, destaque nenhum): “Folha estreia novos nomes na coluna Brasília em dezembro”. Na parte final da matéria, depois de introduzidas as novas atrações, fica-se sabendo que substituirão Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, ela com 17 anos de casa e ele, 27 (ver aqui).
Só isso? Só isso. Desfecho insólito mesmo para os padrões da Folha.
No “Painel do Leitor” de segunda-feira (10/11), duas novas cartas sobre a saída de Cantanhêde e Rodrigues. E como um dos missivistas cobrou uma explicação sobre o súbito desaparecimento da ombudsman, Vera Guimarães Martins, em seguida veio a indefectível “Nota da Redação”: a coluna não foi publicada porque “a titular estava em semana de folga”.
Folga? Curioso.
Ato político
Desses fatos surgem três grandes evidências:
1. Como é que os leitores souberam da saída de Cantanhêde & Rodrigues se o jornal só publicou a informação um dia depois? Certamente pelas redes sociais, estúpido. Mas se as redes sociais só se inspiram no “jornalismo profissional” (segundo a manchete de domingo), alguma coisa escapou do controle, né?
2. Na sexta-feira (7/11) já corria a informação na blogosfera e alhures de que as demissões obedeciam a um drástico plano de contenção de gastos na redação do mais respeitado jornalão do país. Outros cortes viriam/virão. A crise econômica é visível a olho nu: pode ser detectada nas noites da Vila Madalena de quinta a sábado, na retração da publicidade em todas as mídias, nos pífios lançamentos da moda de verão. Pode ser notada, sobretudo, na própria Folha.
Na edição de sábado (8/11), com 92 páginas distribuídas em 9 cadernos, havia 38 anúncios de página inteira mais 12 inserções de grande porte (maior do que meia página), só no segmento de imóveis. No segmento automotor, três páginas inteiras; em outros segmentos (inclusive supermercados e eletroeletrônicos): 4 páginas.
E daí, perguntará o leitor. Eis o que informa a própria Folha na capa do caderno de classificados de imóveis, no domingo (9/11): “Preços em desaceleração e vendas em queda em São Paulo”. Construtoras, imobiliárias e incorporadoras gozam de tabelas especiais, os jornais oferecem generosos descontos ao setor, os anúncios de página dupla começam a substituir os de uma página. A Folha está oferecendo seu precioso espaço por preços insignificantes, quase de graça.
3. Outra evidência da crise e da absurda subserviência às chantagens dos anunciantes: o “informe publicitário” na capa e contracapa da edição da segunda-feira (11/11) nos exemplares destinados aos assinantes paulistanos. Com o patrocínio da operadora Vivo, da espanhola Telefônica, uma pseudocapa – verdadeiro trambique jornalístico – com a data e algumas notícias da terça-feira, 1 de fevereiro de 2000 (há 14 anos), quando o tenista Rafael Nadal, igualmente espanhol, iniciou a sua formidável coleção de prêmios. Mote das quatro páginas que envolvem a edição: “A vida passa em velocidade 4G”. Isso cheira a Navarra.
Quando grandes jornais abrem mão de seus traços e compostura vão se apequenando nos demais atributos. Demitir – ou o eufemismo de “interromper a colaboração” – acontece em qualquer empresa ou instituição. Afastar do quadro duas estrelas de primeira grandeza ao mesmo tempo e dessa forma descuidada, pusilânime, não é acidente, ou casualidade. É causal, tem um sentido, é ato político (não necessariamente partidário ou ideológico).
Quando a imprensa é notícia, um dos dois está doente. Ou os dois. A Folha adora surpreender: é o seu charme. E a sua perdição.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/quando_imprensa_vira_noticia_uma_das_duas_esta_doente

terça-feira, 28 de outubro de 2014

ECOS DA ELEIÇÃO


Não esqueçam o que eles escreveram


Por Luciano Martins Costa em 27/10/2014 na edição 821  

A imprensa brasileira escavou o poço da dignidade no último fim de semana, em sua derradeira e desesperada tentativa de reverter a direção dos votos para a Presidência da República. Como na tradição recente, coube à revista Veja dar partida ao factoide que deveria interromper a tendência dos indecisos em favor da candidatura do Partido dos Trabalhadores. Não foi suficiente. Ainda que por margem estreita, Dilma Rousseff se reelegeu.
Na segunda-feira (27/10), em processo de digestão do resultado indesejado, os principais jornais de circulação nacional assumem o discurso da conciliação proposto pela candidata vitoriosa e por seu oponente. A mais disputada eleição presidencial do presente século se encerra sob o signo da reforma política, tema que dominou a manifestação de Dilma Rousseff e que ganha algumas manchetes. Mas a proposta vem acompanhada de uma dúvida razoável: o Congresso Nacional abriria mão de decidir as novas regras em favor de um plebiscito, como propõe a presidente?
A profusão de análises que a imprensa oferece desde o começo da noite de domingo (26) dá ao leitor a sensação de que havia uma enorme riqueza de reflexões escondida por baixo do noticiário e das opiniões publicadas ao longo da campanha eleitoral.
O respeitoso perfil da presidente da República (ver aqui), apresentado na edição do Globo de segunda-feira, por exemplo, teria sido mais útil aos eleitores antes da votação. A reportagem, intitulada “Dilma Rousseff: a extraordinária história da clandestinidade à reeleição à Presidência”, teria estabelecido parâmetros mais claros para a comparação entre as duas candidaturas.
Essa e outras surpresas da segunda-feira, como as apreciações mais equilibradas sobre a situação econômica do país, mostram como a mídia desenhava uma visão catastrofista durante a campanha e agora oferece um cenário diferente, diante do fato consumado da vitória petista.
O rescaldo desse jornalismo oportunista e manipulador é a safra de ódio e preconceito que a sociedade colhe nas redes sociais, onde se manifestam os baixos instintos das classes médias tradicionais contra os que ascendem socialmente com a redução da pobreza, o preconceito do Sul contra o Norte e o Nordeste.
Sessão de descarrego
A imprensa que se apresentou no fim de semana, dando curso ao factoide fabricado pela revista Veja e estendendo a repercussão de boatos sobre o suposto envenenamento do doleiro que alimenta o escândalo da Petrobras, é muito diferente daquela que tenta interpretar sua própria derrota nas urnas. Ou alguém ainda duvida de que o resultado da votação contraria os desejos da mídia hegemônica?
Ao alimentar especulações, na fase final da disputa, a mídia ofereceu meios de racionalização para os insensatos que acreditam em qualquer coisa que venha a confirmar suas alucinações.
Não são poucos os cidadãos de alta renda e alta escolaridade que creem piamente que o avião em que morreu o ex-governador Eduardo Campos no dia 13 de agosto foi sabotado por petistas, que aceitam como fato qualquer declaração de um criminoso reincidente premido pela iminência de uma nova condenação, ou que acreditam que ele pode ter sido envenenado por ordem do governo federal, ou que as urnas eletrônicas são controladas por agentes comunistas por meio de telefones celulares.
A opção da imprensa por estimular o radicalismo, ao mesmo tempo em que seus editoriais condenavam hipocritamente as trocas de farpas entre os candidatos, é o fermento da insensatez que define muitos votos, que afeta o discernimento em ambos os lados do espectro ideológico em que se divide o país e estimula atitudes radicais como a dos militantes que picharam a sede da Editora Abril.
A origem desse estado de espírito avesso à convivência democrática é a linguagem virulenta dos pitbulls que foram alistados nas redações para substituir a narrativa jornalística pelo discurso da intolerância.
Os jornais amanhecem na segunda-feira (27) plenos de reflexões ponderadas, como se tivessem passado por uma dessas sessões de “descarrego” exibidos em programas religiosos na televisão. Como aquele sociólogo que virou presidente, é como se as redações estivessem pedindo: “Esqueçam o que nós escrevemos”. Mas a natureza da imprensa brasileira é aquela que dominou as 48 horas anteriores à abertura das urnas: é o vício da manipulação.


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/nao_esquecam_o_que_eles_escreveram 

domingo, 4 de maio de 2014

COMUNICAÇÃO



Pele vermelha, liberdade de imprensa é isso... 

 

Por Júlio Carignano

 

Pois bem sitiantes, o assunto é novamente imprensa. Gostaria de ser breve, mas são tantas datas que me confundo e me estendo: é dia de jornalista, do repórter, do comunicador, da imprensa e da liberdade dela. Dias atrás foram congratulações pelo Dia do Jornalista, momento que o "colaborador" se sente valorizado com tapinhas nas costas, bombonzinhos e as palavras orgulhosas de suas progenitoras.
Neste dia 3 de maio é lembrado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e no dia 7 de junho será a vez de "comemorarmos" o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa. Como essa "liberdade" pode variar de órgão para órgão, estado para estado e país para país, porque não termos um dia mundial e outro nacional. Só falta agora o estadual e municipal (sic).
Mas essa tal de "liberdade de imprensa" remete a reflexão, uma pulguinha atrás da orelha e uma pergunta ao estilo dos ancestrais tradicionais. Um deles diria: “liberdade de quem e para quem, cara pálida?”.
Confesso que realmente acredito no conto da liberdade de imprensa, ou melhor, "da imprensa", afinal a mídia tradicional está cada vez mais livre, leve e solta para dizer o que bem entender, inclusive para difamar quem quiser e quando quiser, livre também para - quando necessário - omitir e manipular.
A imprensa é livre para promover censura prévia aos seus "colaboradores" por meio de pautas com conteúdos regidos pelo departamento financeiro e comercial; livre para promover monopólios e oligopólios, fazer propriedade cruzada, contratos comerciais e acordos publicitários antiéticos com governos municipais, estaduais e federal.
Temos liberdade de imprensa para promover preconceito, seja ele de credo, gênero, raça, sócioeconômico ou de orientação sexual. Há liberdade para - em nosso estado laico - praticarmos proselitismo religioso para sustentação financeira de grandes igrejas por meio de concessões públicas de rádio e televisão.
Liberdade de imprensa que também passa pelas facilidades dessas concessões estarem nas mãos de grupos econômicos e políticos, visto que em Brasília dezenas de congressistas detêm concessões, fora aquelas que estão nas mãos de seus "laranjas". Sem falar dos meios impressos que não precisam dessa “autorização previa”. Facilidade essa que se contrapõe a dificuldade burocrática àqueles que querem instituir uma rádio ou televisão comunitária.
Também temos a "liberdade" de não seguirmos o Capítulo V de nossa Constituição Federal, que versa sobre Comunicação Social, afinal vários itens ainda não foram regulamentados. Viram, querem coisa mais "libertária" que não seguirmos a constituição?...
Vejam o caso do artigo 220, em seu parágrafo 2º: "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística". Já o parágrafo 5º traz: "os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio e oligopólio".

Por último o artigo 221, que fala sobre a produção: "I - preferência a finalidade educativas, artísticas, culturais e informativas/ II - promoção cultural nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação/ III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística".
Enfim, depois de todas essas particularidades, não há como não acreditar no conto da liberdade da imprensa, afinal não precisa estar acompanhada de "liberdade de expressão". Não me espanta a mídia tradicional, os grandes meios de comunicação, fazerem oba-oba nessas datas comemorativas.
Respondendo a pergunta do ancestral acima: "liberdade de empresa é isso, pele vermelha".   
 
 
Postado pelo autor em http://sitiocoletivo.blogspot.com.br/2014/05/pele-vermelha-liberdade-de-imprensa-e.html

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

IMPRENSA



Concentração das verbas publicitárias estatais também é decisão política

Alexandre Haubrich*

Uma pequena fábula: dois filhos nascem em anos seguidos. O primeiro, que vamos chamar de A, é mimado, ganha todos os brinquedos, toda a atenção, é bem alimentado e recebe todas as possibilidades de estudar. O segundo, que chamaremos de B, ao contrário, não ganha sequer a comida necessária para viver, vendo-se obrigado a vagar pelas ruas em busca de um pãozinho ali, outro acolá. O filho A puxa o saco dos pais, embora estes tenham o sequestro, a tortura e o assassinato como práticas diárias. Por estar sempre apoiando os pais em seus atos, o filho A ganha ainda mais benesses. O filho B, crítico, segue deixado de lado. Muitas vezes até apanha ferozmente.
Finalmente os pais são presos, e os filhos são adotados por um novo casal. Mas os pais adotivos também não são lá muito democráticos. São empresários, e constantemente humilham os trabalhadores de suas tantas empresas. Novamente, o filho A os elogia. O filho B, os critica. Apenas o filho A ganha carinho, atenção, comida. Ao filho B, restam os cantos. Certo dia, os filhos agora adolescentes, os pais adotivos morrem. E os filhos A e B são novamente adotados. Os novos pais adotivos estão na dúvida sobre como trata-los, e o filho A não reluta. Maior e mais forte, pressiona e ameaça os novos pais: “nada pra ele, tudo pra mim!”. E tenta justificar: “sou maior, sou mais forte, tenho mais brinquedos, por isso mereço mais”.
–
A saída de Helena Chagas da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, na última semana, trouxe mais uma vez à tona na velha mídia um debate que não sai da mídia alternativa há tempos: o problema da distribuição das verbas estatais de publicidade. É grave a distorção contida na afirmação de que distribuir as verbas baseado em audiência dos veículos é “critério técnico” e que se contrapõe ao “critério político” da distribuição horizontalizada que busque fortalecer novos veículos. Na realidade, os dois critérios são políticos e técnicos, são decisões políticas que contêm, de uma ou de outra forma, uma justificativa técnica.

midia

Helena Chagas saiu reclamando contra setores do PT que pretendem mudar o critério da audiência pelo critério da horizontalidade. Conglomerados da velha mídia, historicamente favorecidos por verbas estatais – e que sempre contaram com essa mãozinha para construir seus impérios – aplaudem Helena, que por um bom tempo trabalhou para um deles, galgando altos degraus no jornal O Globo.
Partindo-se do pressuposto de que uma mídia democrática é condição inseparável de uma sociedade democrática, um governo que pretende fazer avançar a democracia no Brasil precisa estar ao lado dos movimentos sociais que lutam por uma transformação na verticalizada e oligárquica estrutura midiática brasileira. Isso passa, entre outras medidas, pela desconcentração das verbas publicitárias estatais. Atualmente, em vez de tomar a decisão política de usar as verbas para democratizar e horizontalizar a comunicação, tem se optado por usá-las para não criar grandes crises com a mídia dominante.
A hipocrisia da velha mídia permite que travistam de puramente técnico o que eminentemente político. Ao mesmo tempo, sua batalha pela manutenção do estado de coisas inclui entre suas estratégias o esvaziamento da disputa. Afinal, a imobilidade favorece os de cima, sempre. E a despolitização é a causa fundamental da imobilidade. A disputa em torno das verbas é, sim, política. Há a opção política por um tipo de distribuição em detrimento de outro.
Argumentando contra a mudança, esse setor midiático afirma que o que querem os que a defendem é a destinação de verbas a espaços de jornalismo “chapa-branca”, aquele que apoia acriticamente determinado governo. Ora, foram justamente práticas de “chapa-branca” o que tanto engordou esses conglomerados – financeiramente e, consequentemente, em audiência – ao longo das últimas décadas. Apoiaram a Ditadura e dela receberam apoio. Apoiaram os governos neoliberais e deles receberam apoio. Mantêm rabos presos com os altos setores empresariais – dos quais, aliás, são parte orgânica – e deles recebem apoio. Na outra ponta, trabalhadores, jovens e militantes são ou domesticados ou criminalizados, colocados uns contra os outros. Os conglomerados levam ao pé da letra o ditado do “quem paga, leva”, desde que essa fonte de recursos não contrarie frontalmente o sistema geral que os sustenta.
Se por um lado é verdade que há setores que só buscam mudanças com objetivos puramente de interesse privado, sem construir qualquer tipo de conteúdo de interesse público, foi – e continua sendo, já que não houve qualquer mudança relevante – exatamente essa a prática dos conglomerados midiáticos. Nem para um, nem para outro, as verbas estatais de publicidade devem ser destinadas a ampliar vozes, fortalecer alternativas e transformar a injusta, antidemocrática e silenciosa estrutura de comunicação brasileira.

 Fonte: http://jornalismob.com/2014/02/06/concentracao-das-verbas-publicitarias-estatais-tambem-e-decisao-politica/

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

ARTIGO




Na ponta do iceberg não cabe todo mundo


 

piramideBibiano Girard*, especial para o Jornalismo B

A imprensa defende os seus. Ideologia, ao contrário do que a vasta maioria crê, não existe apenas na esquerda. Se você não assume o discurso pela busca de igualdades, você apoia o lado contrário. Silenciar não é abster-se. Quando você silencia, o lado que está vencendo prevalece. A imprensa da hegemonia tem suas ironias. Gasta minutos e espaço falando de protestos, mas, no fim das contas, pede calma, passividade e aperta o cerco quando a mesma crítica chega ao lucro de seus impérios. Jamais haverá Rede Globo ao lado de manifestações. Jamais a RBS vai procurar abranger de fato as reivindicações populares. No seu tronco, as manifestações lutam contra as mesmas práticas da imprensa antidemocrática. RBS, associações privadas de transportadores públicos e empresários lojistas seguem à risca a mesma e única finalidade: lucrar. Pedir calma e paciência é jogo bonito: bater é feio, quebrar é deselegante. Mas lucrar R$ 80 anuais ilegalmente sobre cada passageiro não parece surpreender os comentaristas. Seria jogo natural do mercado.
Rolezinho não é visita ao shopping, como querem reivindicar os dois maiores jornalões do Rio Grande do Sul em suas edições desta segunda-feira. Correio do Povo e Zero Hora acharam de bom tom o protesto realizado em um shopping da capital. Mas se passar das danças e das cantorias, relembremos junho do ano passado: eles assinam com a polícia. Diferentemente de São Paulo e do Rio, onde as mecas do consumo desvairado fecharam as portas no domingo, em Porto Alegre, como contam animados os jornais, houve dança, sorrisos e música. Praticamente, ambas as reportagens contam como foi a tarde de 20 amigos no shopping. Podem fazer isso todos os dias. Os donos do Moinhos Shopping, parte integrante da elite da capital, jantam com Sirotsky e agradecem. O Correio do Povo, para não ficar para trás, também foi ao ato, que virou passeio, e estampou em sua capa: a paz reina nos shoppings de Porto Alegre. Ainda.
O já esperado ano de 2014 iniciou antes mesmo do que muitos acreditavam. Os rolezinhos foram um tapa na cara tanto da elite, que recrutava milhares de policiais para os defender em junho, quanto dos próprios movimentos organizados. Jovens da periferia invadiram os centros sem pautas formuladas em documentos, nem mesmo prerrogativas pré-estabelecidas. O jogo, agora, é mais bruto. E aí, a camada da sociedade que vive na ponta do iceberg – e que procura não entender os atos de quem sempre viveu afogado na base – leva um susto pela falta de potencial em entender. A manutenção da riqueza nas mãos de poucos provém da ignorância de seus consumidores.
capitalismo (2)
O que os rolezinhos estão deixando como maior demonstração é a incompetência das elites em entender aquilo que foge de seu controle social. Por favor, jovens pretos, pobres e sempre explorados, pedem as elites: não destruam nossos shoppings. Sem eles, seus pais ficarão desempregados. E só. A imprensa dos barões, como parte relevante da ponta do iceberg, segue o mesmo caminho. Ano passado, pediam manifestações pacíficas. Agora, a onda é mostrar que você faz rolezinho, mas é cordial com as lojas e marcas que, em algum lugar do planeta, estão produzindo com mão-de-obra barata, desumana, quando não escrava.
Manifestação contra o aumento no preço dos transportes não é festa. É pancada no sistema que rouba do trabalhador – o mesmo que percebe seu bolso esvaziando ao entrar no ônibus. A tarifa de ônibus, em Santa Maria (RS), por exemplo, cresceu 122% no mesmo período no qual a inflação foi de 58%. Pois bem: os empresários não sentem diferença alguma ouvindo palmas do lado de fora da sala onde assinam – por mais um ano ilegalmente, sem licitação – o aumento no preço dos transportes. E os donos da Marisa, da C&A ou da Zara, âncoras dos centros comerciais, estão nem aí para rolezinho elegante.
Estar dentro dos shoppings, sem reivindicações drásticas sobre o fim do trabalho escravo ou da exploração sobre funcionários, para eles não faz a menor diferença. Já virou até mote de propaganda camuflada: em nosso shopping você pode ter certeza de sua segurança. Na porta, seguranças provenientes das mesmas localidades dos jovens, barram pessoas amparados no preconceito. Ruim mesmo seria seus escravos se amotinarem. Mas as contas no final do mês nos prendem ao trabalho. O ciclo é fechado e viciado.
Com os amigos empresários da imprensa, fortunas arrecadadas sobre a pobreza geral de seus funcionários acabam parecendo ainda mais naturais. O importante é empreender, diz a mídia, e completa: se você lutar, um dia chega lá. Balela. Como disse Malcolm X, se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar aquelas que fazem a opressão. Nada mais real e atual do que os tempos de rolezinho.
De quem parece a culpa nessa história toda? Dos jovens sem espaço público, filhos de trabalhadores por toda a vida explorados, sem potencial de inserção no básico que um ser humano necessita para viver. Das marcas e dos celulares feitos sobre mão-de-obra escrava, das mortes causadas pela exploração desumana de recursos naturais para a fabricação dos bens eletrônicos vendidos no ocidente, da troca desleal entre valor pago à mão fabricante e custo dos produtos, a mídia não pode falar. Por ela mesma, faz parecido. E ela mesma procura incessantemente a inserção cada vez maior no mesmo sórdido mercado. Seus leitores, que vão ao shopping e compram o produto vendido nas páginas dos jornais, não querem saber de rolezinho. Com uma imprensa traiçoeira, tudo parece muito longe e a culpa jamais é de quem lê. Não queremos rolezinho em nossos ambientes, pedem. Aqui, somos todos civilizados. Deixem que os bárbaros se digladiem no submundo: o que importa mesmo é manter nossa aparência sobre a ponta do iceberg. Para tal, vale manter o grosso afogado na desumanidade velada. Parece não ser, mas é ideologia, e se você não busca enfrentá-la, está afogando alguém embaixo de você.

*Jornalista, redator da revista o Viés.

FONTE:  http://jornalismob.com/2014/01/20/na-ponta-do-iceberg-nao-cabe-todo-mundo/ ACESSADO EM 22/01/2014

domingo, 15 de dezembro de 2013

LIBERDADE DE IMPRENSA



Câmara dos Deputados do Uruguai aprova lei que democratiza a mídia




A lei proposta pelo governo de Pepe Mujica segue agora para votação no Senado

Por Felipe Bianchi, via Correio do Brasil*

A Lei foi aprovada com 50 votos favoráveis dentre 85 parlamentares presentes (Wikimedia Commons)
O Uruguai é o mais novo país latino-americano a enfrentar históricas oligarquias midiáticas e levar a cabo uma lei que democratiza os meios de comunicação. O Diário Oficial do Poder Legislativo do Uruguai publicou, nesta quinta-feira, a aprovação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei Serviços de Comunicação Audiovisual, proposta por iniciativa do governo de José “Pepe” Mujica.
Com 50 votos favoráveis dentre 85 parlamentares presentes à votação, na última terça-feira, a Câmara dos Deputados ratificou e encaminhou o projeto ao Senado, que deve discuti-lo no começo de 2014, de acordo com a bancada da Frente Ampla. Com 183 artigos, a ‘Lei de Meios’ uruguaia, que trata dos meios de comunicação eletrônicos, inclui cerca de 100 mudanças em relação à proposta inicial, enviada pelo Poder Executivo no começo do ano – sim, a elaboração e a votação do marco regulatório tem tudo para levar pouco mais de um ano no país vizinho, apenas.
De acordo com o texto final, os serviços abordados na pauta são de interesse público e, por isso, “é dever do Estado assegurar o acesso universal aos mesmos, contribuindo desta forma com liberdade de informação, inclusão social, não-discriminação, promoção da diversidade cultural, educação e entretenimento”.
Além de abordar o direito à comunicação como direito humano que deve ser garantido a todo cidadão uruguaio, o projeto também cita a relevância do tema para consolidar e aprofundar a democracia no país: os monópolios e oligopólios que são proprietários e controlam os meios de comunicação “conspiram contra a democracia ao restringir a pluralidade e a diversidade que asseguram o pleno exercício do direito à informação”, segundo o texto.
A importante questão do sistema de concessões públicas não ficou de fora. A partir da aprovação da lei, a concentração dos meios deverá ser significativamente reduzida, a partir da “plena transparência no processo de concessão de autorizações e licenças para exercer a titularidade”.
A lei uruguaia também prevê a criação de um Conselho de Comunicação Audiovisual, com a ideia de “propor, implementar, monitorar e fiscalizar o comprimento das políticas” que estão vinculadas aos meios eletrônicos, assegurando um importante instrumento de participação social no setor.
A iniciativa estabelece, ainda, cotas mínimas de produção audiovisual nacional; institui o horário eleitoral gratuito nos canais; e determina que empresas telefônicas não poderão explorar ondas de rádio nem de televisão.
Por fim, as mudanças previstas contemplam a proteção à criança e ao adolescente, já que regula a veiculação de imagens com “violência excessiva”, por exemplo. Das 6h às 22h, esse tipo de conteúdo está proibido, com a exceção para “programas informativos, quando se tratar de situação de notório interesse público” e somente com aviso prévio explícito sobre a exposição dos menores.
No Brasil, Iniciativa Popular
Enquanto Argentina, Uruguai, Equador e diversos países da América Latina enfrentam a necessidade de democratizar a mídia, o governo brasileiro encontra-se estagnado no debate do tema. O Projeto de Lei da Mídia Democrática, de Iniciativa Popular, é a alternativa que a sociedade civil encontrou para pressionar e reivindicar a discussão.
Elaborado por diversas entidades e lutadores sociais reunidos no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o projeto de lei prevê o combate ao monopólio e a promoção da pluralidade de opiniões e ideias no cenário midiático brasileiro. São necessárias cerca de 3 milhões de assinaturas para que o texto chegue aos parlamentares e a assinatura pode ser feita aqui.