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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

HORTAS COMUNITÁRIAS




Hortas Urbanas Comunitárias em plena São Paulo: resgate de espaços de cultivo e partilha de relações!


Quando falamos em horta geralmente vem em nossa mente a imagem de um lugar afastado no interior, porém para mim esta imagem foi modificada depois que descobri que dentro de uma das maiores cidades do mundo pessoas se unem para plantar e trocar experiências.

Carros, praças e até o canteiro central de avenida é utilizado para se plantar



Viver numa cidade como São Paulo e buscar manter um certo equilíbrio e qualidade de vida não é tarefa fácil, mas as vezes as soluções são tão simples que nos surpreendem.
O ato de cultivar a terra, plantar sementes e compartilhar os cuidados e seus frutos é ancestral. Sem o alimento e a união entre as pessoas a humanidade não resistiria.
O contato com a terra, a água, o Sol, as sementes, o acompanhar do crescimento de seus frutos, dividir os cuidados e compartilhar sua produção são atividades que trazem bem-estar e união entre as pessoas, além disto comer o que você cultivou tem outro sabor!
Para minha surpresa, ao caminhar pela Avenida Paulista, símbolo de negócios da cidade, vejo na Praça dos Ciclistas, uma pequena horta, com ervas aromáticas. Algo simples e inusitado, mas com grande repercussão em mim. Pareceu que o tempo parou e o contexto da correria e trânsito cotidianos ficaram suspensos... De repente a velha divisão campo x cidade foi rompida!

A Horta do Ciclista fica em plena Avenida Paulista, uma das mais impotantes do Brasil

A Horta do Ciclista fica em plena Avenida Paulista, uma das mais impotantes do Brasil
A Horta do Ciclista fica em plena Avenida Paulista, uma das mais impotantes do Brasil


Como pode uma pequena área verde no meio do asfalto e arranha-céus, em que pessoas em geral passam uma pelas outras sem se olharem, algumas sementes serem plantadas pela união de gente por um ideal?
Depois desta experiência, que deixou meus olhos mais apurados, comecei a perceber coisas que antes a correria desenfreada da cidade escondia de mim. Acabei encontrando a horta comunitária na Praça das Corujas, próxima da Vila Madalena. Um espaço organizado onde as pessoas se dividem nos cuidados de uma horta comunitária. O local é aberto a todos que queiram contribuir e colher com bom-senso. E o interessante é que a horta não é destruída, ela é de todos e todos cuidam dela.

Horta das Corujas na Vila Beatriz

Detalhe de um pé de boldo, cultivado na Horta das Corujas
Detalhe de um pé de hortelã, cultivado na Horta das Corujas
Detalhe de uma berinjela, cultivada na Horta das Corujas
Um pequeno abacaxi, cultivado na Horta das Corujas
Detalhe de uma folha de couve da Horta das Corujas
Os pássaros são bem vindos na horta
Visão geral da Horta das Corujas e da Praça das Corujas


Experiências como estas nos deixam perplexos, já que todos os dias somos bombardeados com notícias de corrupção, atos destrutivos, egoismo extremo, violência e muito pouco amor para com o próximo.
E engana-se que pensa que para criar uma horta urbana é necessário um terreno. Subindo pela Rua Dr. Homem de Melo, em Perdizes, me deparei com um carro velho que virou uma horta estacionada na própria rua. O que era uma sucata deu lugar a várias ervas e plantas variadas e ficou lindo.

Horta urbana feita dentro de um carro abandonado em Perdizes
Horta urbana feita dentro de um carro abandonado em Perdizes

Estas hortas são espaços onde se pode respirar, não por causa das plantas purificarem o ar, mas sim por ser um local onde é possível o encontro entre as pessoas, o partilhar do cuidado e o compartilhar de seus frutos, bem como troca de conhecimento e ensino para as crianças sobre os cuidados com a terra, valorizando o contato com a natureza e com os outros. O espaço não é de ninguém, em geral são públicos, e por isso mesmo tratado com respeito por todos. Os ideais de sustentabilidade, de cultivo orgânico são vivenciados na prática o que mostra que é possível convivermos com a natureza e com os outros de outra forma, ao contrário das notícias que são repetidas todos os dias.

As hortas comunitárias resgatam o contato com a natureza e ampliam as redes sociais e solidárias, resultando em saúde mental e harmonia consigo, com os outros e com o ambiente. São em si mesmas revolucionárias, pois são contrapontos às verdades cotidianas das grandes cidades.

Um projeto que apesar de não ser considerado uma horta comunitária, mas que é um exemplo muito interessante por parte da iniciativa privada é a horta urbana do Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo. Para resolver o problema do lixo orgânico gerado pelos restaurantes da praça de alimentação o superintendente do Shopping, Sergio Nagai, resolveu efetuar a compostagem do lixo e acabou por criar uma horta urbana no teto do shopping. Toda a produção é destinada aos próprios funcionários do Shopping.




Exemplos pelo mundo

São inúmeras as experiências com hortas comunitárias ou hortas urbanas e jardins comunitários pelo mundo.
Um exemplo bem interessante é este jardim criado no teto de um ônibus na Catalunha, Espanha.







Em Portugal a idéia começa a espalhar-se também. Em Lisboa um projeto pretende criar 130 hortas urbanas que fornecerão alimento a preços muito abaixo dos praticados no comércio.
Em Nova York hortas urbanas estão crescendo nos telhados dos edifícios no bairro do Brooklin. A empresa Bright Farms planta perto de supermercados, o que ajuda a encurtar o caminho entre a comida e os pontos de venda.


Uma cidade localizada no norte da Inglaterra chamada Todmorden criou o projeto “A incrível Todmorden comestível”. Este projeto utiliza toda a área pública do município para fazer plantações comunitárias onde qualquer morador da cidade pode colher alimentos gratuitamente. A cidade incentiva também as pessoas a ajudar no plantio e as crianças estão aprendendo desde cedo a importância do cultivo e da terra. São aproximadamente 40 hortas esplanadas pela pequena cidade de 17 mil habitantes. Todos os lugares disponíveis são utilizados para plantar.
Além das plantações outro projeto na mesma cidade tem como objetivo a criação de galinhas.

Horta urbana na cidade inglesa de Todmorden: Créditos da imagem Incredible Edible Todmorden







Conclusão

Ao contrário do que possamos imaginar é possível sim plantar e colher nossos próprios alimentos nas grandes metrópoles. Além do benefício ambiental e social podemos também resgatar prazeres há muito esquecidos ou que nunca tivemos a oportunidade de experimentar.
Os verdadeiros prazeres não são caros... ser bem recebida na horta, sentir os diversos e surpreendentes aromas das ervas, trocar experiências e conhecimentos... reconhecer no sorriso de quem planta a felicidade da partilha!

Referência(s)

Fonte: http://www.sermelhor.com.br/ecologia/hortas-urbanas-comunitarias-em-plena-sao-paulo.html


Hortas comunitárias se popularizam cada vez mais em Berlim



Seja no telhado de um shopping, seja em um antigo aeroporto, as hortas estão se espalhando por Berlim. Cada vez mais, moradores trabalham a terra para cultivar tomates, batatas e... vínculos sociais, em uma cidade onde ainda parece haver espaço para tudo.

Alguns agriões esmirrados resistem bravamente às chuvas e aos fortes ventos que varrem as pistas de aterrissagem de um aeroporto fechado em outubro de 2008 e transformado em um amplo parque para os berlinenses.

Quando chega o bom tempo, pepinos, aipos e manjericão crescem à sombra dos girassóis nesse jardim comunitário. Recentemente, uma colmeia instalada no meio dos pequenos lotes começou a produzir o primeiro mel a levar o selo do antigo aeroporto de Tempelhof.

De dia, carrinhos de mão e mangueiras são usados a todo vapor nas matas de ervas aromáticas. Ao anoitecer, amigos brindam com cerveja para celebrar o espírito coletivo e a amizade.

"Allmende Kontor" e o vizinho "Rübezahl Garten" são duas das inúmeras hortas que cresceram como grama na capital alemã. No bairro popular de Wedding, uma associação planeja instalar cultivos de cenouras e morangos no telhado de um supermercado local.

"Trata-se de cultivar hortaliças e também de participar de um projeto coletivo, de fazer coisas juntos. É um lugar onde todo mundo participa", explica Burkhard Schaffitzel, um dos iniciadores do "Rübezahl Garten".

"As pessoas vêm de todos os horizontes, de imigrantes turcos a estudantes, passando por aposentados", conta Gerda Münnich, uma entusiasta da "Allmende Kontor".

Esse é exatamente o segredo do sucesso. Sua horta já conta com cerca de 300 "arrendatários" e tem uma lista de espera de mais de 200 pessoas. Os responsáveis pelo jardim pagam 5.000 euros por ano à Prefeitura para utilizar seu pedaço de terra e fazem apelos por doações para manterem a iniciativa.

Legumes e verduras crescem em baldes e caixas de madeira, porque a Prefeitura não permite as plantações diretamente no solo no antigo aeroporto. Alguns optaram pela originalidade. Sapatos usados, mochilas, ou até uma velha cadeira de escritório: vale tudo para garantir seu espaço na horta.

Horta, um lugar de socialização A escolha pela jardinagem cria um estilo de vida e, ao redor dela, surgem "pequenos lugares". O mecânico de bicicletas "Ismael" oferece seus serviços em um reboque velho e amassado, instalado no terreno, enquanto uma "praça do povo", no centro do jardim, permite que a comunidade possa assar salsichas quando o grupo organiza festas.

"A horta não é apenas um lugar dedicado a uma atividade de auto-subsistência, mas um lugar de socialização", explica a socióloga alemã Christa Müller, que escreveu um livro sobre o "urban gardening".

O fenômeno é internacional. Desde seu início nos bairros pobres de Nova York, já foram criadas hortas comunitárias em Paris, Montreal e outras cidades. Na capital alemã, houve um empurrão muito particular: a reunificação da cidade, após a queda do Muro no final de 1989, que dividiu Berlim por 28 anos. A mudança deixou uma grande quantidade de espaços vazios e abandonados.

"Londres e Paris estão saturadas. Aqui ainda temos lugar para plantar verduras", comemora Schaffitzel.

Para muitos, criar uma horta coletiva também é uma iniciativa cidadã. "Fazemos política no meio das alfaces", brinca Gerda Münnich, que, depois de passar sua carreira diante das telas dos computadores, decidiu se dedicar às abóboras e aos repolhos.

"É se apropriar um pouco da cidade. É participar da decisão coletiva. Esse pequeno terreno que eu cultivo é um pedacinho da cidade que me pertence", diz ela, com orgulho.

Para a socióloga Christa Müller, esse movimento é uma espécie de contrapeso à sociedade neoliberal.

Esses novos urbanos "ficam felizes de produzir algo eles mesmos, no lugar de encher o carrinho no supermercado", considera Burkhard Schaffitzel, do "Rübezahl Garten".

Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2014/01/28/hortas-comunitarias-se-popularizam-cada-vez-mais-em-berlim.htm

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

CRISE HÍDRICA NO BRASIL



Brasil: Estado mais importante do país sofre crise hídrica

Em entrevista, tecnólogo em saneamento aponta a falta de planejamento, a devastação das florestas e a gestão privativista da Sabesp como causas da crise


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Gabriel Brito e Paulo Silva Junior .
Para muitos, o racionamento de água em São Paulo já é uma realidade líquida e certa. Resta saber até quando políticos ganharão tempo para escondê-la ou se a população agirá, a ponto de, quem sabe, se repetirem as chamadas ‘guerras da água’, já vistas em locais onde os serviços hídricos e sanitários foram privatizados. De toda forma, o assunto não é passageiro e exige toda uma reflexão a respeito dos atuais modelos de vida e economia.
 
“Em primeiro lugar, é preciso reeducar a população a reduzir o consumo. As empresas também, pois quando se fala em redução de consumo parece que só a população consome. Mas, no Brasil, 70% da água é consumida pela agricultura, 22%, pela indústria e 8%, pelas residências. E quando se fala em redução de consumo, só se fala dos 8%, mas não dos 92%”, afirmou Marzeni Pereira, tecnólogo em saneamento da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), em entrevista ao Correio da Cidadania.
 
Na conversa, Marzeni elenca uma série de razões históricas, desde as locais até as mais abrangentes, que levaram São Paulo à atual crise hídrica, cujas consequências ainda não foram quantificadas. Trata-se de mais um fracasso do modelo de gestão privativista, de mãos dadas com um projeto desenvolvimentista que tem gerado mudanças ambientais em todos os grandes biomas do país.
 
“A Sabesp é a empresa mais preparada do Brasil para gerir o sistema de saneamento. Tem o melhor corpo técnico, a melhor estrutura etc. O problema principal é justamente a administração voltada para o mercado e ao lucro. Além disso, a empresa, sem dúvida, vem sofrendo sucateamento. Em 2004, tinha 18 mil trabalhadores e a sua base de atuação era menor. Hoje, a empresa tem menos de 14 mil. A terceirização (subcontratação) é um dos principais problemas, por exemplo, na perda de água”, explicou, em relação ao contexto paulista.
 
Por outro lado, Marzeni não deixou de fora toda a relação com um modelo já há décadas hegemónico. “No ano passado, em torno somente de soja, carne, milho e café, o Brasil exportou cerca de 200 mil milhões de m³ de água. Significa abastecer São Paulo por quase 100 anos. A humidade atmosférica, mantida através dos chamados ‘rios voadores’, que vêm do Norte do Brasil e precisam da continuidade da vegetação, foi reduzida. A atuação do agronegócio, quem mais desmata, teve influência em São Paulo. E houve também o desmatamento de todo o centro-oeste do estado”, resumiu.
 
A entrevista completa com Marzeni Pereira, realizada nos estúdios da webrádio Central3, pode ser lida a seguir.
 
Correio da Cidadania: Qual o resumo que faz, num breve histórico, das origens e razões da crise da água no estado de São Paulo? 
 
Marzeni Pereira: Podemos dizer que o histórico da crise de água em São Paulo tem bastante tempo. Em 2003, por exemplo, o sistema Cantareira[1] chegou próximo de zero, com menos de 5% da sua capacidade de armazenamento e todo o sistema de saneamento quase entrou em colapso. Houve um princípio de racionamento, com a Operação Pajé (na qual se bombardeavam nuvens e se pulverizava a sua água).
 
Nesse período, foi elaborado um plano para que o saneamento de São Paulo dependesse menos do Cantareira, ao ser assinada uma outorga com vistas a reduzir a dependência do reservatório – o que mais abastece a capital e a região metropolitana. De lá para cá, a ideia era reduzir perdas, aumentar a reutilização e encontrar novas formas de abastecimento, por outros mananciais. Isso não aconteceu.
 
Em 2004 e 2005, houve uma recuperação da reservação de água; em 2009, houve um pico, com quase 100% das represas cheias. Em 2009, houve um período de enchentes, como a do Jardim Pantanal (zona leste); e em 2011, houve a enchente de Franco da Rocha, por conta da abertura da represa Paiva Castro. Mas, de toda forma, não houve redução da participação do sistema Cantareira. As perdas caíram, mas não o suficiente para suprir a procura, que cresceu. Não houve, portanto, contrapartida suficiente na disponibilidade de água. Esse é o principal problema.
 
Com eleições e Copa do Mundo, havia a necessidade de o governo manter a sua imagem em alta. Por isso, não se tomaram medidas para reduzir o consumo. 
 
Outro ponto é que tivemos, recentemente, em 2013 e 2014, uma estiagem bastante forte, apesar de curta, comparando com outras regiões do Brasil, com 5 ou 10 anos de estiagem. Aqui são menos de dois anos, de modo que não era para estarmos na atual situação.
 
Neste ano, também houve outro problema: com eleições e Copa do Mundo, havia a necessidade de o governo manter a sua imagem em alta. Por isso, não se tomaram medidas para reduzir o consumo de água a partir de janeiro e fevereiro de 2014.
 
Qual o papel da Sabesp, com o seu modelo de gestão, nesse processo? 
 
A Sabesp é a empresa mais preparada do Brasil para gerir o sistema de saneamento. Tem o melhor corpo técnico, a melhor estrutura etc. O problema principal é justamente a administração voltada ao mercado e ao lucro. Outra coisa é a dependência das influências diretas do governador e dos acionistas privados.
 
Além disso, a empresa, sem dúvida, vem sofrendo sucateamento e redução da sua capacidade de trabalho. Em 2004, a Sabesp tinha 18 mil trabalhadores e sua base de atuação era menor. Hoje, a empresa tem menos de 14 mil, uma redução de cerca de 20% do quadro. Isso influencia, certamente.
 
Outra coisa é que, a partir do momento em que se reduz o número de trabalhadores diretos, há a necessidade de subcontratar serviços. Esse é um dos principais problemas, por exemplo, na perda de água. Porque o serviço é mal feito, o cara faz num dia e no outro dia já vaza de novo... Significa que o serviço tem de ser feito várias vezes, e aí temos mais perdas.
 
É uma lógica adotada nos últimos 20 anos: a empresa depender de outras empresas privadas. Hoje, as empresas privadas têm muita influência no dia-a-dia da Sabesp. Portanto, é claro que o modelo de gestão tem tudo a ver com a crise.
 
Como dimensiona a crise da água no país como um todo, em si e relativamente a São Paulo? Em que medida a destruição dos biomas do Cerrado e amazónico explicam a grave situação que vivemos?

A estiagem em São Paulo, com certeza, tem relação com o desmatamento da Amazónia e do Cerrado. Obviamente, sempre que há desmatamento se reduz a evaporação de água pela evapotranspiração das árvores. O Cerrado brasileiro sofreu muito com a devastação promovida pelo agronegócio.
 
Para se ter ideia, no ano passado, em torno somente de quatro produtos (soja, carne, milho e café), o Brasil exportou cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de água. Não produziu, apenas exportou, ‘água virtual’, como se diz. Tal número significa abastecer São Paulo por quase 100 anos, apenas com a quantidade de água gasta por esses quatro produtos.
 
Outro problema é que houve redução da quantidade de água superficial. À medida que há uma degradação, tanto pela remoção da vegetação como pela irrigação intensiva de larga escala, reduzem-se os afluentes dos grandes rios, como os amazónicos e o São Francisco, que já está sofrendo muito com a redução da água.
 
A humidade atmosférica, mantida através dos chamados “rios voadores”, que vêm do Norte do Brasil e precisam da continuidade da vegetação, foi reduzida. A atuação do agronegócio, quem mais desmata no Brasil, teve influência em São Paulo.
 
Mas não é só isso. Houve também o desmatamento de todo o centro-oeste do estado de São Paulo. Praticamente toda a vegetação de tal região foi removida, para plantios de cana, eucalipto, laranja etc. A redução dessa vegetação também tem influência. A redução das matas ciliares dos rios que abastecem as represas é outro fator, pois provoca o assoreamento e um secamento mais rápido.
 
O que pensa dos primeiros protestos que começam a ser organizados, ou que ocorrem até espontaneamente, em torno à água, a exemplo do que tem ocorrido em cidades como Itu? Acredita que possam crescer a ponto de se tornarem massivos, e até mesmo reproduzirem as chamadas “guerras da água” que ocorreram em vários países?

Itu é um caso bastante emblemático. Lá, a gestão da água é de uma empresa privada, que vendeu água até acabar. E há o risco de a empresa abandonar a cidade quando a água acabar de vez e começar o prejuízo. Afinal, ela está lá atrás de lucro, não para fazer serviço filantrópico. Esse é o grande risco de o setor privado atuar no saneamento. Temos de combatê-lo.
 
Em Itu, a gestão da água é de uma empresa privada, que vendeu água até acabar.
 
Quanto aos protestos, são iniciativas interessantes da população. Ela tem de fazer parte da vida política do país, não pode ficar omissa em casa. É importante ter pauta de reivindicações, um programa a ser apresentado no momento. As manifestações ainda estão tímidas, mas acredito que a tendência é de ganharem força.
 
Mesmo porque a previsão para 2015 é de faltar mais água. Se não chover muito neste verão, a coisa será pior. Portanto, há tendência de aumento de protestos no ano que vem. Como cidadão, já estou a participar, como nos dias 1 e 5. São manifestações importantes e precisam continuar.
 
Nesse sentido, como acredita que será o ano de 2015 em São Paulo, especialmente no que toca a vida do cidadão médio? O racionamento, que de fato já ocorre, vai ser intensificado?

Na realidade, ainda não existe racionamento. O que é racionamento? É a definição de quanto cada pessoa, ou família, pode usar. Seria, por exemplo, definir uma cota de 150 litros por dia. Isso é racionamento. Existe outro modelo, o rodízio, que é quando se joga água de uma região para outra. Num dia, um local fica sem água e outro a recebe. Portanto, há diferença entre um e outro tipo de política.
 
Eu penso que o racionamento tem de ser adotado, especialmente quando a situação se acirrar. Se não, alguns terão água e outros não, como acontece no rodízio. Quem tem caixa d’água ou um reservatório grande em casa não fica sem água. Quem não tem, fica sem. Imagine uma pessoa que sai de casa às 8 da manhã e volta às 10 da noite. Se não tiver caixa d’água, não toma banho. O rodízio é injusto para quem não tem condição de comprar caixa d´água grande.
 
Em relação ao ano que vem, observamos que a recuperação do reservatório da Cantareira, nos últimos 10 anos, tem sido, em média, de 23%. Se, por exemplo, está em 10% em outubro, quando chegar a março deverá estar com 30% ou 40%. E essa marca não tem sido ultrapassada, com exceção de 2004 e 2008.
 
O problema é que neste ano estamos com 17% negativos. O volume operacional acabou em 15 maio; de lá para cá, está a ser usado o volume morto. Se o reservatório recuperar 20% do volume, no final do período de chuvas não teremos mais de 5% de volume operacional. Se não houver chuva em abril, quando normalmente ela é escassa, esses 5% durariam uns 30 dias, o que nos faria voltar a usar o volume morto em maio. Há um risco de usarmos o volume morto do Cantareira bem antes do período em que começámos a usar em 2014.
 
Finalmente, o que pensa que poderiam ser soluções tanto a curto, dada a gravidade da situação, como a médio e longo prazos?

A principal solução é chover. Se chover, tudo se resolve. Torcemos para isso; de facto, caso contrário, a população vai sofrer. Se não chover, temos de tomar algumas medidas (na verdade, mesmo que chova, teremos que tomá-las).
 
Em primeiro lugar, é preciso reeducar a população a reduzir o consumo. As empresas também, pois quando se fala em redução de consumo parece que só a população consome. Mas, no Brasil, 70% da água é consumida pela agricultura, 22%, pela indústria e 8%, pelas residências. E quando se fala em redução de consumo, só se fala dos 8%, mas não dos 92%.
 
A região metropolitana de São Paulo não tem muito peso da agricultura, mas tem da indústria. É preciso reduzir o consumo residencial e industrial. É preciso também uma forte redução de perdas. Precisa de uma orientação sem meio-termo para a população. Não pode ser como hoje, o governo e a Sabesp têm de falar mais claramente à população de como a situação é grave, além de esclarecer se precisamos de fazer rodízio, racionamento ou as duas coisas juntas.
 
Há a necessidade de definir as atividades humanas básicas que terão suprimento de água garantido, como hospitais, escolas, creches. Quanto à população de baixo rendimento, com menos condição de comprar caixas d’água, seria necessário o governo distribuir tais caixas, distribuir filtros de hipoclorito, porque muita gente vai usar água de mina se precisar, o que traz risco de contaminação. Em caso de falta de água generalizada e uso de carros-pipa, tem de se saber como aqueles que não têm caixa poderão armazená-la.
 
Outro ponto é em relação ao emprego. Se de facto se concretizar a previsão, ou seja, se ocorrer falta de água generalizada em 2015, muitas empresas vão fechar, ao menos temporariamente, ou mudar-se. Se não tiver política de estabilidade no emprego, pode ser uma catástrofe.
 
Também se deve incentivar uso de água de chuva e reutilização. Pouco se fala em coletar água de chuva. Se a população fizesse isso, e reduzisse pelo menos 10% do consumo, teríamos cerca de 5 metros cúbicos por segundo de economia de água. Isso equivale ao novo sistema que a Sabesp constrói agora, o São Lourenço, que custará 2 mil milhões de reais.
 
Finalmente, é necessário estatizar o saneamento – não a Sabesp, mas o próprio saneamento. Não tem sentido um serviço tão importante quanto esse na mão de quem quer lucro. Mas a estatização não pode ficar na mão do governo, com empresários a controlar por dentro. É preciso controlo dos trabalhadores. Além de uma comissão e investigação populares, que apurem responsabilidades. É preciso coletar e tratar mais esgoto, usando tal água em atividades, principalmente, industriais, pois há uma série de usos possíveis com a água de esgoto.

Recuperar mananciais é outro ponto importante. Se isso não for feito, as consequências futuras podem ser mais graves. O Rodoanel[2] passou pelos mananciais, o que mostra como não se deu importância a eles. Pessoas que moram em áreas de mananciais precisam sair de lá, através de negociações sérias, com plano habitacional. Com casa garantida, claro, ao invés de serem retiradas como lixo.
 
Há uma série de ações possíveis no médio e curto prazo. Mas têm de ser feitas em diálogos com a população, se não os interesses pelo lucro vão falar mais alto.
 
* Gabriel Brito e Paulo Silva Junior são jornalistas. Publicado originalmente no Correio da Cidadania
 
 
[1] Sistema Cantareira é o maior dos sistemas destinados à captação e tratamento de água para a Grande São Paulo e um dos maiores do mundo, sendo utilizado para abastecer 8,8 milhões de clientes da Sabesp. O sistema é composto por seis barragens interligadas por um complexo sistema de túneis, canais, além de uma estação de bombeamento de alta tecnologia para ultrapassar a barreira física da Serra da Cantareira. (da Wikipédia)
[2] Autoestrada de aproximadamente 180 quilómetros, duas pistas e seis faixas de rodagem que está a ser construída em torno do centro da Região Metropolitana de São Paulo, com a finalidade de aliviar o intenso tráfego de caminhões oriundos do interior do estado e das diversas regiões do país.

Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Cidades/Brasil-Estado-mais-importante-do-pais-sofre-crise-hidrica/38/32762

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Elites se unem contra moradores do Pinheirinho. Pra que(m) serve essa terra?

Muito se pode escrever sobre o que aconteceu no último fim de semana em Pinheirinho, em São Paulo. Muito já se escreveu, também, e mesmo assim, em nosso conjunto de palavras, é difícil dimensionar o tamanho do problema do despreparo da Polícia Militar por todo o país somado ao neoconservadorismo de uma fatia da sociedade e o autoritarismo elitista dos partidos da direita brasileira. Também é difícil dimensionar as consequências disso tudo, mas elas salpicam sangue em nossos olhos quando menos esperamos.
No último domingo, centenas de famílias foram desalojadas no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), em uma ação violenta da Polícia Militar, sob ordens do governo estadual de Geraldo Alckmin (PSDB). Foram 2 mil PMs na operação. Há relatos, entre os moradores, de mortos na ação. Diz a polícia que foram vinte feridos, apenas. A ação foi em cumprimento a reintegração de posse, em benefício do empresário Naji Nahas. Segundo o Blog do Miro,
Naji Nahas, que reivindica a “propriedade” do latifúndio, é um especulador condenado (…). Mais: havia uma trégua em curso, acertada por todas as partes, e uma decisão da Justiça Federal mandando suspender a mal-chamada “reintegração de posse”. (…) Cansados de tantas arbitrariedades, alguns membros da ocupação vestiram-se de uniformes de resistência improvisados, numa encenação artística do que pode vir ser o contra-poder popular. O governo de Geraldo Alckmin, ligado ao fundamentalismo cristão de direita, e o Tribunal de Justiça de São Paulo, conhecido por seus laços com o que há de mais feudal e escravocrata na oligarquia paulista, não toleraram a hipótese de diálogo, muito menos a irreverência das imagens.
A PM invadiu durante a madrugada, quando os moradores dormiam. Tática de guerra. Uma polícia militarizada, treinada com foco em combate, e a sociedade como inimiga, os moradores como inimigos a serem expulsos ou eliminados. Agora, seis mil pessoas engrossam a fila de cidadãos ultrajados, desalojados, em condições precárias.
Tudo isso assinado embaixo por alguns setores da mídia, a começar pela Rede Globo. Em matéria de dois minutos no Fantástico, a pauta foi a criminalização dos moradores. A reportagem trabalhou com release da Polícia Militar e da Justiça de São Paulo, que contrariou orientação da Justiça Federal. Como bem escreveu Altamiro Borges, essa mídia “tratou os ocupantes como ‘invasores’ e culpados pelas cenas de violência”. E mais: “Nos momentos de confrontos mais agudos, os barões da mídia se juntam na defesa da “propriedade” e contra os que lutam por direitos humanos mínimos – como o direito à moradia. Nesta “cruzada sagrada”, eles inclusive protegem notórios bandidos, como é o caso do especulador Naji Nahas. De vilão, ele foi tratado como prejudicado no triste episódio do Pinheirinho”.
Entre a bala e a pedra, a velha mídia sempre esteve ao lado da bala. Bons exemplos são os tratamentos dados ao MST e à questão palestina, onde o “confronto” é sempre entre pedras e armas de fogo. Os casos recentes de agressões a estudantes da USP pela mesma PM paulista demonstram também uma preferência pelo porrete em detrimento da palavra, da ação violenta em oposição ao pensamento reflexivo (crítico).
Mas agora essa mídia não é a única voz, ainda que continue sendo dominante, opressora e dona dos principais espaços de circulação de informação (televisão, rádio e jornais). Os blogs vem fazendo uma grande cobertura jornalística do caso, denunciando os abusos da PM, da Justiça de SP, do governo de Alckmin e da mídia aliada às elites. Destaco o excelente trabalho de reportagem de Raphael Tsavkko e Maria Frô, e os artigos precisos e esclarecedores de Altamiro Borges que já citei neste post, mas muito mais pode ser encontrado em uma busca rápida pela rica e diversa blogosfera brasileira.


Fonte: http://jornalismob.wordpress.com/