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quarta-feira, 27 de julho de 2016

EDUCAÇÃO E ENSINO





“Escola sem Partido”: é pelo conteúdo e não pela Educação


24/jul/2016, 13h59min


“O principal objetivo deste projeto é acabar com a gestão democrática, com a liberdade, com a autonomia e com o pensamento crítico nas escolas”.
Bruno Saldanha (*)
Ninguém quer ver as escolas funcionando como diretórios partidários. Tampouco as pessoas querem escolas hasteando bandeiras de partidos. Isso é consenso, acredito. É justamente por esse motivo que o nome “Escola Sem Partido” é tendencioso (fácil “de pegar”) e busca, com isso, ludibriar e ganhar o apoio da população. Acontece que o PL 867 de 2015 proíbe práticas de doutrinação política e ideológica em salas de aula, sem esclarecer o que seriam tais práticas. No entanto, é possível perceber o que realmente este projeto de lei pretende, ao fazermos uma breve análise sobre quem são os seus grandes apoiadores: pessoas ligadas ao PSDB, PP, PMDB, DEM e toda essa turma que bem conhecemos.
O tal “Escola Sem Partido”, que prefiro chamar de “Lei da Mordaça nas Escolas”, prevê que a educação nacional terá como princípio, além de outros, o “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções”. Isso viola o princípio posto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de que o ensino será ministrado com base no pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e no respeito à liberdade e apreço à tolerância. Na justificativa do PL, fica muito claro o teor conservador – religioso – quando afirma que os livros didáticos e os professores praticam doutrinação, especialmente moral sexual. E logo afirma que a moral é, em regra, inseparável da religião. Mas aí encontramos a primeira contradição: se a convicção da família está de acordo com todas as formas de amor, inclusive esta família possa ter um jovem filho homossexual que frequente uma escola, a educação escolar deve ser ministrada em consonância com a concepção desta família? Me parece que não é isso que o projeto estabelece. Ao contrário…
Afirmam que o ambiente de doutrinação gera bullying político e ideológico, resultando em agressão física aos alunos que assumem uma postura diferente daquela dominante. Ao mesmo tempo, os defensores da Lei da Mordaça não querem escolas abordando as questões de gênero. Esquecem (na verdade ignoram) que a maior parte do bullying e das agressões físicas aos alunos são sofridas justamente por questões de desrespeito à liberdade, às identidades de gênero, enfim, à diversidade.
Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, os professores devem apresentar as principais versões e perspectivas a respeito. As principais versões são aquelas já manjadas: o Brasil foi descoberto; o patrão ajuda o empregado ao lhe garantir um emprego; família é um homem, uma mulher e os filhos (comendo pão quentinho com margarina); o capitalismo oferece “grandes possibilidades”; o comunismo representa um grande risco; e por aí vai. E se o professor disser o contrário disso (podendo contrariar a moral da família)? É doutrinação política e ideológica? Punição nele! Inclusive, no site do projeto “Escola Sem Partido” está disponível um link com o nome “Flagrando o Doutrinador” para que a população possa denunciar estes professores! E para ajudar a população, está disponível uma cartilha com todas as dicas e um texto base para que seja escrita a denúncia. Não bastasse isso, deverão ser afixados cartazes nos espaços escolares, onde possam ser lidos pelos estudantes e professores.
Fica evidente que o principal objetivo deste projeto é acabar com a gestão democrática, com a liberdade, com a autonomia e com o pensamento crítico nas escolas, princípios fundamentais para a redução das desigualdades e para a democracia. Na verdade busca manter a escola como um espaço de reprodução dos princípios e valores dominantes, uma escola que não respeita e, menos ainda, empodera os estudantes. Em resumo, é um projeto que não se interessa pela péssima remuneração dos professores, pelas precárias condições estruturais das escolas, tampouco importa perceber que a Escola é do século XIX, os professores do século XX e os alunos do século XXI. O que está em jogo não é a Educação, mas o conteúdo que as escolas podem abordar.
(*) Bruno Saldanha é estudante de Ciências Sociais e bolsista em Políticas da Educação Básica pela UFRGS.
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/escola-sem-partido-e-pelo-conteudo-e-nao-pela-educacao-por-bruno-saldanha/

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O CASAMENTO E AS MULHERES**



" O casamento é um risco para a vida das mulheres", diz médica especialista em saúde mental feminina

Maria José Araújo analisa as questões que relacionam gênero e saúde mental, defendendo que as mulheres têm mais problemas psiquiátricos (elas são 74% da população que toma remédios para estas doenças) devido às desigualdades, violências e pressões sociais; segundo a médica, o casamento pode agravar o quadro, pois aumenta ainda mais a sobrecarga de trabalho

Por Débora Fogliatto, do Sul 21

A cidade de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, recebeu uma série de formações em gênero e saúde mental promovidas pelo projeto Girassóis. Os cursos foram iniciados em março de 2014 e divididos em três datas, que capacitaram profissionais da saúde, da rede de enfrentamento à violência contra a mulher e lideranças comunitárias. Uma das pessoas que tornou essa medida possível foi a médica baiana Maria José Araújo, que esteve na cidade na última terça-feira (7) para participar do Seminário Gênero, componente essencial na atenção à saúde mental das mulheres. Ela trabalhou como consultora para o projeto, desenvolvido pelo Coletivo Feminino Plural.
Maria José formou-se inicialmente em Pediatria, carreira que ela logo abandonou para fazer mestrado em Saúde Mental Materna e Infantil na França, seguido de uma formação em Ginecologia de Atenção Primária na Suíça. Paralelamente, é ativista pelos direitos das mulheres e uma das fundadoras da Rede Feminista de Saúde, além de coordenadora da área técnica de Saúde da Mulher no Ministério da Saúde, no primeiro mandato do presidente Lula, e coordenadora, no Brasil, da instituição internacional “Médicos pelo direito a decidir”. Em 2005, Maria José foi uma das 52 brasileiras indicadas pelo projeto 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz. A iniciativa selecionou mil mulheres ao redor do mundo todo indicadas para o prêmio como forma de criticar o fato de apenas 11 mulheres o terem recebido durante seus 113 anos.
Nesta entrevista ao Sul21, ela analisa as questões que relacionam gênero e saúde mental, defendendo que as mulheres têm mais problemas psiquiátricos (elas são 74% da população que toma remédios para estas doenças) devido às desigualdades, violências e pressões sociais sofridas. As políticas públicas voltadas à saúde mental, porém, não fazem esse recorte, critica ela. “Não tem nenhuma base no sentido de mudar um pouco a autoestima das mulheres, de tentar interferir na questão da violência, no auto-conhecimento, na tripla jornada, na discriminação que as mulheres sofrem”, aponta.
Essa violência que as mulheres sofrem na sociedade pode ser tanto física quanto psicológica. “É real a violência psicológica. Tanto é real que está categorizada na lei Maria da Penha, mas as mulheres às vezes nem percebem que estão sofrendo com essa violência que não deixa marca física, mas deixa marca emocional”, avalia a médica. Isso passa por questões de autoestima, determinada sempre pelo “olhar masculino”, segundo ela, que faz com que as mulheres tenham cada vez mais problemas de saúde. Confira a entrevista completa:
Por Caroline Ferraz/Sul21
Maria José critica as desigualdades e violências que afetam as mulheres, causando problemas psiquiátricos (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)
Sul21 – Como começou o seu envolvimento com o Projeto Girassóis?
Maria José – A gente [ela e o Coletivo Feminino Plural] faz parte da mesma rede, a Rede Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos, já trabalho com o coletivo há muitos anos. E com o começo desse projeto, elas precisavam de uma pessoa que tivesse uma visão de saúde mental distinta, que contemplasse as questões de direitos humanos, gênero e vulnerabilidade, com outro olhar sobre a saúde mental das mulheres. E eu venho trabalhando com isso há bastante tempo, por isso me convidaram para ser consultora do projeto e fiquei muito feliz.
“Têm questões relacionadas à biologia e à socialização que exigem políticas diferentes”
Sul21 – Muitos profissionais da área parecem ainda não ter formação nesse sentido, nem a percepção da relação entre gênero e saúde mental. Como a senhora percebe essa questão?
Maria José – É, na verdade as políticas públicas homogenizam todo mundo. Fora as políticas de pré-natal, parto e aborto, as políticas públicas de saúde são políticas globais, que não contemplam essa questão. Não são elaboradas a partir de uma percepção de que as mulheres têm determinantes da saúde diferentes dos homens. Têm questões relacionadas à biologia e à socialização que exigem políticas diferentes, com outros olhares, outras abordagens, outras percepções. Quando sai uma política de saúde mental, ela sai para todo mundo. Não tem nenhuma base no sentido de mudar um pouco a autoestima das mulheres, tentar interferir na questão da violência, no auto-conhecimento, na tripla jornada, na discriminação que as mulheres sofrem. [Essas políticas] homogenizam o que é desigual, Muitas vezes são inadequadas, a visão e a abordagem.
Então a mulher com sofrimento psíquico vai permanentemente no serviço de saúde e não consegue ter suas questões resolvidas justamente por isso. Enquanto as políticas públicas não conseguirem ter essa abordagem, mulheres vão continuar sem ter suas questões resolvidas.
Sul21 – Isso tem também a ver com toda a questão da autoimagem da mulher, da pressão da mídia e da sociedade sobre os corpos das mulheres?
Maria José – Exatamente. O Brasil é um dos países do mundo em que mulheres mais fazem cirurgias plásticas. A autoestima das mulheres é sempre baseada no olhar masculino, são os homens que determinam o valor das mulheres e dão status. Não é por acaso que é um dos países onde elas mais são considerada como objetos. Pelo comportamento, tipo de roupa, por essa questão da cirurgia plástica. Eu estava em um debate onde uma das debatedoras disse que fizeram uma pesquisa com as meninas de 15 anos e o presente que elas pedem nos aniversários é botar silicone nos seios. Com 15 anos! É tão complicado isso, essa questão da mulher como objeto. Eu achava até que isso tinha melhorado, mas nos últimos dois anos acho que regrediu.
Sul21 – Tem a questão da violência que é perpetuada em casa, não apenas física, mas também psicológica.
Maria José – E a violência psicológica não é nunca relatada. A física e sexual, embora muitas mulheres não denunciem, outras o fazem. Enquanto a [violência] psicológica, às vezes, a mulher nem percebe, são as micro violências cotidianas: “Você é feia, burra, tem o peito caído, está gorda, não entende nada, você é incapaz, não presta para nada”. Esse tipo de violência, que é sutil, vai minando a autoestima das pessoas o tempo inteiro. Toda mulher que sofre violência tem muito baixa autoestima, ou porque sofre violência há muito tempo, ou porque a mãe já sofria violência e cresceu vendo aquilo. É real a violência, tanto é real que está categorizada na lei Maria da Penha, mas as mulheres, às vezes, nem percebem que estão sofrendo com essa violência que não deixa marca física, mas deixa marca emocional.
Sul21 – Em comparação com outros países, se a sociedade for menos machista, percebe-se uma diferença na saúde mental das mulheres?
Maria José – Eu acho que sim. Quanto mais as mulheres têm autoestima, são menos discriminadas, se valem por elas mesmas, a saúde mental melhora demais. As mulheres casadas que têm mais de três filhos, isso é um risco para a saúde mental. Porque são elas que fazem tudo, cuidam da casa, criam as crianças sozinhas, são elas que abortam, elas que gerenciam a casa. Quando chegam do trabalho, se forem pobres, vão ter que fazer de novo tudo que fizeram na casa da patroa; se não forem pobres, de qualquer forma têm que cuidar das crianças, ajudar nos deveres da escola. É uma sobrecarga que não termina nunca. Então, o casamento é um risco para a vida das mulheres. Infelizmente, essa é a realidade. Porque aumenta demais a sobrecarga de trabalho.
Eu tenho uma reflexão, acho que no Brasil a maioria das mulheres de classe média e alta só está junto com os homens porque têm empregada doméstica. É um amortecedor da falta de apoio, da falta de divisão sexual do trabalho, porque os homens e os filhos não fazem nada. Tem um círculo vicioso que as mulheres não conseguem sair, e aí é uma sobrecarga de saúde mental. Por isso que elas são 74% dos consumidores de remédios psiquiátricos, porque tem que ter alguma válvula de escape.
Sul21 – E ao mesmo tempo, parece que muitas vezes os problemas das mulheres não são levados a sério, e elas mesmas não percebem.
Maria José – Elas muitas vezes não percebem o círculo vicioso em que entrem. Sabem que se sentem mal, mas não sabem o porquê. Não tem uma reflexão de que é a vida dela que provoca aquele mal estar: a infelicidade, sobrecarga de trabalho, violência. Há muitas mulheres hoje que conseguem perceber, mas é lento o processo.
Sul21 – Atualmente, os cuidados de saúde mental são muito voltados para a medicalização. Quais os efeitos disso?
Maria José – Olha, eu sou médica, acho que alguns casos precisam de medicamento. Uma depressão grave, severa, provavelmente tanto homens quanto mulheres precisam de medicamentos, além de apoio de uma terapia, de um profissional. Mas só pelo número já dá para ver que existe um abuso de medicação. Todas as queixas das mulheres para ginecologistas, obstetras e psiquiatras, são imediatamente medicalizadas. Uma pessoa que perdeu a mãe, por exemplo, tanto homens quanto mulheres, é normal que a pessoa chore, sinta tristeza, sinta seu luto. Mas o próprio manual de Doenças Mentais, o DSM, traz que 15 dias de luto já é uma doença mental. Ou seja, transformam o que é do cotidiano do ser humano em doença, e assim o primeiro passo é a medicalização. Nessa sociedade capitalista, pós-moderna, individualista, as pessoas não podem mais fazer seu luto, de todos os tipos. Como é uma sociedade de supérfluos, de consumismo, que tudo é temporário e descartável, os afetos também viraram descartáveis. Se seu pai, mãe, companheiro ou companheira morre, você tem que, 15 dias depois, já estar numa boa. É todo um conjunto de sintomas da sociedade atual, da contemporaneidade.
Sul21 – E essas questões de saúde mental afetam de forma diferente em função da raça ou da classe social?
Maria José – Que eu saiba, não tem nenhum estudo no Brasil por exemplo que digam se as mulheres negras tomam mais medicamentos psiquiátricos ou não. Na minha cidade, Salvador, 70% das mulheres são negras, então… eu não tenho dados científicos, mas pode ser que sejam mais medicalizadas, porque têm acesso a serviços de saúde que não são de boa qualidade, estão nas camadas mais pobres, são mais discriminadas. É só ver o que aconteceu com a Maju, a mulher do tempo no Jornal Nacional, que foi alvo de piadas discriminatórias*. Tinha um comentário que dizia: “onde eu posso comprar essa escrava?”, ou seja, estamos num país totalmente machista e racista. Então, isso acontece com uma mulher que está no Jornal Nacional, que é uma mulher culta, que todo mundo elogia o trabalho dela, e mesmo assim os comentários nas redes sociais são terríveis. Eu fiquei chocada, eu imagino que podemos inferir que as mulheres negras tomam mais medicamentos psiquiátricos, até porque as mulheres brancas são discriminadas por serem mulheres, mas não por sua cor.
*A apresentadora da Rede Globo Maria Júlia Coutinho foi alvo de diversos comentários racistas pela internet, na semana passada. As mensagens foram enviadas após a emissora publicar no Facebook uma foto da apresentadora.
** Título editado.


Foto de capa: Caroline Ferraz/Sul21
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/07/o-casamento-e-um-risco-para-a-vida-das-mulheres-diz-medica-especialista-em-saude-mental-feminina/

segunda-feira, 5 de março de 2012

“Veículo do século XXI será a bicicleta”,

 

 

É o que diz idealizador da Massa Crítica


Chris Carlson esteve em Porto Alegre durante as atividades do Fórum Mundial da Bicicleta | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

André Carvalho

Quem tem uma bicicleta e costuma usá-la cotidianamente, seja de maneira lúdica, seja como um meio de transporte, certamente já ouviu falar – e possivelmente já tenha até participado – do evento ciclístico denominado Massa Crítica. Mundialmente conhecida, a pedalada que ocorre uma vez por mês ganhou destaque em Porto Alegre após o trágico atropelamento ocorrido no dia 25 de fevereiro de 2011, quando um motorista jogou seu carro contra um grupo de 150 ciclistas, deixando 17 feridos, fato que gerou repercussão mundial e comoção social.
Um ano após o ocorrido, Porto Alegre voltou a ganhar destaque mundial, porém, desta vez de maneira positiva, onde, devido ao fatídico atropelamento, a capital virou palco do 1º Fórum Mundial da Bicicleta, que recebeu mais de duas mil pessoas vindas de todo o mundo para debater o mais famoso (e por incrível que pareça), mais polêmico veículo de propulsão humana do planeta.
Dentre os grandes nomes que participaram do evento, estava o do escritor e cicloativista estadunidense Chris Carlsson, que há vinte anos idealizou junto com seus amigos ciclistas a Massa Crítica, fenômeno que ocorre hoje em mais de trezentas cidades ao redor do globo.



Segundo cicloativista, violência contra ciclistas no ano passado acabou sendo a força que motivou Fórum Mundial da Bicicleta | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Nós também somos o trânsito”

Chris conta que a pedalada nasceu devido a uma demanda que havia por parte dos ciclistas, que estavam cansados de ver as bicicletas serem tratadas como objetos de lazer e gostariam que elas tivessem os mesmos direitos de ocupar as ruas, assim como os carros têm. “Nos anos final 80, pouquíssima gente andava de bicicleta em San Francisco. Mesmo já tendo ciclovias e ciclofaixas nas principais vias da cidade, era muito perigoso andar de bicicleta naquela época. Então, cansados de correr riscos, decidimos nos reunir uma vez por mês para passear pela cidade e mostrar que as bicicletas também faziam parte do trânsito”, descreveu.
Para a surpresa do cicloativista, na primeira Massa Crítica quase 50 pessoas apareceram de bicicleta tocando as suas sinetinhas. No segundo mês, o grupo já contava com umas 75 pessoas, no terceiro, mais de 130 ciclistas. “Em seis meses era um grande evento de conhecimento de diversas pessoas da cidade e a partir daí, muitos começaram a utilizar a bicicleta como um meio de transporte”, completou.


"Quanto mais pessoas pedalam, mais pessoas tendem a pedalar depois”, diz idealizador internacional da Massa Crítica | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Para ele, pedalar é uma ideia que já está na mente das pessoas do mundo inteiro, por isso a Massa Crítica se propaga com facilidade pelo mundo.  “Essa ação chama-se de inconsciente coletivo. Quer dizer, é uma ideia que se espalha de forma sub-consciente, sem divulgação. Ela simplesmente ganha força. E quanto mais pessoas pedalam, mais pessoas tendem a vir a pedalar depois”, garante.
Carlsson afirma que esta lógica de aumento de ciclistas é possível de ser comprovada, a partir da cidade de San Francisco (local onde nasceu e pedala desde os 13 anos de idade). “Até o final dos anos 80, existiam cerca de sete mil ciclistas nas ruas. Atualmente, temos aproximadamente 140 mil bicicletas ocupando o seu espaço no trânsito, ou seja, 20 vezes mais. E a tendência é que este número aumente ainda mais”. Além disso, ele acrescenta: “Mas isso não é apenas em San Francisco, esse aumento acontece em toda e qualquer cidade que começe a dar espaço para as bicicletas”.


Cicloativista fez questão de pedalar em Porto Alegre, como forma de “conhecer, sentir, ver e ouvir” a cidade | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Apesar de ter trânsito conflituoso, Porto Alegre pedala rumo a uma cidade mais ciclável

Sobre o atropelamento coletivo protagonizado por Ricardo Neis, Chris Carlsson reconhece que foi o mais trágico que a Massa Crítica já enfrentou, mas defende que enquanto a cultura social girar em torno do carro, os ciclistas sempre estarão correndo riscos. Por outro lado, ele afirma que “toda ação gera uma reação” e a prova disso está na origem do Fórum Mundial da Bicicleta. “O fórum nasceu como uma contra-resposta a violência no trânsito que ocorreu há um ano aqui, e que ocorre diariamente em diversas partes do mundo”, destacou.
Carlsson, que enquanto esteve em Porto Alegre, fez questão de pedalar pela cidade com o objetivo de – como ele diz -, “conhecer, sentir, ver e ouvir” o local onde está. Porém, o cicloativista afirma que a situação da cidade não é das melhores. “Os motoristas são violentos, sem consideração e respeito com os ciclistas. E pra complicar, não há ciclovias e ciclofaixas na cidade, o que prejudica ainda mais o trânsito cicloviário”, denunciou, explicando que apesar dos problemas, a cidade pedala rumo a um mundo mais ciclável. “O veículo do século XXI será a bicicleta, é tudo uma questão de tempo”.