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quinta-feira, 30 de março de 2017

SOBERANIA ALIMENTAR




Até 2020, Bolívia pretende produzir a própria comida que consome




Segundo dados do IPDSA, a produção de alimentos teve um aumento contínuo de 25% nos últimos anos









País já começou a aumentar a produção de alimentos como legumes, tomates, trigo e café. Foto: Flickr.com/CIAT
Diante das novas tendências globais e da necessidade de tornar o mundo mais sustentável, as indústrias alimentícias estão buscando incessantemente novas alternativas para trazer para o seu público somente produtos que atendam a todos os requisitos ambientais.
Desta forma, o governo boliviano anunciou no ano passado que investiria cerca de $ 40 milhões de dólares em produção local de alimentos, ajudando pequenos e médios agricultores do país. A missão desse projeto é que até 2020 o país se torne totalmente autossuficiente em relação à produção dos alimentos que consome.
Segundo a vice-ministra do Desenvolvimento Rural e da Agricultura, Marisol Solano, 20 dos projetos de segurança alimentar já estão em andamento, com apoio financeiro destinado para a criação de gado e piscicultura, além do aumento significativo na produção de batata, tomates, trigo, legumes, café e cacau.
Dados do Public Institute for Food Sovereignty, ou IPDSA (sigla em espanhol), mostraram que a produção teve um aumento de 25% direto desde 2014, sendo que o principal intuito é manter essa taxa de crescimento em 2017. Esses números deixam claro o quão próximo de chegar ao seu objetivo o país está.
Desde janeiro a Bolívia proibiu a entrada de uvas vindas da Argentina e Chile, até a colheita própria de vinha do país. Para proteger e incentivar a produção local e nacional, a Segurança Nacional de Saúde Animal e Vegetal e Segurança Alimentar permitiu a suspensão das importações.
Essa suspensão vai ajudar não só na melhoria dos meios de subsistências dos agricultores e empresas da região, como também vai reduzir as emissões, juntamente com as questões globais abordadas como o desemprego, a fome e a pobreza. Entretanto, mesmo estando no caminho correto, ainda é incerto se o projeto vai conseguir alcançar a soberania alimentar já nos próximos anos e se ele será realmente bem sucedido.

Fonte: http://www.pensamentoverde.com.br/economia-verde/ate-2020-bolivia-pretende-produzir-propria-comida-que-consome/?utm_source=facebook.com&utm_medium=timeline&utm_campaign=parceriapv&utm_content=economiaverde

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

AGROECOLOGIA*



Produção orgânica se viabiliza como garantia de soberania alimentar


Ainda modesta no país, atividade agrícola sem agrotóxicos cresce 35% ao ano e se viabiliza também modelo de negócio – solidário, sustentável e lucrativo.
Por Eduardo Tavares Da Rede Brasil Atual 18/08/2015
Vilmar Menegat não tem filhos. Mas se vê como "pai" de uma família numerosa de sementes nativas. São mais de 60 diferentes "filhotes" conservados com carinho em potes de vidro reciclados. Milho, feijão, trigo sarraceno, soja preta, chia são alguns dos nomes dessas crioulas – vistas pelo agricultor como sementes da preservação da biodiversidade do planeta. Vilmar, 42 anos, vive com os pais, descendentes de italianos, em um sítio de 50 hectares no interior de Ipê, município localizado na serra gaúcha, autointitulado "Capital Nacional da Agroecologia". A principal cooperativa da cidade, Eco Nativa, tem 67 produtores orgânicos associados que vendem diretamente em feiras de Porto Alegre e Caxias do Sul – o excedente vai para os supermercados. Ipê e a cidade vizinha Antônio Prado foram pioneiras da produção de alimentos orgânicos no Brasil. Toda semana levam quatro caminhões carregados às feiras de Porto Alegre. Normalmente retornam vazios.
 
Vilmar tem uma família de sementes nativas 
Esses produtores desafiam uma realidade assombrosa: o agronegócio brasileiro é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. A venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões em 2002 para quase US$ 10 bilhões em 2012. O Brasil tem um quinto do mercado mundial, com a marca de 1 milhão de toneladas, equivalente a um consumo médio de 5,2 quilos de veneno agrícola por habitante. Seis empresas dominam o mercado no Brasil: Monsanto, Syngenta, Basf, Bayer CropScience, Dow AgroSciences e DuPont. As seis são também as maiores proprietárias de patentes de sementes transgênicas autorizadas no Brasil. A modificação, em grande parte, torna as plantas de soja, milho e algodão resistentes aos agrotóxicos, exigindo aplicações de doses maiores de veneno para controlar insetos e doenças.
O agricultor é obrigado a comprar o pacote semente/agrotóxico da mesma empresa e não pode ter suas próprias sementes. A legislação brasileira ainda permite a pulverização aérea e a venda de agrotóxicos já proibidos nos Estados Unidos e União Europeia, e oferece incentivos fiscais aos fabricantes. Um exemplo do que o controle do mercado por essas empresas é capaz: a Monsanto, repentinamente, quintuplicou o preço da semente resistente ao agrotóxico glifosato, produzido pela empresa. Agricultores gaúchos que sempre foram favoráveis à difusão da soja transgênica resistente ao glifosato se revoltaram e foram à Justiça contra o pagamento desses royalties.
"O fundamento do agronegócio é que essas seis grandes empresas, através de pequenas modificações genéticas inseridas nas plantas, estão obtendo direito de propriedade sobre aspectos fundamentais para a vida de todos. As plantas transformadas, agora com dono, estão substituindo as plantas naturais, cujas sementes deixam de estar disponíveis", resume o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, dirigente da Associação Brasileira de Agroecologia. "Já as sementes transgênicas estão ao alcance de todos que podem pagar por elas. Não é possível aos agricultores familiares, estabelecidos em regiões dominadas pelo agronegócio, optar pelo plantio do milho crioulo, porque os grãos de pólen do milho transgênico alcançam de forma inexorável as lavouras daqueles que insistem em trabalhar com a base genética comum, comprometendo diversidade, autonomia e segurança alimentar dos povos."
O modelo polui o solo, o ar, mananciais de água e lençol freático. Os agricultores padecem de intoxicação aguda, coceiras, dificuldades respiratórias, depressão, convulsões, entre outros males que podem levar à morte. E os consumidores – a maioria da população brasileira – podem ter intoxicação crônica, que demora vários anos para aparecer, resultando em infertilidade, impotência, cólicas, vômitos, diarreias, espasmos, dificuldades respiratórias, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer. A Fundação Oswaldo Cruz calcula que cada dólar gasto com agrotóxicos em 2012 corresponda a U$ 1,26 gasto no Sistema Único de Saúde (SUS).
Solução
 
Município de Ipê (RS) é considerado um dos pioneiros na produção de orgânicos 
A alternativa para esse panorama é o fortalecimento da agricultura familiar e do cultivo sustentável. Apesar do aumentos dos investimentos do governo federal nos últimos anos na agricultura familiar, o lobby do agronegócio dificulta avanços mais significativos. A bancada ruralista no Congresso é numerosa (cerca de 170 deputados e 13 senadores), enquanto o universo de 12 milhões de pequenos agricultores conseguiu eleger apenas 12 deputados. O agronegócio produz, principalmente, biocombustível, commodities para exportação e ração para animal, enquanto a agricultura familiar responde por 70% da produção de alimentos. A orgânica ainda é pequena, movimentou R$ 1,5 bilhão em 2013, mas está em expansão de, em média, 35% ao ano desde 2011, favorecida pela regulamentação do setor com a Lei dos Orgânicos.
A produção se concentra nos agricultores familiares organizados em associações ou cooperativas. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também incentiva do cultivo de orgânicos nos assentamentos. A Cooperativa Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), na Grande Porto Alegre, reúne 30 famílias assentadas numa área de 600 hectares, desde 1995. Segundo o diretor Airton Rubenich, o empreendimento produz por mês 40 mil litros de leite, e por ano 268 toneladas de carne de suíno e 2 mil toneladas de arroz. "Tudo orgânico. A maior parte da produção é adquirida pelas prefeituras de São Paulo e Porto Alegre para a merenda escolar e pelo programa Fome Zero."
O agricultor Gilmar Bellé, formado em Economia, dirigente da Cooperativa Aecia e vereador no município de Antonio Prado, vai toda quarta-feira de caminhão a Porto Alegre, levando sua produção e a de outros cooperativados para vender na Feira Cultural da Biodiversidade. Ele é pioneiro na produção de orgânicos. Participou da criação da cooperativa em 1989, junto com outros jovens atuantes na Pastoral da Juventude Rural. A iniciativa é sucesso comercial. Produz 500 toneladas de hortifrutigranjeiros e mais 500 toneladas de alimentos processados nas suas agroindústrias. Além das feiras, vendem para redes de supermercados, como Zaffari e Pão de Açúcar. Negociam tudo o que produzem pelo preço que estabelecem.
As 23 famílias da cooperativa têm bom padrão de vida. A de José Tondello comprova. Seus filhos Jonas, de 23 anos, estudante de Processos Gerenciais, e Neiva, 20 anos, dizem, enquanto colhem moranguinhos, que nem pensam em sair do campo. A mesma opinião tem Maiara Marcon, de 24 anos, que largou o curso de Educação Física para ajudar seu pai na produção de mudas e desenvolver um projeto de ecoturismo no sítio em Ipê.
Biodinâmicos
 
Airton: produção inclui leite, carne suína e arroz | Crédito fotos: Eduardo Tavares/RBA 
Na Fazenda Capão Alto das Criúvas, no município Sentinela do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, o engenheiro agrônomo João Volkmann produz, desde 1989, arroz orgânico e biodinâmico. Em 182 hectares, João extrai 5 toneladas por hectare. O arroz Volkmann foi o primeiro a receber certificado de biodinâmico no Brasil; abastece o mercado interno e é exportado para os Estados Unidos, Alemanha, Bolívia e Uruguai. Desenvolvidos por Rudolf Steiner, criador da Antroposofia, os preparados biodinâmicos usados pelo produtor são elaborados a partir de cristais e plantas medicinais, constituindo uma fitoterapia para que as plantas cumpram melhor sua função e tenham mais potencial nutritivo. "No sistema de produção biodinâmico, a propriedade é vista como um organismo agrícola vivo e espiritual. Os objetivos são a cura da terra, o bem-estar dos agricultores, a produção de alimentos sadios para o consumidor e o desenvolvimento da espiritualidade."
Sua fazenda promove cursos e estágios gratuitos. Um dos alunos, João Kranz, é diretor da agroindústria da Cooperativa Ecocitrus, em Montenegro, a 55 quilômetros de Porto Alegre. É a maior produtora brasileira de suco, polpa e óleo essencial de laranja e tangerina e exporta quase tudo para a Alemanha. Das 75 famílias associadas, 12 produzem com preparados biodinâmicos que, segundo Kranz, aumentam a produtividade e propiciam excelente relação custo/benefício.
As redes de supermercados vendem cerca de 70% da produção de orgânicos no Brasil, mas os preços são maiores que os de produtos da agricultura convencional. A alternativa são as feiras livres, onde o produtor vende direto para o consumidor e cria outros vínculos. As feiras estão presentes em todas as capitais brasileiras. Porto Alegre tem sete por semana. A mais antiga é a Feira Ecológica da Redenção – funciona há 25 anos todos os sábados. Anselmo Kanaan, veterinário e coordenador da Feira da Biodiversidade do Menino Deus, constata que tem aumentado o número de consumidores com problemas de saúde que buscam novos hábitos alimentares. A feira tem 24 módulos, e todos têm certificação de produtores orgânicos.
Entre eles está Gilmar Bellé, de Antônio Prado, com um avental, carregando caixas de tomates. Na banca ao lado, Alexandre Baptista, o Ali, é o mais novo produtor, e está iniciando um projeto bem-sucedido e consolidado na Europa e Japão: o CSA (da sigla em ingles A Comunidade Financia o Agricultor). São 30 famílias que pagam mensalmente R$ 93 e recebem toda semana uma cesta com oito produtos diferentes. Dessa maneira é garantido o escoamento da sua produção. A advogada Fabiane Galli é uma das apoiadoras. "As crianças não adoecem e têm muita vitalidade", diz Fabiane, mãe de três crianças e há nove anos consumindo produtos orgânicos.

*Título editado
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/32706

sábado, 7 de fevereiro de 2015

CIDADE COMESTÍVEL




Por uma Cidade Comestível, projeto quer ajudar hortões a brotarem no espaço urbano

E se, ao caminhar por parques, praças, ruas e calçadas de São Paulo, ao invés de encontrar grama, terra e cimento, você pudesse colher uma alface, regar um pé de couve ou tirar uma pitanga direto da árvore? E se esse patrimônio fosse mantido colaborativamente e pudesse ser acessado de forma gratuita? Na São Paulo da seca iminente, parece um cenário distante. Mas essa é a utopia que o projeto “Cidades Comestíveis” está plantando.
Idealizado pelo Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo (MUDA-SP), a iniciativa emerge da crescente rede de hortelões urbanos que vai se espalhando pela cidade, e que quer dar corpo e forma a esse movimento. Para isso, propõem criar ferramentas online – uma plataforma e um aplicativo – que localize terrenos ociosos da cidade para conectá-los a jardineiros em atividade e em potencial.
O projeto foi lançado nesta sexta-feira, 6/2, no Centro Cultural Vergueiro – que inclusive tem sua própria horta urbana. Após a apresentação, jardineiros e agricultores de toda a cidade se reuniram para discutir como transformar a cidade de São Paulo em um lugar mais verde, sustentável e colaborativo.
A cidade de Detroit, nos Estados Unidos, passou nos últimos 40 anos por um enorme processo de esvaziamento. Hoje, os espaços vazios, responsáveis por mais da metade da área da cidade, estão sendo ocupados por “fazendas urbanas”. Leia mais.

“Estamos discutindo um projeto de cidade, como quando se fala em Cidade Educadora, Cidade Sustentável. Queremos que ela seja também comestível. Para isso, temos que conectar quem tem semente, quem tem conhecimento, quem está disposto a construir”, projeta André Biazoti, um dos organizadores do projeto, que foi contemplado pelo Edital Redes e Ruas, da Prefeitura de São Paulo.
Para exemplificar, cita Bill Mollison, um dos precursores da permacultura, que diz que, se começarmos a fazer produção de pequena escala em nossos jardins, podemos resolver boa parte do problema de alimentação do mundo. “Falamos de agricultura cidadã, de engajar pessoas na cidade que queremos. Se se alimentar é um direito constitucional, também é direito produzir seu próprio alimento. É uma forma de combater a insegurança alimentar pela raiz, diminuir o tanto de comida industrializada que não sabemos a procedência”, argumenta.
Biazoti afirma que seria necessário desenvolver processos de produção comunitária em cada bairro, que aproximem e reconectem as pessoas com seus alimentos. “Como na cidade de Todmorden, na Inglaterra, onde até na delegacia de polícia há uma horta e tudo é gratuito e cuidado por todos e todas.” A esperança é de que o projeto seja encampado como política pública e que haja um Plano Urbano de Agricultura. “Mas não é um projeto de prefeituras. É um projeto de pessoas. É um chamado à ação”, finaliza.

Fonte: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/02/06/por-uma-cidade-comestivel-projeto-quer-ajudar-hortoes-a-brotarem-no-espaco-urbano/ acesso em 07/02/2015