domingo, 15 de julho de 2018

CROÁCIA


Um passado de guerras e um presente com sinais de xenofobia marcam seleção às vésperas de sua primeira final de Copa*

A Croácia é o país mais jovem dos 32 participantes da Copa do Mundo, se considerado o cenário político contemporâneo: o plebiscito pelo qual se separou da finada Iugoslávia completa 27 anos em 30 de outubro. Mas para entender as possíveis ligações de jogadores com movimentos nacionalistas e neonazistas é preciso recuar muito mais no tempo, e entender como se construiu a nação que no domingo disputa pela primeira vez a final do maior torneio do futebol mundial.
Com 56.542 quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho da Paraíba, o território da atual Croácia foi parte do Império Romano e do Império Bizantino, e começou a ser habitada no século 7 por povos eslavos, etnia da qual fazem parte os croatas. As primeiras tretas com os sérvios, também eslavos, datam do século 16, e a principal causa de dissensão entre eles, além do território, era a religião: os croatas eram católicos, e os sérvios, cristãos ortodoxos.
Na época da Primeira Guerra Mundial, a Croácia era parte do Império Austro-Húngaro, um dos palcos centrais do conflito. Na época, na região dos Bálcãs, havia uma doutrina política conhecida como pan-eslavismo, que defendia a criação de um Estado único para os povos – este seria a Iugoslávia, cuja tradução é “povos eslavos do sul” – os “do norte” seriam poloneses, ucranianos e russos.
Após o fim da guerra e a derrocada do Império Austro-Húngaro, nasceu então o Reino da Iugoslávia, com capital em Belgrado e maioria sérvia, que logo foi contestado pelos croatas. O cenário evoluiu aos trancos e barrancos até 1941, quando o país foi invadido pelo Eixo, já passados quase dois anos da Segunda Guerra. O território iugoslavo foi então dividido, com a Croácia se tornando um Estado independente sob comando de um sujeito chamado Ante Pavelic, respaldado por uma milícia de extrema-direita chamada Ustasha. Basicamente, era uma marionete de Hitler e Mussolini que não resistiu à queda da Itália, e em 1944 o movimento de resistência comunista, liderado pelo marechal Josip Broz Tito, retomou o poder em Belgrado, reconquistando a Croácia no ano seguinte, com o apoio do Exército Vermelho, da União Soviética.
O curto período de Pavelic e da Ustasha no poder, entretanto, deixou marcas pesadas. Para começar, a “Grande Croácia” que ele sonhava incluía o que hoje é a Bósnia, além de pedaços da Sérvia. Além disso, houve conversões forçadas ao catolicismo e uma enorme limpeza étnica: estima-se um número que varia de 500 mil a 700 mil mortes de sérvios e de outras minorias, como judeus, muçulmanos e ciganos. Quando o regime estava se dissolvendo e o Eixo a ponto de perder a guerra, ainda houve tempo de estabelecer uma linha direta de fuga, com auxílio de padres e bispos católicos, que trouxe líderes nazistas alemães e croatas à América do Sul. A história é contada no livro “A Verdadeira Odessa”, do escritor argentino Uki Goñi.

União à força não faz a força

Embora fosse nascido em território croata, Tito era um defensor do pan-eslavismo, e uma de suas primeiras medidas foi o renascimento da Iugoslávia, agora uma república socialista. O dirigente sempre teve uma relação muito mais independente com Moscou em relação a outros países do bloco comunista, mas comandou um regime autoritário cuja medida mais polêmica foi o incentivo às migrações: seria mais fácil, para ele, controlar o poder e garantir uma união nacional se os povos se misturassem naturalmente – ele mesmo tinha pai croata e mãe eslovena. Mas as cicatrizes das décadas passadas nunca se fecharam totalmente e os croatas sempre se viram como os patinhos feios de uma federação construída na marra.
Após a morte de Tito, em 1980, os movimentos separatistas começaram a ganhar força até chegar a 1991, quando Eslovênia e Croácia pediram a independência por meio de plebiscitos. A essa altura, o comunismo já se tornava um fantasma: o Muro de Berlim caiu em 1989 e a Alemanha se reunificou no ano seguinte; ainda em 1989, em plena noite de Natal, o ditador romeno Nicolae Ceausescu foi fuzilado com transmissão ao vivo pela TV; em 1990, o sindicalista Lech Walesa se elegeu presidente da Polônia; em agosto de 1991, tanques cercaram o Kremlin para tentar derrubar o líder soviético Mikhail Gorbachev, mas o que acabou mesmo, meses depois, foi a União Soviética.
A independência da Croácia foi pedida nesse cenário, mas o governo da Iugoslávia deu de ombros e tentou manter o país unificado na base da bala. Estabeleceu-se uma guerra que se arrastou até 1995, quando foi fechado o acordo definitivo de cessar-fogo. Na prática, o resto do mundo já aceitava a Croácia desde 1992, ano em que o país até disputou a Olimpíada de Barcelona – foi medalha de prata no basquete masculino, derrotado apenas pelo Dream Team de Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.
Uma das cidades atingidas pelo conflito servo-croata foi Zadar, na costa do Mar Adriático. Num vilarejo ali perto vivia um garoto de 5 anos que foi obrigado a fugir com o que restava de sua família – o pai estava lutando no exército croata e o avô foi assassinado por milicianos sérvios. Ele passou quatro anos morando num hotel abandonado no centro de Zadar que virou abrigo de refugiados. No próximo domingo, esse menino vestirá a camisa 10 e a faixa de capitão da Croácia contra a França: seu nome é Luka Modric.

Feridas abertas, sentimentos incomparáveis

Outros jogadores da seleção sofreram com os horrores da guerra nos Bálcãs. As famílias do atacante Mario Mandzukic e do zagueiro Dejan Lovren tiveram que fugir para a Alemanha, mas foram obrigadas a voltar à Croácia anos depois, já em tempos de paz, porque não foram aceitas como refugiadas permanentes.
As lembranças, porém, não se apagam. E talvez expliquem porque parte do nacionalismo croata tenha um pé no neonazismo que vem crescendo na Europa, nos últimos anos de forma mais assustadora – e não só na Alemanha, que combate tais manifestações com vigor, mas curiosamente em países que sofreram nas mãos de Hitler e seus aliados, como a Polônia, cuja invasão, aliás, foi o estopim da Segunda Guerra. Afinal, se o grande período de liberdade croata esteve ligado ao nazismo, na década de 1940, não é difícil inventar um silogismo, por mais falacioso que seja, de que só o neonazismo engrandecerá novamente o país.

O atual governo da Croácia é teoricamente moderado de centro-direita. A presidente Kolinda Grabar-Kitarović virou figurinha fácil da TV durante os jogos, mas quem manda de verdade é Andrej Plenkovic, primeiro-ministro desde outubro de 2016, membro do partido HDZ (em português, União Democrática Croata). É o mesmo do líder da luta pela independência a partir de 1989, Franjo Tudman, que se apresentava na época como “nacionalista e anticomunista”. Hoje, oficialmente o partido defende ideais liberais e capitalistas, mas para compor a maioria do parlamento já foi obrigado a ceder espaço a legendas mais radicais na defesa do nacionalismo.
E aí entram os sinais dados pela própria seleção, como o vídeo em que é ouvida no vestiário a canção “Bojna Cavloglave”, escrita por um roqueiro chamado Marko Percovic. A letra traz trechos que lembram vários dos hinos nacionais executados na Copa, como: “Estamos lutando por nossas casas, nossos irmãos e nossa liberdade”. Mas o que pega mesmo é o começo da música: “Estamos prontos para nossa casa” é um dos lemas da Ustasha, da qual Percovic já se declarou admirador.

Um problema, que puxa outro...

O zagueiro Domagoj Vida e o assistente técnico Ognjen Vulkojevic colocaram uma pimenta extra na confusão ao aparecer em vídeo dizendo “Glória à Ucrânia” após a vitória sobre a Rússia, nas quartas de final. Vida passou cinco anos jogando no Dínamo de Kiev, principal representante na bola do nacionalismo ucraniano – e a Ucrânia desde 2013 está em guerra declarada com a Rússia por causa da Crimeia, como já citamos nesta série. Há uma certa identificação entre croatas e ucranianos em contraponto à aliança entre Sérvia e Rússia que vigora desde os tempos do comunismo. Vale lembrar que a Ucrânia também foi engolida como parte de um país maior e só reconquistou sua independência em 1991.
Embora tenha dito que era apenas uma manifestação de apoio a um país onde foi bem recebido como atleta, Vida levou uma bronca da Fifa e vaias, muitas vaias, a cada vez que pegou na bola durante o jogo com a Inglaterra. Vulkojevic foi afastado pela própria federação croata e mandado de volta para casa, além de pagar uma multa de cerca de R$ 60 mil. Os cartolas ainda vieram a público pedir desculpas.

Não é o primeiro problema do gênero para a Croácia. Em 2013, o zagueiro Simunic puxou os gritos de guerra da Ustasha dentro de campo, com microfone e tudo, para comemorar a classificação para a Copa no Brasil após uma vitória contra a Islândia. Tomou 10 jogos de gancho, não pôde jogar o Mundial e hoje está fora da seleção. Em 2015, antes de um jogo pelas eliminatórias da Eurocopa contra a Itália, uma suástica apareceu discretamente pintada no gramado do estádio de Split, o que provocou multa e punição da Uefa: dois jogos sem torcida e pedido de desculpas. É como diz o ditado: gato escaldado tem medo de água fria.
Talvez seja difícil demais para a gente, no Brasil de 2018, entender o que se passa na cabeça de povos que estiveram em guerra até tão pouco tempo atrás. Que tipo de sentimentos move um Modric ou um Lovren depois de tudo o que suas famílias e eles mesmos passaram? O que se pode extrair de tudo isso é que não, a seleção da Croácia não é um bando de nazistas, mas, sim, tem gente ali dentro que, de certa forma, simpatiza com ideias xenófobas e supremacistas. Isso significa que devemos torcer contra? Bem, se considerarmos que do outro lado está a França, país com passado colonialista e presente cheio de gente xenófoba, se o seu critério de torcida for esse talvez seja melhor desligar a televisão. Ou então torcer pela bola, por um grande jogo, gols bonitos, muita emoção, quem sabe até uns pênaltis – e combater, depois, as bobagens e escrotices que forem ditas.

*Fernando Cesarotti, 40, é jornalista e professor universitário. Assina a colunaGeopolítica das Copas , sobre futebol e política, durante o Mundial da Rússia.

Fonte: https://www.vice.com/pt_br/article/43pvxg/a-historia-politica-da-croacia-vai-muito-alem-dos-rotulos-simplistas

sexta-feira, 13 de julho de 2018

MOSTRA LITERATURA PARANÁ

Projeto traz "evolução do Ser e da Sociedade"

Entrevista: com Kenni Rogers, da Mostra Literatura Paraná

Foto: Robson Reginato


Organizador da Mostra Literatura Paraná conta como conseguiu patrocínio para o projeto e dá orientações sobre como captar recursos para projetos de leitura. A iniciativa incentiva a leitura com obras de autores paranaenses e presença de escritores para transformar a vida de jovens em situação de vulnerabilidade social. Rodas de leitura, intervenções poéticas, bate-papo com escritores, sessão de autógrafos, oficina de leitura de gêneros literários e oficina de ilustração de histórias em quadrinhos. Veja o que ele disse:
De que forma os apoiadores contribuem para a sustentabilidade e a expansão da iniciativa?
A Mostra Literatura Paraná é um projeto de formação de leitores por meio da promoção e valorização da literatura regional. Amplas ações, como oficinas, rodas de leitura, bate-papo com escritores, cortejo literário, apresentações de música, teatro, fotografia, grafite, colagem… apresentam o prazer da Literatura, da palavra, da comunicação, da expressão, da Língua.Diversas expressões e manifestações compõem a programação para tornar-se atrativo, convidativo e proporcionar atividades aos mais diversos gostos. Assim, tira a leitura da formalidade excessiva e a coloca em meio a tudo, na rua, inclusive.
E para ler, precisa-se do livro. Os apoiadores, como Fundação Cultural de Curitiba e o Programa Curitiba Lê, e a Freguesia do Livro, disponibilizaram mais de 2000 exemplares de livros, entre didáticos,  literários, adultos e infantis, que foram distribuídos ao longo de agosto e setembro de 2017 nas 4 comunidades em que o projeto esteve inserido na capital paranaense. E mais: centenas de exemplares do Jornal Rascunho, Jornal Cândido e Jornal Relevo foram também entregues à comunidade.
Assim, a expansão do acesso, da democratização ao livro, da leitura, se fez possível por meio dos apoiadores, que se juntaram ao Projeto para unir forças e alterar a realidade de quem não tem um livro ou jornal em mãos, por não se sentirem pertencente aos espaços públicos, como uma Biblioteca, por exemplo. O livro, a leitura foi até eles.
 Como o projeto conseguiu o apoio ou o patrocínio que recebe?
O Projeto foi inscrito e aprovado através de Lei de Incentivo, no aEdital Mecenato Subsidiado da Fundação Cultural de Curitiba / Prefeitura Municipal de Curitiba. Teve seu incentivo total pela empresa Ademilar Consórcio de Investimento Imobiliário, que realizou o Circuito Cultural, com diversos projetos, inclusive a Mostra Literatura Paraná, um dos mais impactantes do Circuito em 2017.
 Pode compartilhar essa experiência sobre como preparar o projeto para captação de recursos?
O Projeto deve ser pensado no sentido de mudança, não de status. Pensar num projeto que possa ser interessante para a empresa, é comercializar o produto, e isso não é produzir arte, transformação. Uma pergunta é: O projeto deve mesmo ser feito? Por quê? Tendo vários questionamentos resolvidos e dissolvidos pelo próprio projeto, base de pesquisa e mapeamento concretos, equipe de inovação e proposta de evolução do Ser e da Sociedade, o projeto por si terá sua visibilidade e despertará interesses. E o mais importante: deve ser pra todos, independente de onde esteja inserido. Pensar o Público. No caso específico da Mostra: havia o escritor e a pessoa em situação de vulnerabilidade ou em situação de de rua, indistintamente, sentados lado a lado, numa cadeira igual, na pracinha, na rua…
 Quais orientações você daria para organizadores de projetos de leitura que queiram começar a captar recursos ou buscar patrocínios?
Somos sim um país de leitores! Para projetos de leitura, sugiro potencializar a democratização, o acesso. Só não lê quem não tem o livro (claro, há muitos outros fatores a serem discutidos neste ponto, mas deu pra entender, né!). E ainda: sair um pouco do blá blá blá do poder da leitura de ampliar vocabulário, aumentar a criatividade, expandir horizontes, viajar sem sair do lugar… O lance maneiro é focar na Língua, no sistema linguístico, na comunicação, na expressão, no poder da palavra. Como escritores e diferentes tipos de textos usam a palavra para construir narrativas, provocar sensações, emoções, fluxo, velocidade, tempo, espaço? A palavra, a escrita, a oralidade deve estar em uso. Sim, há situações em que a norma é requisitada, como em um documento, discurso… Mas também há as variantes linguísticas e a liberdade poética. Quais são estes lugares? A palavra, seus pesos e usos. Através da democratização é que se vivencia experiências, olhares e se amplia o acesso ao conhecimento, à informação, ao uso da Língua como pertencente ao Indivíduo. Viva a poesia!

Fonte: http://plataforma.prolivro.org.br/entrevista-com-kenni-rogers-da-mostra-literatura-parana/
Colaboração: Kenni Rogers 

VENENO



Monsanto vai a julgamento nos EUA por agrotóxico cancerígeno

Composto à base de químico glifosato corresponde a 50% do mercado brasileiro de agrotóxicos

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Herbicida Glifosato, patenteado pela Monsanto em 1969 / Foto: Reprodução

Teve início nesta segunda-feira (9), nos Estados Unidos, o julgamento da multinacional Monsanto, acusada de ocultar deliberadamente os perigos relacionados ao herbicida Roundup, à base de glifosato. A empresa é processada por um de seus ex-empregados, o paciente terminal Dewayne Johnson, que afirma ter contraído um linfoma de Hodgkin após manusear o produto por mais de dois anos.
Apesar de a Monsanto responder a centenas de processos pelo mundo, o processo de Johnson, cujo julgamento deve durar pelo menos três semanas, é o primeiro referente a esse produto que chega aos tribunais. O Roundup é vendido há mais de 40 anos, e é um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, vendido em 160 países. Seu uso é internacionalmente questionado por inúmeros estudos científicos que revelam o caráter cancerígeno do composto glifosato.
No Brasil, a venda do pesticida representa metade de todo o mercado de agrotóxicos, e pode ser facilmente encontrado nas lavouras do país, como afirma a engenheira química Sônia Corina Hess, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autora do livro Ensaios sobre Poluição e Doenças no Brasil, publicado nesta semana. O livro dedica um capítulo inteiro ao componente ativo do Roundup, entitulado "Glifosato, o maior dos venenos".
"O glifosato é o mais usado no mundo inteiro, não só no Brasil. É utilizado em tudo que é herbicida, para uso doméstico, você acha até em lojas de jardinagem. Tem um descontrole total do uso desse produto, como se fosse água. Ele é a base de água, não tem cheiro, e as pessoas acham que, porque não tem cheiro, não faz mal", afirmou.
De acordo com a engenheira química, além de câncer, o glifosato pode causar muitos outros problemas de saúde.
"O efeito do glifosato no corpo humano é muito grave, porque bloqueia a produção dos aminoácidos essenciais. Causa depressão porque bloqueia a ação dos neurotransmissores, causa autismo porque bloqueia a produção de aminoácidos essenciais para o desenvolvimento do cérebro", explicou.
Licença
Hess foi responsável por protocolar um parecer técnico ao Ministério Público, em 2016, explicando os perigos do glifosato. O parecer foi enviado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que, desde 2008, está em processo de reavaliação do químico, e, no momento, considera o agrotóxico como "pouco tóxico". No entanto, a engenheira-química é pessimista.
"O poder de um produto desse em um país como o Brasil, campeão em uso de agrotóxicos no mundo, é enorme, é um mercado de bilhões de dólares por ano. Então quando os pesquisadores começam a dizer que é perigoso, é claro que a indústria tem todo o dinheiro para começar a dizer o contrário, fazer propaganda dizendo que tudo é bom. É uma luta desigual, a população ainda não sabe de nada. Agora, com a mudança na Lei dos Agrotóxicos, eles vão nadar de braçada", afirmou.
A pesquisadora se refere ao Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, conhecido como "PL do Veneno", que pretende flexibilizar as regras para adoção de agrotóxicos no país, e foi aprovado na Comissão Especial da Câmara dos Deputados no dia 25 de junho, e segue em trâmite para o plenário da Câmara.
Na União Europeia, onde as licenças dos produtos químicos são reavaliadas periodicamente, houve uma grande discussão acerca da renovação do glifosato entre os anos de 2015 e 2017, e o agrotóxico quase foi banido, após a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançar um relatório colocando-o como "provavelmente cancerígeno para humanos".
De acordo com o coordenador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Alan Tygel, o julgamento nos EUA pode servir de inspiração para a denúncia da Monsanto no Brasil.
"Achamos bastante improvável que tenhamos essa proibição dele no Brasil, porque o agronegócio é totalmente dependente dele. No Brasil, infelizmente, temos poucos casos onde a empresa é responsabilizada pelos danos de seus produtos, mas se a Monsanto for de fato condenada pelos seus crimes, isso pode abrir um precedente muito bom para a luta contra os agrotóxicos e pela vida no mundo inteiro. Temos diversas iniciativas no Brasil provando que é possível fazer uma agricultura baseada na agroecologia sem o uso de glifosato", afirmou.
Réu recorrente
Originalmente, o glifosato era utilizado para limpar incrustações em caldeiras, e seu potencial herbicida foi descoberto ao ter seu resíduo jogado, por acaso, em um terreno baldio. O produto foi patenteado em 1969 pela Monsanto, mas já caiu em domínio público.
Em março deste ano, uma corte federal estadunidense divulgou uma série de documentos que provam o conhecimento, omissão e falsificação de pesquisas empresa sobre o Roundup pela empresa. No julgamento que teve início nesta semana, a Monsanto nega que exista qualquer conexão entre os produtos com base de glifosato e câncer, e tem levado seu próprio especialista à corte, o epidemiologista do câncer Lorelei Mucci.
Ontem (10), o juiz Vince Chhabria considerou "fracas" as evidências de que o Roundup seja cancerígeno. "Vista em sua totalidade, [a evidência] parece muito equivocada para apoiar qualquer conclusão firme de que o glifosato causa câncer", afirmou o juiz, que, ainda assim, permitiu a continuidade dos processos contra a empresa.
Apesar de ainda não haver processos no Brasil contra o glifosato, a multinacional coleciona processos no mundo todo contra esse e outros produtos. Em 2012, a Monsanto acordou pagar US$ 93 milhões após ter sido acusada de causar problemas de saúde à população de um município estadunidense que abrigou, entre os anos 1950 e 1960, uma fábrica de Agente Laranja – princípio ativo do Napalm, químico incendiário utilizado pelo exército estadunidense na guerra do Vietnã.
Em 2009, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos concordou que a empresa não era responsável pelo uso militar do Agente Laranja, uma vez que estavam prestando serviços ao governo. No mesmo país, agricultores têm sido repetidamente derrotados na corte ao contestarem as culturas de sementes transgênicas da Monsanto.
Em 2015, na França, a Justiça condenou a Monsanto a indenizar um agricultor, intoxicado em 2004 por vapores emitidos por outro agrotóxico da empresa, o Lasso, banido em vários países desde então. Em 2017, um tribunal civil informal chamado de "tribunal dos povos", composto por cinco juízes profissionais, considerou a empresa culpada por violações dos direitos humanos e impacto ambiental negativo. A Monsanto denunciou a ação, que considerou uma "encenação anti-tecnologia agrícola".
No Brasil, um juiz condenou, na última quarta-feira (4), unidades locais da Monsanto a realizarem depósitos em juízo dos royalties relacionados à tecnologia das sementes transgênicas Intacta RR2 Pro. Produtores de soja no Mato Grosso pediram a um tribunal federal que cancelasse a patente em novembro do ano passado, alegando o fracasso da empresa em provar que traz inovação tecnológica. Em 2012, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu ganho de causa a uma ação coletiva do Sindicato dos Produtores e Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Sul contra a empresa.
Bayer
Uma das preocupações em relação à impunidade da Monsanto é a recente compra da empresa pelo grupo farmacêutico e agroquímico alemão Bayer, por mais de US$ 60 bilhões (equivalente a R$ 232,1 bilhões). Em junho deste ano, a Bayer anunciou o fim do nome da Monsanto, o que pode acarretar em complicações jurídicas para as vítimas que movem processos contra a empresa. O movimento de compra de empresas produtoras de agrotóxicos por multinacionais maiores têm sido frequente nos últimos tempos.
"Se antes já era um oligopólio, agora temos três empresas enormes que, além de ter o controle sobre as sementes e os agrotóxicos, também tem poder de lobby muito grande, com capacidade de influenciar mudanças de leis. Agora, com a fusão das empresas, há o temor que essa responsabilização fique mais frágil ainda. Fica a grande dúvida sobre de quem seria a responsabilização por todos os crimes praticados pela Monsanto, e a lista é grande", afirmou Alan Tygel.
Tygel destacou o caso de Bhopal, cidade na Índia, onde um vazamento de gás tóxico na sede da empresa produtora de agrotóxicos Union Carbide, subsidiária da multinacional estadunidense Dow Chemical, matou mais de 10 mil pessoas instantaneamente, e deixou milhares de outros com sequelas permanentes, em 1984. A empresa foi fundida com a também estadunidense Dupont em 2017, o que diminuiu ainda mais a esperança dos sobreviventes por reparações.
Edição: Diego Sartorato
Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2018/07/11/monsanto-vai-a-julgamento-nos-eua-por-agrotoxico-cancerigeno/?utm_source=bdf&utm_medium=referral&utm_campaign=facebook_share

quinta-feira, 12 de julho de 2018

POLÍTICA



Eleições 2018

O peso do DNA no cenário eleitoral paranaense



por René Ruschel — publicado 12/07/2018 00h30, 
No Paraná, poucas famílias se perpetuam no poder. A trajetória de Beto Richa, do PSDB, é exemplo dessa arcaica tradição
No Paraná, o arcabouço social e político preserva contornos que remontam às Capitanias Hereditárias. Poucas famílias se perpetuam no poder, um privilégio reservado aos bem-nascidos. A trajetória de Beto Richa, do PSDB, é o perfeito exemplo dessa arcaica tradição. Seguindo os passos do pai, o também ex-governador José Richa, disputará nas próximas eleições uma vaga no Senado, após dois mandatos no comando do Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense.
Réu na Justiça Federal e envolvido até a medula em denúncias de corrupção, o tucano busca desesperadamente um cargo eletivo para ter direito ao foro privilegiado, além de lançar a candidatura do filho, Marcello Richa, para a Assembleia Legislativa. O plano era mais ousado: queria eleger o irmão, Pepe Richa, ex-secretário de Infraestrutura e Logística durante seu governo, à Câmara dos Deputados.
O projeto naufragou quando Pepe acabou delatado por um de seus homens de confiança, Nelson Leal Junior, ex-diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem. Por impedimentos legais, a ex-primeira-dama e ainda secretária da Família e Desenvolvimento Social, Fernanda Richa, ainda não se aventurou a disputar uma eleição. Não foi por falta de convites. Seu nome é citado com frequência, notadamente em colunas sociais, como possível candidata tucana à prefeitura de Curitiba em 2020. O clã milita unido e o poder político é o maior foco de suas atividades.
A fórmula utilizada para fixar tal oligarquização familiar no aparelho estatal, segundo o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná e autor do livro Na Teia do Nepotismo, é ocupar o poder e manter um exército político nas estruturas do Estado.
“Beto Richa nomeou o irmão, a esposa e parentes, mesmo que distantes, para funções estratégicas. O filho Marcello foi nomeado secretário municipal pelo prefeito de Curitiba, Rafael Greca. Requião não foi diferente. Nomeou e elegeu parentes quando foi governador. Com isso, o estado se transforma em comitê a serviço da família de plantão.”
Para Costa de Oliveira, a estratificação social no País é reforçada pela “colonização” do Estado pelas classes dominantes. “No Brasil, a unidade da política é formada pela ação de famílias poderosas. Para elas, o Estado é um grande negócio e sua presença nas instituições é um fato social.” No Paraná, assim como no Brasil, diz Costa de Oliveira, “a classe dominante está enraizada em uma grande estrutura de parentesco que ocupa espaço em todos os poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário”.
No pleito de outubro, os principais candidatos a governador têm um longo histórico político-familiar. A governadora Cida Borghetti, do PP, candidata à reeleição, foi vice de Beto Richa. Sua carreira começou como militante do Partido Democrático Social, herdeiro da Aliança Renovadora Nacional, a Arena, que deu sustentação à ditadura.
Casada com Ricardo Barros, deputado federal e ex-ministro da Saúde do governo Temer, Cida foi deputada estadual e federal. Com apoio de ambos, a filha, Maria Victória Borghetti Barros, foi eleita deputada estadual em 2014, aos 22 anos, com votação de quase 45 mil votos. Em 2016, foi candidata a prefeita de Curitiba. A julgar pela trajetória familiar, tem motivos para confiar em um futuro promissor na política.
O avô, Silvio Magalhães Barros, foi deputado federal e prefeito de Maringá. O pai, Ricardo Barros, conseguiu eleger-se prefeito do município aos 29 anos, em 1988. Desde então, teve uma carreira meteórica. Deputado federal por cinco legislaturas, elegeu e reelegeu o irmão, Silvio Magalhães Barros II, prefeito de Maringá, até ser derrotado em 2016, na terceira tentativa. Calculista e pragmático, Barros foi quem negociou com o PSDB a coligação para indicar sua mulher como candidata à vice de Richa.
No Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense, comenta-se que Cida é a governadora “de direito”, enquanto o marido é o mandatário “de fato”. Enquanto isso, em Brasília, dormitam nas gavetas do Supremo Tribunal Federal uma série de pendências jurídicas cometidas contra o Erário e a população de Maringá.
Se as eleições fossem hoje, as pesquisas indicam que o segundo turno seria disputado entre o deputado estadual Ratinho Junior, PSD, e o ex-senador Osmar Dias, PDT. Ambos tiveram suas carreiras políticas à sombra da família.
Ratinho Junior é filho do apresentador de televisão e empresário de comunicação Carlos Roberto Massa, o Ratinho, com breve passagem pela vida pública. Foi vereador em Curitiba e deputado federal pelo Partido da Reconstrução Nacional, sigla que elegeu Fernando Collor de Mello presidente da República. Afastado da política, Ratinho apresenta um programa popular no SBT, além de ser dono de fazendas e de uma cadeia de rádio e televisão no Paraná.
Junior foi eleito deputado estadual, em 2002, aos 21 anos, com 189 mil votos, sem nunca ter exercido qualquer função pública ou política. Toda sua carreira esteve colada à imagem do pai, apresentador de televisão. Em 2006 e 2010, foi eleito e reeleito para a Câmara dos Deputados. Em 2014, com os olhos voltados para a eleição a governador, disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa e foi eleito com 300 mil votos, mais de 5% dos votos válidos do estado. Elegeu, a reboque, uma bancada de 11 deputados, que se tornou a maior força política na Casa.
Ex-senador, Osmar Dias disputa o governo do Paraná pela terceira vez. Nas duas anteriores foi derrotado. Engenheiro agrônomo, começou a trajetória política como secretário da Agricultura no governo de Álvaro Dias, hoje senador e pré-candidato a presidente da República pelo Podemos.
Na avaliação de Costa de Oliveira, da UFPR, a prática só costuma ser menor em partidos de esquerda, nos quais as candidaturas costumam ser forjadas pela atuação em movimentos sociais. “Lula foi um grande líder sindical. Dilma teve uma forte militância política na época da ditadura. Luiza Erundina elegeu-se prefeita de São Paulo com apoio dos movimentos sociais. Agora, surge Boulos, líder dos sem-teto. Isso faz uma enorme diferença.”
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/revista/1011/o-peso-do-dna-no-cenario-eleitoral-paranaense

domingo, 8 de julho de 2018

COMUNISMO E FEMINISMO



O demônio reside na ignorância
Para Marcia Tiburi, com amor.  Para Lili, Schuma, Vilma e todas as que lutam
Em 1998, o escritor Philip Roth publicou o livro Casei com um comunista, no qual aborda os traumas do pós-guerra, a paranoia anticomunista, o fenômeno do macarthismo e as perseguições político-ideológicas que destruíam o laço social e a perspectiva de mudança radical na sociedade norte-americana. No romance, um célebre ator de rádio (Ira), de origem humilde e defensor de causas progressistas, passa a ser perseguido em razão das suas opções político-ideológicas a partir de um livro intitulado Casei com um comunista, escrito pela atriz de cinema mudo e antissemita com quem se casou (Eve). Trata-se de uma história sobre traição, crueldade e vingança, mas, sobretudo, sobre o medo da liberdade, do pensamento e da diferença.
Ainda hoje, há quem explore os preconceitos, a ignorância e o medo ligados ao significante “comunismo”. Demonizou-se o comum, demonizaram-se pessoas. Ainda hoje, homens e mulheres são atacados por serem etiquetados de “comunistas”. A paranoia anticomunista permite que pessoas maliciosas criem e apontem inimigos imaginários para pessoas ignorantes que se deixam contaminar pelo ódio, afeto que tem inegavelmente funcionalidade política. Não é difícil perceber que o ódio contra a “esquerda” e os “esquerdistas”, reais ou imaginários, incentivado em um país profundamente desigual como o Brasil, atende aos interesses daqueles que querem manter a desigualdade.
Com relação ao feminismo, não é muito diferente. O ódio que a palavra desperta está intimamente ligado a um sistema de privilégios que resiste e à posição daqueles que não querem ver esse estado de opressões, que se dão nos registros do real (naquilo que não encontra palavras), do simbólico (da linguagem) e do imaginário (da imagem que se tem do mundo), desaparecer. No que diz respeito ao medo que gera, à demonização de seus militantes, à ignorância sobre a causa, às certezas delirantes de seus opositores e ao preconceito, não há muita diferença entre o comunismo e o feminismo. Compreendi isso ao casar com uma feminista.
Feminismo, informação e transformação
Não era alienado ao ponto de deixar de perceber as diferenças de tratamento entre homens e mulheres. Sabia que o feminismo era a politização contra uma forma de opressão que alguns chamavam de dominação masculina. Mas isso era muito pouco, e eu não reconhecia a minha ignorância sobre o feminismo, com suas variações, teorias e práticas.
Ao conviver com Marcia e suas amigas feministas passei a compreender melhor os jogos de poder cunhados no ambiente patriarcal. Com as leituras que elas me estimularam a fazer, percebi que “mulher” (e o mesmo acontece com “negro”) é uma heteromarcação que o homem branco inventou para etiquetar seres, fabricar diferenças e justificar tratamentos diferenciados, diversas formas de opressão e a objetificação/mercantilização desses corpos.
Ao compreender o que para a Marcia significa ser feminista, para além da ideia de que ser “mulher” é o resultado de um processo de construção, como já dizia Simone de Beauvoir, me dei conta de que não havia casado com uma mulher, mas com uma feminista. Ela nunca se conformou em ocupar o espaço historicamente reservado às mulheres. E isso me encantou. Não seria capaz de admirar uma pessoa que aceita posições subalternas ou finge acreditar em uma falsa igualdade que, em concreto, não existe. Graças a ela, abandonei visões essencialistas ou leituras simplistas e mistificadas sobre o gênero e o sexo.
Em casa, aprendi com Marcia sobre a política da escuta. As mulheres, pelo menos as que perceberam a necessidade de politizar a questão de gênero, ensinam que é preciso saber ouvir, em especial aquelas que normalmente são silenciadas. Correlato ao direito de falar, apreendi que há o poder-dever de ouvir. Ao levar o homem a descobrir que é impossível falar por ou como fala aquela que sente na pele a opressão (e o feminismo negro fala do local de quem sente dupla opressão – daí a importância da expressão “dororidade” cunhada por Vilma Piedade), o feminismo produz uma saudável ferida narcísica e ajuda a desconstruir o “eu idealizado”, culturalmente pensado no ocidente como “branco” e “heteronormativo”.
Com as feministas também se aprende que não há hierarquia de opressão. Mais do que isso. Aprende-se a importância da “interseccionalidade”, termo cunhado para dar conta de que as pessoas, e em especial as pessoas marcadas como “mulheres”, experimentam a opressão em diversas configurações e em diferentes graus de intensidade, por diversos motivos. O feminismo é (ou, pelo menos, deveria ser) radicalmente contra qualquer forma de opressão.
A partir da ético-poética feminista, que leva à preocupação com todas as formas de opressão enquanto quer construir um mundo melhor, passei a perceber o potencial altamente revolucionário daquilo que antes eu reduzia a uma mera luta por questões “das mulheres”. O feminismo está vocacionado a atingir a todos, todas e todes (na medida em que a sociedade necessita de um “feminismo em comum”, ou seja, capaz de modificar a sociedade, homens, mulheres e aqueles que se libertaram da necessidade de se identificar necessariamente como “mulher” e “homem”), e isso porque a tradição patriarcal efetivamente torna a todos piores, homens ou mulheres que pensam e agem no mundo da vida a partir da pré-compreensão e do repertório cultural cunhados no contexto patriarcal.
Pensamento autoritário vs feminismo
Nos últimos tempos, marcados pelo crescimento do pensamento conservador, entre homens e entre mulheres, o feminismo de Marcia e de suas companheiras me permitiu perceber com mais clareza o caráter funcional do machismo e a criação da mulher, em particular da “mulher empoderada”, como uma inimiga/concorrente a ser destruída. O machismo, como toda forma de preconceito e opressão, sempre cresce em momentos de ignorância, confusão e mistificação como este em que estamos lançados.
A necessidade de etiquetar “mulheres” como “incompetentes”, “burras”, “loucas” ou “histéricas”, para além da evidente funcionalidade política de conter tanto o surgimento de novas potências políticas quanto a construção de uma nova sociedade mais igual, também se explica pelo medo e a incapacidade de reflexão daqueles que se acostumaram a pensar através de estereótipos, chavões argumentativos e de fórmulas mágicas para todos os problemas da sociedade (o que, em certos casos, ajuda a explicar algumas soluções simplistas para os graves problemas de desigualdade e os discursos que colocam a culpa na vítima pelas agressões sexuais protagonizadas por homens)  e pelo ressentimento de mulheres que, lançadas na tradição patriarcal, internalizaram o ideal que lhes reserva o sistema de dominação: na melhor das hipótese, a condição de “bela, recatada e do lar”.
Também não pode ser desconsiderado o sentimento de “usurpação” daqueles que, cada vez mais impotentes, querem preservar o único “privilégio” que lhes resta: o de serem homens. Homens impotentes, ao longo da história, disfarçaram essa impotência, e o correlato medo do sujeito-político “mulher”, com a agressividade machista ou com a versão cínica dessa agressividade (o que chamam de “brincadeiras de homens”).
Ao olhar com mais atenção às agressões dirigidas contra as mulheres, e as direcionadas à Marcia em particular, ficou claro para mim que, enquanto a ideologia patriarcal persistir, quanto maiores forem as conquistas coletivas do movimento feminista e mais significativas as conquistas pessoais de cada mulher (e no caso das mulheres negras, isso fica ainda mais evidente), maior será o ódio direcionado a elas.
Ódio que parte tanto de homens quanto de mulheres (impressionante, para o olhar estrangeiro de um homem, que mulheres gastem mais tempo atacando outras mulheres do que preocupadas em superar o sistema de dominação construído pelo e para o homem branco que se identifica com os paradigmas europeus). Ódio que vem acompanhado de violência moral, de caráter sexista, que aparece exteriorizado em xingamentos que, em regra, se referem à sexualidade feminina. Como lembrou a poeta Alice Ruiz em recente entrevista, a mulher é normalmente chamada de “piranha”, “puta”, “histérica”, “vaca”, “vagamundo” e, não raro, sobra até para as respectivas mães. Xingamentos que dizem muito mais de quem os faz do que daquelas a quem essas agressões são dirigidas.
No campo acadêmico, não é muito diferente, a inveja, o ressentimento e o sentimento de ter sido “usurpado” de uma posição de poder faz com que mulheres intelectuais tenham que conviver com ataques que buscam desqualifica-las e às suas pesquisas. Mulheres brilhantes, durante toda a história do pensamento, foram desqualificadas como “burras”, “loucas” ou “despreparadas”, quando não silenciadas ou invisibilizadas.
No caso da Márcia e da Djamila Ribeiro, para citar apenas duas mulheres que assumiram a posição de intelectuais públicas (outro conceito mal compreendido em um Brasil que glorifica a ignorância), alguns ataques poderiam ser cômicos, se não fossem o trágico retrato de um país que não valoriza o conhecimento e as mulheres: pessoas com produção acadêmica insignificante ou que são incapazes de entender textos, deslocamentos de sentido e falas mais complexas ou sensíveis sentem-se autorizados a tentar desqualificar a obra e as posturas públicas das duas; posturas, vale dizer, sempre comprometidas com a construção de uma sociedade mais justa. Mas, não é só. Mulheres que atuam como intelectuais e procuram o diálogo com a sociedade são atacadas também por outros intelectuais movidos pelo ódio que esconde a inveja, a impotência e o medo de falar para além dos limites da academia.
Por evidente, meu local de fala (outro conceito fundamental da epistemologia feminista) não me permite ir além de expor o que apreendi e o estranhamento que ainda sinto diante de conceitos e categorias que, por não serem adequadamente compreendidos, ainda são demonizados. Nunca senti, e nem vou sentir, a dor (“e a nem sempre delícia”, diria a Vilma Piedade a partir da letra de Caetano Veloso) de ser marcada como mulher, uma dor que homens e até muitas mulheres preferem fingir que não existe. Mas, por experiência própria, posso afirmar que é possível aprender com as pessoas que produzem conhecimento e práticas a partir dessa dor e que mostram, todos os dias, da luta contra a desigualdade doméstica à luta pela redução da violência de gênero, que vale a pena lutar.

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/casei-com-uma-feminista/#.WzE_zkkU36w.facebook

sábado, 7 de julho de 2018

MEMÓRIA



Registros de um país em conflito

Mostra no IMS Paulista reúne centenas de imagens da violência que caracteriza a sociedade brasileira
Residência afetada por bombardeio. Vila Mariana, São Paulo, 1924. Foto: Coleção Mons. Jamil Nassif Abib

BRASIL VENDE A EMBRAER


TEMER LIBERA VENDA DA EMBRAER, QUE SERÁ 80% DA BOEING




247 – Em mais um capítulo do golpe de 2016, a Embraer, maior empresa nacional de tecnologia, é entregue à Boeing. O governo brasileiro, que tem uma ação com direitos especiais, não impediu a venda da empresa e a Boeing agora terá 80% da nova companhia. Rejeitado por 98% dos brasileiros, Temer vai entregando todas as riquezas nacionais. Abaixo, reportagem da Reuters:
SÃO PAULO (Reuters) - A Embraer assinou memorando de entendimento com a Boeing para formação de joint venture contemplando os negócios e serviços de aviação comercial da fabricante brasileira, informaram as companhias na manhã desta quinta-feira.
Pelos termos do acordo não vinculante, a Boeing deterá 80 por cento da companhia resultante da transação, enquanto a Embraer ficará com os 20 por cento restantes, de acordo com o comunicado.
A transação avalia a totalidade das operações de aviação comercial da Embraer em 4,75 bilhões de dólares, com a Boeing desembolsando 3,8 bilhões de dólares pelos 80 por cento de participação no negócio, disseram as companhias.
Em documento enviado separadamente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a fabricante brasileira ressalta que as divisões de defesa & segurança e jatos executivos, dentre outras, não serão segregadas para nova sociedade e seguirão sendo desenvolvidas pela Embraer.
Além disso, as ações da Embraer continuarão listadas na bolsa paulista B3 e a União manterá os direitos decorrentes das golden shares na companhia.
A finalização dos detalhes financeiros e operacionais da parceria estratégica e a negociação dos acordos definitivos devem prosseguir nos próximos meses, mas a expectativa é que a transação seja fechada até o fim de 2019, caso as aprovações regulatórias e de acionistas ocorram no tempo previsto, disseram as empresas.
O comunicado conjunto ainda destaca que a operação não terá impacto nas projeções financeiras de Boeing e Embraer para 2018 nem no compromisso do grupo norte-americano de retornar cerca de 100 por cento do fluxo de caixa livre aos acionistas.
A parceria deve ser contabilizada nos resultados da Boeing por ação, no início de 2020, gerando sinergia anual de custos estimada em cerca de 150 milhões de dólares -antes de impostos- até o terceiro ano.
"Esta importante parceria está claramente alinhada à estratégia de longo prazo da Boeing de investir em crescimento orgânico e retorno de valor aos acionistas, complementada por acordos estratégicos que aprimoram e aceleram nossos planos de crescimento", disse Dennis Muilenburg, presidente da Boeing, no comunicado.
O acordo ainda prevê a criação de outra joint venture para promoção e desenvolvimento de novos mercados e aplicações para produtos e serviços de defesa, em especial o avião multimissão KC-390.

Veja mais em: https://g1.globo.com/economia/noticia/boieng-e-embraer-fecham-acordo-para-formar-joint-venture.ghtml
https://exame.abril.com.br/mercados/boeing-e-embraer-juntas-e-tudo-para-ler-antes-de-a-bolsa-abrir/
https://www.reuters.com/video/2018/07/05/boeing-to-buy-control-of-embraers-commer?videoId=442421652

Fonte: https://www.brasil247.com/pt/247/economia/360713/Confirmado-Temer-libera-venda-da-Embraer-que-ser%C3%A1-80-da-Boeing.htm