Planeta precisa de 1,2 trilhão de novas árvores para conter o aquecimento, diz estudo
Edison VeigaDe Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
OUGLAS DALYImage captionO plantio massivo de árvores é uma das alternativas para conter o aquecimento global, segundo estudo publicado na revista Science
Além de preservar as florestas que já existem, a melhor solução para reduzir drasticamente o excesso de dióxido de carbono na atmosfera e conter o aquecimento global é plantar árvores. Em todos os espaços possíveis do planeta que não são ocupados nem por zonas urbanas, nem destinados a agropecuária.
Isso significaria plantar 1,2 trilhão de novas mudas, um número quatro vezes maior do que a totalidade de árvores que vivem na floresta amazônica. Calcula-se que existam no planeta hoje cerca de 3 trilhões de árvores.
O plantio massivo de árvores em locais subutilizados é o principal ponto defendido por estudo que sai na edição desta sexta-feira (5/7) da revista Science. "Seguramente podemos afirmar que o reflorestamento é a solução mais poderosa se quisermos alcançar o limite de 1,5 grau [de aquecimento global]", afirma à BBC News Brasil o cientista britânico e ecólogo Thomas Crowther, professor do departamento de Ciências do Meio Ambiente do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e um dos autores do trabalho acadêmico.
O limite a que ele se refere é a preocupação central do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas, cujo relatório foi lançado ano passado: limitar o aumento do aquecimento global em 1,5 grau Celsius até 2050.
Para conseguir tal meta, Crowther defende uma campanha global - envolvendo governos, organizações e pessoas físicas. Afinal, o plantio deveria ocorrer em todos os espaços relativamente ociosos, independentemente de quem seja o dono do local. "São regiões degradadas em todo o mundo, onde humanos removeram as florestas e hoje são áreas que não estão sendo usadas para outros fins", comenta ele. "No entanto, não sabemos sobre a propriedade da terra de todas essas regiões. Identificar como incentivar as pessoas a restaurar esses ecossistemas é a chave para o reflorestamento global."
Este é o primeiro estudo já realizado que demonstra quantas árvores adicionais o planeta pode suportar, onde elas poderiam ser plantadas e quanto de carbono elas conseguiriam absorver. Se todo esse reflorestamento for feito, os níveis de carbono na atmosfera poderiam cair em 25% - ou seja, retornar a padrões do início do século 20.
Desde o início da atividade industrial, a humanidade produziu um excedente de carbono na atmosfera de 300 bilhões de toneladas de carbono. De acordo com os pesquisadores, caso esse montante de árvores seja plantado, quando atingirem a maturidade conseguirão absorver 205 bilhões de toneladas de carbono. "Os 300 bilhões de toneladas extra de carbono na atmosfera existentes hoje são devidos à atividade humana", diz o cientista. "O reflorestamento reduziria dois terços disso. Contudo, há um total de 800 bilhões de toneladas carbono na atmosfera, 500 bilhões das quais naturais."
80 mil fotos de satélite
WFU/ACERSImage captionDesmatamento da Amazônia no Peru
Para realizar o estudo, o grupo de pesquisadores utilizou um conjunto de dados global de observações de florestas e o software de mapeamento do Google Earth Engine. Foram analisadas todas as coberturas de árvores em áreas florestais da terra, de florestas equatoriais até a tundra do Ártico. No total, 80 mil fotografias de satélite de alta resolução passaram pelo crivo dos cientistas. Com as imagens, a cobertura natural de cada ecossistema pôde ser somada.
Por meio de inteligência artificial, dez variáveis de solo e clima ajudaram a determinar o potencial de arborização de cada ecossistema, considerando as condições ambientais atuais e priorizando áreas com atividade humana mínima. Por fim, modelos climáticos que projetam as mudanças do planeta até 2050 foram implementados no software, para que o resultado fosse o mais próximo do real.
Atualmente existem 5,5 bilhões de hectares de floresta no planeta - segundo a definição da ONU, ou seja, terras com pelo menos 10% de cobertura arbórea e sem atividade humana. Isso significa 2,8 bilhões de hectares com cobertura de dossel de árvores.
O estudo concluiu que há ainda um total de 1,8 bilhão de hectares de terra no planeta em áreas com baixíssima atividade humana que poderiam ser transformadas em florestas. Nesse espaço, poderiam ser plantadas 1,2 trilhão de mudas. "À medida que essas árvores amadurecem e aumentam, o número de espécimes cai. Quando chegamos às florestas maduras, as árvores realmente enormes armazenam maior quantidade de carbono e suportam grande quantidade de biodiversidade", completa Crowther. Isso renderia 900 milhões de hectares de copas de árvores a mais - uma área do tamanho dos Estados Unidos.
As medidas são urgentes. "Todos nós sabíamos que a restauração de florestas poderia contribuiu para o clima, mas não tínhamos ainda conhecimento científico para mensurar o impacto disso. Nosso estudo mostra claramente que o reflorestamento é a melhor solução, com provas concretas que justificam o investimento", afirma o britânico. "Se agirmos agora. Pois serão necessárias décadas para que novas florestas amadureçam e alcancem seu potencial. Ao mesmo tempo, é vital que protejamos as florestas que existem hoje e busquemos outras soluções climáticas a fim de reduzir as perigosas alterações climáticas."
"Nosso estudo fornece uma referência para um plano de ação global, mostrando onde novas florestas podem ser restauradas. A ação é urgente. Os governos devem incorporar agora isso em suas estratégias para combater as alterações climáticas", adverte o geógrafo e ecólogo Jean-François Bastin.
A pedido da reportagem, Bastin estimou quanto tempo seria necessário para que esse reflorestamento maciço começasse a implicar no freio ao aquecimento global: 18 anos. "Então, isso de fato ajudaria a retardar o problema, mas o mesmo tempo precisamos mudar consideravelmente nosso jeito de viver no planeta a fim de conseguir neutralizar nossas emissões de carbono", acrescenta ele.
Direito de imagemMARIANA VEIGAImage captionHoje, existem 5,5 bilhões de hectares de floresta no planeta, como a de Krasnoyask, na Sibéria, Rússia
Segundo os pesquisadores, mais da metade do potencial terrestre de reflorestamento está concentrada em seis países, nesta ordem: Rússia, com 151 milhões de hectares disponíveis; Estados Unidos (103 milhões); Canadá (78 milhões); Austrália (58 milhões), Brasil (50 milhões) e China (40 milhões).
O trabalho também mostrou o impacto que as mudanças climáticas devem ter na configuração das florestas existentes. Com o aquecimento global, é provável que haja um aumento na área de florestas boreais em regiões como a Sibéria. Contudo, a média de cobertura de árvores nesse tipo de ecossistema é de apenas 30% a 40%. No caso de florestas tropicais, que normalmente têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores.
Repercussão
O estudo foi bem-recebido por especialistas ambientais que tiveram acesso prévio ao material. "Finalmente, uma avaliação precisa do quanto de terra podemos e devemos cobrir com árvores, sem interferir na produção de alimentos ou espaços de habitação humana", pontua a diplomata Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção do Clima da ONU. "É um modelo para governos e para o setor privado."
"Agora temos evidências definitivas da áreas de terra potencial para o reflorestamento, onde elas poderiam existir e quanto carbono poderiam armazenar", avalia o engenheiro civil René Castro, especialista em desenvolvimento sustentável e diretor-geral do Departamento de Clima, Biodiversidade, Terra e Água da FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.
"As florestas são um dos nossos maiores aliados no combate às mudanças climáticas, com resultados mensuráveis. O desmatamento não apenas contribui para uma perda alarmante da biodiversidade, mas limita nossa capacidade de armazenar carbono", completa ele.
DOUGLAS DALYImage captionNo caso das florestas tropicais, como a Amazônia, que têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores
O ambientalista Will Baldwin-Cantello, conselheiro-chefe para florestas da organização WWF (World Wide Fund for Nature), enfatiza o papel das florestas "contra a mudança climática". "Sem elas, perderemos a luta para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau", diz. "Por isso é crucial atuarmos para restaurar as florestas enquanto reduzimos drasticamente as emissões globais de carbono."
Para ele, "o desafio é entender como podemos acelerar essa implementação", que requer "níveis sem precedentes de cooperação em níveis global e local".
"Só falta vontade política de lutar pelo nosso mundo", conclui.
Plante você mesmo
Crowther enfatiza que todos podem contribuir para esse processo. "Embora ações de governos sejam essenciais para aproveitar ao máximo a oportunidade, estamos diante de uma solução climática na qual todos podemos nos envolver e causar um impacto tangível", defende. "Você pode cultivar árvores, doar para organizações de reflorestamento ou ao menos investir seu dinheiro com responsabilidade em empresas que tomam medidas quanto à mudança climática."
No site Crowther Lab, há uma ferramenta que permite que o usuário olhe para qualquer ponto da Terra e identifique áreas passíveis de reflorestamento.
"Defendemos que qualquer um pode se envolver. Mas, para fazer isso de maneira correta, é preciso entender as condições do solo e os tipos de árvores que podem existir em cada região", comenta o cientista. "Por isso, desenvolvemos uma ferramenta de mapeamento, disponível em nosso site, onde qualquer pessoa pode ampliar sua área e se informar sobre que tipos de árvores plantar e quanto carbono elas podem capturar. Tais informações ecológicas são fundamentais. Vamos fazer o reflorestamento global de forma eficaz."
O Crowther Lab também traz listas de organizações comprometidas com o reflorestamento e apoia a criação de uma coalização global para tornar os esforços mais eficientes.
3 Estudos recentes mostram que a atividade solar é o potente motor real do Clima!**
Sempre foi dito pelo aquecimentistas que os ciclos de atividade solar, em sua maior parte, podem ser ignorados, que secundo eles a atividade solar é neutra com o clima terrestre e dos outros planetas. Não tem um impacto. Portanto, torna-se quase engraçado quando – a cada mês – um novo estudo científico publicado diz exatamente o oposto.
Um exemplo remonta a novembro de 2016, quando o site ” Letters Geophysical Research ” ( Geophysical Research Letters) publicou um estudo realizado por Adrián Martínez-Asensio et al sobre o impacto da atividade solar sobre o nível do mar. Os cientistas têm documentado que o limite do nível da água no outono em Veneza e Trieste é, de fato, controlada pelo ciclo solar (que tem um período de +/- 11 anos). No inverno, o impacto do sol pode ser visto em outras cidades costeiras, como Marselha, Ceuta (resort espanhol), Brest e Newlyn no Reino Unido.
Aqui está o fascinante resumo do artigo:
Decadal variabilidade dos limites europeus no nível do mar relacionadas com atividade solar . Este estudo investiga a relação entre as mudanças decadal na atividade solar e os limites ao longo da costa europeia do nível do mar e derivados a partir de dados que avaliam as marés. O nível do mar em Veneza no outono varia com o undecenal ciclo solar, como sugerido por estudos anteriores, mas uma ligação semelhante também foi encontrado em Trieste (sempre na Italia). Além disso, também tem sido encontrado a influência solar de inverno sobre os limites do nível do mar em Veneza, Trieste, Ceuta, Brest e Newlyn. A influência do ciclo solar é também evidente nos limites do nível do mar derivado do modelo barométrico, com padrões consistentes com as correlações espaciais obtidos a partir de medições das marés. Este acordo indica que o link para o ciclo solar passa através da modulação das forças atmosféricas. O único padrão que mostrou variabilidade atmosférica regional, coincidindo com o período undecadal foi o padrão Atlântico Médio.
Outro exemplo remonta a março de 2016. Jordahna Ellan-Ann Haig e Jonathan Nott reconstruiu a história do ciclone tropical ao longo dos últimos 1500 anos na Australia. Aqui, eles descobriram que a variabilidade observada foi controlada principalmente para a atividade solar, ao longo das décadas e séculos. Haig e Nott esperam que a previsão das futuras tempestades tropicais podem beneficiar-se do importante fator solar encontrado.
Segue o resumo do trabalho:
A força solar ao longo dos últimos 1500 anos e a atividade do ciclone tropical australiano . Previsões sazonais precisos da atividade dos ciclones tropicais são críticos para o desenvolvimento de estratégias de migração dos 2,7 bilhões de habitantes, que vivem nas regiões próximas ao ciclone. Indicadores tradicionais (o índice de Oscilação Sul e os vários índices de temperaturas de superfície) falharam nos últimos anos como preditores na região da Austrália . A duração limitada destas gravações (menos de 50 anos) dizem-nos que a nossa atual compreensão dos fatores-chave em larga escala – período inter decenal, seculares e milenares – é limitada. O desenvolvimento de um novo índice de atividade no ciclone tropical que cobre os últimos 1500 anos tem permitido o exame da climatologia de ciclones tropicais em escalas de tempo na resolução mais alta do que era possível anteriormente. Aqui, mostra-se que, em adição aos índices climatéricos bem conhecidos, que a influência solar dirige amplamente os ciclos decenais, multi decenais e centenários dentro dos dados gravados sobre os ciclones tropicais .
Finalmente, existe um exemplo recente – notável – da América do Sul. Andrés Antico e Maria Tores examinaram a taxa de saída da água do Rio Amazônia nos últimos 100 anos, em um artigo publicado em 2015. Eles descobriram que o desenvolvimento segue de muito perto a variação solar.
Segue-se o ‘ resumo :
Evidência de um fator solar de dez anos na Amazônia: 1903-2013 . E ‘foi mostrado que os climas tropicais podem ser particularmente influenciados pelo ciclo solar de dez anos; Em qualquer caso, a relação entre a influência solar e o Rio da Amazônia tropical tem sido negligenciado nas pesquisas anteriores. Neste estudo, nós trazemos provas dessa ligação, analisando os dados (1902-2013), relacionados com a carga do volume do rio Amazônia . Identificamos um fluxo de ciclo de dez anos que está relacionado inversamente com a atividade solar, tal como medido pelo ciclo de manchas de dez anos. Esta relação persiste ao longo do tempo e parece ser o resultado da influência do sol no Oceano Atlântico tropical. A largura do fator solar de dez anos sobre o fluxo aparece modulada pela variabilidade do índice inter decenal do Atlântico Norte. Uma vez que o Rio Amazônia é um elemento importante do ciclo da água do planeta, os nossos resultados têm implicações para estudos em escala global.
Mais informações: https://sandcarioca.wordpress.com/2017/02/21/aumentam-as-chances-de-uma-nova-idade-do-gelo/
Fonte:https://sandcarioca.wordpress.com/2017/02/16/3-estudos-recentes-mostram-que-a-atividade-solar-e-o-potente-motor-real-do-clima/
Colaboração: Luiz Hedel
*Título editado
** Tradução da fonte
Alguns dos signatários da Declaração de Mainau 2015 sobre Mudanças Climáticas. Foto: Ch. Flemming / Lindau Nobel Laureate Meetings
Aquecimento é comparado a ameaça nuclear
Em encontro anual na Alemanha, ganhadores de prêmios Nobel em ciência pedem acordo decisivo na conferência de Paris e esforço conjunto para evitar ‘tragédia humana por atacado’ CÍNTYA FEITOSA (OC) 07/07/2015*
Quase 40 vencedores de prêmios Nobel recomendam que os governos ajam imediatamente para reduzir emissões de gases de efeito estufa e minimizar os riscos das mudanças climáticas. Os cientistas, participantes da reunião anual de laureados com o Nobel em Mainau, na Alemanha, compararam os riscos das mudanças no clima à ameaça das armas nucleares. “Há quase 60 anos, aqui em Mainau, uma reunião semelhante de laureados com o Nobel de ciência lançou uma declaração sobre os perigos inerentes à então recém-desenvolvida tecnologia das armas nucleares. Até agora, temos evitado a guerra nuclear, embora a ameaça seja permanente. Acreditamos que nosso mundo hoje enfrenta outra ameaça de magnitude comparável”, diz a declaração, assinada por 36 dos 65 participantes do encontro.
O documento ressalta a importância de os governos agirem imediatamente e firmar um acordo decisivo em Paris, em dezembro deste ano, com o esforço conjunto de todas as nações, desenvolvidas ou em desenvolvimento. “A omissão sujeitará as futuras gerações da humanidade ao risco inconcebível e inaceitável”, diz o texto. A declaração cita a responsabilidade dos cientistas quanto à questão, uma vez que o progresso da ciência também gerou aumento do consumo de recursos naturais. “Se não for controlada, a demanda crescente por alimentos, água e energia acabará por superar a capacidade da Terra para satisfazer as necessidades da humanidade, e vai levar a tragédia humana por atacado.”
Os cientistas também alertaram para a necessidade de ação urgente em relação às populações mais vulneráveis a eventos extremos, em especial países e comunidades pobres do planeta. David Gross, Nobel de Física em 2004, um dos porta-vozes da declaração, relatou sua recente experiência em Ladakh, na Ásia. “São comunidades frágeis, muito dependentes dos rios que brotam das geleiras do Himalaia, e eles são os que sofrem em primeiro lugar.” O físico também aponta o risco de conflitos motivados pelos eventos extremos e escassez de recursos.
A declaração reafirma a importância das conclusões do IPCC, embora ainda aja incerteza entre alguns cientistas sobre as consequências das mudanças no clima. “Apesar de não ser perfeito, acreditamos que os esforços que levaram ao relatório representam a melhor fonte de informações sobre o estado atual do conhecimento sobre as mudanças climáticas”, diz a declaração. “Nós não falamos como especialistas na área, mas como um grupo diverso de cientistas que têm um profundo respeito e compreensão da integridade do processo científico.”
Sobre as dúvidas acerca da ciência do clima, o Nobel de medicina Peter Doherty separa ceticismo de negação. “Se você é cético, conversa com outros pesquisadores, olha para os dados. Se está em negação, simplesmente rejeita tudo o que é publicado.” Em uma crítica aos céticos do clima nos Estados Unidos, em especial aos políticos que advogam contra a causa no país, Steven Chu, Nobel de Física e ex-secretário de Energia dos EUA, argumenta que os satélites mostram claramente a diminuição das geleiras em todo o mundo. “Mas há pessoas no Congresso que não querem olhar para imagens de satélite. Isso é o que eu chamo de negação.”