Dois médicos norte-americanos avaliam o sistema de saúde de Cuba
Um Modelo Diferente – Atenção Médica em Cuba
Edward W. Campion, M.D., and Stephen Morrissey, Ph.D.
The New England Journal of Medicine, January 24, 2013
Para um visitante dos Estados Unidos, Cuba desorienta. Automóveis
norte-americanos estão em todo lugar, mas todos datam dos anos 50.
Nossos cartões bancários, cartões de crédito e telefones inteligentes
não funcionam. O acesso à internet é praticamente inexistente. E o
sistema de saúde também parece irreal. Há médicos demais.
Todo mundo tem um médico da família. Tudo é de graça, totalmente de
graça — e não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento.
Todo o sistema parece de cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a
prioridade absoluta é a prevenção. Embora Cuba tenha recursos
econômicos limitados, seu sistema de saúde resolveu alguns problemas que
o nosso [dos Estados Unidos] ainda nem enfrentou.
Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de
saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços
preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por
médico em áreas urbanas.
Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus
profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados
médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com
os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é
surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população.
Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco
de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco
II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na
categoria III.
As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre
quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de
pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não),
diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último
teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal.
Todo paciente é visitado em casa uma vez por ano e aqueles com
doenças crônicas recebem visitas mais frequentes. Quando necessário, os
pacientes podem ser direcionados a policlínicas distritais para
avaliação de especialistas, mas eles retornam para as equipes
comunitárias para acompanhamento. Por exemplo, a equipe local é
responsável por garantir que o paciente com tuberculose siga as
recomendações sobre o regime antimicrobial e que faça os exames.
Visitas em casa e conversas com familiares são táticas comuns para
fazer com que os pacientes sigam as recomendações médicas, não abandonem
o tratamento e mesmo para evitar gravidez indesejada. Numa tentativa de
evitar infecções como a dengue, a equipe de saúde local visita as casas
para fazer inspeções e ensinar as pessoas sobre como se livrar da água
parada.
Este sistema altamente estruturado, orientado para a prevenção,
produziu resultados positivos. As taxas de vacinação de Cuba estão entre
as mais altas do mundo.
A expectativa de vida de 78 anos de idade é virtualmente idêntica à
dos Estados Unidos. A taxa de mortalidade infantil em Cuba caiu de 80
por mil nos anos 50 para menos de 5 por mil — menor que nos Estados
Unidos, embora a taxa de mortalidade materna esteja bem acima daquela
dos países desenvolvidos e na média para os países do Caribe.
Sem dúvida, os resultados são consequência de melhorias em nutrição e
educação, determinantes sociais básicos para a saúde pública. A taxa de
alfabetização de Cuba é de 99% e o ensino sobre saúde é parte do
currículo obrigatório das escolas. Um recente programa nacional para
promover a aceitação de homens que fazem sexo com homens foi desenhado
para reduzir as taxas de doenças sexualmente transmissíveis e aumentar a
aceitação e adesão aos tratamentos.
Os cigarros já não são oferecidos na cesta básica mensal e o número
de fumantes decresceu, embora as equipes médicas locais digam que
continua difícil convencer fumantes a deixar o vício. Os contraceptivos
são gratuitos e fortemente encorajados. O aborto é legal, mas
considerado um fracasso do trabalho de prevenção.
Não se deve romantizar o sistema de saúde cubano. O sistema não é
desenhado para escolha do consumidor ou iniciativas individuais. Não
existe sistema de saúde privado pago como alternativa. Os médicos
recebem benefícios do governo como moradia e alimentação, mas o salário é
de apenas 20 dólares por mês. A educação é gratuita e eles são
respeitados, mas é improvável que obtenham riqueza pessoal.
Cuba é um país em que 80% dos cidadãos trabalham para o governo e o
governo é quem gerencia orçamentos. Nas clínicas de saúde comunitárias,
placas informam aos pacientes quanto o sistema custa ao Estado, mas não
há forças de mercado para promover eficiência.
Os recursos são limitados, como descobrimos ao ter contato com
médicos e profissionais de saúde cubanos como parte de um grupo de
editores-visitantes dos Estados Unidos. Um nefrologista de Cienfuegos, a
240 quilômetros de Havana, tem uma lista de 77 pacientes em diálise na
província, o que em termos de população dá 40% da taxa dos Estados
Unidos — similar ao que era nos Estados Unidos em 1985.
Um neurologista nos informou que seu hospital só recebeu um CT
scanner doze anos atrás. Estudantes norte-americanos de universidades
médicas cubanas dizem que o trabalho nas salas de cirurgia é rápido e
eficiente, mas com pouca tecnologia. Acesso à informação via internet é
mínimo. Um estudante informou que tem 30 minutos por semana de acesso
discado.
Esta limitação, como muitas outras dificuldades de recursos que
afetam o progresso, é atribuída ao embargo econômico dos Estados Unidos
[imposto em 1960], mas podem existir outras forças no governo central
trabalhando contra a comunicação fácil e rápida entre cubanos e os
Estados Unidos.
Como resultado do estrito embargo econômico, Cuba desenvolveu sua
própria indústria farmacêutica e agora fabrica a maior parte das drogas
de sua farmacopeia básica, mas também alimenta uma indústria de
exportação. Recursos foram investidos no desenvolvimento de expertise em
biotecnologia, em busca de tornar Cuba competitiva no setor com os
países avançados.
Existem jornais médicos acadêmicos em todas as especialidades e a
liderança médica encoraja fortemente a pesquisa, a publicação e o
fortalecimento de relações com outros países latino-americanos. As
universidades médicas de Cuba, agora 22, continuam focadas em
atendimento primário, com medicina familiar exigida como primeira
residência de todos os formandos, embora Cuba já tenha hoje o dobro dos
médicos per capita que os Estados Unidos.
Muitos dos médicos cubanos trabalham fora do país, como voluntários
num programa de dois anos ou mais, pelo qual recebem compensação
especial. Em 2008, havia 37 mil profissionais de saúde cubanos
trabalhando em 70 paises do mundo. A maioria trabalha em áreas carentes,
como parte da ajuda externa de Cuba, mas alguns estão em áreas mais
desenvolvidas e seu trabalho traz benefício financeiro para o governo
cubano (por exemplo, subsídios de petróleo da Venezuela).
Todo visitante pode ver que Cuba continua distante de ser um país
desenvolvido em infraestrutura básica, como estradas, moradias e
saneamento. Ainda assim, os cubanos começam a enfrentar os mesmos
problemas de saúde de países desenvolvidos, com taxas crescentes de
doenças coronárias, obesidade e uma população que envelhece (11,7% dos
cubanos tem 65 anos de idade ou mais).
O seu incomum sistema de saúde enfrenta estes problemas com
estratégias que evoluiram da peculiar história política e econômica de
Cuba, um sistema que — com médicos para todos, foco em prevenção e
atenção à saúde comunitária — pode informar progresso também para outros
países.
publicado em 30 de junho de 2013 às 23:31 em http://www.viomundo.com.br/politica/dois-medicos-norte-americanos-avaliam-o-sistema-de-saude-de-cuba.html