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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

CASA ECOLÓGICA*



 Projeto não usa tijolos ou concreto na construção


Créditos: Divulgação
Casa ecológica: projeto de passo-fundense não usa tijolos ou concreto na construção
Caixinhas de leite, garrafas de vidro, postes de luz e arame farpado, materiais diferentes mas que na maioria das vezes tem o mesmo destino, o lixo. Mas o que muita gente ainda desconhece, é que esses produtos juntos podem fazer toda a diferença, como construir uma casa. Essa foi a ideia do corretor de imóveis de Passo Fundo, Alexandre Zaffari, ele e a esposa, Analice Zaffari, resolveram que fariam uma casa ecológica, partindo de materiais recicláveis.

A ideia assustou arquitetos e engenheiros do município, que não quiseram assinar o projeto, mas isso não foi empecilho para o casal. A obra durou dois anos e meio, esse foi o tema do programa Ecologia do último sábado, que contou com a participação do idealizador do projeto. A casa com 200 metros quadrados, não tem tijolos, nem pilares, ou concreto, é feita em cima de uma base de 500 pneus. Nas paredes uma técnica chamada Superadobe, com sacos de ráfia cheios de terra e arame farpado para firmar. Os pilares são de postes de luz e o teto com madeira de demolição, caixas de leite e isopor.

A casa também tem detalhes com garrafas de vidro, granito reaproveitado, parquet e retalhos de vidro. A ideia sustentável não para por aí, até a água do esgoto é reutilizada como adubo em uma bananeira, e a água da torneira é aquecida e transformada em energia solar. De acordo com Alexandre, a ideia veio de viagens que ele fez por 17 países, além do desejo de reaproveitar coisas que iriam parar no lixo. Ele explica que a casa ecológica custou três vezes menos do que uma casa normal, e os materiais foram sendo utilizados conforme apareciam.

Dentro da casa, móveis também feitos de materiais sustentáveis, como troncos de árvore e um closet feito de bambus. O sítio, localizado nos fundos da vila Carmem, em Passo Fundo, fica há quatro quilômetros do centro. Segundo Alexandre, durante a obra surgiram muitas dificuldades, como o fato dos amigos e conhecidos não acreditarem na ideia, e também a falta de mão de obra, que atrasou a conclusão da residência. Ele ainda ressalta que indica a ideia para quem quiser se arriscar, mas alerta que o processo pode ser demorado, e por isso é necessário ter persistência.

Imagens Relacionadas

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* Título editado

Fonte: http://www.rduirapuru.com.br/cidade/34551/casa+ecologica+projeto+de+passo-fundense+nao+usa+tijolos+ou+concreto+na+construcao

quarta-feira, 24 de julho de 2013

BIOCONSTRUÇÃO/SUPERADOBE





O “redescobrimento” da Arquitetura de Terra



“A terra vira ouro nas mãos do sábio.” 

Rumi, filósofo e poeta persa


Apesar da estigmatização e rotulação ainda existentes, especialmente no que se refere à questão da fragilidade, as técnicas arquitetônicas em terra crua ainda são bastante utilizadas no mundo. Segundo as Nações Unidas, 60% da população mundial ainda vive em construções feitas em terra.






 O uso da terra como matéria prima para construções remonta há mais de 10 mil anos. Os registros mais antigos do domínio de tal técnica, chamada de Arquitetura de Terra, foram encontrados na África e no Oriente Médio. As civilizações do Crescente Fértil se utilizaram dela para construções populares e também para as mais nobres.
Para se ter uma idéia de sua importância na arquitetura humana, 57% da "Lista do Patrimônio Cultural em Perigo" do World Heritage Center consiste em sítios de arquitetura de terra, 10% da "Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade" é constituído por monumentos de terra; e, 16 dos monumentos mundiais incluídos na "Lista dos 100 Monumentos em Perigo" do World Monument Watch estão construídos com terra.
Entre os séculos XV e XVIII, os colonizadores se utilizaram da técnica para construir suas cidades na Europa e nos territórios conquistados. A utilização da terra crua como elemento construtivo chegou ao Novo Mundo com o processo de colonização, tendo sido introduzidas não só as técnicas do adobe ou adobito, como também a taipa de pilão e pau a pique. Contudo, parece evidente que alguns nativos americanos, e os africanos, que aqui chegaram como escravos, dominavam as técnicas.


             Com a revolução industrial, foram introduzidos processos cujas tecnologias transformavam matéria prima em manufaturados, materiais ainda hoje largamente utilizados, em detrimento do que foi considerado “artesanal” ou “primitivo”. Ocorre que tais produtos, desenvolvidos nos “ditos” países de primeiro mundo nem sempre se adéquam à realidade do chamado terceiro mundo, cujas características naturais, ainda hoje, raramente são levadas em consideração com a profundidade necessária, tampouco estudadas cientificamente.

             Apesar das suas inúmeras vantagens e requisitos simplíssimos, o valor e a extensão da arquitetura de terra têm sido sistematicamente desconhecidos, ignorados e ocultados por quase todas as disciplinas ligadas às Artes e a Arquitetura que durante muito tempo não se interessaram, em escala mundial, em integrá-la em seus sistemas de transmissão de conhecimento.

O superadobe


Construção barata e sustentável, bem debaixo dos nossos pés 

Embora constituído de madeiras muito densas, o peso do
madeiramento está muito aquém da capacidade estrutural
das paredes. Na foto, a mímica do construtor ilustra a solidez
e a força para a fantasia atenta de seu curioso interlocutor.

                A técnica da terra ensacada, também chamada por "superadobe", (termo cunhado em inglês a partir de outro emprestado do castellano, adobe, que representa o bloco composto com barro e fibras vegetais), é um processo construtivo, no qual sacos de polipropileno ou ráfia são preenchidos com solo e moldados no próprio local através do apiloamento do mesmo por processo artesanal ou semi-industrial, através de pistões. As pesquisas apontam que a técnica foi criada pelo iraniano Nader Khalili no final do anos 70, tendo como base sacos de areia e arame farpado, mas a terra utilizada pode ser a encontrada no local, argilosa ou arenosa.
       
   Em 1984, Nader Khalili apresentou o seu projecto para a NASA. Com o sugestivo título de “Bases lunares e atividades espaciais no século XXI”, para uma futura colonização lunar, mas ainda à espera de resposta.
               As grandes vantagens do superadobe são a rapidez na conclusão da construção; a grande resistência, suportando conturbações variadas; o conforto térmico e acústico; o custo baixo e a mão de obra capacitada rapidamente, além do que qualquer tipo de solo serve.



             A principal característica do "superadobe" é sua simplicidade e rapidez em relação ao adobe comum. Propicia um alto índice de isolamento e, quanto mais largas as paredes, maior o resultado térmico e ambiental.
                A preparação é simples e feita no próprio local, coloca-se o solo umedecido no sacos de polipropileno e em seguida já se coloca no local onde será a parede, onde é socado (com auxilio de um socador manual ou mecânico), formando fiadas de 20 cm de altura. Quando a parede estiver na altura desejada, retira-se os sacos de polipropileno das laterais, queimando-os. A queima do material é bem fácil e rápida.
                Como acabamento e para assegurar a durabilidade aconselha-se o emprego de rebocos elaborados a partir de argila, em conjunto com diversos outros materiais empregados na arquitetura vernacular, determinados pela disponibilidade no local, com o intuito de aumentar a coesão, impermeabilidade e resistência a fissuras. Dentre estes podem ser citados a baba (seiva) de cactus, o polvilho azedo, as cinzas de conchas calcinadas e os estrumes de herbívoros. Diversos materiais e proporções na mistura devem ser testados para garantir mais eficiência e adaptação às condições locais. Para aperfeiçoar os resultados estéticos pode-se aplicar uma tintura a base de cal e pigmentos naturais endêmicos.

No Brasil 

 

           Esta segunda fase de expansão e adoção da arquitetura de terra no Brasil parece ter surgido mesmo no início deste milênio. Muitas têm sido as iniciativas de Ecovilas em comunidades alternativas, inclusive algumas tendo sido premiadas por importantes instituições governamentais na área de desenvolvimento social. 

 

                No Brasil atualmente existem diversos centros ecológicos que ensinam, praticam e agregam práticas sustentáveis, dentre elas a bioconstrução. Os exemplos são muitos já. Mas há, também, as iniciativas individuais.
                Uma delas é a do casal paranaense Vitor Trombini e Paula Albert, que estão construindo uma casa de superadobe em meio a um bosque de Copaíbas, numa área rural do município de Tacuru, localizado no sul do Mato Grosso do Sul.





                 Vitor é professor, além de músico e artesão, e, agora bioconstrutor. Leciona a disciplina de Português na Escola Municipal Ubaldo Arandu Kwe-Mi, na aldeia Sassoró, uma pequena aldeia Guarani Caiuá incrustada em meio das fazendas de criação extensiva de gado da região. Paula é farmacêutica, adepta da medicina natural e alternativa, além de artesã.
                  Ambos viviam em Cascavel, cidade de médio porte do interior paranaense e foram viver na região que é a transição do clima subtropical para o clima de cerrado brasileiro. Amantes da natureza, resolveram construir uma casa simples, coberta com sape. A idéia inicial da casa simples transformou-se na “morada dos sonhos” como dizem, quando convidaram o arquiteto e urbanista, carpinteiro e marceneiro, Cesar Roberto Scheffler, amigo do casal e também defensor das bioconstruções, para auxiliar no projeto.

Com isso, a casa ganhou um mezanino, uma água furtada e uma mansarda, além de sacadas que dão para um lindo jardim que está sendo cultivado por Paula. O objetivo é estruturar um sítio de permacultura, para, na sequência, difundir os ideais de uma vida mais natural e próxima da terra através de cursos e visitas. A terra das paredes da casa que estão construindo é a parte mais emblemática da simbologia destes ideais.

                “Até a chegada do Cesar, nosso plano era uma construção simples, até porque iríamos construir sozinhos uma coisa que normalmente é feita em conjunto, por várias pessoas”, diz Vitor. “Mas tudo ganhou outras dimensões com os desenhos e as ideias arquitetônicas que ele nos trouxe”.


                  A mistura da técnica do super adobe com a carpintaria, a arte de transformar a madeira, as partes internas e as aberturas totalmente encaixadas e a estrutura do telhado aparente tem chamado a atenção de todos. O telhado ganhou uma cobertura de sape, outra prática quase que totalmente abandonada pelos próprios nativos da região nas edificações, e a construção contará ainda com outras abordagens ambientalmente sustentáveis e de grande apelo estético atualmente.

                 Um telhado verde, em construção, cobrirá a parte inferior oeste da residência, um ambiente perfeitamente adequado à construção e propício para apreciar o, em geral, belo por do sol no cerrado. A bela paisagem tem, em primeiro plano, parte do jardim com murinhos de pneus recolhidos no lixo da cidade de Iguatemi/MS e com as plantas e ervas medicinais que vem sendo cultivadas, com o objetivo de se tornarem uma referência neste sentido para visitações e cursos futuros.





















































Fotos: Paula Albert, Vitor Trombini e Cesar Roberto Scheffler
Fontes: