terça-feira, 9 de julho de 2019

REFLORESTAMENTO




Planeta precisa de 1,2 trilhão de novas árvores para conter o aquecimento, diz estudo

quinta-feira, 20 de junho de 2019

MEIO AMBIENTE




Derreteu, num dia, 40% da área superficial da Gronelândia


| Mundo





Em apenas um dia, 40 por cento da área superficial da Gronelândia derreteu, com uma perda recorde de 2 mil milhões de toneladas de gelo. Uma foto partilhada por um climatólogo tornou-se viral, ao expor o fenómeno abrupto de degelo.


A foto foi captada por Steffen Olsen, do Centro para o Oceano e o Gelo, do Instituto Meteorológico Dinamarquês, no dia 13 de junho.

O investigador deparou-se com uma imagem aterradora: grande parte do gelo tinha derretido e os cães de trenó estavam a caminhar sobre água. O manto de gelo tinha apenas 1,2 metros de espessura.
 
A imagem rapidamente se tornou viral. Ao partilhar a imagem no Twitter, Olsen alertou para a necessidade de uma "previsão mais apurada no Ártico" dado a existência destes "eventos extremos, neste caso a inundação pelo início abrupto do derretimento da superfície".
O Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos Estados Unidos revelou que mais de 40 por cento da área superficial da Gronelândia derreteu na passada quinta-feira – aproximadamente 712 mil quilómetros da superfície – o que representa uma perda de 2 mil milhões de toneladas de gelo. 

O ocorrido é altamente invulgar para o mês de junho, dado que a maioria do degelo se dá normalmente em julho. Tal pode indicar que, este ano, a Gronelândia obtenha novos recordes de gelo derretido. 

Jason Box, um climatólogo no Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia previu que 2019 seria "o maior ano de degelo para a Gronelândia". E relembrou que, este ano, já se verificou um degelo anormal em abril, o que significa que a época de degelo "está a acontecer três semanas mais cedo do que a média, e mais cedo do que o recorde de degelo do ano de 2012". 
Sequência de grandes épocas de degelo

Na quarta-feira, a meteorologia previu temperaturas invulgarmente elevadas em algumas zonas da Gronelândia: 17,3 graus. Impulsionadas pelo ar mais quente que se deslocava do sul, o aumento foi sentido na Gronelândia e no resto do Ártico.

As temperaturas no mês de maio subiram aproximadamente sete grausrelativamente à média calculada de entre 1981 e 2010. Por sua vez, levaram a um recuo do gelo, com a segunda menor extensão de gelo dos últimos 40 anos.

Períodos de degelo significativo não são tão invulgares – ocorreram em 2007, 2010 e 2012. O sucedido "é comparável a alguns picos que vimos em junho de 2012", disse Thomas Mote, investigador na Universidade da Geórgia, à CNN. Em 2012, aproximadamente 97 por cento da camada de gelo derreteu, a primeira vez na História.

"Temos assistido a uma sequência de grandes épocas de degelo, a começar em 2007, que seria inédito anteriormente. Não vimos nada assim antes do final dos anos 1990", acrescentou.

Tal significa que as épocas de degelos estão a tornar-se cada vez mais comuns, podendo contribuir para a subida do nível das águas. "A Gronelândia tem contribuído de forma crescente para a subida do nível do mar a nível global nas últimas duas décadas", disse Mote.

A nível local, o degelo acarreta também consequências, uma vez que a população local depende do gelo para caçar, pescar e circular. 



terça-feira, 18 de junho de 2019

CONHECIMENTO INDÍGENA




Primeiro Centro de Medicina Indígena é inaugurado em Manaus




Oferecer os conhecimentos do Bahsese, palavra que, na língua tukano, significa “benzimento”, a indígenas e não-indígenas que enfrentem problemas de saúde na região de Manaus. Esse é o objetivo do Barserikowi’i, o primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia, inaugurado na semana passada.

Idealizado por João Paulo Barreto, doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas e membro da etnia tukano, o centro será comandado inicialmente por Manoel Lima, da etnia tuyuka, e Ovídio Barreto, também da etnia Tukano. Os dois são Kumuã com décadas de experiência.
Os Kumuã são especialistas indígenas do Alto Rio Negro, que desde o nascimento recebem o poder de cura e de tratamento e passam por rigorosa formação da infância até a juventude. Segundo João Paulo, a ideia não é que os doentes abandonem os possíveis tratamentos alopatas da medicina ocidental, mas que tenham a possibilidade de alternativa.


Conforme ele falou à Agência Brasil, o tratamento é apoiado no Bahsese e nas plantas medicinais. “O modelo é acionado dentro de um elemento, que pode ser água, tabaco, cigarro ou urtiga, no qual o Kumu, ou benzedor, aciona os princípios curativos contidos nos vegetais. Quando ele faz isso, ele não está rezando, mas evocando esses princípios para curar doenças. Por isso, ele tem que dominar o conhecimento de animais e vegetais”, explicou.
Cada consulta no centro será feita mediante cobrança de R$10, e o valor do tratamento dependerá do diagnóstico. Eles podem levar dias, semanas ou até um ano. Além dos atendimentos médicos, o centro também será usado para a realização de cursos e oficinais, que vão da gastronomia à astrologia, além da venda de peças de artesanato de várias etnias.

Fonte: https://www.hypeness.com.br/2017/06/primeiro-centro-de-medicina-indigena-e-inaugurado-em-manaus/?utm_source=social&fbclid=IwAR1MMkbxPX6ee95E34stOY9HlmH0jJ4ap60ZZfM_qAQdVKD7it5NPKrRpU4


BRASIL E O MEIO AMBIENTE


Amazônia: garimpos jogam 'uma Brumadinho' a cada 20 meses no Tapajós

Foto: Carta Capital

Já faz alguns anos que a Amazônia passa por mais uma corrida do ouro, só que desta vez “moderna”, como dizem os locais pró-garimpo. Não pelas preocupações socioambientais crescentes, mas pelo uso de máquinas que substituem parte daquele formigueiro de gente que víamos no passado por um formigueiro mecanizado. São os chamados “PCs”, retroescavadeiras hidráulicas que avançam de forma insana e avassaladora abrindo crateras sobre a floresta.
O artigo é de Caetano Scannavino, Empreendedor social, morador da Amazônia e coordenador do Projeto Saúde e Alegria, publicado por CartaCapital, 05-06-2019.
No mais, os garimpos continuam como nos tempos do Velho Oeste, mercuriais e febris por ouro, com governos coniventes, leis próprias, sempre em nome do desenvolvimento como única alternativa para sobrevivência econômica, pouco importando se estão em áreas proibidas como terras indígenas (TIs) ou unidades de conservação (UCs).
Só no território Yanomami são mais de 10 mil garimpeiros cavando a floresta, assoreando rios, contaminando águas, corrompendo indígenas, chamando violência, prostituição, armas e drogas.
Já na bacia do Tapajós, vindos dos garimpos ilegais dentro das Flonas (Florestas Nacionais) e Terras Munduruku, são despejados por ano mais de 7 milhões de toneladas de sedimentos – o equivalente a um Brumadinho a cada 20 meses.
O mercúrio é um desses rejeitos. Ele é metilado no fundo dos rios, quando então pode ser dissolvido nas células dos peixes que vão alimentar as pessoas. Segundo o Dr. Erik Jennings, médico neurologista que atua no Tapajós, existem vários estudos que apontam níveis mercuriais bastante altos nos índios Munduruku (medidos através do cabelo).
“Disso não temos mais dúvidas. O que falta agora são os estudos clínicos, examinando bem a parte neurológica das pessoas, para se ver a consequência que eles já estão tendo. A intoxicação mercurial atinge o sistema nervoso deixando as pessoas sem concentração, reduz a memória, a coordenação, causa déficit de inteligência e tremores incontroláveis. E as crianças geradas por mães contaminadas também terão consequências devastadoras em seus cérebros. Então, temos um grave problema social aí. Sem plena capacidade cognitiva, o mercúrio tira das pessoas a capacidade de competir e sobreviver numa sociedade de forma justa.”
Se já estava ruim nos governos anteriores, tende a piorar ainda mais com um presidente que quer liberar o garimpo em terras indígenas. A tática é deixar os índios à mercê dos garimpeiros ilegais, sem as devidas medidas protetivas ao mesmo tempo que fecham as torneiras dos serviços assistenciais, colapsando a atenção básica, a segurança alimentar… Sem opções, alguns indígenas acabam induzidos a buscar apoio junto aos próprios garimpeiros, estabelecendo acordos e/ou se envolvendo diretamente nas atividades extrativas. Com isso, pressionam para dividi-los, abrindo as portas para a entrada de novos invasores. É perverso.
Até agora, pouco se ouviu sobre políticas que diversifiquem as cadeias produtivas, reduzam a dependência do ouro e incentivem a transição para economia da floresta em pé. Ao invés de premiar a garimpagem legal coibindo as ilegalidades para que as boas práticas predominem, o governo quer acabar com elas legalizando-as. O discurso presidencial é pelo alívio da fiscalização e multas por crimes ambientais – isso no país onde já reina a impunidade com menos de 5% delas quitadas.
E assim será enquanto continuarmos com a visão estreita de progresso e desenvolvimento, literalmente entregando o ouro, se contentando com pouco quando se poderia ganhar muito mais, em todos os sentidos.
A cultura econômica que se criou é de país vira-lata, com alguns poucos se apropriando da riqueza que é de todos, cometendo crimes ambientais em cascata, lucrando sem pagar impostos, inclusive quebrando quem quer fazer a coisa certa, sufocados pela concorrência desleal. E ainda deixam a conta do estrago para o Estado, ou seja, para você pagar.

O panorama da contaminação por mercúrio no Tapajós (Fonte: CartaCapital)
Toda essa ilegalidade acontece a vista de todos, Ibama, ICMBio, Funai, PF… E até de quem aqui me lê, se assim desejar, bastando uma visita ao Google Maps.
O ouro continua falando mais alto do que a fiscalização e a punição. Anos e anos de exploração tornaram os municípios dourados reféns de uma economia movida por práticas predatórias e pela “livre negociação armada”, onde o garimpo elege e governa, em todas as esferas.
Projetos de mineração estão sendo liberados dentro de UCs pela ANM (Agência Nacional de Mineração) em conluio com as Secretarias Municipais de Meio Ambiente. Além de proibidos, não contam com estudos sérios de impacto e os devidos processos de licenciamento ambiental. Só nas Flonas de Itaituba 1 e 2, região do Tapajós que se sobrepõe às terras Munduruku, há 11 lavras já para exploração (mais 166 requerimentos) e 20 autorizações para pesquisa (mais 30 pedidos) – apenas em 2015, para Itaituba 2, a ANM concedeu 6 autorizações para garimpos de diamante e ouro.
“Para cada quilo legal, 10 saem ilegais”, disse Eugenio Viana, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia de Itaituba/PA, em reportagem para a Agência Pública.
Questionar isso não é ser contra o desenvolvimento, mas contra esse modelo que compromete tudo e todos para favorecer só alguns. Se fosse bom, depois de tanto ouro extraído, municípios áureos como Itaituba ou Jacareacanga já deveriam ter asfalto 100%, rede de esgotos, água tratada, energia estável, internet banda larga, escolas e hospitais de primeira.
Só que não, por exemplo, dentre os nossos 5,5 mil municípios, Itaituba está no andar de baixo, ocupando o 4377º lugar no ranking IFDM, enquanto Jacareacanga é o 7º pior e menos desenvolvido do país (IFDM – Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal).
Isso não é legal…


sábado, 1 de junho de 2019

MEIO AMBIENTE



Adubo humano para plantas é autorizado pela primeira vez nos EUA

Washington se torna o primeiro Estado que aprova a transformação de cadáveres em fertilizantes. A lei entrará em vigor em 2020


Katrina Spade, CEO da Recompose, empresa que pretende usar a compostagem como alternativa em vez de enterrar ou incinerar restos humanos. AP
Existe um método mais natural e ambientalmente respeitoso do que transformar cadáveres humanos em compostagem, em terra fértil, e fechar assim o ciclo da vida? O Estado de Washington, o primeiro a aprovar uma lei que regulamente esta prática, não tem nenhuma dúvida. Seu governador, Jay Inslee, assinou nesta terça-feira a nova norma que entrará em vigor em 1º de maio de 2020. Empresas autorizadas poderão se encarregar dessa "redução orgânica natural" que transforma um corpo, misturando-o a outros produtos, como aparas de madeira e palha, em dois carrinhos de mão de terra fértil em poucas semanas.
A ideia desta forma de decompor cadáveres como alternativa à cremação e aos enterros convencionais surgiu de Katrina Spade, que desenvolveu o método durante sua época de estudante, inspirando-se nas técnicas usadas pelos agricultores com seus rebanhos de gado. No site da empresa Recompose, que Spade fundou e gerencia, explica-se como serão introduzidos, sem embalsamar, em recipientes hexagonais reutilizáveis que, segundo uma imagem, se assemelham a um grande favo de mel. "Quando o processo estiver concluído, as famílias podem levar para casa parte da terra produzida e os jardins lembrarão que a vida está interconectada", explicam. Tudo isso com o maior respeito, porque estão conscientes de que para muitas pessoas "a morte é um evento espiritual transcendental".
A conversão de seres humanos em terras férteis minimiza o desperdício, evita a poluição das águas subterrâneas com fluidos, chorume e emissões de dióxido de carbono — o principal gás do efeito estufa — e de partículas, além de ocupar menos espaço. Considerando que 2,7 milhões de pessoas morrem nos Estados Unidos todos os anos, e a maioria acaba enterrada com um caixão ou queimada, o sistema, que ainda está dando seus primeiros passos, permitiria evitar mais de meio milhão de toneladas métricas de CO2 em 10 anos, de acordo com os cálculos de Spade, o que equivale à energia requerida por 54.000 domicílios em um ano.
O patrocinador da medida, o senador democrata Jamie Pedersen, disse à agência de notícias Efe que o método "faz sentido", especialmente nas áreas urbanas mais povoadas. E em um Estado como o seu, onde a cremação é a maneira preferida de dizer adeus aos mortos, o novo método reduzirá 1,4 tonelada métrica de carbono por pessoa. Além da compostagem humana, foi legalizada a hidrólise alcalina que dissolve os tecidos corporais com uma mistura de hidróxido de potássio e água, a altas temperaturas. Cerca de duas horas depois, só restam os ossos.
O debate está aberto em outras partes do mundo. Na Holanda, Mónica den Boer, deputada liberal, levou a discussão ao Parlamento no ano passado. Den Boer propôs a adoção da compostagem, da hidrólise e da criomação, método em que o corpo é congelado e imerso em nitrogênio líquido, e depois descongelado de forma que se cristaliza e permite sua pulverização.
Na Espanha são usados, por ora, os métodos tradicionais, com a incineração ganhando adeptos: em 2017, foi a opção escolhida em 38% das mortes e a estimativa é que chegará a 60% em 2025. Ainda assim, existem iniciativas para reduzir o impacto da morte no meio ambiente. Na Funermostra, a feira do setor que está sendo realizada em Valência, são oferecidas urnas de sal, "que se decompõem em cinco minutos ao cair ao mar", explicam na empresa Limbo. Ou uma de caroço de azeitona que pode servir de alimento para a árvore plantada onde se enterrar a urna. A Vendimar, mostra uma mortalha feita com amido de milho ou batata, sem derivados de petróleo. Os ecoféretros de madeira ecologicamente certificada, com estofamento de algodão e travesseiros de palha, menos poluentes se incinerados, são cada vez mais pedidos em um mundo em emergência climática.

Acesso em 05/2019

COMPORTAMENTO



Uma casa muito organizada e limpa é sinal de infelicidade! Afirma estudo psicológico!

domingo, 19 de maio de 2019

AGROTÓXICOS BRASIL



AGRÔNOMOS DO PARANÁ ESTÃO SENDO INVESTIGADOS POR RECEITAR AGROTÓXICOS NUM RITMO SOBREHUMANO


16 de Maio de 2019, 0h04

NO BRASIL, PARA comprar um agrotóxico, você precisa de uma receita assinada por um engenheiro agrônomo ou um técnico agrícola. Esses profissionais visitam as fazendas e indicam as melhores práticas para o controle de pragas e o manejo sustentável das lavouras. Funciona exatamente como um médico receitando um antibiótico: ele precisa primeiro examinar o paciente para depois fazer a prescrição. Mas o Ministério Público no Paraná descobriu que muitos agrônomos estão abusando da caneta e emitindo receitas às cegas, sem visitar as propriedades.
Em dezembro, três engenheiros agrônomos foram denunciados pelo Ministério Público em Campo Mourão, no interior do Paraná, por prescrever receitas para a compra de agrotóxicos sem sequer visitar os campos. Um levantamento da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná, obtido com exclusividade pelo Intercept, sugere que estes não são casos isolados.
Em um exemplo extremo, no ano de 2017, um único profissional emitiu entre 15 mil e 20 mil receitas – uma média superior a 50 receitas por dia, considerando 280 dias trabalhados no ano, sem descontar férias. Para uma jornada de oito horas, é aproximadamente uma receita a cada 10 minutos. Além de tecnicamente inviável devido à distância entre uma propriedade e outra, esse desempenho indica, segundo os especialistas que ouvimos, uma prescrição de veneno bem acima do razoável.
Não que esse agrônomo seja o único a ter um ‘superdesempenho’. Entre os cerca de 2 mil profissionais que prescrevem receitas de agrotóxicos no Paraná, incluindo agrônomos e técnicos de nível médio, 613 prescreveram entre sete e 17 receitas por dia em 2017. O número é o equivalente a ao menos uma receita a cada hora de trabalho.
Faltam parâmetros oficiais sobre a quantidade de agrotóxicos ou o número de receitas que cada agrônomo deve emitir. O Crea justifica que cada propriedade, planta e região demandam um acompanhamento específico. E é justamente o critério técnico que está em jogo quando profissionais cedem a interesses comerciais de seus empregadores e passam a emitir receitas apenas para formalizar a venda de agrotóxicos. É a chamada receita “de balcão”, que a Adapar e o MP buscam combater.



domingo, 5 de maio de 2019

UNIVERSIDADE PÚBLICA NO BRASIL*



COLUNAS

Defender a universidade pública no Brasil é a tarefa da nossa geração


por Carlos Zacarias**


Não passa um único dia sem que o governo Bolsonaro inaugure nova polêmica, que logo ganha repercussão e movimenta a imprensa e as redes sociais do país. Há quem pense que trata-se de uma estratégia diversionista para desviar a atenção dos assuntos que, como alguns supõem, seriam os temas principais do governo. Mas quem diz isso ainda não entendeu que o governo Bolsonaro não é um governo burguês normal, que ele não funciona a partir de um único centro, e que o tema da cultura, comportamento e o seu profundo anti-intelectualismo, uma das suas principais bandeiras de Bolsonaro e do seu guru, Olavo de Carvalho, não é algo periférico. Antes disso, destruir a universidade pública para Bolsonaro e, por extensão, acabar com o que o bolsonarismo chama de “marxismo cultural” é um dos pontos centrais da estratégia do seu governo, algo tão importante como a reforma da previdência e é por isso e por muito mais que o núcleo ideológico do atual governo repete em muitos aspectos o a fascismo histórico e é também similar aos governantes de extrema-direita que chegaram ao poder na Europa e também ao governo Trump.
A polêmica do momento, que todos devemos acompanhar com cuidado e combater com vigor, diz respeito à fala do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que nesses dias comparou o custo de um aluno da universidade pública ao de um aluno de uma creche. De acordo com o ministro, um aluno da universidade custa 30 mil reais ao governo, dez vezes mais do que o custo de um aluno de uma creche, que segundo disse, estaria em torno de 3 mil reais. Se tivesse pesquisado o assunto, com dados que o próprio ministério da Educação disponibiliza, e que foram usados em matéria do jornal O Globo de 30/04, Weintraub veria a diferença que apontou foi inflada em muitas vezes, já que a informação correta é R$ 14.763,00, para o aluno universitário, para R$ 2.632,00 para o aluno da creche.
Mas a questão não diz respeito ao erro do ministro, não se sabe se proposital ou não. O fato de que Weintraub se utiliza de um dado falso para justificar o absurdo corte de 30% nos já apertados orçamentos das universidades, é agravado em função de que as creches não são da responsabilidade do governo federal, mas dos governos municipais. Aliás, as únicas creches sustentadas com verbas federais são justamente as que existem nas universidades públicas, vinculadas às Faculdades de Educação e aos Colégios de Aplicação. Mas supondo que os recursos públicos, gerados pelos impostos, são também distribuídos a partir da arrecadação da União, e que há uma evidente desproporcionalidade nos gastos com educação básica e educação superior no Brasil, muitos poderiam ainda dizer que a diferença em cinco vezes (e não dez, como disse o ministro) é ainda assim muito grande. Mas você sabe por quê isso acontece?
Universidades não são apenas centro de ensino de excelência, com seu quadro de docentes formado quase que totalmente por mestre e doutores que levam anos para desenvolverem dissertações e teses que muito contribuem para o desenvolvimento do Brasil. Professores que trabalham nas universidades públicas, onde só se ingressa através de concorridos concursos, são, portanto, pessoal altamente qualificado, algo que em muito menor proporção existe na educação básica. Há unidades de várias instituições de ensino superior público pelo Brasil que são formadas por 100% de professores doutores (aqui também há uma proporção muito maior em relação às faculdades privadas). Além disso, os docentes das universidades públicas trabalham em regime de dedicação exclusiva, o que significa que estão integralmente dedicados às suas atividades na universidade, não podendo ter outros empregos, e isso é um critério de qualidade bastante relevante em todo o mundo, algo que naturalmente aumenta os custos da universidade.
Mas se a universidade não é apenas um centro de ensino, como foi dito, o que há na educação superior pública que não existe na educação básica para torná-la tão mais cara, além dos seus profissionais altamente qualificados e que trabalham em regime de dedicação exclusiva? Segundo o artigo 207 da Constituição Federal, as universidades “obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. O que a maioria dos brasileiros não sabe, portanto, é que os professores universitários são todos pesquisadores, gente que produz a quase totalidade da ciência do nosso país, ciência esta, que mesmo muito distante das demandas que temos, impacta a vida de todos os brasileiros. A universidade pública no Brasil é responsável por, nada mais, nada menos, que 99% das pesquisas científicas desenvolvidas no país. Fora das universidades, apenas a Petrobras, que é uma empresa ainda estatal, e a indústria farmacêutica são as que produzem o 1% restante.[1]
O vírus da Zika foi descoberto por professores/pesquisadores da UFBA. A Síndrome Congênita do Zika Vírus foi diagnosticada a partir de pesquisas desenvolvidas por docentes de universidades de Pernambuco, Paraíba, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, cujos cientistas são também professores da UFPE, UFPB, USP, FIOCRUZ e UFPR. O acompanhamento de mulheres grávidas que foram infectadas pelo Zika vírus é feita em diversos hospitais universitários de todo o país e quando as crianças nascem, as técnicas aplicadas ao desenvolvimento das crianças com microcefalia são realizadas em departamentos de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional e outras especialidades que existem nas universidades públicas, com custos que entram na soma do que o país investe na educação superior.
Fechando o tripé estabelecido na Constituição, que diz que a universidade funciona com ensino, pesquisa e extensão, no aspecto “extensão” é que se estabelece a relação mais estreita da universidade com a sociedade que a circunda. As universidades públicas receberam nos últimos anos milhares de índios, trabalhadores rurais sem-terra, moradores de quilombos e jovens das periferias das grandes cidades que frequentaram dos cursos de Direito, Medicina, Ciências Humanas, entre outros, para adquirirem conhecimentos e habilidades para serem levados para suas comunidades.
Por tudo isso, as universidades públicas, longe de serem custos, são investimentos do país aplicados no bem estar do seu povo e não foi por outro motivo que antes do golpe do impeachment, especialmente entre 2010 e 2014, o Brasil investiu muito na educação superior, quando foram abertos centenas de IFES e universidades por todo o país, muito especialmente nas cidades do interior, o que levou a ampliação das vagas em muitos milhares as vagas. É claro que toda essa expansão não se deu sem problemas ou as contrapartidas necessárias, mas o que se tinha no passado foi largamente abandonado no período do governo de Michel Temer, que aprovou uma política de congelamento de gastos em 20 anos (EC 95), algo que agora se aprofunda com o desejo do governo de Bolsonaro de destruir por completo a universidade pública no Brasil.
Para concluir: a universidade pública é cara, porque ela não é apenas um espaço onde se ensina, mas também é o local onde há hospitais, laboratórios, onde há equipamentos e a necessidade de manutenção; onde se oferecem serviços e retorno para o país e o seu povo, com custo que pode parecer alto, mas que na verdade é investimento e está também muito aquém do que os países desenvolvidos historicamente aplicaram em suas universidades. Por isso e muito mais, defender a universidades pública das agressões que ela vem sofrendo da parte deste governo, é algo essencial para que o Brasil possa se desenvolver como um país forte e soberano, com um povo feliz, bem atentido e orgulhoso da sua educação.

[1] Segundo relatório feito pela empresa norte-americana Clarivate Analytics, encomendado pela CAPES, quase toda a produção científica brasileira é feita no interior das universidades. As informações podem ser conferidas no relatório em inglês, disponibilizado no portal da CAPES, que pode ser acessado no link. Essas informações também constam no site Investe SP também no da Unicamp e em outros portais de notícias.
* Título editado
** Carlos Zacarias é doutor em História e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde leciona desde 2010. Entre 1994 e 2010 foi professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde dirigiu a Associação Docente (ADUNEB) entre 2000 e 2002 e entre 2007 e 2009. Colunista do jornal A Tarde de Salvador, para o qual escreve artigos desde 2006, escreve às quintas-feiras, quinzenalmente, sobre temas de história e política para o Esquerda OnLine. É autor de Os impasses da estratégia: os comunistas, o antifascismo e a revolução burguesa no Brasil (1936-1948) (São Paulo, Annablume, 2009) e no ano passado publicou De tédio não morreremos: escritos pela esquerda (Salvador, Quarteto, 2016) e ainda organizou Capítulos de história dos comunistas no Brasil (Salvador, Edufba, 2016). É membro da Secretaria de Redação da Revista Outubro e do Conselho Editorial das revistas Crítica Marxista, História & Luta de Classes, Germinal, entre outras.