quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BRASIL

Aplicação medicinal tradicional dos Matsés.



Tribo indígena amazônica cria enciclopédia de 500 páginas catalogando plantas e seus benefícios


O Xãma Matsé  César.
Christopher Herndon à esquerda e o xamã Arturo à direita observando o rascunho da enciclopédia.
Xamã e aprendiz.
Encontro de chefes Matsés.

A fim de preservar os conhecimentos ancestrais, o povo Matsés do Brasil e do Peru criou uma enciclopédia de 500 páginas organizada por cinco xamãs com a ajuda do grupo de conservação Acaté, catalogando uma série de plantas utilizadas pela tribo para fins medicinais.
Segundo o presidente e co-fundador da Acaté Christopher Herndon, é a “primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrito em sua própria língua e com suas palavras”.
Os Matsés lançaram a enciclopédia apenas em sua língua nativa para garantir que o conhecimento medicinal não seja roubado por empresas ou pesquisadores, por exemplo. A publicação tem como finalidade ser um guia para a formação de jovens xamãs.
Para que este conhecimento e tradição sejam preservados e disseminados, a Acaté também criou um programa de orientação para conectar os xamãs Matsés com jovens estudantes.
É possível ler aqui uma entrevista com Christopher Herndon, concedida ao Mongabay sobre a publicação.
Mais: https://www.xapuri.info/etniagenero/povosindigenas/matses-criam-enciclopedia-indigena/
Fonte: https://www.hypeness.com.br/2015/08/tribo-indigena-amazonica-cria-enciclopedia-de-500-paginas-catalogando-plantas-e-seus-beneficios/?fbclid=IwAR3uiMs-SNuRsYTZbbRD9xkBUbB-OEKil2ffoLgN--v1LYOIexbIU4fneaw


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

ANA MARIA PRIMAVESI



AGRICULTURA03 de Outubro de 2018


Ana Maria Primavesi, expoente maior da agroecologia, completa 98 anos

Biógrafa escreve com exclusividade sobre como a engenheira agrônoma conciliou as leis da natureza com a agricultura, revolucionando as práticas agrícolas

POR VIRGÍNIA MENDONÇA KNABBEN*

Ainda hoje, acreditem, completados 98 anos de idade e cerca de 70 de trabalho como engenheira agrônoma, Ana Primavesi não tem consciência do quanto significou e significa para o desenvolvimento da agricultura, ou melhor, da agroecologia, no mundo.


Por mais de uma vez, ao sentar para almoçar ou depois de participar de algum encontro ou evento no qual era a convidada de honra, ela comentou: “eu não entendo porque as pessoas gostam tanto de mim.” Ou: “As pessoas me adoram tanto e eu não sei por quê.” “Não sabe, doutora?”, pergunto verdadeiramente surpresa. Ela faz que não com a cabeça, e pronto, o assunto já passou.
Ela foi a primeira mulher a afirmar, num meio exclusivamente masculino, que o solo tem vida
Pode até parecer presunção àqueles que nunca conviveram com ela lerem essa história, mas Primavesi não entende mesmo. “Como podemos ser premiados por fazermos o que é o certo?” ela disse noutra vez, com toda razão. É que para ela era natural trabalhar com o solo vivo, tentando reproduzir ao máximo o que a natureza já faz. Era óbvio.

Andando a seu lado na ocasião de um Congresso de Agroecologia em Botucatu, em 2013, o encontro fortuito com o Mito (sim, esse é o verdadeiro Mito) transformava adultos em crianças; os rostos se voltavam num espanto; incrédulos apertavam os olhos para terem certeza de que era ela mesmo.

Em uma marcha lenta com sua bengala mas com andar firme, Primavesi tenta chegar ao palco do evento que a homenageava, deixando para trás centenas de fotos tiradas freneticamente. Recebe a placa das mãos de Maristela Simões do Carmo, sua amiga e professora de longa data e agradece humildemente. Os cinco minutos de aplausos ininterruptos a constrangem, mas não há o que fazer. Na plateia, olhos brilhantes de lágrimas expressam a emoção de estar diante de Ana Maria Primavesi, a primeira mulher a afirmar, num meio exclusivamente masculino, que o solo tem vida. A pessoa que ensinou com linguagem simples o que todos podem e conseguem entender. Aquela que nos aproximou de nós mesmos pela origem de tudo, a terra, e integrou saberes, tornando-nos autônomos em nossas práticas.
Paixão pelo solo
Ana Primavesi trabalhou com o solo, sua paixão, a vida toda. Quando ainda estava na Universidade Boku, em Viena, na Áustria, a Segunda Guerra tinha ceifado a vida de seus dois irmãos mais velhos. Seu pai, Sigmund Conrad, fora recrutado também, como foram todos os homens. Logo tomou um tiro de dum-dum no tornozelo e quase perdeu o pé, que ficou pendurado pelo que restou de pele. Isso lhe custou três anos num hospital de guerra (chamado lazareto), e coube à mais velha das filhas assumir as responsabilidades em casa.
Ana Maria Primavesi tem a capacidade de juntar tudo, de fazer com que o difícil se torne familiar, com que as relações se apresentem de forma simples e que a natureza seja encarada com ternura.
Estudar naquele contexto era até uma teimosia. Ela conta que Hitler fez de tudo para que os estudantes desistissem da Universidade. Não conheciam aquela moça cujo sobrenome quase chamou-se “determinação” e que tinha conseguido salvar o pai de uma execução sem a ajuda de nenhum advogado, de ninguém. Enfim ela se formou, fez o doutorado e acumulou em sua bagagem a experiência pesada da Guerra. No convívio com professores magistrais se constituiu e, sobretudo, desenvolveu a compreensão (única) de como funciona a vida do solo.
Quando a guerra acabou, Ana tinha 25 anos. Casou-se com o também engenheiro agrônomo Artur Primavesi e, diante de uma Europa destruída e traumatizada, o casal decidiu vir para o Brasil. Foi aqui que Ana passou a viver na e da agricultura. No começo, mais nos bastidores, porque os filhos exigiam sua atenção. À medida que cresciam (ela teve três), voltava à ativa, mas nunca deixou de auxiliar Artur tecnicamente.
Aqui, enfrentaria outra guerra. Quanto mais defendia a vida do solo, ou mais didáticos eram suas palestras e livros, mais era acusada de não ser científica. Os ataques constantes não a demoveram. “Tenho certeza do que estou falando”. Não era uma certeza para sobressair sobre um ou outro, numa luta de egos. Eram as leis da natureza que ela defendia, a agricultura deveria trabalhar ao máximo para mantê-las, pois a prática agrícola já é algo agressivo, antinatural.
Os ataques constantes não a demoveram. “Tenho certeza do que estou falando"
​Ana ousava. Falava de colêmbolos, bactérias e nematoides, de “compounds” entre os elementos químicos e deficiências minerais, e emendava nesse contexto as historinhas mais queridas das formigas que “dançam” encontradas em Sorocaba, do boi que comia as correspondências do governo em Fernando de Noronha ou da “dona cobra”, uma cascavel que vinha cumprimentar os visitantes de sua fazenda em Itaí balançando seu chocalho. Esse talvez seja um dos maiores atrativos nela: a capacidade de juntar tudo, de fazer com que o difícil se torne familiar, com que as relações se apresentem de forma simples, e que a natureza seja encarada com ternura. Ainda finalizava suas apresentações com fotos Kirlian, imagens que revelavam a energia das plantas e os efeitos maléficos das pulverizações de agrotóxicos e das deficiências minerais provocadas pela adubação química.
Para os catedráticos aquilo era uma afronta à ciência, tão difícil e limitada a “poucas inteligências.” Mas para os agricultores de fato, aqueles que lidavam com a essência da natureza, era o alimento fundamental para suas práticas. Ana encantava, desbravava. Contava, por exemplo, que o jatobá é uma árvore cuja seiva é tão rica em minerais que dava-a aos filhos como suplementação mineral, não sem antes pedir à árvore permissão para sua retirada. Eles nunca precisaram tomar vitaminas.

Hoje celebramos seu quase centenário. Nosso jatobá sagrado da agricultura, imponente, completa 98 anos, mais de setenta dedicados à ciência do campo. Quanta vida! Quanto aprendizado.

Ana Primavesi, querida árvore mestra. A matriz de todos nós.
* Virgínia Mendonça Knabben é geografa e professora. Em 2016, publicou a biografia Ana Maria Primavesi, histórias de vida e agroecologia, que deu início à reedição da obra de Ana Maria Primavesi, pela editora Expressão Popular.

Fonte: https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/noticia/2018/10/ana-maria-primavesi-expoente-maior-da-agroecologia-completa-98-anos.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compartilharDesktop

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

BRASIL



Crime ecológico: de uma só vez, Rondônia acaba com mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas



Por Warner Bento Filho




Sem nenhuma manifestação contrária, deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia fizeram desaparecer, em menos de uma hora de discussão, mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas na Amazônia. De uma só vez, na tarde da última terça-feira (25), os parlamentares riscaram do mapa onze unidades de conservação no estado. A tramitação se deu em tempo recorde: o projeto foi protocolado na Assembleia no meio da manhã (10h30) e, à tarde, já estava aprovado.
Encarregado de apresentar em plenário parecer sobre a proposta, em nome das comissões da casa, o deputado Léo Moraes (PTB) gastou apenas dois minutos para concluir que as áreas deveriam ser extintas, sem qualquer debate com a sociedade e sem qualquer estudo técnico. “Por ter o clamor de toda sociedade e o apelo dos deputados estaduais, somos favoráveis ao projeto e à emenda para que possamos extinguir as reservas e trazer o desenvolvimento sustentável e responsável ao Estado”, disse.
De acordo com o secretário de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia, Hamilton Santiago Pereira, a extinção das UCs foi exigência dos deputados para aprovarem uma série de complementações orçamentárias de que o governo precisava para honrar pagamentos, inclusive de salários de servidores.
Surpresa
O combinado, porém, segundo ele, era extinguir apenas uma das unidades de conservação criadas pelo governo do estado, a maior delas: a Estação Ecológica Soldado da Borracha, de 178.948 hectares, entre os municípios de Porto Velho e Cujubim. Isso era o que propunha o projeto de lei complementar 242/2018, enviado à Assembleia pelo governo – e protocolado às 10h30 da manhã.
Ao entrar em discussão no plenário, no entanto, o PLC recebeu uma emenda coletiva propondo a extinção não só dessa unidade de conservação, mas de todas as onze unidades criadas pelo governo do estado em março deste ano, e assim foi aprovado. Os deputados já haviam tentado extinguir as áreas em março, mas a tentativa foi barrada pela Justiça.
Compromissos
Depois da aprovação do projeto e da emenda, nessa terça, o deputado Lebrão (MDB) discursou esclarecendo quais são os compromissos dos deputados. Ele disse que a Assembleia Legislativa é composta por “deputados ruralistas que têm compromissos com a sociedade de uma maneira geral do estado de Rondônia, mas principalmente com o agronegócio”. E fez uma advertência: “Que (a extinção das UCs) sirva de exemplo para os próximos governantes deste estado: que não passem mais por cima da Assembleia Legislativa”.
O deputado Maurão de Carvalho (MDB) disse que em Rondônia “não cabe mais reserva. Tem reserva demais”. No entendimento do parlamentar, os produtores rurais não podem ser controlados pela estrutura do estado: “Precisamos deixar o produtor rural trabalhar com liberdade, sem perseguição do Ibama, sem perseguição de alguns policiais da Polícia Ambiental”, disse.
De acordo com o secretário Hamilton Pereira, o governador deve vetar as extinções impostas pela emenda coletiva, mantendo, porém, a extinção da Estação Ecológica Soldado da Borracha.
​”Essa decisão não foi debatida com a sociedade”, afirma o diretor executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic. “É fundamental mantermos essas unidades de conservação. Se a floresta vai embora, vão com ela todos os serviços ambientais de que a humanidade depende: água, equilíbrio climático, alimentos, cultura, medicamentos, abrigo. O que estamos colocando em risco é o nosso futuro, num momento de eleições em que estamos decidindo o modelo de desenvolvimento que queremos ter.”​
Dívida com a coletividade
O advogado do WWF-Brasil Rafael Giovanelli lembra que o estado tem o dever constitucional de criar unidades de conservação. “O estado precisa criar unidades de conservação para dar efetividade ao direito das pessoas a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, como estabelece o Artigo 225 da Constituição Federal”, disse. “Rondônia é um dos estados com maior índice de desmatamento na Amazônia. Por isso, tem, mais do que nunca, a obrigação de criar unidades de conservação. Se não cria, ou se extingue, fica em dívida com a coletividade”, completou.
O coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Michel Santos, informou que a organização ambientalista tenta uma audiência com o governador do estado, Daniel Pereira (PSB), para expor a preocupação da entidade. “Tanto o processo de criação quanto o de extinção de unidade de conservação pressupõe a realização de estudos técnicos. Sem isso, o processo é viciado e tem que ser declarado nulo”, disse o coordenador. “Assim como na criação, a extinção de unidades de conservação também precisa contemplar a participação da sociedade, o que tampouco aconteceu neste caso”, acrescentou.
“Este é mais um exemplo de como os eventos do PADDD, impulsionados por interesses políticos locais, estão colocando em risco estratégias e compromissos em nível nacional, incluindo um financiamento significativo que foi investido no estabelecimento dessas áreas “​, complementa Mariana Napolitano, que coordena a Iniciativa de Água do WWF-Brasil.
Cooperação
Das 11 unidades de conservação criadas pelo governo do estado em março, quatro eram de proteção integral: as estações ecológicas Umirizal e Soldado da Borracha e os parques estaduais Ilha das Flores e Abaitará. As demais unidades são de uso sustentável, que permitem a exploração sustentável dos recursos naturais.
O programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) investiu R$ 657 mil na criação das unidades de conservação, por meio de cooperação entre a Secretaria de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o Ministério do Meio Ambiente. O Arpa apoia financeiramente o desenvolvimento de estudos e a realização e consultas públicas.
A extinção da reserva foi encaminhada à ALE pelo governo de Rondônia. Ao todo, 15 deputados estaduais votaram a favor da extinção da reserva. Ninguém foi contrário.
Veja como votou cada deputado estadual
DeputadoVoto
Adelino Folador (DEM)SIM
Aélcio da TV (PP)SIM
Alex Redano (PRB)SIM
Anderson da Singeperon (PROS)SIM
Cleiton Roque (PSB)SIM
Edson Martins (MDB)SIM
Ezequiel Junior (PRB)SIM
Herminio Coelho (PDT)SIM
Jesuíno Boabaid (PMN)SIM
Laerte Gomes (PSDB)SIM
Lebrão (MDB)SIM
Léo Moraes (PTB)SIM
Maurão de Carvalho (MDB)SIM
Ribamar Araújo (PR)SIM
Só na Bença (MDB)SIM
Por WWF

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

BRASIL




Bebê morto com tiro na cabeça é um cruel símbolo da situação dos povos indígenas no Brasil

Relatório do Conselho Indigenista Missionário critica "sucateamento" da Funai, comandada por interesses "anti-indígenas"












 / São Paulo 


O pequeno Cirleudo Cabral Monteza Manchineri, de um ano de idade, dormia no colo da mãe confortavelmente apesar do balanço da pequena embarcação a motor. A viagem já durava horas. A família da etnia Manchineri havia partido da aldeia São Paolino, localizada na Boca do Acre, Amazonas, descido o rio Purus e entrado em um dos seus braços, o Iaco. Por volta das 22h eles se aproximavam do pequeno porto de Feira dos Colonos, na cidade acreana de Sena Madureira. O pai do bebê apontava uma lanterna para a barranca quando recebeu ordens para apagar a luz. Sem ter como atracar na escuridão, ele ignorou o comando. O barco foi recebido à bala. Uma delas acertou a cabeça de Cirleudo, que foi socorrido, mas chegou morto ao hospital. 

Cirleudo foi enterrado em um pequeno caixão branco com seus poucos pertences. Para as autoridades uma facção criminosa que controla o porto confundiu a família com um grupo rival e abriu fogo. Para o Conselho Indigenista Missionário, no entanto, o crime tem relação com “o ódio local disseminado pelos invasores da terra indígena”: o cacique da aldeia São Paolino foi alvo de três tentativas de homicídio, a última delas dias antes do assassinato de Cirleudo. Sua morte é o retrato da situação dos povos tradicionais brasileiros: seu corpo jaz em um túmulo localizado em território indígena tradicional ainda não demarcado.
O bebê foi o mais jovem dos 110 indígenas vítimas de homicídio em 2017, segundo o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, organizado pelo Cimi. Em comparação com 2016, quando foram 118 vítimas fatais, houve uma redução de 6,7%. Roraima e Amazonas lideram com 33 e 28 casos, respectivamente. Apesar da pequena queda no total de mortos, o cenário traçado pelo documento é sombrio, e não há motivo para comemorar: 2017 foi um ano marcado por retrocessos nos direitos indígenas e pela eliminação sistemática de suas lideranças.
Foi o caso do cacique Kaingang Antônio Ming, assassinado em março na Terra Indígena Serrinha, no Rio Grande do Sul. Ele recebeu cinco tiros enquanto fazia compras em um armazém local. Crítico ferrenho do arrendamento de terras para não-indígenas, suspeita-se que ele tenha sido morto por contrariar os interesses de fazendeiros da região. Também foi o que ocorreu com Manoel Quintino da Silva Kaxarari, liderança da aldeia Pedreira, em Rondônia, que vinha criticando a extração ilegal de madeira na terra indígena, e foi baleado e morto em junho.
Com exceção do ataque contra os índios Gamela, no Maranhão, que deixou 22 feridos a bala e golpes de facão (alguns com as mãos decepadas), a maioria dos episódios de violência citados no relatório, como o do bebê Cirleudo, não ganharam manchetes. É o caso de três índios chacinados em Santo Antônio do Içá, a 800 km de Manaus, ao oferecer carona de barco para dois pistoleiros. Ou de Rodrigo Gomes Redis, um Guarani-Kaiowá morto a facadas por uma dívida de 10 reais em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.
Não é apenas a violência que ceifa a vida dos indígenas brasileiros. O relatório do Cimi aponta para oito casos de mortes provocadas por desassistência na área da saúde, em muitos casos envolvendo doenças de fácil tratamento. Tari Uru Eu Wau Wau, da terra indígena de Rio Negro Ocaia, em Rondônia, morreu de tuberculose. Leonardo Leite Kanamari, da terra indígena Taquara, no Amazonas, de malária.

Sucateamento da Funai e pressão ruralista

De acordo com o relatório, o presidente Michel Temer “legitimou a violência contra os povos indígenas”, ao ajudar e permitir que se instalasse “dentro do Governo uma organização que visa depredar o patrimônio público e impor, mesmo que à força, o seu intento exploratório no tocante aos bens ambientais, minerais, hídricos e da biodiversidade”. Trata-se da bancada ruralista, grupo parlamentar composto por deputados e senadores com interesses ligados ao agronegócio, e que foram um dos pilares de sustentação do Governo emedebista. “Ao longo do ano de 2017, os povos indígenas viram seus territórios serem invadidos, loteados e explorados por aqueles que desejam implementar o monocultivo agrícola, a pecuária e a exploração de minerais, madeira e energia”, diz o relatório.
Segundo o Cimi, a Fundação Nacional do Índio (Funai) passou a ser conduzida em 2017 por segmentos “historicamente anti-indígenas” ligados aos ruralistas. O então presidente da entidade Antonio Costa chegou a dizer, ao tomar posse em março, que os povos tradicionais "não podiam ficar parados no tempo". Seu sucessor, Framklimberg de Freitas, que assumiu a entidade em julho se defendeu das críticas, e afirmou que "a Funai não foi omissa e não é omissa para averiguar tudo aquilo que diz respeito à sua função institucional".
As consequências mais graves desta apropriação da entidade foram, segundo o Cimi, a “paralisação de todas as demarcações de terras, (...) restrições orçamentárias para as ações e os serviços nas áreas (...) o abandono das atividades voltadas à proteção dos povos em situação de isolamento e risco e à fiscalização das terras demarcadas, em especial na Amazônia”. A Funai chegou a ser alvo, naquele ano, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, cujo relatório final pediu o indiciamento de mais de cem pessoas, em sua maioria militantes, antropólogos e lideranças indígenas.
Advocacia Geral da União é criticada por agir como “escritório de advocacia da bancada ruralista”
Neste cenário, a Advocacia Geral da União é criticada por agir como “escritório de advocacia da bancada ruralista”. O parecer vinculante nº 001/2017, editado em julho pela advogada-geral, Grace Mendonça, estabelece um marco temporal segundo o qual só podem ser demarcadas as terras que estivessem sob posse das comunidades indígenas na data de 5 de outubro de 1988. De acordo com o Cimi, isso “legalizou e legitimou o esbulho, a violência e as violações de que os povos indígenas foram vítimas antes de 1988”. Mendonça rebateu as críticas, e afirmou que o parecer visa "conferir segurança jurídica para a viabilização da política pública de demarcações de terras indígenas".
As consequências práticas do parecer foram, segundo o relatório, a paralisação das demarcações. O documento aponta que existem 537 terras indígenas (41% do total) que são reivindicadas pelas comunidades sem que haja nenhuma providência para sua regularização por parte das autoridades. O número é maior do que as 400 (30%) terras que já foram registradas para os povos tradicionais. Temer não homologou nenhum território indígena de agosto de 2016 a dezembro de 2017.
Se a tendência é que não haja muita renovação no Congresso nas eleições deste ano - a bancada ruralista deve continuar dando as cartas na Câmara e no Senado -, no Executivo podem haver mudanças relevantes no tratamento da questão indígena. Dentre os candidatos mais bem posicionados na corrida presidencial, o PT de Fernando Haddad e o PDT de Ciro Gomes possuem propostas para ampliar a demarcação de terras. Bolsonaro, do PSL, já sinalizou que existem "terras indígenas demais", e que não deve retomar a demarcação caso eleito.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/26/politica/1537978764_156884.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

terça-feira, 18 de setembro de 2018

AGROFLORESTA


CAMPANHA LUTA CONTRA AMEAÇAS AO ACAMPAMENTO JOSÉ LUTZEMBERGER
Foto: https://www.correiodolitoral.com/14840/encontro-de-agroecologia-e-movimentos-sociais-em-antonina-juventude-e-ancestralidade/

A campanha AGROFLORESTA É NOSSA CASA convida as pessoas a se somarem à resistência do acampamento José Lutzenberger, localizado em Antonina, litoral do Paraná. Uma decisão judicial determina o despejo das famílias, que vivem e trabalham na área há quase 15 anos, com base na produção agroflorestal e sem uso de agrotóxicos.

Casas, escola, área de produção, ciranda infantil, centro comunitário, sede da agroindústria de processamento de alimentos, viveiro de mudas e os 20 hectares de agrofloresta em produção: tudo isso está ameaçado. A campanha busca apoio para reverter a situação.

Antes de ser ocupada pelas famílias, em 2004, a área estava degradada pela criação de búfalos, com nascentes de rio poluídas e desmatamento da vegetação nativa. O trabalho coletivo dos agricultores e agricultoras, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fez uma verdadeira revolução no local. As famílias devolveram a mata e a biodiversidade ao território. Em 2017, a comunidade recebeu o prêmio Juliana Santilli, na categoria ampliação e conservação da agrobiodiversidade.

"Para que a verdadeira justiça aconteça neste caso, queremos a permanência do acampamento José Lutzenberger. Por isso, solicitamos ao Governo do Estado, INCRA, Poder Judiciário, Ministério Público do Paraná e Prefeitura Municipal de Antonina uma solução definitiva para as famílias, sem despejo", dizem os organizadores.

📧 ENVIE UM E-MAIL para as autoridades que podem barrar o despejo (o modelo de caixa está em anexo, em português, espanhol e inglês)
- Maria Aparecida Borghetti – Governadora do Estado do Paraná: governadoracidaborhghetti@gmail.com e cidaborghetti@ccivil.pr.gov.br
- Louise Nascimento e Silva - Juíza da Comarca de Antonina: lnsi@tjpr.jus.br
- Ivonei Sfoggia – Procurador Geral de Justiça do Ministério Público do Paraná: gabinete@mppr.mp.br
- Olympio Sotto Maior Neto – Procurador de Justiça – Coordenador Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça (Caop) de Proteção aos Direitos Humanos: olympio@mppr.mp.br
- José Paulo Vieira Azim – Prefeito de Antonina: gabinete@antonina.pr.gov.br
- Walter Nerival Pozzobom - Superintendente Regional do Incra no Paraná: walter.pozzobom@cta.incra.gov.br


MAIS: www.agroflorestaenossacasa.com.br/ e facebook.com/AgroflorestaENossaCasa.
https://www.youtube.com/watch?v=HN_E0kJj_eo

Fonte: https://web.whatsapp.com/
Colaboração: Jackeline



domingo, 16 de setembro de 2018

REVOLUÇÃO FARROUPILHA


Até quando vamos endeusar a revolução farroupilha?


"Até quando deixaremos de contar em todas as escolas que Bento Gonçalves ao morrer, apenas dois anos depois do fim da guerra civil, deixou mais de 50 escravos aos seus herdeiros? Até quando?", escreve Juremir Machado da Silva, jornalista e historiador, em artigo publicado por Revista Afinal, 13-09-2016.
Eis o artigo.

Até quando?

Todo os anos eu me pergunto: até quando?
Sim, até quando teremos de mentir ou omitir para não incomodar os poderosos individuais ou coletivos?
Até quando teremos que tapar o sol com a peneira para não ferir as suscetibilidades dos que homenageiam anualmente uma “revolução” que desconhecem? Até quando teremos de aliviar as críticas para não ofender os que, por não terem estudado História, acreditam que os farroupilhas foram idealistas, abolicionistas e republicanos desde sempre? Até quando teremos de fazer de conta que há dúvidas consistentes sobre a terrível traição aos negros em Porongos? Até quando teremos de justificar o horror com o argumento simplório de que eram os valores da época? Valores da traição, do escravismo, da infâmia?
Até quando fingiremos não saber que outros líderes – La Fayette, Bolívar, Rivera – outros países – Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia – e outras rebeliões brasileiras – A Balaiada, no Maranhão, por exemplo – foram mais progressistas e, contrariando “valores” da época, ousaram ir aonde os farroupilhas não foram por impossibilidade ideológica? Até quando a mídia terá de adular o conservadorismo e a ignorância para fidelizar sua “audiência”?
Até quando deixaremos de falar que milhões de homens sempre souberam da infâmia da escravidão? Os escravos. Até quando minimizaremos o fato de que a Farroupilha, com seu lema de “liberdade, igualdade e humanidade”, vendeu negros para se financiar? Até quando deixaremos de enfatizar que os farrapos prometiam liberdade aos negros dos adversários, mas não libertaram os seus? Até quando daremos pouca importância ao fato de que a Constituição farroupilha não previa a libertação dos escravos? Até quando deixaremos de contar em todas as escolas que Bento Gonçalves ao morrer, apenas dois anos depois do fim da guerra civil, deixou mais de 50 escravos aos seus herdeiros? Até quando?

Até quando?

Até quando adularemos os admiradores de um passado que não existiu somente porque as pessoas precisam de mitos e de razões para passar o tempo, reunir-se e vibrar em comum? Até quando os folcloristas sufocarão os historiadores? Até quando o mito falará mais alto do que a História? Até quando não se dirá nos jornais que os farroupilhas foram indenizados pelo Império com verbas secretas? Que brigaram pelo dinheiro? Que houve muita corrupção? Que Bento Gonçalves e Neto não eram republicanos quando começaram a rebelião? Que houve degola, sequestros, apropriação de bens alheios, execuções sumárias, saques, desvio de dinheiro, estupros, divisões internas por causa de tudo isso e processos judiciais?
Até quando, em nome de uma mitologia da identidade, teremos medo de desafiar os cultivadores da ilusão? Até quando historiadores como Décio Freitas, Mário Maestri*, Sandra Pesavento, Tau Golin, Jorge Eusébio Assumpção, Spencer Leitman e tantos outros serão marginalizados? Até quando nossas crianças serão doutrinadas com cartilhas contando só meias verdades?
Até quando a rebelião dos proprietários será apresentada como uma revolução de todos? Até quando mentiremos para nós mesmos? Até quando precisaremos nos alimentar dessa ilusão?
Até quando viveremos assim?

Leia mais...

*Mário Maestri estrá no próximo IHU ideias, dia 15 de setembro, às 17h30min naSala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU, Unisinos São Leopoldo. O historiador ministrará a palestra Rio Grande do Sul: a história e a política, ontem e hoje. O gaúcho real e o imaginário.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/560071-ate-quando-vamos-endeusar-a-revolucao-farroupilha
Colaboração: Luiz Fernando Magalhães

BRASIL ELEIÇÕES 2018


Grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook sofre ataque cibernético e fica fora do ar

Nome de mobilização foi trocada. No Twitter, campanha de candidato comemora mobilização contrária. Facebook diz que está investigando atividade suspeita



O grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” no Facebook, que ganhou ampla repercussão nas últimas duas semanas por ter reunido milhares contra o candidato do PSL, é alvo de uma escalada de ataques cibernéticos, que vão desde a mudança do nome da mobilização, trocado para um de teor a favor militar reformado de ultradireita, à ameaça direta às moderadoras. Na madrugada de domingo, o grupo, que conta com um milhão de participantes e solicitações para participar e convites que alcançam 2 milhões de pessoas, estava fora do ar. "O grupo foi temporariamente removido após detectarmos atividade suspeita. Estamos trabalhando para esclarecer o que aconteceu e restaurar o grupo às administradoras", informou o Facebook. Enquanto isso, a campanha de Jair Bolsonaro no Twitter comemorava a mobilização de mulheres favoráveis a ele.
Grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook sofre ataque cibernético e fica fora do ar
Desde a sexta-feira já havia sinais da ofensiva contra a mobilização. Neste dia, a administradora M.M. foi a principal afetada, e teve suas contas no Facebook e no WhatsApp invadidas. De acordo com as organizadoras, os ataques começaram por volta das 14h na sexta. Antes disso, moderadoras e administradoras haviam recebido ameaças em suas contas no WhatsApp. Os invasores exigiram que o grupo fosse extinto até às 24h de sexta-feira e tentaram intimidar as responsáveis pelo grupo ameaçando divulgar seus dados pessoais como como CPF, RG, Título de eleitor, nome da mãe, entre outros dados extremamente sensíveis.
Além disso, os responsáveis fizeram diversas postagens no grupo com teor ofensivo contra as participantes como as mensagens “esquerdistas de merda” e “Anonymous não quer esquerdista! Bando de mulher atoa q ao tem oq que fazer” (sic). A imagem de capa do grupo também foi alterada com as assinaturas 'Eduardo Shinok' e 'Felipe Shinok', supostos autores da invasão. Em seguida, um perfil alterou o nome do grupo para 'Mulheres COM Bolsonaro' e iniciou-se uma disputa pelo nome do grupo que criou confusão entre as participantes. Algumas pessoas passaram a recomendar a saída do grupo, enquanto outras pediam calma e alertavam sobre o ataque.
Os ataques acontecem em um momento em que a rejeição do eleitorado feminino ao candidato Jair Bolsonaro (PSL) tenta passar de uma mobilização massiva no Facebook para um ato nas ruas. O evento "Mulheres contra Bolsonaro", agendado para 29 de setembro no Largo da Batata, em São Paulo, já conta com 53 mil confirmações e outras 187.000 pessoas interessadas. Há outros eventos similares agendados para o mesmo dia em diferentes cidades pelo país. Uma edição que convoca participantes a se reunirem na Redenção, em Porto Alegre (RS) conta com 12 mil confirmações e 29 mil pessoas interessadas. No Rio de Janeiro, a convocatória para a Cinelândia conta com 26 mil confirmações e 58 mil pessoas interessadas. As manifestações também foram convocadas em diversas capitais como Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG) Fortaleza (CE), Belém (PA), Natal (RN), Recife (PE).
Grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook sofre ataque cibernético e fica fora do ar

Apoiadores de Bolsonaro tentam responder

Grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook sofre ataque cibernético e fica fora do ar
Na última semana, os apoiadores do militar empenharam esforços para tentar conter a onda, mas fracassaram em dar uma resposta feminina à altura. Em resposta ao grupo "Mulheres unidas contra Bolsonaro", os apoiadores do candidato do PSL criaram diversos grupos na tentativa de reunir as apoiadoras do ex-capitão do Exército. O principal deles é o grupo "Mulheres Com Bolsonaro #17 (OFICIAL)", que já conta com 403.945 perfis aprovados pela moderação, pouco mais de um terço do volume de perfis engajados contra o candidato. A rede de moderação do grupo é composta por 85 moderadoras e 12 administradoras.
Outra tentativa foi o grupo "Mulheres unidas A FAVOR de Bolsonaro" reúne 48.346 membros aprovados e demanda dos participantes que curtam a página "Bolsonaro Heroi Nacional". A contramobilização a favor do militar reformado também conta com a página "Mulheres Unidas A FAVOR do Bolsonaro", que desde que foi criada, em 11 de setembro, recebeu apenas 47.576 curtidas. Em uma mensagem fixada no topo da página, os moderadores dão instruções às novas seguidoras pedindo que divulguem a página em comentários favoráveis ao candidato em páginas de jornais e grupos do Facebook: "Meninas, coloquem o link da página em todos os comentários femininos a favor do Bolsonaro. Pode ser em páginas de jornais ou grupos. VAMOS CRESCER" (sic). A postagem também sugere um modelo de mensagem que pode ser copiado pelas mulheres que desejarem participar da campanha.
Grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook sofre ataque cibernético e fica fora do ar
Apesar do resultado limitado, que não se converteu em um número expressivo de mulheres engajadas, o esforço dos apoiadores de Bolsonaro foi significativo. Uma articulação de diversas páginas de apoio mais antigas e com maior volume de seguidores se dedicou a compartilhar intensamente os conteúdos publicados na "Mulheres Unidas A FAVOR do Bolsonaro". A estratégia tem como objetivo ampliar o alcance das mensagens publicadas no novo canal dedicado às mulheres por meio do compartilhamentos de suas postagens. O aumento instantâneo do volume de interações faz com que os conteúdos da página sejam percebidos pelo algoritmo do Facebook como mais relevantes, de modo que as postagens passam a ser mostradas a um número cada vez maior de pessoas. A página  "Apoiamos a Operação Lava Jato- Juiz Sérgio Moro" foi a principal articuladora da campanha de divulgação deste canal. Criada em 10 de março de 2016, a página conta com 1.081.928 curtidas e compartilhou 17 postagens da página "Mulheres unidas A FAVOR de Bolsonaro" entre os dias 10 e 12 de setembro no Facebook.
A página "Bolsonaro - Eu Apoio", criada em 23 de fevereiro de 2018, também foi central para esta articulação. Ela compartilhou 15 postagens da página dedicada às mulheres para que fossem exibidas para uma parcelas de seus 469.245 fãs. Apesar de ser significativamente menor do que o canal dedicado a Sergio Moro, a página luta para crescer. A página contratou o serviço de anúncios pagos do Facebook para turbinar seu número de seguidores. O anúncio da página, que contém um vídeo do lutador de UFC Weslley Alves declarando apoio à Bolsonaro, não está devidamente identificado como propaganda, apesar de a legislação eleitoral proibir expressamente que terceiros façam anúncios de campanha em suas páginas de Facebook. No último mês, o TSE apresentou uma ordem judicial ao Facebook para retirar do ar conteúdos turbinados a favor de Bolsonaro que foram veiculados pela página do empresário Luciano Hang, o dono da rede de lojas de departamento Havan.

Homens protagonistas na campanha do Twitter

Apoiadores de Jair Bolsonaro também tentaram reagir à mobilização de mulheres no Twitter. Na última quarta-feira, simpatizantes do militar reformado foram bem sucedidos em manter a hashtag #MulheresComBolsonaro durante algumas horas na lista de trending topics do Twitter, um ranking que destaca os assuntos mais comentados da rede social. Embora a análise dos dados sugira uma resposta eloquente das eleitoras de Bolsonaro, foram perfis identificados como homens que protagonizaram a campanha.
Das cinco principais autoridades engajadas na disseminação da hashtag, quatro eram perfis identificados como homens. A principal autoridade foi o perfil identificado como Professor Igor, que publicou 19 mensagens com a hashtag durante o período analisado. A principal delas continha uma provocação contra grupos LGBT: "Quando a Globo diz que mulher não apoia Bolsonaro, ela está se referindo ao Pablo Vittar?", ironizou, referindo-se à cantora. A mensagem recebeu 969 RTs e 3.141 curtidas até o fechamento desta reportagem.
A quarta posição do ranking ficou com o perfil identificado como Rodrigo Moller, que se apresenta como "Quinto maior influenciador político do Twitter em 2016" e fundador do Movimento Brasil Conservador. A mensagem de maior destaque dentre as 6 que publicou usando a hashtag no período, o perfil convida seus seguidores a ajudarem na disseminação da campanha "Olha aí galera, as Twitter Girls estão subindo #MulheresComBolsonaro, vamos ajudar galera!! Juntos somos fortes!"
A quinta posição do ranking ficou com o filho do presidenciável, Flavio Bolsonaro (PSL), candidato a Senador no Rio de Janeiro. O candidato também divulgou um vídeo no qual um grupo de mulheres canta palavras de ordem favoráveis ao militar da reserva. A mensagem recebeu 1.421 RTs e 5.373 curtidas. O único perfil feminino entre as principais autoridades desta subrede é o de Fabi Moller, que se identifica como "Anti-PT. Conservadora, casada c @Ro_Moller e mãe de três lindos filhos. Idealizadora do Projeto #MulheresComBolsonaro". Cerca de 8,10% dos perfis que citaram a hashtag, entretanto, o fizeram em tom de deboche. A composição deste grupo (identificado em tom de rosa no grafo) se caracteriza pela presença de perfis simpáticos às bandeiras LGBTs.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/14/politica/1536941007_569454.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM