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domingo, 4 de novembro de 2018

CINEMA


‘O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua’ – Ken Loach



O filme Eu, Daniel Blake, é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.
Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o El País em seu escritório no Soho londrino.
Como chegamos à situação que seu filme descreve?
É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.
Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.
A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.
As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.
Todo o cinema é político?
O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.
Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.
Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.
O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.
Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.
Como gostaria de ser lembrado?
Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.

sábado, 21 de julho de 2018

ALEMANHA, CINEMA E CENSURA


FILMES PROIBIDOS NA ALEMANHA ORIENTAL

CRUCIAL PARA A ARTE


Em dezembro de 1965, teve lugar em Berlim a 11ª Sessão Plenária do Comitê Central do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED). Essa conferência do partido é considerada um dos marcos mais importantes da história cultural da República Democrática Alemã. Altos funcionários do partido se exaltaram com a “decadência” e o “ceticismo” na literatura e no cinema. A consequência foi uma onda de proibições.
“Somos todos escravos!” Essa frase está escrita em branco radiante na parede de uma fábrica em algum lugar em Berlim Oriental. Ela foi escrita por dois adolescentes cheios de raiva e frustração a respeito da burocracia reinante na empresa e da atitude paternalista dos colegas mais velhos. Mas sua revolta não se dirige apenas contra as circunstâncias sob as quais eles trabalham. A frase também vale para toda sua vida – uma vida marcada por ideologia, imposições do Estado e execução de planos socialistas. Isso tinha que acabar.

A cena faz parte de Berlin um die Ecke (Virando a esquina em Berlim, 1965), de Gerhard Klein e Wolfgang Kohlhaase, que foi, como todos os filmes da antiga Alemanha Oriental, produzido pela empresa cinematográfica pública Deutsche Film AG (DEFA). A cena era tão realista que poderia ter acontecido na vida real exatamente da mesma maneira. Para alguns funcionários do SED, o Partido Socialista Unificado da Alemanha, ela era até “realista” demais. Por causa dessa e de outras “cenas subversivas” que não glorificavam o cotidiano da Alemanha Oriental mas apontavam sem rodeios suas contradições e problemas, o filme Berlin um die Ecke foi proibido em meados de 1966. Sua estreia só aconteceu muitas décadas depois.

Trailer: „Spur der Steine“ | © DEFA-Stiftung, via youtube.com

Berlin um die Ecke 
não foi um caso isolado. Como resultado da 11ª Sessão Plenária do Comitê Central do SED, que entrou para a história da Alemanha Oriental sob a alcunha “Kahlschlag” (“desmatamento”), uma dúzia de filmes de ficção da DEFA foram proibidos ou tiveram sua produção paralisada. Entre eles, Spur der Steine (1966, direção: Frank Beyer), Karla (1965, direção: Herrmann Zschoche), Das Kaninchen bin ich (O coelho sou eu, 1965, direção: Kurt Maetzig) e Jahrgang 45 (Nascido em 45, 1966, direção: Jürgen Böttcher), alguns dos melhores filmes produzidos pela DEFA. A onda de proibições acabou de forma brutal com uma arrancada artística no cinema da Alemanha Oriental. Muitos dos filmes proibidos tinham em comum o desejo de contribuir para uma mudança: eles criticavam as condições sociais na Alemanha Oriental – não para acabar com o socialismo, mas para o “melhorar”. No entanto o ponto determinante para as proibições não foi apenas o tom subliminar de crítica social, mas também uma briga dentro da liderança do SED sobre como a Alemanha Oriental deveria se desenvolver no futuro.

ONDA DE PROIBIÇÕES

A 11ª Sessão Plenária teve consequências de longo prazo para o desenvolvimento da arte na Alemanha Oriental. Alguns romances e peças de teatro com críticas sociais não puderam ser publicados, numerosos artistas ficaram proibidos de exercer a profissão ou se apresentar publicamente. A DEFA foi particularmente atingida pelas repressões. Todos os filmes de ficção planejados na época foram inspecionados em relação a seus pontos de vista ideológicos. A onda de proibições durou até meados de 1966 e foi um dos grandes marcos da história do cinema da Alemanha Oriental. Nos anos seguintes, temas que continham crítica social só raramente puderam ser abordados. Os filmes proibidos permaneceram quase todos fora de circulação até 1989/90, quando a Alemanha Oriental foi dissolvida.

Enquanto a política de reformas teve grande ressonância entre a população, as tendências liberais foram controvertidas desde o início dentro da liderança do SED. Sobretudo a cultura mais liberal para os jovens, que se orientava por modelos ocidentais, constituía um problema para os funcionários dogmáticos do SED. O fato de muitos jovens da Alemanha Oriental se interessarem por beat music e fundarem algumas bandas muito populares, por exemplo, não foi tolerado por muito tempo. Os grupos beat foram proibidos, seus fãs, difamados como “arruaceiros” e tratados como delinquentes.

UM TRIBUNAL SIMBÓLICO


  • “Hände hoch oder ich schieße” (Hans-Joachim Kasprzik)© DEFA-Stiftung/ Wolfgang Ebert
    „Hände hoch oder ich schieße“ (Hans-Joachim Kasprzik)
  • “Fräulein Schmetterling” (Kurt Barthel)© DEFA-Stiftung/ E. Hartkopf, Rolf-Eckardt Rambow
    „Fräulein Schmetterling“ (Kurt Barthel)
  • “Der Frühling braucht Zeit” (Günter Stahnke)© DEFA-Stiftung/ Kurt Schütt
    „Der Frühling braucht Zeit“ (Günter Stahnke)
  • “Jahrgang 45” (Jürgen Böttcher)© DEFA-Stiftung/ Waltraut Pathenheimer
    „Jahrgang 45“ (Jürgen Böttcher)
  • “Das Kaninchen bin ich” (Kurt Maetzig)© DEFA-Stiftung/ Jörg Erkens
    „Das Kaninchen bin ich“ (Kurt Maetzig)
  • “Spur der Steine” (Frank Beyer)© DEFA-Stiftung/ Jörg Erkens
    „Spur der Steine“ (Frank Beyer)
  • “Karla” (Hermann Zschoche)© DEFA-Stiftung/ Eberhard Daßdorf
    „Karla“ (Hermann Zschoche)
  • “Berlin um die Ecke” (Gerhard Klein)© DEFA-Stiftung/ Heinz Wenzel
    „Berlin um die Ecke“ (Gerhard Klein)
  • “Wenn du groß bist, lieber Adam” (Egon Günther)© DEFA-Stiftung/ Kurt Schütt
    „Wenn du groß bist, lieber Adam“ (Egon Günther)
  • “Denk bloß nicht, ich heule” (Frank Vogel)© DEFA-Stiftung/ Jörg Erkens
    „Denk bloß nicht, ich heule“ (Frank Vogel)
  • “Der verlorene Engel” (Ralf Kirsten)© DEFA-Stiftung/ Peter Dietrich, Herbert Kroiss
    „Der verlorene Engel“ (Ralf Kirsten)
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A renúncia definitiva à política liberal para a cultura e a juventude foi finalmente selada pelo SED na 11ª Sessão Plenária do Comitê Central, de 15 a 18 de dezembro de 1965. Em seus discursos, altos funcionários como Erich Honecker, Paul Fröhlich e Paul Verner se exaltaram com o comportamento “imoral” da juventude da Alemanha Oriental. E, desde o início, a culpa foi colocada nos artistas. Com seu “ceticismo pequeno-burguês”, os escritores e cineastas difundiriam uma “cultura da dúvida” na Alemanha Oriental e incitariam os jovens à violência. Sobretudo os escritores Wolf Biermann, Werner Bräunig e Stefan Heym foram atacados na sessão plenária. Além disso, os filmes de ficção Denk bloß nicht, ich heule (1965), de Frank Vogel, e Das Kaninchen bin ich, de Kurt Maetzig, foram os alvos principais das críticas. Eles foram apresentados aos participantes como particularmente “nocivos” e difamados como “armações contrarrevolucionárias”.

A dura crítica à cultura veio a calhar para os funcionários dogmáticos do SED. Eles utilizaram as discussões com os artistas para se posicionar fundamentalmente contra todas as tendências liberais na Alemanha Oriental. A 11ª Sessão Plenária foi portanto um debate simbólico sobre o futuro desenvolvimento político da Alemanha Oriental, em que os críticos das políticas reformistas puderam se afirmar. Muitos dos argumentos apresentados contra os artistas eram meros pretextos: ambos os filmes da DEFA ainda não haviam sequer sido exibidos publicamente, não podiam portanto ter exercido nenhuma influência negativa sobre os jovens da Alemanha Oriental. Os textos de crítica ao sistema de Biermann ou Heym eram proibidos de ser publicados na Alemanha Oriental. O ponto principal para que eles fossen atacados como inimigos do partido na 11ª Sessão Plenária foi antes o fato de que eles haviam publicado suas obras no Ocidente. Para alguns funcionários do SED, isso representava uma “traição” ao socialismo.

ONDA DE PROIBIÇÕES

A 11ª Sessão Plenária teve consequências de longo prazo para o desenvolvimento da arte na Alemanha Oriental. Alguns romances e peças de teatro com críticas sociais não puderam ser publicados, numerosos artistas ficaram proibidos de exercer a profissão ou se apresentar publicamente. A DEFA foi particularmente atingida pelas repressões. Todos os filmes de ficção planejados na época foram inspecionados em relação a seus pontos de vista ideológicos. A onda de proibições durou até meados de 1966 e foi um dos grandes marcos da história do cinema da Alemanha Oriental. Nos anos seguintes, temas que continham crítica social só raramente puderam ser abordados. Os filmes proibidos permaneceram quase todos fora de circulação até 1989/90, quando a Alemanha Oriental foi dissolvida.

AUTOR

Andreas Kötzing é jornalista freelancer e historiador, além de dar aulas na Universidade de Leipzig e trabalhar como colaborador na pesquisas do Instituto Hannah Arendt de Dresden.
Tradução: Renata Ribeiro da Silva
Copyright: Goethe-Institut e. V., Internet-Redaktion
Dezembro de 2015

Fonte: https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/mag/20678775.html

sexta-feira, 24 de março de 2017

CINEMA




Estudante da UNILA vence concurso internacional de cinema




O curta-metragem Clube Stalker, dirigido por Alice Nicolau, (foto acima), aluna do curso de Cinema e Audiovisual da UNILA, foi um dos vencedores da etapa latino-americana do concurso Directv Cinema+. Ela disputou com outros oito concorrentes e divide o prêmio com curtas do Peru e Uruguai.

“Ainda não sei como agir. Desde os meus 12, 13 anos, eu sonho em fazer cinema, em estudar em Los Angeles”, disse na manhã desta quinta-feira (23), em São Paulo, onde havia recém-desembarcado. Ela recebeu a notícia durante a viagem de ônibus entre Foz do Iguaçu e a capital paulista, onde reside a família e onde ela vai participar de um festival de cinema universitário. “Estava sozinha, mas senti a energia de todos que me mandavam mensagens”, contou.

Como premiação, ela vai receber uma bolsa de estudos para o curso de cinema da USC School of Cinematic Arts, em Los Angeles (EUA). Ela viaja em junho para os Estados Unidos, onde faz um curso de verão, com duração de 40 dias. O filme foi escolhido por votação popular e avaliado em relação à originalidade do conteúdo e à qualidade cinematográfica, da direção e da produção. O curta, que havia vencido a etapa nacional, deu à UNILA um prêmio de R$ 16.125, destinado à compra de equipamentos para o curso de Cinema e Audiovisual.
É a primeira vez que o Brasil disputa o prêmio e venceu com uma mulher, lembra Alice. “A inserção do Brasil nos concursos latino-americanos, nos quais apenas disputavam hispanohablantes, leva a uma maior diversidade”, comenta. “E é uma vitória também da Universidade, de Foz do Iguaçu e de Alagoas”, diz, referindo-se ao Estado onde nasceu.

Clube Stalker nasceu da necessidade de falar sobre violência de gênero, desumanização das relações, saúde mental, trauma, depressão e suicídio. “Clube Stalker é o início da minha carreira profissional, da necessidade de tratar temas carregados de símbolos, mostra a minha essência e meu objetivo como cineasta”, salienta.

O filme teve início na disciplina Roteiro II, ministrada pelo professor Pablo Gonçalo. O roteiro inicial ali produzido passou por diversos tratamentos, e o curta foi realizado em formato de “maratona” - foram sete dias para pré-produção, gravação e pós-produção. A equipe do filme é toda formada por estudantes da UNILA, dos cursos d e Cinema e Audiovisual; Letras, Artes e Mediação Cultural; Relações Internacionais e Integração; Geografia; e Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar. O curta já foi exibido em Foz do Iguaçu (Centro e Vila C Nova) e na Universidad Nacional de Misiones (UNaM), em Oberá (Argentina).

Foto - Alice Nicolau está no último semestre do curso de Cinema e Audiovisual. Em maio ela defende seu trabalho de conclusão de curso.

Fonte: Assessoria de Imprensa UNILA

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

CINEMA E OS GUARANI-KAYOWÁ



O SANGUE JORRA SOBRE A TERRA VERMELHA: 

Reflexões sobre o filme de Marco Bechis (2008) no contexto do etnocídio Guarani-Kayowá. Leia em A Casa de Vidro: http://wp.me/pNVMz-3gr.
Uma das melhores expressões cinematográficas do drama trágico que aflige os Guarani-kaiowá é Terra Vermelha (2008), filmaço de Marco Bechis, cuja trama desenrola-se na região de Dourados (MS) e tematiza a epidemia de suicídios dos indígenas da etnia. Logo nas primeiras cenas do filme, o espectador depara-se com duas jovens – uma de 17 anos, outra de 14 – que pendem enforcadas no meio da floresta e são encontradas por outros membros da tribo.
As mortas estão vestidas com roupas “de branco” – uma delas está com o uniforme escolar da “Escola Municial Marechal Rondon” – e logo são enterradas em uma cova onde também são sepultados objetos típicos do “povo da mercadoria”, como o batizou Davi Kopenawa em A Querda do Céu. Celulares, pulseiras, roupas e sapatos são recobertos pela terra do túmulo onde vão jazer as jovens. Em poucos minutos, o cinema de Bechis já escancara sua vocação para provocar o debate e instigar a reflexão através de um retrato nu e cru, ao mesmo tempo que sutilmente alegórico, desta onda macabra de suicídio indígena que é, como escreve Daiara Tukana na Rádio Yandê, “mais uma face do genocídio”.
Assistir a Terra Vermelha em 2016, oito anos após seu lançamento, é ainda uma experiência impactante e aflitiva. Mostra que o correr dos anos não serviu para nenhum tipo de resolução de uma situação de tamanha tragicidade e que prosseguimos atolados na lama de um Estado que pratica cotidianamente a banalidade do mal através de suas práticas de etnocídio institucionalizado.
O filme de Bechis foi lançado cerca de três anos antes daquilo que foi, em 2012, uma espécie de auge sinistro da saga Guarani-Kayowá e também o cume da sensibilização pública sobre a situação deles: naquela ocasião, 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças assinaram coletivamente uma carta que causou comoção ampla e na qual anunciavam o ritual de morte conhecido como jejuvy (tema do excelente artigo de Fabiane Borges e Verenilde Santos).
Era, como escreveu a BBC Brasil, o “anúncio de suicídio coletivo por parte dos Pyelito Kue, comunidade de 170 indígenas que expôs seu desespero após receber uma ordem de despejo da terra onde vive acampada. Na carta, os indígenas afirmavam que dali não sairiam vivos.” A matéria da BBC Brasil informava ainda que, segundo dados do Ministério da Saúde, “de 2000 até outubro de 2012, 555 indígenas dessa etnia cometeram suicídio, sendo a maior parte dos casos por enforcamento (98%) e cometidos por homens (70%), a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos.”
Uma onda surpreendente de solidarização tomou conta das redes sociais, com milhares de pessoas modificando seus sobrenomes no Facebook para “Guarani-Kayowá” – o que mereceu uma ótima matéria de Eliane Brum, em que analisou a “moda” que pegou nas redes sociais, a adoção da hashtag #SomosTodosGuaraniKaiowa e adoção do sobrenome Guarani Kaiowá por uma multidão de navegantes da Web (para esclarecer o fenômeno, Brum entrevistou figuras, que aderiram à campanha, como Eduardo Viveiros de Castro, Márcia Tiburi, Idelber Avelar, Marina Silva, dentre outros). A mobilização também gerou uma petição no site da Avaaz – Vamos impedir o suicídio coletivo… – que foi assinada por mais de 38.000 pessoas.
Para além do âmbito da WWW, manifestações também eclodiram: em 19 de Outubro de 2012, a Esplanada dos Ministérios, na capital federal, amanheceu com 5 mil cruzes fincadas em seu gramado; no fim do mês, um protesto unindo estudantes e indígenas, como relata o Zero Hora, também ocorreu em Brasília. A Funai soltou então uma nota oficial comentando que “reconhece a luta dos povos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, por suas terras tradicionais e esclarece que a determinação da comunidade de Pyelito Kue de não sair do local que considera seu território ancestral é uma decisão legítima.”
Já o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à CNBB (Comissão Nacional dos Bispos do Brasil), destacou: “Eles falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las.”
Dentre os múltiplos méritos do filme de Bechis, eu destacaria o seu poder de atravessar os anos com sua relevância intacta – o que não é boa notícia para o Brasil pois indica nossa crônica incapacidade de lidar com uma das piores desgraças que assola o nosso território: o genocídio patrocinado pelo agrobiz com o beneplácito do Estado. Terra Vermelha, por isso, merece lugar de honra na história da cinematografia brasileira junto a outras obras que revelam a distopia real do “Brasil Grande” satirizado no clássico Iracema – Uma Transa Amazônica (1974), de Jorge Bodansky e Orlando Senna.
Aquilo que o crítico Ismail Xavier apontou para Iracema – que se trata de uma “alegoria do desastre embutido no milagre brasileiro” e uma “figuração do desastre nacional” – talvez valha também para Terra Vermelha, retrato nu e cru de um país que não figura no cartão-postal do kitsch turístico mas sim no rol das horrendas violações dos direitos humanos que assolam este planeta.
“Paulo Pereio, no papel de Tião Brasil Grande, não leva Iracema (Edna de Cássia) a sério no road-movie. A circulação da jovem inocente que vem de comunidades ribeirinhas para Belém e se enreda com o caminhoneiro é uma jornada de ilusões perdidas, radical, grotesca. Vítima de um lance tão predatório quanto o da construção da transamazônica, a moça se faz alegoria do desastre embutido no milagre brasileiro, uma inversão antirromântica do sacrifício de Iracema, mãe do futuro, no romance de José de Alencar.” (XAVIER, Ismail. ‘Alegorias do Subdesenvolvimento’. Cosac e Naify, p. 23)
Terra Vermelha, um filme de mood realista e pessimista, não é um retrato primaveril da pátria Brasil. No começo do filme, vê-se placas do governo federal até alardeiam que se trata de “terra protegida”, mas o respeito pelas placas é menos que pífio. Os indígenas, longe de estarem em relativo isolamento em uma reserva onde pudessem resguardar sua cultura ancestral, estão em situação de constante choque cultural com o “mundo branco”, acossados por todos os lados pelas práticas gananciosas do povo da mercadoria.
A integração forçada ao mundo do neo-colonizador é descrita através de vários elementos: os indígenas já aprenderam a beber cachaça e tiveram os ouvidos martelados por hits da música sertaneja com refrões como “aí eu bebo, aí eu bebo, aí eu bebo pra carai”. Já sabem comprar fiado nos mercadinhos da cidade e muitos já se renderam a vender serviço braçal por trocados e migalhas, viajando amontoados em picapes para chegar no trampo dos canaviais.
A transmutação do indígena, habitante de uma floresta de vasta biodiversidade e que tira dela seu sustento, em um cidadão brasileiro miserável e espoliado, está em estado avançado de concretização. É como diz Viveiros de Castro: o plano do Estado nacional, por trás da perfumaria da “ordem e progresso”, é converter índio em mendigo. Um processo que empurra ao suicídio já que aniquila o enraizamento (conceito que empresto de Simone Weil e que é fecundo para refletirmos sobre o tema).
O background das peripécias da tribo Guarani-kaiowá não é mais a exuberância de uma floresta tropical repleta de uma fauna e flora de diversidade estonteante, mas sim o ruído dos tratores e as milhares de cabeças de gado que pastam sobre a terra arrasada. Eles não estão mais nem remotamente em seu ambiente originário, mas agora viajam em fretados que cospem sua fumaça tóxica para o ar. O motorista de um desses transportes de bóias-frias, interpretado por Matheus Nachtergaele, dirige um veículo que traz colado aos vidros adesivos que dizem “Jesus te ama!”, numa irônica menção à duvidosa “religiosidade” dos neo-colonizadores (que são capazes de praticar as maiores desumanidades, como a exploração de trabalho semi-escravo, e ainda assim dizerem-se “cristãos”).
O personagem de Matheus Nachtagaerle funciona como uma espécie de recrutador de mão-de-obra barata. Quando aparece trabalho numa fazenda, ele vai atrás de aliciar trabalhadores e os conduz em seu frete. Sabe das dondocas de Dourados que precisam de domésticas e sonda entre os Guarani em busca de “novinhas” que topem o trampo. Quando eles se recusam a sair do acampamento, como faz a liderança Guarani-Kayowá, Nádio, ao fincar pé no improvisado acampamento, anuncia: “depois não vá pedir que eu venda fiado, não vá dizer que não tem dinheiro para comprar comida!” (’36)
Em Terra Vermelha, os Guarani-Kauowá demandam seu direito a um território que, na visão dos brancos, tem dono: “essa terra é do Moreira”, anuncia o personagem de Matheus, que é também dono de um mercadinho da cidade. Na perspectiva dos Guarani, ao contrário, aquele pedaço de chão integra a tekoha – “o lugar onde podemos ser quem somos” -, espaço sagrado onde estão sepultados os antepassados. Eles começam a montar acampamento ali sob o olhar raivoso do fazendeiro Moreira (interpretado por Leonardo Medeiros). Munidos de maracas, à beira de fogueiras, cantam e ritmizam juntos, interrompidos pelo barulho dos caminhões que passam à beira da estrada.
Na beira da piscina, a madame, esposa de fazendeiro, lê sua revista de futilidades e bebe seu suco-de-laranja açúcarado de ócio. É servida por uma mulher que pode até parecer uma serviçal doméstica comum, mas é uma Guarani-kaiowá que vestiu-se como o branco gosta, aceitando receber ordens por um salário. Duas adolescentes da família latifundiária, de biquinis, deitadas à beira da piscina, atuam no filme como elos de ligação entre estes mundos que conversam tão mal. As moças decidem ir fumar um baseado no mato, para depois banharem-se no rio. Ali encontram com um rapaz Guarani que lhes explica, quando perguntado sobre a maraca que carrega: “isso aqui é um celular para falar com Nhanderu.” (’26)
Um grupo de Guaranis se aproxima do rio para encher seus baldes com água. O clima torna-se constrangedor para as duas branquelas de biquini. Na sequência, o fazendeiro observa-os andando com seus baldes d’agua por aquilo que chama de “sua propriedade” e logo dá uma pistola para um capanga e ordena: “estão entrando aí para pegar água, eu não quero que você deixe isso acontecer. Eu quero que você fique aqui como um espantalho, para botar medo neles!” (’29)
A “lógica” do fazendeiro é totalmente dominada pelo princípio do arame farpado: a cerca delimita sua propriedade privada, e tudo que está cercado, inclusive rios e florestas, tem dono. Este tem prerrogativa de fazer o que bem entender a água, a madeira, a floresta – são suas. O pistoleiro no trailer é ameaça constante que os ronda, com o revólver no coldre e ordens do patrão para que seja um espantalho. O fazendeiro Moreira, agressivo ao pisar no acelerador de seu carrão Ford, com o revólver sobre a cintura de sua calça jeans, mal disfarça seu desejo de se ver livre daquele acampamento de beira-de-estrada: “o lugar de vocês é na reserva!” Para sobreviver, os Guarani caçam na mata e conduzem a carne pelo acostamento, só para serem brutalmente solicitados pelo “dono do pedaço” a mostrarem a ele: “deixa eu ver a marca!” (’39) O fazendeiro está “p da vida” com aquele bando de índios folgados que não só “invadiram” seu território como também estão matando seu gado para se alimentarem.
Mesmo em meio a este cenário de radical desenraizamento imposto pela invasão do povo da mercadoria, os Guarani-kaiowá ainda buscam transmitir para as novas gerações os conhecimentos ancestrais: um dos mais idosos da tribo procura formar um jovem para tornar-se xamã; recomenda-lhe, durante o processo de aprendizado, que não toque em mulher e que não coma carne de vaca, um animal que considera “inimigo” (já a onça e a cobra ele considera como bichos amigos). Obediente, o jovem cospe a carne de vaca que começara a mastigar. À beira-rio, com sua maraca, canta em língua Tupi-Guarani. Porém, o candidato a futuro xamã está muito longe de qualquer pureza: para inspirar-se no transe, toma cachaça sem temperança; logo é interrompido pela filha do fazendeiro, que chegou ali de motocicleta e veio fumar um baseado escondida do papai. Ela lhe diz:
– Você matou a vaca, né? Não se preocupa não, meu pai tem um monte.
Maria, a filha do manda-chuva da pecuária, acha estranho o índio rezando na beira do rio e interessa-se por saber mais: ele explica que está entrando em comunicação com o Nhanderu pra saber o futuro das pessoas, pra adquirir poderes inauditos (até ameaça a moça: “rezando posso até quebrar a tua moto.” – ’50). No entanto, o fascínio gerado pelo veículo motorizado supera qualquer “purismo”: ele pede aulas de motocicleta, ela topa, ele sobe na garupa, um clima sensual se instaura. Da próxima vez, Maria chegará primeiro à beira-rio, despirá seu biquini, deixando seu corpo nu bem à vista do aspirante à xamã. De dentro d’água, lhe dirá apenas “vem, vem…” Ele irá. (’59) Contra o ideário segregacionista e latentemente racista do seu papai-fazendeiro, Maria praticará uma rebeldia adolescente que não deixa de ser simbólica de um desejo de mistura, de miscinegação, de transgressão de fronteiras étnicas artificialmente instituídas.
Em Terra Vermelha, Maria talvez esteja em secreta insurreição contra o pai Moreira e sua postura de autoritário, mandão e preconceituoso. Ao invés de aderir à doutrina do apartheid do pater famílias, ela prefere a aventura da descoberta de uma alteridade até então desconhecida, o experimento de abertura ao outro; entrega seu corpo num surto que talvez não seja só de tesão, mas de desejo de subversão de tabus iníquos. Fica óbvio que ela não toma precauções anticoncepcionais. O paizão nem suspeita que a filha possa estar carregando no ventre mais um dentre os inúmeros frutos da miscigenação na história deste território. Miscigenação: palavra difícil que no concreto do real ocorre muitas vezes através de uma simples trepada-de-rio.
O gado do Moreira começa a adoecer. Um boi cai morto, sem marca de cobra nem sinal de febre aftosa. Em busca da causa, elenca-se a possibilidade do “feitiço de índio”. Evoca-se uma flecha fincada no chão da fazenda e que Nádio havia alertado: “não chega perto dela ou você pega doença.” Para além do misticismo que há na sugestão de “feitiços diabólicos” praticados por xamãs índios, será assim tão implausível supor que os Guaranis dominem também tecnologias da morte capazes de aniquilar ao menos algumas das “cabeças-de-gado” que sentem como intrometidas e invasivas imposições dos caras pálidas?
As relações dos homens brancos com as mulheres indígenas também revelam elementos de conflituosidade. No trailer, o pistoleiro ameaça um início de aproximação sexual com a senhora Guarani-Kayowá – ela, malandra, esquiva-se e rouba-lhe um queijo. Em outra cena, o empregado do fazendeiro dá uma “encoxada” na índia-que-deveio-doméstica que está lavando roupa no tanque. Vislumbres da patriarcal cultura-do-estupro rondam as relações. Mas a mulher do latifundiário está longe de ser feminista ou defensora da causa indígena. A patroa envia sua doméstica, com grana-de-propina, para subornar os acampados; oferece trabalho, sob a condição de que voltem para a reserva. Mas a floresta, para eles, está assombrada por Anguè, a “alma dos defuntos”, os espectros dos mortos. Pressionados pela miséria, pela falta de alimento, pela dificuldade de caçar o próprio rango, eles acabam aceitando ofertas de trabalho pelas fazendas, tornam-se neo bóias-frias.
Com requintes de crueldade, o latifundiário ordena que um avião sobrevoe a área do acampamento e despeje ali veneno. A morte por agrotóxico teleguiado evoca as crueldades Yankee no Vietnã com o napalm. (’62) Evoca também o método da Polícia Militar de reprimir manifestações com o uso de armas químicas como as bombas de gás lacrimogêneo (chamadas, de modo eufemístico, “de efeito moral”, quando são de fato um artefato de chemical warfare que merece uma crítica contundente como a berrada pelos Dead Kennedys).
Na cidade grande, os adolescentes Guarani andam através de um corredor polonês de anúncios publicitários, vitrines cheias de tênis, concessionários que vendem carros e motos, redes de restaurantes fast food. O filme deixa sugerido, subliminarmente, que assim são inoculados sonhos de consumo que agem concretamente como a-culturação, como imposição de desejos e valores daquela civilização da mercadoria que prossegue sua campanha colonizadora etnocida, passando sobre os cadáveres dos que resistem como um trator faz com pequenos bichos que esmaga sobre o asfalto.
O adolescente Guarani, codinome Irineu, que aceita o trampo temporário do branco, retorna ao acampamento com um tênis novinho no pé, comprado com seu trabalho, mas é repreendido por seu pai Nádio, líder do “movimento”. O garto é expulso do grupo como um traidor que se vendeu para o fazendeiro. Nos cigarros industrializados que fumam, nos bonés com logomarcas que portam, nas bermudas e calçados que vestem, está sinalizada a invasão impiedosa da civilização mercadológica.
O colapso de Nádio, que desmaia sobre a terra vermelha com o tênis comprado pelo filho na mão, serve como emblema de um estado psíquico levado ao extremo do nervous breakdown. O estopim deste colapso é a visão do filho Irineu, suicidado, pendendo pelo pescoço de uma árvore. A culpa deve ser aterradora na psique de Nádio, que acabara de expulsar o filho para puni-lo e ensiná-lo uma lição; ele, que quis realizar uma espécie de pedagogia do enraizamento, acabou por desenraizar o filho ainda mais. O tênis Nike será enterrado na mesma cova que o jovem morto.
Terra Vermelha, apesar de ficar bem longe de ser um filme-tese, sugere e ensina que o suicídio de tantos membros da tribo Guarani-Kaiowa explica-se não por mero desajuste individual, mas por complexas questões sociais que quase “empurram” a pessoa à auto-aniquilação. Na linguagem de C. Wright Mills em The Sociological Imagination, eu diria que não se trata de um personal trouble, mas de um social issue.
O filme culmina em cenas que apontam a impossibilidade de qualquer solução conciliatória ou pacifista diante de tal cenário distópico. Com a pele pintada com tinta negra, munidos de arco e flecha, em formação tática militar, os Guarani vão à guerra. A mulher índia, carregando cachaça, dirige-se ao trailer para trepar com o pistoleiro-espantalho: o ímpeto sexual não respeita fronteiras étnicas, ele deixa-se levar, enchaça-se, fode e desmaia. Depois da trepada, ela foge com a pistola. Os índios cercam o trailer e obrigam o branquelo a tornar-se refém.
Moreira esbraveja contra os “invasores” de uma terra que considera sua propriedade, de direito: ele tem os papéis de cartório para provar que é dono. Com firma reconhecida e tudo. Ele pega nas mãos um punhado de terra e discursa: “Essa terra aqui, o meu pai chegou aqui há mais de 60 anos, são três gerações, eu nasci aqui, a minha filha foi criada aqui. Eu trabalho nessa terra aqui, de sol a sol, pra fazer disso um lugar produtivo. Eu planto comida pras pessoas comerem.”
A resposta de Nádio é mimetizar o gesto de Moreira, também pegando um punhado de terra nas mãos, para em seguida, em silêncio, levá-la à boca. É uma cena de denso simbolismo, que talvez nem mereça ser explicada, pois assim perderia seu potencial semântico de despertar várias interpretações do espectador. Digo somente que este gesto – o contato da língua e dos dentes com a terra vermelha – é decerto um contato empírico com a terra muito mais íntimo do que aquele contato com a terra do fazendeiro Moreira, que lida com o território através das mediações de papéis e cercas. Aqui, a phýsis do intercâmbio indígena com a terra, enraizado numa ancestralidade que remonta às civilizações pré-colombianas, contrasta coma húbris do latifundiário ganancioso que se pretende “dono” daquilo que seus antepassados roubaram e colonizaram.
Se Moreira hesita em contratar algum capanga para assassinar uns índios, não é por piedade, gentileza ou laivos de ética cristã; é somente porque teme que as suspeitas recaiam sobre ele. Mas a solução “capanga” acaba por vencer: é o modus operandi já consagrado pelas elites do agrobiz no MS. O que significa que latifundiário mandante-de-assassinato é uma das facetas da banalidade do mal em terra brasilis. O tiro letal em Nádio derruba mais sangue sobre a terra vermelha dele já encharcada. Um sangue que tem corrido aos borbotões desde o “Descobrimento” e que prossegue hoje neste descalabro nacional que alguns querem celebrar como pátria da Ordem e Progresso…
Com as mãos sujas de pólvora, os capangas de Moreira são funcionários desta maquinaria etnocida-genocida. O patrão, ordenador do crime, foge correndo: “vou passar uns 3 ou 4 meses fora até que essa situação se resolva.” (’89) Irrompe no cenário piscinesco da realeza rural aristocrática o jovem Guarani Kaiowá, em estado de descontrolada rebeldia, num estado em que a fúria ainda não cedeu lugar ao luto. E até mesmo Maria é vítima de suas flechas verbais e gritos raivosos; “Maria, você também, sua vagabunda, sua vadia, sua biscate! Covardes! E agora fogem! Seu filho da puta! Você o matou! Seus desgraçados!” Sob a mira da arma, ele pede: “dê um recado pro teu patrão, eu vou pegar ele ainda! Vou cortar a cabeça dele!” Na mata, ele flerta com o suicídio, chega a pôr a corda no galho e o pescoço na corda, mas na hora H desiste; celebra sua desistência do suicídio como vitória; resistirá na existência, mesmo que seja com o combustível selvagem e sombrio de uma vendeta ansiada. Sem redenção, o filme encerra-se prenunciando que a terra seguirá vermelha – não de natural vermelhidão, mas do vermelho do sangue que flui aos borbotões dos corpos indígenas trucidados pela marcha inexorável do Desenvolvimento…
A câmera sobrevoa um oceano de verde e desliza depois para a devastação do desmate. A mensagem é clara: se tudo continuar como está, a mata biodiversa desata a virar deserto; se o business as usual prosseguir, continuará a carnificina. Para terminar, informa-se que aqui viviam cerca de 5 milhões de pessoas quando chegaram os primeiros europeus e que a maioria dos povos originários foram dizimados pela invasão. Hoje, “o genocídio continua.” Os dados não mentem – e são estarrecedores. Como lembra Frei Betto:
“Dados do CIMI indicam que, entre 2003 e 2011, foram assassinados, no Brasil, 503 índios. Mais da metade – 279 – pertence à etnia Guarani-Kaiowá. Em protesto, a 19 de outubro de 2012, em Brasília, 5 mil cruzes foram fincadas no gramado da Esplanada dos Ministérios, simbolizando os índios mortos e ameaçados. (…) A Constituição abriga o princípio da diversidade e da alteridade, e consagra o direito congênito dos índios às terras habitadas tradicionalmente por eles. Essas terras deveriam ter sido demarcadas até 1993. Mas, infelizmente, a Justiça brasileira é extremamente morosa quando se trata dos direitos dos pobres e excluídos. Um quarto de século após a aprovação da carta constitucional, em 1988, as terras dos Guarani-Kaiowá ainda não foram demarcadas, o que favorece a invasão de grileiros, posseiros e agentes do agronegócio.(…) Ao chegarem aqui os colonizadores portugueses – equivocamente qualificados nos livros de história de “descobridores” – se depararam com mais de 5 milhões de indígenas, que dominavam centenas de idiomas distintos. A maioria foi vítima de um genocídio implacável, restando hoje, apenas, 817 mil indígenas, dos quais 480 mil aldeados, divididos entre 227 povos que dominam 180 idiomas diferentes e ocupam 13% do território brasileiro.” (FREI BETTO, Portal Vermelho)
O cinema revela-se, em Terra Vermelha, uma força social capaz de mobilizar sua maquinaria narrativa e dramatúrgica num empreendimento que não visa apenas contar uma história baseada em fatos reais, mas que pretende também agir sobre o real de modo transformador ao impactar a sensibilidade e instigar a empatia dos espectadores. Mais do que mera testemunha apática e passiva da desgraça, a câmera cinematográfica faz-se agente de denúncia e conscientização, realizando uma alegoria da desumanidade que ressoa através dos séculos neste país onde a Ditadura do Lucro não cessa de derramar sobre a terra vermelha o copioso sangue dos involuntários da pátria.
Por Eduardo Carli de Moraes, Setembro de 2016

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CINEMA



Divulgado trailer de 'A Era do Gelo: O Big Bang'


A continuação do desenho animado tem previsão de estreia para o dia 7 de julho no Brasil




(O Povo) A Fox Film Brasil divulgou nesta terça-feira, 15, o primeiro trailer do novo filme da franquia de desenho animado 'A Era do Gelo'. Intitulado 'A Era do Gelo: O Big Bang', o longa trará novas aventuras de Sid, Manny, Diego e o resto do grupo.

A trama contará a épica perseguição de Scrat pela noz que o impulsionou ao universo, onde ele acidentalmente desencadeia uma série de eventos cósmicos que transformam e ameaçam A Era do Gelo. Para salvarem-se, Sid, Manny, Diego e o resto do grupo devem deixar sua casa e embarcar em uma missão cheia de comédia e aventura, viajando por novas terras exóticas e encontrando uma série de novos personagens coloridos.

No quinto filme da franquia da Fox, os dubladores: Ray Romano (o mamute Manny), Queen Latifah (a mamute Ellie), John Leguizamo (a preguiça Sid) e Denis Leary (o tigre dente-de-sabre Diego) retornam.

'A Era do Gelo: O Big Bang' tem estreia prevista para o dia 7 de julho de 2016.



 Fonte: http://gaea-astronomia.blogspot.com.br/2015/12/divulgado-trailer-de-era-do-gelo-o-big.html

terça-feira, 11 de agosto de 2015

CINEMA



CINEMA

Curta rodado em Assis Chateaubriand 

ganha o mundo


Curta-metragem paranaense será exibido em festival de Hollywood

O ator Lourinelson Vladmir protagoniza o curta-metragem. | Divulgação
O ator Lourinelson Vladmir protagoniza o curta-metragem.


A paisagem que serve de pano de fundo ao cinema brasileiro costuma se repetir: as produções estão restritas aos centros urbanos ou ao sertão nordestino. Difícil encontrar filmes que retratem cidades do interior do país. Foi essa regra que serviu de motivação ao fotógrafo paranaense Luiz Maximiano para rodar o curta-metragem “O Céu Sobre os Teus Ombros” em sua cidade natal, Assis Chateaubriand, no Oeste do estado.
Na próxima segunda-feira (17), a produção, filmada em março deste ano, chega a Hollywood – será exibida no festival HollyShort Film Festival, um dos mais importantes do circuito de curtas nos Estados Unidos. A projeção acontece na famosa sala do Chinese Theater, construída na década de 1920 e que abrigou a cerimônia do Oscar por anos.
“O filme tem um quê de autobiográfico”, diz Maximiano, que é radicado em São Paulo desde os 18 anos (foi estudar Publicidade e Propaganda na ESPM), e trabalha como fotógrafo freelancer para revistas como “Rolling Stone”, “Newsweek”, entre outras – também já expôs em museus como o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, com a individual “Paquistão – Um País, Diversas Guerras”, em 2013.
A angústia do protagonista (o ator Lourinelson Vladmir, de “Curitiba Zero Grau”) tem a ver com a sensação de aprisionamento que o diretor sentia quando vivia em Assis. “Cresci na cidade sem internet. Tinha uma banca de revistas, era o único acesso ao mundo. Não tinha loja de discos, biblioteca, nada. A adolescência no interior era um tédio profundo. Se você não tiver a cabeça um pouco mais no lugar, fica preso naquele mundo. Vai para o primeiro trabalho, casa aos 18 anos, tem filhos e é isso, enquanto tem um mundo lá fora”, fala.
Mas há outras interpretações possíveis para o filme, diz, como a ansiedade sufocante da vida moderna, que nos paralisa.
O curta foi rodado sem nenhum tipo de edital ou incentivo público: ele tirou dinheiro do próprio bolso e contou com uma equipe enxuta. O roteiro foi escrito em novembro do ano passado, mas a feitura ainda parecia distante. “E aí meu pai comprou o Corcel que aparece no filme. Pedi para ele não lavar, deixar exatamente como estava, e o filme surgiu dali.”
As filmagens duraram três dias, mesmo com o atraso no cronograma – elas se iniciaram assim que Vladmir chegou em Assis – mas uma chuva inesperada acabou deixando os carros atolados na estrada de chão onde se passa o curta. “No outro dia, saiu sol e seguimos em frente”, conta o diretor.

Cenário

O que mais surpreende no curta é o aspecto que mais interessa Maximiano: a paisagem. “Sempre achei o céu do Oeste incrível, é sempre maravilhoso. E ninguém filma lá, é muito difícil levar as produções para fora das capitais, porque encarece muito. E eu sempre achei legal mostrar a região.” O vasto milharal na beira da estrada combinou com o quê surreal da produção. “Que é o que o filme propõe, ser uma espécie de delírio.”
Depois que retornar do HollyShort Film Festival, o diretor pretende continuar trabalhando em uma nova ideia para o cinema. Novamente, com o contexto do interior.
“Já estou escrevendo o roteiro. Fala de um garoto que gosta de rock e é um ótimo músico, mas ganha a vida cantando sertanejo.”

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/cinema/curta-rodado-em-assis-chateaubriand-ganha-o-mundo-6jhq4n3hr92gfvee7f3s91vpw