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terça-feira, 11 de agosto de 2015

CINEMA



CINEMA

Curta rodado em Assis Chateaubriand 

ganha o mundo


Curta-metragem paranaense será exibido em festival de Hollywood

O ator Lourinelson Vladmir protagoniza o curta-metragem. | Divulgação
O ator Lourinelson Vladmir protagoniza o curta-metragem.


A paisagem que serve de pano de fundo ao cinema brasileiro costuma se repetir: as produções estão restritas aos centros urbanos ou ao sertão nordestino. Difícil encontrar filmes que retratem cidades do interior do país. Foi essa regra que serviu de motivação ao fotógrafo paranaense Luiz Maximiano para rodar o curta-metragem “O Céu Sobre os Teus Ombros” em sua cidade natal, Assis Chateaubriand, no Oeste do estado.
Na próxima segunda-feira (17), a produção, filmada em março deste ano, chega a Hollywood – será exibida no festival HollyShort Film Festival, um dos mais importantes do circuito de curtas nos Estados Unidos. A projeção acontece na famosa sala do Chinese Theater, construída na década de 1920 e que abrigou a cerimônia do Oscar por anos.
“O filme tem um quê de autobiográfico”, diz Maximiano, que é radicado em São Paulo desde os 18 anos (foi estudar Publicidade e Propaganda na ESPM), e trabalha como fotógrafo freelancer para revistas como “Rolling Stone”, “Newsweek”, entre outras – também já expôs em museus como o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, com a individual “Paquistão – Um País, Diversas Guerras”, em 2013.
A angústia do protagonista (o ator Lourinelson Vladmir, de “Curitiba Zero Grau”) tem a ver com a sensação de aprisionamento que o diretor sentia quando vivia em Assis. “Cresci na cidade sem internet. Tinha uma banca de revistas, era o único acesso ao mundo. Não tinha loja de discos, biblioteca, nada. A adolescência no interior era um tédio profundo. Se você não tiver a cabeça um pouco mais no lugar, fica preso naquele mundo. Vai para o primeiro trabalho, casa aos 18 anos, tem filhos e é isso, enquanto tem um mundo lá fora”, fala.
Mas há outras interpretações possíveis para o filme, diz, como a ansiedade sufocante da vida moderna, que nos paralisa.
O curta foi rodado sem nenhum tipo de edital ou incentivo público: ele tirou dinheiro do próprio bolso e contou com uma equipe enxuta. O roteiro foi escrito em novembro do ano passado, mas a feitura ainda parecia distante. “E aí meu pai comprou o Corcel que aparece no filme. Pedi para ele não lavar, deixar exatamente como estava, e o filme surgiu dali.”
As filmagens duraram três dias, mesmo com o atraso no cronograma – elas se iniciaram assim que Vladmir chegou em Assis – mas uma chuva inesperada acabou deixando os carros atolados na estrada de chão onde se passa o curta. “No outro dia, saiu sol e seguimos em frente”, conta o diretor.

Cenário

O que mais surpreende no curta é o aspecto que mais interessa Maximiano: a paisagem. “Sempre achei o céu do Oeste incrível, é sempre maravilhoso. E ninguém filma lá, é muito difícil levar as produções para fora das capitais, porque encarece muito. E eu sempre achei legal mostrar a região.” O vasto milharal na beira da estrada combinou com o quê surreal da produção. “Que é o que o filme propõe, ser uma espécie de delírio.”
Depois que retornar do HollyShort Film Festival, o diretor pretende continuar trabalhando em uma nova ideia para o cinema. Novamente, com o contexto do interior.
“Já estou escrevendo o roteiro. Fala de um garoto que gosta de rock e é um ótimo músico, mas ganha a vida cantando sertanejo.”

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/cinema/curta-rodado-em-assis-chateaubriand-ganha-o-mundo-6jhq4n3hr92gfvee7f3s91vpw

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

MOBILIZAÇÃO INDÍGENA





Dezenas de manifestações estão acontecendo em várias cidades do país, incluindo capitais. É a semana de Mobilização Nacional Indígena, convocada pela Articulação nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) para defender as conquistas da Constituição de 1988, que completa 25 anos. 
A iniciativa tem o o apoio do Greenpeace
 e outras ONGs,  entidades e pessoas de todo o pais. 



Os protestos tem como alvo principal a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, apresentada em 2000, retomada com força este ano pela bancada de representantes do agronegócio, e que aguarda agora instalação de comissão especial na Câmara. O projeto pretende mudar o texto constitucional para transferir ao Legislativo a palavra final sobre demarcações de terras indígenas e quilombolas no país. Atualmente, a demarcação dos territórios tradicionais é uma atribuição exclusiva do governo federal, por meio da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Ministério da Justiça e da Presidência da República.

Em Brasília, indígenas fizeram o enterro simbólico de parlamentares e ministros. Cerca de 1.500 participantes de mais de 100 povos estiveram no ato realizado nesta semana, pedindo, dentre outras coisas, o respeito ao caráter multiétnico e pluricultural reconhecido pela Constituição Federal.


No Oeste do Paraná, awá-guaranis protestam e reúnem-se com o prefeito de Guaíra, cidade na fronteira com o Paraguai que conta com 8 aldeias ou acampamentos indígenas


Os awa-guaranis de Guaíra/PR participaram da Mobilização e
reuniram-se com o prefeito da cidade
As manifestações realizadas no Oeste do Paraná tinham o mesmo objetivo, mas os awá-guaranis dos municípios de Guaíra e Terra Roxa buscam principalmente agilidade na demarcação da terra e o apoio das autoridades municipais neste sentido, por acreditarem que assim o relacionamento entre as comunidades indígenas existentes e os brancos residentes na cidade vai melhorar, assim como as condições das aldeias, que estão localizadas em áreas ocupadas e, por isso, têm dificuldades em receber investimentos públicos do município.



Os integrantes das comunidades indígenas se prepararam na
ainda na noite anterior para a manifestação havida no dia 02
de outubro em Guaíra. Nas fotos, a vice cacique e líder espitirual
da aldeia Tekohá Y'vohy, Paulina Kunha Rokavy Ponhy Martines
 no ritual, a noite, e antes da saída para a manifestação em Guaíra/PR.











Depois do trajeto entre a aldeia Y'hovy e o centro da cidade, os awá-guaranis se concentraram em frente da prefeitura
da cidade Guaíra...

...e conseguiram uma audiência com o prefeito
da cidade, onde expuseram seus objetivos
O cacique Ilson Soares, da aldeia Y'hovy , cobrou
do executivo municipal um posicionamento mais
efetivo nas outras esferas de poder
Assim, doze caciques, além de vice caciques reuniram-se com o prefeito Fabian Vendrúsculo, da cidade de Guaíra, Oeste do Paraná, buscando seu apoio para a demarcação de suas terras e solução de problemas locais nas áreas de saneamento, saúde, transporte e educação das oito aldeias existentes no município, e outras cinco localizadas nos municípios vizinhos de Terra Roxa e Santa Helena. 


A awá-guarani Paulina Martines na audiência, tendo ao fundo o cacique
Ilson Soares. Ambos da aldeia Y'hovy .
"Não fugiremos mais, como nossos pais e parentes faziam. Não há mais para onde ir", disse na audiência com o prefeito, Paulina Martines, a jovem vice cacique e líder espiritual da aldeia Y'hovy, que foi a principal porta voz dos objetivos da manifestação. 
No encontro, realizado na manhã da quarta-feira, 02, na sala de reuniões do gabinete da Prefeitura Municipal de Guaíra, ela afirmou que, além de mostrar à região que também se mobilizaram contra as iniciativas governamentais e pela imediata demarcação, as comunidades indígenas de Guaíra buscaram, com a iniciativa, estabelecer uma parceria, um diálogo com o governo municipal, no sentido de minimizar o problema do preconceito e da discriminação que a população indígena sofre na sociedade guairense, atingindo não só os adultos nas atividades diárias de cidadão brasileiro como ir banco, ao mercado, ou ao posto de saúde, mas, especialmente, as crianças nas escolas das redes municipais e estaduais de ensino. 

O saldo positivo imediato para os awá-guarani de Guaíra, foi a promessa da realização de uma reunião mensal para saber da situação das aldeias indígenas do município e ajustar eventuais emergências. Na prática, não deixar os indígenas desamparados em situações limites, já que a maioria das aldeias não conta nem com água encanada, nem com energia elétrica, nem outros serviços de saúde ou saneamento. 



Mas, como disse o cacique Ilson Soares (foto acima), ao final da manifestação na Tekohá-Porã do município de Guaíra, encontrar-se com o prefeito uma vez por mês não vai solucionar a questão da demarcação que, para eles, é o que trará dignidade ao povo indígena.

Segue a íntegra da carta das treze aldeias dirigida à comunidade e às autoridades:


Nós, lideranças Avá-guarani das regiões oeste e centro oeste do Estado do Paraná, Brasil. Sendo: Tekohá Marangatu , Tekohá Y’Hovy, Tekohá Porâ, Tekohá Karumbey, Tekohá Jevy, Tekohá Tatury, Tekohá Guarani e Tekohá Miri do município de Guairá; Tekohá Araguaju, Tekohá Pohâ Renda, Tekohá Ñemboete, Tekohá Yvyraty Porá e Tekohá Tajy Poty no município de Terra Roxa; Tekohá Vy’a Renda no município de Santa Helena.
Reunidos na Aldeia Y’Hovy/Eletrosul, Guairá-PR, no dia vinte e oito de setembro de dois mil e treze, discutimos as questões que são do interesse do povo Guarani. A precária realidade que os poderes públicos do Brasil desconhecem (as três esferas do poder).
Falar dos nossos direitos, enquanto povos indígenas, é voltar um olhar para as situações complexas que vivemos todos os dias, principalmente quanto aos conflitos decorrentes da disputa sobre a terra.
Convencer positivamente sobre os nossos direitos constitucionais é um desafio constante. Mas é preciso vencer a visão de que terras indígenas e/ou a luta pela demarcação de terra são empecilho ao desenvolvimento ao desenvolvimento econômico de um estado ou do país ou, por outro lado, de exploração.
A constituição Federal de 1988, em seu artigo 231, reconhece a nós, povos indígenas, o direito à diferença, consubstanciada no reconhecimento de nossa organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e nossos direitos originários sobre as terras que ocupamos.        
O nosso direito territorial é originário e anterior às ocupações não indígenas. Por isso, o poder público (Legislativo, Executivo e Judiciário) tem o dever constitucional de demarcar e de proteger, salvaguardar o que diz a Constituição.
Por isso, nós, avá-guarani desta região do Paraná, assim como os indígenas de todas as outras etnias do Brasil, manifestamos o nosso repúdio às propostas e projetos de lei que tem o objetivo de restringir os nossos direitos, violando a Constituição Federal e ferindo a dignidade do nosso povo, que sempre esteve neste país, não viemos de fora.
Tais propostas trazem um grande retrocesso à história do Brasil. É como se voltássemos ao período de colonização ou da ditadura militar. Propostas como a Emenda Constitucional - PEC 215, que passa do Executivo para o Legislativo a competência da demarcação, a criação de novas terras indígenas e também de rever limites das terras já demarcadas violam direitos só recentemente pelos povos indígenas.
Outra proposta que também vem sendo uma afronta aos nossos direitos é o Projeto de Lei Complementar 227/2012, que tem como objetivo permitir a exploração dos recursos minerais em terras indígenas. E, como se não bastasse, em 2012 foi emitida a portaria 303 da Advocacia Geral da União que, constitucionalmente impõe 12 condicionantes a serem aplicadas na demarcação da Raposa Serra do Sol. E, agora, em 2013, a criação da PEC 137, que avilta o artigo 6º na Constituição Federal, sendo que estes são direitos conquistados por cada cidadão garantindo o direito de se manifestar, do respeito à diferença étnico-racial e a convivência de acordo com os costumes e tradições de cada povo.
Nós repudiamos essas propostas e projetos de lei, pois sabemos que são  inconstitucionais, estão desrespeitando a Constituição Federal. Elas foram criadas por políticos com o objetivo de beneficiar os ruralistas e o agronegócio que já destruiu mais de 60% das terras brasileiras, sendo que esta produção é toda exportada, e portanto, não é voltada para a população brasileira.
O agronegócio, até hoje, só tem beneficiado grandes ruralistas e também outros países, porque, da mesma forma, a população carente não indígena também vive em situação desumana, sem educação ou saúde de qualidade. Sem deixar de lembrar as comunidades quilombolas, que também são obrigadas a viver de maneira muito precária.
Através deste documento, manifestamos que é uma vergonha para o nosso país a forma com que o governo e os políticos vêm tratando a população em geral, oprimindo as comunidades indígenas, os quilombolas, os ribeirinhos e etc. Tudo isso para fortalecer o latifúndio e os grandes empreendimentos que, de maneira devastadora, vem tomando conta de nosso país.
Repudiamos também a medida provisória que autoriza o uso indevido de agrotóxicos e a reforma do Código Florestal, que permite cultivar praticamente dentro dos rios e, assim, destruir de vez a vida do chão que todos nós necessitamos para continuarmos vivos.
No oeste do Paraná, nas cidades de Guairá e Terra Roxa, nós guaranis lutamos pela terra, não para prejudicar o ruralista, mas sim porque esses dois municípios sempre pertenceram ao nosso povo, e, hoje, querem provar o contrário hipocritamente, de forma discriminatória, dizendo palavras horríveis a nosso respeito, começando pela esfera municipal em Guaíra.
Exigimos destes municípios, no mínimo, a metade do que era nossa terra de volta e que nos respeitem e nos aceitem como somos, um povo diferente com valor específico.
E, mais uma vez, estamos deixando bem claro que, a reintegração de posse não resolverá nada, pois estamos decididos que não sairemos de onde estamos. Porque, por muito tempo, os não indígenas assistiram da arquibancada as derrotas de nossos antepassados e outros, correndo, deixando suas terras, para que hoje, os não indígenas se considerem “donos das propriedades compradas”.
Mas os tempos mudaram, hoje queremos justiça pelo sangue derramado dos nossos parentes, hoje não temos mais medo dos não indígenas, portanto, não correremos mais. E depois, ir para onde? Se o Brasil é o país dos povos indígenas.
Se hoje somos considerados um problema para o desenvolvimento é porque, no passado, foram cometidos erros que até hoje não são admitidos. E é necessário que se resolva enquanto há tempo, para que, no futuro, não se repita e para que a situação não se torne incontrolável.

Gratos pela atenção! 


Texto e Fotos: Ana Maria de Carvalho
Fontes: http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas&i=todos&Id_t=15
http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=10779
http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=10782













sábado, 8 de junho de 2013

OS ÍNDIOS DE GUAÍRA/PR


Guaíra: “O índio sempre foi um símbolo da cidade”. 

 

Entrevista especial com Diogo de Oliveira


IHU – Em Guaíra criou-se um cenário de que os índios vão invadir as casas e, por causa deles, terras serão desapropriadas. Então, foi criado um terrorismo e uma histeria na população, que a fez ficar extremamente xenofóbica”, informa Diogo de Oliveira em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.
Segundo ele, os conflitos contra os indígenas aumentaram após declaração do governo do Estado do Paraná. “O conflito não seria tão grave quanto se tornou por conta dessas falsas notícias. Foi algo intencional, inclusive, para desvalorizar o mercado imobiliário para alguns investidores se aproveitarem dessa desvalorização na região”, esclarece.
Indigenista da Funai, Diogo de Oliveira explica que os 1400 indígenas residentes em 13 aldeias das cidades de Guaíra e Terra Roxa “reivindicam a realização de um estudo para que as terras sejam demarcadas”. De acordo com ele, um estudo já foi iniciado por um grupo técnico da Funai em 2009, mas não foi concluído. “Os indígenas querem que o estudo seja retomado para que se possa definir qual é a área que pode ser demarcada. Não existe uma reivindicação a priori determinando um número ‘x’ de hectares”.
Na entrevista a seguir, ele critica a decisão de a Embrapa emitir pareceres acerca da demarcação de terras indígenas. “A Embrapa, historicamente, é uma instituição que se posiciona contra as terras indígenas em Unidades de Conservação. Ela já se manifestou várias vezes dizendo que as Unidades de Conservação são um impedimento para a expansão do agronegócio. Então, é uma instituição contra a regularização fundiária para as populações indígenas”, adverte.
Diogo de Oliveira é coordenador técnico da Funai em Guaíra.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual a situação dos indígenas que vivem em Guaíra? O que pode nos relatar sobre os conflitos na região?  
Diogo de Oliveira – A situação das aldeias de forma geral é de extrema precariedade: falta saneamento básico, água potável, atendimento à saúde. A razão disso é que existia uma política de remover os índios dessas terras, e a estratégia para removê-los é o abandono e a falta de atendimentos básicos. Atualmente 1400 índios vivem em 13 aldeias, oito delas em Guaíra e cinco em Terra Roxa, cerca de 500 famílias.
IHU On-Line – Os indígenas que vivem em Guaíra, PR, são acusados pelos setores dominantes locais de serem paraguaios que estão invadindo terras no Brasil. Qual é a historia desses indígenas? 
Diogo de Oliveira – Essa alegação de índios paraguaios é um absurdo, uma falácia inventada para deslegitimar a ocupação indígena e para gerar uma opinião pública contrária. As populações de Guaíra e Terra Roxa estiveram aqui e remanesceram ao longo do processo histórico. Foram feitas várias políticas para expropriá-los para o interior do Paraná ou para o Mato Grosso do Sul, mas vários grupos permaneceram com relações de parentesco, se organizaram na cidade e a população foi aumentando desde os anos 1980 e hoje temos esse quadro.
IHU On-Line – Qual a reivindicação deles em relação à demarcação das terras? Qual a situação legal das terras em Guaíra e Terra Roxa?
Diogo de Oliveira – Eles reivindicam a realização de um estudo para que as terras sejam demarcadas. Um estudo foi iniciado por um grupo técnico da Funai em 2009, mas a antropóloga coordenadora não entregou o estudo, então, o estudo está parado. Os indígenas querem que o estudo seja retomado para que se possa definir qual é a área que pode ser demarcada. Não existe uma reivindicação a priori determinando um número “x” de hectares. Como o processo de estudo e demarcação das terras é demorado, temos trabalhado para garantir a eles os serviços básicos de acesso à cidadania: água, saneamento, educação.
A situação legal é que existem áreas próximo ao perímetro urbano e áreas de ocupação muito antigas, e a cidade expandiu sob essas áreas. Existem outras áreas na zona rural e algumas têm ações de reivindicação de posses que estão paradas na justiça, têm ações determinando que os índios fiquem em algumas áreas e saiam de outras, ou seja, trata-se de uma situação jurídica bastante complexa.
IHU On-Line – Por que a demarcação de reservas indígenas foi interrompida a pedido da Casa Civil? Como vê essa medida?
Diogo de Oliveira – Essa interrupção foi formalizada à Funai e não resolve o problema fundiário do conflito. Os agricultores continuam com insegurança fundiária no campo, e os índios continuam com insegurança nas ocupações que fazem, sem ter apoio jurídico do poder público diante dos seus direitos.
IHU On-Line – Como avalia a nova medida de que as demarcações de terras indígenas no RS, SC e MS serão submetidas a parecer da Embrapa? 
Diogo de Oliveira – A Embrapa, historicamente, é uma instituição que se posiciona contra as terras indígenas em Unidades de Conservação. Ela já se manifestou várias vezes dizendo que as Unidades de Conservação são um impedimento para a expansão do agronegócio. Então, é uma instituição contra a regularização fundiária para as populações indígenas.
O processo de regularização das terras é moroso, passa por várias etapas e tendo uma instância, dentro do governo, declaradamente opositora à demarcação das terras indígenas, tende a não se conseguir resolver os problemas que temos no país no processo de regularização fundiária. Essa é uma medida precipitada porque não vai conseguir dar agilidade e resolver os problemas.
IHU On-Line – Qual a posição do Estado em relação à Funai? Quais os desafios de trabalhar nesse órgão?
Diogo de Oliveira – No Oeste do Paraná foi criada uma tensão pelo próprio governo do Estado, dizendo que a Funai incentiva os conflitos, invasões de terras, quando na verdade estamos na região tentando distensionar a situação de conflito e atender aos direitos das populações indígenas. Não podemos deixá-los desassistidos. Hoje, dentro da Funai, o investimento é destinado à qualidade da formação profissional, apesar de todos os empecilhos e dificuldades políticas. Temos também uma dificuldade estrutural, porque a equipe técnica é pequena, mas ao mesmo tempo há qualidade do corpo técnico. O volume de trabalho é muito grande e lidar com o conflito é difícil.
IHU On-Line – Pode nos relatar as situações de conflito que ocorrem entre fazendeiros e indígenas? Eles são recorrentes?
Diogo de Oliveira – Os índios não têm um clima de tensão. O que acontece é que muitos fazendeiros entram armados nas aldeias. Em Guaíra criou-se um cenário de que os índios vão invadir as casas e, por causa deles, terras serão desapropriadas. Então, foi criado um terrorismo e uma histeria na população que a fez ficar extremamente xenofóbica com os índios, tratá-los mal.
Para piorar, a agência do governo do Estado falou da existência de um incentivo para tomar as terras, e um pequeno grupo de ruralista instalou uma tensão na população, que levou ao “tensionamento” que temos hoje. Na verdade, o conflito não seria tão grave quanto se tornou por conta dessas falsas notícias. Foi algo intencional, inclusive, para desvalorizar o mercado imobiliário para alguns investidores se aproveitarem dessa desvalorização na região.
IHU On-Line – Há presença da Força Nacional em Guaíra?
Diogo de Oliveira – Não, ainda não. Guaíra é uma cidade extremamente violenta, vinculada à criminalidade da fronteira. Então, aqui existe o quartel do Exército, a Polícia Federal, enfim, uma série de órgãos públicos que atuam. A Força Nacional não foi deslocada porque não ocorrem casos graves de conflitos e enfrentamentos.
IHU On-Line – A população de Guaíra aceita os indígenas?
Diogo de Oliveira – Em Guaíra, o índio sempre foi um personagem, um símbolo da cidade. Essa é uma cidade totalmente indígena. Ele recebia um certo acolhimento da sociedade guaírense até que foi criada essa onda de violência e de tensão contra eles. Essa série de informações falaciosas quiseram, justamente, jogar a população contra eles.
Hoje eles não conseguem emprego, as crianças sofrem preconceito nas escolas, existe uma ação da prefeitura em não oferecer os atendimentos básicos a eles. Além disso, houve dois casos de suicídios de jovens nesse ano, por conta do preconceito que sofrem na escola.
Em Terra Roxa, por exemplo, uma assistente social recomendou que um jovem indígena morresse porque ele nunca ia conseguir emprego. Ocorre todo um efeito cascata como consequência de um clima que foi criado para colocar a sociedade contra os índios.
IHU On-Line – De acordo com notícias do Cimi, escolas das comunidades são mantidas pelos próprios indígenas, pois o poder público estadual não aprova a instalação de “escola itinerante”. Pode nos falar sobre essa situação?
Diogo de Oliveira – A educação é extremamente precária. As escolas nas aldeias não têm banheiro, não têm refeitório, não têm carteira. As crianças estudam numa situação de absoluta precariedade. Teve uma decisão judicial a favor da construção das escolas e o governo do estado recorreu, porque não tem interesse em fazer esse atendimento escolar. Das 13 áreas ocupadas pelos índios, só uma tem escola indígena.
Então, a situação de educação é extremamente precária e não tem atendimento adequado à educação diferenciada, a alfabetização bilíngue, e muito por conta da falta de vontade política do governo do estado em atender essas comunidades no que tange à educação. As crianças muitas vezes vão às escolas públicas e temos recebido recorrentes manifestações de que estão sofrendo preconceito, discriminação dos próprios professores.
IHU On-Line – Muitos indígenas também buscam trabalho na construção civil, propriedades agrícolas, frigoríficos, colheita de maçã em Santa Catarina, dentre outras. Mas, empresários e alguns proprietários rurais mobilizam-se na região para a não contratação da mão-de-obra indígena. Por que isso ocorre?
Diogo de Oliveira – Os índios, historicamente, trabalhavam na colheita da mandioca, alguns que prestavam serviços à construção civil, vários deles tinham empregos regulares. Mas houve um chamamento público das cooperativas, como a Cooperativa Agroindustrial Copagril, para que elas não contratassem mais índios. Então, todos os índios que tinham trabalho regular e carteira assinada foram demitidos e ninguém emprega mais os índios na região. Isso deixou a situação ainda mais dramática dentro das aldeias, porque além de não se ter a área, a segurança jurídica e a educação, eles também não têm emprego, não têm apoio para as atividades produtivas, não têm água, não têm luz, não têm atendimento de saúde adequado, nem saneamento básico. A situação é extremamente precária.



 Fonte: http://racismoambiental.net.br/2013/06/guaira-o-indio-sempre-foi-um-simbolo-da-cidade-entrevista-especial-com-diogo-de-oliveira/  ACESSADO EM 08/06/2012